maio 31, 2004

Livros 2

The Perfect Day, 40 years of Surfer Magazine
Edited By Sam George
Chronicle Books

Absolutamente indispensável para qualquer amante de ondas. Uma compilação dos momentos mais importantes nos quarenta anos de existência da Surfer e também da história moderna do surf, enquanto desporto e, enquanto ideia de vida. Para aqueles que dizem que não se deve julgar um livro pela capa, este pode e deve. PA

Publicado por pedroarruda em 11:53 AM | Comentários (2)

maio 30, 2004

Secret Spot

Histórias já as ouvi. Sensações já as pensei ter tido sem, na verdade, lá ter estado. O melhor que consegui até hoje foi ser o primeiro a entrar dentro de água, ou o último a sair. Nesses momentos, a natureza e o acaso fizeram de mim um tipo estupidamente feliz. A primeira barbatana dentro de água, ou a generosa alma que, sem saber nem reparar, me entregou a praia de mão beijada. Há um segredo em tudo isto, que a confidência apenas ofuscaria. Não guardo fotografias do sítio, mas já é qualquer coisa para recordar. VM

Publicado por vascomendonca em 11:23 PM | Comentários (1)

maio 27, 2004

Linha de Sombra V


Desde tempos imemoriais que, a nós ocidentais, nos dizem que se olharmos para trás corremos o risco de cristalizarmos, de nos transformarmos em sal. Mas, depois de 15 dias de desocidentalização, não resisti e, já no aeroporto, ainda olhei uma última vez e vi aquele sol imenso, que é diferente de todos os outros que havia visto, e que pelas seis da tarde entra invariavelmente, com toda a energia do mundo, pelo mar adentro. A maré estava completamente vazia e pouca água restava para tapar o coral das Airport Lefts. A primeira onda que vi quando aterrei foi também a última que vi antes de partir. E enquanto olhava pela janela da porta de embarque, pensei que durante aqueles dias lentos e vagarosos deixei uma linha de sombra que me vai obrigar a regressar.
O Bernardo Soares, que nunca viajou, mas que vivia desassossegado porque sabia das outras terras como ninguém, escreveu sobre “o receio de endoidecer, não de loucura, mas de ali mesmo”. É disso que agora sofro, do receio de poder não voltar e olhei para trás para procurar a garantia do regresso. Há muito que sabemos que os únicos verdadeiros paraísos são aqueles que perdemos. A nós resta-nos tentar que tal não aconteça. Por isso voltarei sempre, porque penso todos os dias com a febre de viver aquela ilha. Como se tudo dependesse de voltar e como se, para suportar a dor de estar aqui mesmo, fosse preciso pensar naquele lugar quase impossível. PAS
quinta e última parte de um artigo previamente publicado na revista On-Fire

Publicado por pedroadãoesilva em 12:59 PM | Comentários (2)

maio 26, 2004

Linha de Sombra IV


E em Bali tudo é simples e perfeito. Há, normalmente, a expectativa de que lugares como este sejam inseguros. E a verdade é que a pobreza, as ruas sujas e a falta de luz à noite criam, ao início, uma sensação de insegurança. Mas, rapidamente, ela se esvai. Pode confiar-se nos balineses que, para além da confiança, são também uma gente cheia de outras qualidades. Uma simpatia contagiante e um enorme sentido de humor (que é também sinal de inteligência) e uma capacidade de agradar, que nunca, em momento algum, cai no servilismo. Bali significa oferecer e a religiosidade local – que é muito forte e visível, num hinduísmo idiossincrático, com templos de um enorme despojamento – é toda centrada nessa ideia. Os balineses, do mesmo modo que pela manhã oferecem sempre alguma coisa aos seus deuses, oferecem a ilha com uma alegria imensa. PAS
quarta parte de um artigo previamente publicado na revista On-Fire

Publicado por pedroadãoesilva em 11:03 AM | Comentários (3)

maio 25, 2004

Livros 1

Justificação: Pode parecer que, por falta pachorra ou de inspiração, estamos aqui a postar coisas que já saíram na ONFIRE apenas para encher o blog e para não defraudar os nossos leitores. Não, o que se passa é que com a chegada do verão e a ausência de ondas há mais tempo para fazer outras coisas, ler por exemplo. Dai que as minhas muito modestas sugestões de livros que tenho vindo a fazer na ONFIRE encontrem agora, aqui no blog, mais um espaço para viver. Aproveitem as flatadas para ir a uma esplanada beber uma cerveja e ler um livro sobre ondas.

