junho 28, 2004

Ondas de Gelo

Poucos surfistas dentro de água, mar ordenado, quebram umas boas direitas, o céu está azul. Um senão. Não estou nos trópicos. O casario que envolve a baía, a cor da areia e o verde que domina a paisagem, feita de enormes vales que terminam abruptamente no mar, com falésias de cor estranha, de pedra preta e fria à vista, não enganam. Estou no fim do mundo britânico, no País de Gales, em pleno Março. Está muito frio e a água pior que gelada. É o preço da improbabilidade. Que saudades.


MCG

Publicado por manuel castro em 09:17 PM | Comentários (7)

junho 26, 2004

Verve criancice

O mar fez de mim cego, pior que isso, um aldrabão. No dia em que consegui o primeiro tubo, narrei-o a um amigo como se, para explicar a pequena epopeia, fossem necessários dez cantos. Embelezei o momento tanto quanto pude, e tenho a certeza que exagerei. Hoje, como nesse dia em que consegui encaixar numa das transcendentes tocas, continuo a sentir um imenso fervilhar. Depois de entubar, preciso de mentir a alguém. Não será exactamente o tubo em si, mas a representação que tenho dele. A descrição, essa, até poderia ser o mais objectiva possível, mas nunca seria tão apaixonante quanto a ideia que o receptor tem dela. Por isso, não me importo nada de mentir. O pior que pode acontecer é remarmos os dois atrás da onda seguinte. VM

Publicado por vascomendonca em 01:15 AM | Comentários (5)

junho 24, 2004

MAR

Porque sabe sempre bem lêr de novo!


Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.


Sophia de Mello Breyner Andresen

HV

Publicado por HV em 12:23 PM | Comentários (5)

junho 23, 2004

"O pensamento tornado vísivel"

A frase que serve de título ao post não é minha, mas resume o que sinto em relação à pintura de Magritte. Brilhantemente, só não diz aquilo em que estou a pensar. VM

Publicado por vascomendonca em 12:37 AM | Comentários (1)

junho 22, 2004

A fazer como a sardinha


"a voar por cima das águas"
PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 12:49 PM | Comentários (0)

junho 21, 2004

Crowd

Wave Crowd, Hobrecht

Confesso que, só para chatear, já estava quase pronto para postar um elogio ao Verão. Lembrei-me dos fins de tarde glass, das madrugadas em que as ondas são aprumadas por uma leve brisa vinda de terra, do tempo que parece esticar, do mito do swell de 15 de Agosto, dos novos tons do mar e do céu e de outras coisas que, agora para o caso, pouco interessarão. É que, enquanto surfava o meu pico preferido, um pico cada vez menos remoto, mas ainda assim, relativamente calmo, espantei-me, primeiro e assustei-me, depois, com uma visão. Depois de esfregar bem os olhos, confirmei. Pelo canal, duas, quatro, seis, oito, dez, sim, dez pranchas remavam para um line up que mal aguenta, pelas suas características, quatro surfistas.
Depois lembrei-me. É que esta é uma visão, pior, um facto, sazonal, anual e recorrente. O Verão chegou. Adiante. Nunca mais é Setembro.

MCG

PS: Eu não detesto o Verão. Pode ser até que acabe mesmo por falar nas coisas boas que o Verão tem.

Publicado por manuel castro em 02:33 PM | Comentários (3)

junho 19, 2004

Livros 4

Surf Culture, The Art History Of Surfing
Vários Autores
Laguna Art Museum / Gingko Press

Este é o catálogo de uma exposição que pretende questionar o relacionamento do Surf com a arte. As obras aqui apresentadas são de artistas que se consideram antes de mais surfistas outras são de artistas que surfam. Todas são de uma importância extrema para a compreensão desse fenómeno cultural que é o Surf e o seu desenvolvimento ao longo do século que passou. Mais uma contribuição para o aprofundamento do papel do Surf enquanto manifestação de liberdade, de forma de vida e de pensamento no tecido da sociedade. Para que se perceba que há muito que o Surf deixou de ser apenas um desporto. Ultima referência para o formidável trabalho desse deus do design David Carson, responsável pelo aspecto do livro.