Surfers
A line-up of surfing’s most inspirational characters
Matt Griggs
Harper Sports

Existe uma ideia pré concebida de que os surfistas são uns vadios, desmiolados, descolorados e ignorantes que só pensam em ondas e marés. Este livro vem dar razão a este preconceito. Em Surfers encontramos um painel de surfistas tão diversificado que uns são artistas espirituais como Ozzy Wright, mestre de aéreos e de graffitis, outros são lunáticos sedentos de perigo como Koby Abberton, outros são amantes e sobreviventes como Pete Nolan, outros são génios como Jon Frank ou Kelly Slater. Surfers não é um livro sobre surfistas, é um livro sobre pessoas. Pessoas como todos nós, com medos, com fraquezas, com receios, com inquietações, com variadíssimos interesses e com um amor em comum, o amor pelo mar e pelas ondas. A única diferença destes Surfers com o resto de nós é que estes são alguns dos mais carismáticos surfistas do nosso tempo. Os personagens destes pequenos perfis biográficos de 6 a 10 páginas brilhantemente desenhados por Matt Griggs são os melhores surfistas do nosso tempo. De resto são tão responsáveis, tão maduros, tão criativos, tão... obcecados como todos nós. A outra diferença é que a maioria deles ganha muito mais dinheiro por onda surfada do que a maioria de nós.

Publicado por pedroarruda em 11:16 AM | Comentários (3)

maio 24, 2004

1994


Terminou ontem, na Praia Grande, a primeira etapa do nacional de surf. Olhando para os dois primeiros classificados – mais um triunfo de João Antunes e um segundo lugar, vindo dos trials, de Rodrigo Herédia –, e vendo onde chegaram o Dapin e o Marcos Anastácio, mais parece que o circuito que agora começa está a decorrer no princípio dos anos 90. Talvez consequência do abandono a que esteve votado o circuito durante largos anos, a verdade é que o surf de competição português teve uma geração perdida. Resultado, entre os trintões e os "jovens lobos" há poucos ganhadores. PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 12:33 AM | Comentários (2)

maio 23, 2004

sons de surf 5

Lambchop
Nixon
2000 City Slang

Antes de o termo radical ter tomado conta do vocabulário e, mais ainda, do imaginário do Surf, eram palavras como harmonia, fluidez, equilíbrio ou liberdade que dominavam os espíritos e as conversas dos surfistas. Passear com uma prancha em cima de ondas é tudo isso e este disco também.

Publicado por pedroarruda em 06:34 PM | Comentários (1)

Ver para crer

Estive a ouvir o novo disco dos Call And Response, intitulado "Winds Take No Shape". O primeiro era melhor, mas isso é menos importante. Fiquei suspenso no título. Em certa medida, é uma afronta ao surfista. Todos sabemos o que os (bons) ventos trazem, e vemo-lo com os nossos próprios olhos. Algures entre a observação dos mapas de ondulação e o nosso próprio misticismo, cada um de nós pondera doses de empiria e poesia, tão interpenetráveis quanto as previsões deixarem e a nossa visão nos queira fazer acreditar. Deixemo-nos de coisas: os ventos tomam formas lindíssimas. VM

Publicado por vascomendonca em 02:09 PM | Comentários (0)

maio 21, 2004

Gosto do calor, não gosto do resto

Já o disse e torno a repetir – o Surf é um desporto de inverno. Embrenhado no torpor melado dos dias mais quentes, olhando o horizonte baço, o mar parado, a angustia do surfista no momento da flatada. A constante brisa on-shore desfazendo as já de si pequeníssimas ondas que não são ondas são espumas e as multidões, as terríveis multidões... As ondas só são ONDAS no inverno, o surf devia ser como o Ferrero-Roche “agora não há senhora, podia estragar-se”, se eu conseguisse fazia uma promessa - só volto a pôr os pés numa praia em Setembro, até lá vou dedicar-me à pesca submarina, mergulhar de apneia e nadar em alto mar. PA

Publicado por pedroarruda em 11:15 AM | Comentários (4)

Linha de Sombra III


Uluwatu é a alma do Bali surfístico. Um visual alucinante: uma enorme baía, ladeada por um templo Hindu do século XI e três picos diferentes, todos eles com uns cem metros de onda. O acesso é pelo meio de uma caverna, que faz com que as saídas com a maré-cheia sejam difíceis. As ondas absolutamente fantásticas: esquerdas com força, intermináveis e tão compridas que no fim são as pernas que ficam a doer! Mas, o pior é o crowd e o pior do crowd são os australianos. Ainda assim, e por muito que isso custe, a verdade é que são também os surfistas australianos, ao continuarem a ir a Bali, que ajudam os balineses a reconstruir as suas vidas e contrariam a estupidez dos governantes que, aconselhando a não visitar a Indonésia, jogam o jogo dos terroristas.

Se Ulu é o epicentro do crowd, as réplicas fazem-se sentir de forma ligeira nas ondas circundantes. De Kuta a Ulu há uma sequência impressionante de paredes de água quente à espera de serem surfadas: Balangan, Dreamland, Benjin, Impossibles, Padang. E o que conta nestas praias não são só as ondas perfeitas e as esquerdas hegemónicas, mas também a face irresistível do after-surf – e não é, como noutros prazeres, o cigarro. Imaginem uma praia de água quente, com pouca gente, cadeiras de madeira e chapéus, atrás uns bares onde tudo custa quase nada (uns fantásticos batidos umas 6000 rupias, 60 cêntimos). Depois, quando já não aguentarem o sol e estiverem fartos dos banhos, é só entregarem-se às massagistas. Por 3 euros podem ter meia-hora de massagem por 4 mãos, ali mesmo na praia. 5 horas de surf e depois meia-hora de massagem. Isto recorda-me uma frase que li há uns tempos num blog, entretanto feito livro: "a vida pode ser perfeita, as pessoas é que a complicam" . PAS
terceira parte de um artigo previamente publicado na revista On-Fire.

Publicado por pedroadãoesilva em 11:09 AM | Comentários (0)

maio 20, 2004

I beg to differ

"Há algumas circunstâncias nas quais estão institucionalizados padrões de risco, dentro de estruturas circundantes de confiança (investimento em acções, desportos fisicamente perigosos). Neste caso, a destreza e o acaso são factores que limitam o risco, mas normalmente o risco é conscientemente calculado."

Anthony Giddens, As consequências da modernidade, p. 27

Este é Nathan Hedge, vencido, com um ar pouco desencorajado, um ombro deslocado depois de ter chegado à final do Billabong Pro Teahupoo. A diferença entre aquilo que se julga e aquilo a que se sobrevive medeia, neste caso, o desencantamento entediante e a conscientemente inconsciente paixão. Numa onda como Tehaupoo, o risco calculado é a mentira que cada surfista torna indecifrável quando começa a remar. VM

Publicado por vascomendonca em 06:25 PM | Comentários (1)

Linha de Sombra II

Mesmo a realidade mais crua de Bali entrecruza-se com o surf. ‘Charlie don`t surf’, a frase eternizada por Robert Duvall no Apocalipse Now, depois feita música pelos Clash no Sandinista, encontra-se estampada nas t-shirts que se vendem por todas as ruas. Mas, agora, com uma variação: em vez de Charlie lê-se Osama. É o primeiro sinal de que um ano depois do atentado de uma célula local da Al-Qaeda que matou mais de duzentas pessoas no Sari Club, a ilha está diferente. Ao mesmo tempo que Bali nos afasta da terra, as faces visíveis do terrorismo parecem estar sempre a querer amarrar-nos à realidade – o terrível ‘ground zero’ de Kuta, as ruas desertas à noite, os restaurantes vazios e as lojas desesperadamente em busca de clientes.
Mas desengane-se quem pensa que a diminuição da procura turística, que está a arruinar a economia e as frágeis vidas dos balineses, tem correspondência no crowd. Os surfistas são uma raça à parte, que raciocina de modo diferente. Terrorismo = baixa de preços; logo, vamos para lá. Resultado, Bali está vazio, mas há crowd na mesma. PAS