Publicado por pedroarruda em 01:27 PM | Comentários (3)

A escola não presta

Não conheço melhor maneira de esquecer a desilusão na pauta ao fim de um corredor. Desconheço igualmente melhor maneira de celebrar. Enquanto a intermitência dos dias incluir regressos a coisas simples e compreensíveis, tudo há-de flutuar. VM

Publicado por vascomendonca em 12:06 AM | Comentários (3)

junho 17, 2004

A propósito dos dias que estão quase a chegar


Depois de 12 meses por várias razões absolutamente para esquecer, em que no carro fui quase sempre acompanhado pelos Franz Ferdinand, agora, as palavras cantadas começam a fazer todo o sentido: “It's always better on holiday, that's why we only work when we need the money.” PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 06:37 PM | Comentários (5)

junho 16, 2004

Stoked

Há palavras intraduzíveis. Como stoked. Stoked é uma palavra de surf, define um qualquer estado, entre o eufórico e o muitíssimo eufórico, de plena felicidade, o tal "contentamento meio tonto" , um pleno e entusiasmante bem estar, proporcionado pelo acto de fluir com as ondas.
Andei vários anos a tentar explicar às mais diversas pessoas o que é que era assim tão bom no surf, mas pensando que elas nunca o entenderiam realmente. É bom ver que alguém contrariou as minhas expectativas e agora sabe, perfeitamente, o que é o surf. Com todas as letras. O meu amigo Miguel já sabe, agora, de que falava eu e entende, agora, que não nos conseguimos calar perante a absoluta e absurda felicidade que é correr uma onda. E, escrevendo no seu blogue, um blogue de música, arte e bom gosto de nome Emmet Ray, a propósito da sua prancha nova, mostra o que é estar completamente e - digo, eu, irreversivelmente - stoked:

Mas com uma prancha destas só se pode ouvir jazz, e os constantes S’s turbilhões e riscos que tomo com ela! Sou um louco no mar, a ouvir jazz na terra, a levantar-me no ar como me elevo na nota insana de um instrumento preciso numa qualquer banda de jazz! O que eu irei fazer neste próximos tempos no mar é JAZZ! Mais nada: JAZZ!

MCG


Publicado por manuel castro em 01:18 AM | Comentários (2)

junho 14, 2004

Sonho de uma tarde de Verão


O ano é 1993. Estamos na Costa Rica, e um vento de bradar aos céus esculpe avalanches domesticáveis. 26 graus na água, 26 graus no ar, vinte e seis graus em tudo quanto se sente naquele local. A próxima onda a vir é minha, porque o tipo que flutua ao meu lado é, ou passou a ser, o meu melhor amigo. O drop é fácil, o esforço nulo. Deslizo pela onda como um bailarino dá dois, três passos de graciosidade inata. Então, e só depois, dou dois, três passos. Estico os braços na direcção de uma nebulosidade freudiana, que dota a paleta onírica de uma escuridão que se me afigura simultaneamente intensa e patética. Segundos depois, percebo que já sei este sonho de cor, e que uma tarde de Domingo em Junho, nesta altura da vida, neste sítio, não será uma boa ocasião para rever o Endless Summer II. Este post é inspirado naquela onda do Wingnut. VM

Publicado por vascomendonca em 01:28 AM | Comentários (1)

junho 10, 2004

Em memória


"Quem teme as tempestades, acaba a rastejar". Horácio.

Lema de vida do Prof. António Sousa Franco
PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 03:11 PM | Comentários (3)

Do mar para terra

"E na água me envolvo,
me afundo corpo novo,
e movimento, abraço,
e me confundo e abarco"

António Ramos Rosa
VM

Publicado por vascomendonca em 01:19 AM | Comentários (1)

junho 09, 2004

Livros 3

Maverick’s, the story of big-wave surfing
Matt Warshaw
Chronicle Books

Haverá limites para o tamanho da próxima onda a ser surfada, quantos mais heróis morrerão na busca desse limite? Brilhantemente escrito e bem documentado este livro do ex-editor da surfer aponta-nos pistas sobre esse por vezes enigmático mas sempre fascinante e impressionante mundo do surf de ondas grandes. Em torno da onda de Maverick’s, Matt George conta-nos a historia do Big-wave surfing desde os tempos de Duke Kahanamoko até aos nossos dias. Qual o tamanho da próxima onda gigante a ser surfada? Ninguém sabe, por isso se continuam a ultrapassar limites. PA

Publicado por pedroarruda em 04:13 PM | Comentários (0)

junho 08, 2004

Ser ou não ser

Quando remo para fora, em busca das ondas, não sei se estou a ir ou se estou a voltar. Não sei se parto, se regresso. Não sei onde e o quê, afinal, é a tal "terra firme". Sei que na tentativa de definir esses quase indefiníveis momentos, em busca e à espera das ondas, acabo por me lembrar sempre dum simples, mas muito bonito, momento em forma de interrogação, do Pedro Cezar, um poeta carioca que o Júlio Adler não se cansa de lembrar e de dar a conhecer, por exemplo, no seu blog.