segunda parte de um artigo previamente publicado na revista On-Fire

Publicado por pedroadãoesilva em 11:19 AM | Comentários (2)

maio 19, 2004

Arte

Surf sugere Arte. Como o vemos e lembramos.
Esteticamente, num nível mais plástico, desde a origem da prancha, shapeada como uma escultura por mãos sábias, ao eterno duelo com o impiedoso lip e ao jogo do toca e foge com a base da onda, rascunhando traços e desenhando linhas numa parede aquática, feita tela em branco, que definem o nosso estilo e postura, tudo é arte no surf. Um jogo estético que também é mental. Traz-nos imagens perdidas no tempo. Aquele pôr do sol, naquele nosso sítio especial ou aquela viagem, quando o sol se afundou como um navio de grande porte e inundou o céu com cores que nem sabíamos existir. Como uma fotografia pendurada nos meandros da memória.
Aquela remada para o outside, por vezes bruta e impiedosa, outras lenta e contemplativa, para um line up perfeito, que nos surge como um nítido filme sempre que a recordamos. Os primeiros drops, as primeiras batidas, as primeiras curvas, os primeiros tubos. As ondas que já fizemos e as que imaginamos fazer. Está tudo numa sequência visual algures na nossa cabeça, salpicada de lembranças salgadas. Surf respira Arte, porque Surf não é só o que vemos. É o que vemos, sentindo e pensando também.

Post previamente publicado na revista ONFIRE

MCG

Publicado por manuel castro em 01:52 AM | Comentários (1)

maio 18, 2004

O entendimento e o silêncio são velhos cúmplices

"Ao fim de uns momentos, ele olhou-me e perguntou: «Porquê?», mas sem um ar de censura, como se pedisse uma informação. Eu disse: «Não sei». Então (...) declarou sem olhar para mim: «Compreendo»."

Albert Camus, O estrangeiro, trad. António Quadros

VM

Publicado por vascomendonca em 11:39 PM | Comentários (0)

Linha de Sombra I


O surf em Bali começa antes do avião aterrar. Não, não é uma metáfora. Bali é a corporização de tudo aquilo que nós surfistas, imaginamos.
Ainda no ar podemos avistar, de um lado, as Airport Lefts, do outro, as suas irmãs gémeas, e uma das poucas direitas da ilha. Aterramos e num ápice, o cansaço da viagem mal dormida e os outros cansaços de Lisboa evaporam-se.
Depois de 50 ofertas de taxi, finalmente o hotel. Mesmo em frente, Kuta Reef. Uma negociação rápida do preço do barco e partida para o pico. Um dia mau para Bali: 3 pés perfeitos, água quente e 10 surfistas. Mas, cada onda tem 50 metros de parede e a força nunca falta. Seis horas depois da chegada já não existe Lisboa, nem Portugal, nem o trabalho. Já não existe nada, nem a febre de partir com que vinha. Estar ali é, de repente, apenas isso. Estar. Estar enredado e contagiado pelo surf. PAS

Primeira parte de um artigo previamente publicado na revista On-Fire (continua)

Publicado por pedroadãoesilva em 12:41 PM | Comentários (5)

maio 17, 2004

Um amor sereno

Escrever uma linha sobre esta imagem seria sempre uma triste imitação da vida. Serve a constatação para destrinçar a irreprodutibilidade de uma onda como experiência vivida. Quem desce uma onda, desce-a sempre pela primeira vez. Digo mais: seria inaceitável que a mesma onda quebrasse duas vezes. Tal ideia, porém, é-me tão inconcebível quanto imensa é a vontade de tornar aquela onda, ou a próxima, o mais íntimo dos reencontros. Eu costumo chamar a este paradoxo amor. VM

Publicado por vascomendonca em 02:32 PM | Comentários (0)

Mar vermelho


Hoje, excepcionalmente, apesar de não ter ondas. PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 12:09 AM | Comentários (4)

maio 15, 2004

There is a crack in everything, that's how the light gets in

Publicado por vascomendonca em 02:49 PM | Comentários (1)

maio 14, 2004

Till human voices wake us, and we drown.

Um possível retrato da infância, confrontada com a obrigação.

O surfista é um míudo disfarçado que só outro surfista será capaz de reconhecer, de compreender. Há um lado sobrehumano e inefável nos contornos que unem apaixonados, não por si, mas por uma outra força exterior. Mais que simplesmente do amor pelo mar, falo do amor pelas ondas, a aceitação da espera e a cumplicidade da vertigem. Somos todos criaturas luzidias, reféns do sol numa cidade com demasiados solários. Somos todos doentes assumidos, e a patologia permanece por descobrir. O mar fez-nos assim, e sem que soubéssemos como, voltámos a ser crianças. Voltámos a guardar dentro de nós a empatia e a simplicidade, a doença e o antídoto. O mar é a timidez que apazigua uma omnipresente vontade de fugir. VM

Publicado por vascomendonca em 12:28 AM | Comentários (6)

maio 13, 2004

A sofreguidão


Não tantas vezes como devia, nem tantas vezes como gostaria, mas por vezes faço-o. À hora do almoço, ou cedo pela manhã, zarpo para a praia, para 60 minutos de surf, deixando o trabalho para trás. Sempre que o faço espanto-me quando ao estacionar em Carcavelos vejo os carros que abrem as portas repentinamente, os porta-bagagens de onde saem fatos e pranchas e as gravatas que perdem o nó num ápice. Mas, de tudo, o que mais me espanta são os passos sôfregos com que os companheiros de escapadelas percorrem a areia, para logo depois darem as primeiras braçadas, sempre velozes. A sofreguidão. Sim, é a sofreguidão a marca distintiva daqueles 60 minutos de surf que substituem o resto do dia, à secretária.
E nisto penso no que é que leva tantos de nós, que são cada vez mais, a trocar a calmaria do almoço por aqueles fugazes minutos? O que é que há nesta vontade sôfrega, que é diferente de todas as outras vontades? A resposta estará escondida na capacidade daquele tempo em, por momentos, perder o seu compasso e tornar-se liberdade absoluta. PAS
post previamente publicado na revista OnFire

Publicado por pedroadãoesilva em 12:11 PM | Comentários (2)

Sozinho


Foto/Patrick Trefz

São nove da manhã, o dia está cinzento, frio, quase inóspito. De casa à praia são dez minutos de carro, tamborilando os dedos no volante ao ritmo de um qualquer cd vou afastando o sono e o frio e acalentando a esperança do um mar glass e com ondas. No inverno e o surf é um desporto de inverno os dias são quase sempre escuros, enevoados, soturnos, talvez mesmo um pouco ameaçadores, quando chego à praia e não vejo ninguém, mesmo ninguém num raio de quinhentos metros, trezentos e sessenta graus em torno de mim o dia fica ainda mais ameaçador. O mar, esse está perfeito. Sets limpos quebrando redondos até à areia. Saio do carro espreguiçando-me, abro a bagageira, tiro o fato para fora da caixa, ainda está húmido da surfada de ontem, lentamente como que à espera e enquanto vou lançando olhares lânguidos às ondas que entram reviro o fato que ainda estava do avesso, o tronco, uma perna, outra perna, um braço, outro braço. Sem pressa rodeado dos sons naturais da beira-mar cumpro o ritual de vestir o fato e pôr wax na prancha e fechar o carro e caminhar descalço até ao princípio da água onde tudo começa. Sem sequer um prenúncio de gente lanço a prancha e o corpo sobre a água e avanço as primeiras braçadas em direcção ao outside, gestos sincopados tão familiares que o corpo imediatamente os reconhece, mergulhar as mãos na água, regressar. Nestes dias sozinho, inteiramente só, rodeado apenas de cinzentos, deixando passar ondas, tirando tanto prazer de surfá-las como de olhá-las, às vezes cantando, outras vezes deixando a imaginação fugir para outros cenários, às vezes fluindo pelo passar das secções, outras perseguindo manobras impossíveis que só conclui-mos quando não está ninguém lá para ver, às vezes brincando com a superfície do mar, outras vezes questionando o horizonte. Nestes dias em que só estou eu e o mar, eu e as ondas. Nestes dias é possível a plenitude.