Um surfista olhando as ondas, está vendo, ou está sendo?

Pedro Cezar

MCG


Publicado por manuel castro em 08:23 PM | Comentários (0)

junho 07, 2004

Under water guy


“there was a guy
an under water guy who controlled the sea”
Pixies, "Monkey Gone to Heaven"
PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 04:12 PM | Comentários (4)

junho 04, 2004

Aforismos


o mundo pode não merecer as ondas perfeitas, mas é tranquilizador saber que as ondas perfeitas pensam o contrário. PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 11:06 AM | Comentários (5)

junho 03, 2004

a idade de ouro

E após quatro etapas a elite do surf mundial está, posso dizer, em polvorosa. Depois de um circuito de 2003 que foi a todos os níveis excepcional, 2004 começa de forma surpreendente. Na Austrália dois australianos fazem a festa, Michael Lowe e Joel Parkinson, respectivamente, e no Pacífico uma dobradinha de irmãos, C.J. e Damien Hobgood, vencem de seguida em Teahupoo e Tavarua. Nas quatro etapas AI, o campeão em titulo, o homem a abater, foi consecutivamente batido, sendo que nesta última final em Tavarua pelo absolutamente esmagador resultado de Damien Hobgood, 19,90 em 20, contra 18, 96 de Irons. De qualquer modo Andy é ainda o mais concistente dos surfistas no circuito tendo já amealhado no seu cinto de campeão duas finais e duas meias-finais, estando neste momento na liderança do circuito. O génio Kelly Slater não é propriamente uma decepção, está em terceiro do ranking, mas o melhor resultado até agora foi uma meia-final em Teahupoo. Só que a seguir temos Jefreys, onde no ano passado, diz quem viu, Slater foi transcendente. Agora pergunto eu: com tantos surfistas a surfarem tão bem, nas melhores ondas do mundo, estará o surf profissional de competição a passar por uma idade de ouro?


Damien Hobgood

Publicado por pedroarruda em 11:08 AM | Comentários (3)

Ondas Sonoras I

Eu gosto demasiado dos sons do mar. Gosto aliás e sobretudo dos seus silêncios e isso é absolutamente sagrado. Partindo deste pressuposto e abrindo assim uma excepção, digo que, se eu pudesse ouvir música no mar, seria por certo The Dark Side Of The Moon dos Pink Floyd.
E não estou a falar somente do mosaico bastante variado que é aquilo que eu considero música de surf, ou a minha música de surf, seja isso algo que se ouve antes, depois ou simplesmente a sonhar com surf, no carro, em casa, ou em qualquer outro lugar ou circunstância. Afinal de contas quase tudo o que um surfista ouve será para ele música de surf. The Dark Side Of The Moon seria o que eu ouviria no mar. Porque o mar é sempre, em todas as suas variações, disposições, inquietações e psicadelismos, sublime, assumindo formas que têm tem tanto de estranhas quanto de belas. Como este álbum. Em vinil de preferência.

Pink Floyd
The Dark Side Of The Moon
1973 EMI

MCG

Publicado por manuel castro em 01:23 AM | Comentários (4)

junho 01, 2004

O Futuro

Hoje podia ser só mais um dia normal ou mais uma efeméride como tantas outras, mais um daqueles slogans que se projectam numa data para nos lembrarmos dos "outros". Neste caso não é, trata-se simplesmente de valorizar, preservar e proteger o melhor que a vida tem. O amanhã, o futuro. Hoje é o Dia Mundial da Criança.
E a vida, que cada vez mais sinto como onda monstruosa e imparável, em constante formação e mutação, com uma força infinitamente maior pela qual ou nos deixamos arrastar, ou a tomamos com firmeza nas nossas mãos - neste caso nos nossos pés - segue só nesse sentido, o futuro. Sem retorno.
E o futuro é deles, das crianças, no caso do surf da nova geração de pequenos grande surfistas que por aí andam, com um comportamento e atitude que eu não encontro, por exemplo, na minha geração e que só tenho que aplaudir e incentivar.
E se hoje é o dia deles, das crianças e do futuro, é também um dia em que nós, surfistas, devemos abençoar esta estranha forma de vida, o surf, como um dom, qual elixir da juventude, qual poção mágica, que nos permite, surfada após surfada, regressar a terra firme com um sorriso inocente, desprendido e feliz de outros tempos, celebrando aqueles momentos em que mais não fazemos – e nessa não-produtividade, nessa não-utilidade reside a essência do surf - do que nos divertirmos e brincarmos com as formas do mar. Como eles, no mar, somos livres.

MCG


Publicado por manuel castro em 09:36 PM | Comentários (0)