Post publicado na revista ONFIRE

Publicado por pedroarruda em 12:10 PM | Comentários (0)

maio 12, 2004

Eu só estou aqui porque o mar está grande demais


Cheguei a pensar que a minha relação com as ondas não teria limites. Poucas semanas depois, um set de 2 metros e meio em Sto. Amaro de Oeiras fez-me rever as intenções. Tinha 14 anos e estava cá fora. Nesse dia, não cheguei a molhar o fato. Recordo e mantenho duas coisas daquela tarde: uma fantástica onda do Dapin e o tremendo pavor com que me imaginei a remar em direcção ao pico. O mar nunca mais voltou a ser o mesmo. A natureza tratou das cordialidades. Prometi ao mar e a mim mesmo que voltaria noutro dia, e nunca mais perdi essa vontade desde então.

PS - Acabado de chegar, confesso que a satisfação é grande. Há muito que deambulava por estas Ondas; na verdade, mesmo antes de elas existirem. As vivências aqui encontradas representaram para mim - por detrás desta vidraça - vários e inauditos pontos de contacto. Por tudo isso, e porque continuo a achar fio nesta meada, foi sem qualquer tipo de hesitação que um simpático convite me tornou residente. Num sentido figurado, faz todo o sentido: não há vizinhanças dentro de água, apenas a partilha de um mesmo espaço que, fisicalidades à parte, é muito mais que isso. E essa é apenas uma das razões porque adoro o verbo espraiar. VM

Publicado por pedroadãoesilva em 03:52 PM | Comentários (3)

é o surfista ou a surfista??

“...o surfista australiano, Layne Beachley, foi galardoado na categoria de desportos alternativos.” Foi desta maneira, com esta frase, que a jornalista Rita Bravo noticiou, na edição de ontem do Diário de Noticias, um dos maiores e mais conceituados jornais de grande circulação em Portugal o prémio que Layne Beachley obteve na noite de segunda-feira nos Laureus Awards. Para mim há duas questões, ou três, que se levantam perante isto: 1º a jornalista ou é burra ou mal informada ou preguiçosa, qualquer das três situações devem ser corrigidas. 2º mais uma vez se demonstra a escuridão em que o Surf está com relação aos media generalistas. Trocam os a pelos o e criam-se novos travestis das ondas. Bem sei que aqui há tempos o Noah Johnson vestiu um biquíni e uma cabeleira para surfar uma ondas em Pipe, mas era para um filme. Agora transformar a grande campeã Layne num grande campeão é de mais. Se ela ainda fosse namorada do grande Ken Bradshaw o que será que ele diria disto? 3º o facto é lamentável, tanto mais que na concorrência a noticia foi dada competentemente por um jornalista de qualidade, e minimiza o grande feito de Layne Beachley, que a Fundação Laureus quis reconhecer, não esqueçamos que entre os outros nomeados estava, por exemplo, Laird Hamilton. Parabéns Layne seis vezes campeã do mundo.

Publicado por pedroarruda em 11:16 AM | Comentários (4)

Only a surfer knows the suffer

Por vezes saimos do mar pela porta de trás. Vencidos por uma força imensamente maior. De cabeça baixa, ego desfeito e prancha partida.
Com olhares de soslaio, para o mar e para as ondas, que têm sempre a última palavra, vamos caminhando até, exaustos, chegarmos ao carro. Em câmara lenta, arrumamos a prancha e recostamo-nos no banco da frente. Olhamos o horizonte e sorrimos.

The only way to be happy is to love to suffer, Woody Allen

MCG

Publicado por manuel castro em 03:05 AM | Comentários (3)

maio 10, 2004

uma pergunta

Em cima da prancha rasgando a onda o que vai, um corpo, sangue, músculos, ou um espírito livre como uma palavra num poema? Se vão os dois estarão unidos num abraço como dois amantes? Surfar uma onda é a verdadeira união do corpo e da alma? O mais próximo possível da eternidade? PA

Publicado por pedroarruda em 05:05 PM | Comentários (3)

Onde tudo começou

Enquanto o vento não pára de castigar os meus dez quilómetros de surf preferidos, a Ericeira, com uma violência que já se está a tornar obsessiva, quase conspiratória, resta-me esperar por dias melhores, entregue, mais uma vez, às equações da Natureza.
Esperar ou desesperar. Desesperar porque, para além da falta de ondas com o minímo de qualidade nos últimos tempos, anseio também por uma semana que nunca mais chega, quando rumar ao Sul e regressar, ainda que de passagem, ao sítio onde tudo começou.
Ao sítio onde disse, não que queria fazer surf, porque isso sempre o disse, mas onde disse que ia começar, decididamente, a fazer surf.
Foi num daqueles fins de tarde fantásticos, em que o surfista, ao voar nas ondas, contrasta com o pôr do sol, num bailado de movimento e sobretudo, de cor, num jogo de sombras aquático espantoso, que decidi que era altura de parar de sonhar, só e começar a fazer, também.
Eu, que sempre sonhei em correr as ondas, por puro gozo e prazer, como aqueles estranhos seres, com aqueles estranhos fatos e com aqueles estranhos objectos flutuantes, que povoavam o meu imaginário de criança, na Ericeira, decidi, ali, na mágica baía da Arrifana, que quando chegasse a Lisboa ia comprar uma prancha de surf, um fato e ia-me fazer ao sonho.
Como um puzzle para o qual, de repente, é encontrada a solução.
Uma solução fruto duma visão, dum momento, dum instante, aqueles pequenos segundos de nada que depois se enchem de tudo, que definiu os meus últimos dez anos.
Quando por lá passar, em breve, vou esperar pelo fim de tarde para entrar naquele mar que me fez feliz. E a cada onda que apanhar nesse fim de tarde, vou agradecer todas as outras que já apanhei na vida.

MCG

Publicado por manuel castro em 03:57 PM | Comentários (3)

maio 08, 2004

Essencial

Estou certo que nem o autor, nem a revista onde vem publicada se importarão que aqui transcreva a carta do Afonso Batista, na Surf Portugal deste mês. Em palavras pueris que se perdem com a idade, está lá a mesma obsessão de que não nos livramos desde que surfamos as primeiras ondas.
“Sou o Afonso Batista e tenho 7 anos. Comecei a surfar aos 6, na Páscoa de 2003, em São Torpes. O meu professor chama-se Flávio, o melhor professor do mundo! Entrei no meu primeiro campeonato no dia 10 de Abril, em São Torpes e fiquei em 4º lugar nos sub-10. Envio umas fotos para verem as minhas ondas. Tenho muita pena de só poder surfar aos fins-de-semana e nas férias. Gosto muito das ondas e dos tubos. Sempre que posso, tento fazer um tubo e já fiz alguns. Tenho uma prancha 5’4’’ feita pelo Hélio, com um desenho que fiz. Vou sempre surfar e ver a Surf Portugal. Abraços e até à próxima.” Afonso Batista.
Apesar de ter mais 23 anos do que o Afonso, partilho com ele o essencial: “tenho muita pena de só poder surfar aos fins-de-semana e nas férias. Gosto muito das ondas e dos tubos. Sempre que posso, tento fazer um tubo e já fiz alguns”. Além do mais, dá-se o caso de ter uma prancha do Hélio (um pouco maior é certo) e de, sempre que posso, apanhar as ondas de São Torpes. Mas, para além de tudo isto, reconheço na carta do Afonso um tom que desconfio que sei de onde vem. O Afonso, e ele já me disse isso com natural e justo orgulho, é actualmente o único surfista do colégio em frente do Pastelinho. PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 01:05 AM | Comentários (2)

maio 06, 2004

Estilo

O estilo é a expressão máxima do surf. É a única virtude que nos distingue dos boogies, dos skaters, dos snowboarders, dos bancários, dos gestores, do guarda-redes na angústia do penalty, dos rockstars que fingem tocar guitarra, dos actores emproados de Hollywood...Nos filmes de cinema mudo, o olhar humano apercebia-se da sucessão de fotogramas de película. Depois, quando o cinema dominou a velocidade, perdemos a percepção dessa sucessão de fotogramas e o movimento das imagens parece-nos contínuo, parece-nos perfeito. O estilo faz a mesma coisa ao surf, liga milhares de pequenos fotogramas que são os ajustes do corpo e da prancha num único movimento que ao olhar parece contínuo, parece perfeito (...).

Gonçalo Cadilhe, o mestre do estilo no surf palavra, na relíquia número 100 da Surf Portugal

PS: E se Rob Machado é estilo, que dizer de Gerry Lopez?

MCG

Publicado por manuel castro em 11:54 PM | Comentários (6)

maio 05, 2004

O outro mundo


Ali em baixo fica o outro mundo. Engana-se quem pensa que Teahupoo é apenas uma onda espantosa, que só alguns podem aspirar a dropar. Vista do lado da calmaria, onde ficam os barcos e os fotógrafos, Teahupoo é algo mais, é mesmo uma outra coisa. É que naquele lugar, quando o oceano fica imenso e a água faz uma cova sobre si mesma que leva o mar para debaixo do mundo, as ondas são só de alguns poucos.
Em Teahupoo a distância que vai de nós, meros surfistas, para os seres do outro mundo, que ousam desafiar as leis da Terra, é imensa. E é nesse espaço que, dentro de pouco tempo, vamos poder destrinçar, olhando para as coisas mais uma vez à distância, quem são os verdadeiros galácticos. PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 01:48 AM | Comentários (2)

maio 03, 2004

O surf e outras considerações


Esqueçamos as manobras radicais, as pranchas coloridas, a música acelerada que sonoriza os filmes. Se o fizermos, notamos que o surf é afinal um desporto pouco moderno, em que, na maior parte do tempo, estamos “nas mansões do mar” abandonados e, nesse abandono, não raras vezes acontece ouvirmos “vozes humanas (que) nos despertam” para depois “morremos naufragados” no regresso à Terra.
É aliás paradoxal que o surf, sendo claramente um desporto dos tempos contemporâneos, faça também um apelo constante a um certo essencialismo romântico, que nos liga às coisas primeiras, que estão antes das vozes humanas – ainda e sempre o contacto com os elementos.
Mas essa é a tormenta dos nossos tempos. O nosso tempo que, e assim chego ao que causou este conversa, é ainda o mesmo de T. S. Eliot, que termina uma das primeiras e mais significativas vozes absolutamente modernas – “a canção de amor de J. Alfred Prufrock” – com uma imagem de felicidade marítima, ainda que como horizonte inalcançável.
A diferença entre Eliot, os outros modernos e o surf é que neste, mesmo quando somos despertados, temos na memória dos momentos nas ondas uma força que nos mantém à tona, longe dos náufragos. E isso é algo de radical, que muda a raiz das coisas. PAS

A canção de amor de J. Alfred Prufrock
(...)
Hei-de vestir calça de flanela branca e passear na praia.
Já ouvi as sereias cantando, umas às outras.

Creio que para mim não vão cantar.
Tenho-as visto na direcção do mar e cavalgar as ondas
Penteando crinas brancas de ondas encrespadas
Quando o vento revolve as águas escuras e brancas.

Ficámos nas mansões do mar nós dois em abandono
Entre as ondinas e grinaldas de algas castanhas purpurinas
Até que vozes humanas nos despertam e morremos naufragados.

Publicado por pedroadãoesilva em 12:44 AM | Comentários (2)