abril 30, 2004

Rob

Se há onda para a qual os adjectivos se esgotam, essa onda é Tehaupoo. Se há campeonato mais intenso no WCT, é o de Tehaupoo. Se há onda que eu, surfista por paixão, filosofia e opção, mas também comum mortal, tenho a certeza que nunca hei-de surfar, é também Tehaupoo.
Ainda falta uma semana para o evento principal, o WCT de Tehaupoo, começar e para a elite do surf mundial, entre os quais, como convidado, o nosso Tiago "Saca" Pires entrar em acção mas, até lá, parto de fim de semana com um olho atento ao pequeno ecrã virtual.
Isto porque nos trials, as provas de qualificação que definem os poucos sortudos que, para além dos convidados, se vão juntar à elite na prova principal, vai estar Rob Machado.
Sendo assim algo me diz que Tehaupoo este ano vai ter mais do que drops de susto, wipe outs monumentais e tubões inqualificáveis.
Com Machado, vai ganhar alma. A insanidade de Tehaupoo vai ter um desenho fluído, gráficamente perfeito e estéticamente recheado de simplicidades. De pequenas coisas. Ver Rob surfar valeria por si só a pena. Agora ver Rob surfar em Tehaupoo, é um privilégio. O estilo, na pessoa de Rob Machado, versus a brutalidade, a natureza no seu estado mais animal, de Tehaupoo.
O surf? O surf vai ser lindo. Só pode. Machado não o sabe fazer de outra maneira.
MCG

Publicado por manuel castro em 04:06 PM | Comentários (8)

abril 28, 2004

Surfista

Surfista

De pé na frágil tábua
onda a onda ele escrevia
poesia sobre a água.
Era uma escrita tão una
de tão perfeita harmonia
que o que ficava na espuma
não se podia apagar:
era a própria grafia
do poema do mar.

Manuel Alegre

PS: Poema inspirado no surf de Tó Gama, um dos mais ousados surfistas portugueses e um mito do toureio de ondas grandes, numa manhã de nevoeiro na Foz do Arelho.

MCG

Publicado por manuel castro em 08:12 PM | Comentários (4)

Os surfistas inteligentes

O texto é grande e não está disponível on-line. É também um texto muito divertido, que agora reencontrei e de que guardava uma vaga recordação . É provavelmente das poucas coisas genuinamente divertidas que de algum modo envolve o surf e os surfistas, escritas em português de Portugal. Chama-se “Os surfistas inteligentes”, apesar de ser sobre as namoradas inteligentes dos surfistas, e está nos “Meus Problemas” do MEC, dos longínquos tempos em que o “Expresso” valia a pena. Ficam aqui alguns excertos que, aliás, reflectem o essencial sobre o tema – e a verdade sobre o tema? O último parágrafo, pelo menos, é mesmo A realidade.

(...) embora me custe dizê-lo, os homens estão cada vez mais estúpidos. Todos os homens. Os feios e os bonitos. Bem sei que o sexo forte foi sempre fraco em inteligência, mas tanto assim também não. A prova de que as mulheres são mais inteligentes está no desprezo que votam aos desportos em geral, e aos desportos menos pensativos em particular. Qualquer rapariga com dois dedos de cabeça prefere ter um surfista a ter de fazer surf.
No entanto, acho que as raparigas portuguesas exigem de mais dos seus rapazes. Porque é que um surfista há-de ler Proust? Alguém imagina Proust a fazer surf? O surfista é um género e não faz sentido misturar os géneros. Tem de se manter na sua pureza e, se for caso disso, na sua estupidez natural. Se não, qualquer dia temos surfistas barbudos, sentados na praia à espera de ondas, a rever os seus artigos para o “JL” sobre a vocação marítima de Portugal. Para as raparigas afinal, é ou não é bom saber que os surfistas estão lá, intocados na sua pureza, para quando elas os quiserem? Pode muito bem ser que os surfistas sejam as “louras estúpidas”, as dum blondes da nossa idade. O melhor é dar graças a Deus e não refilar muito. Há muitos outros géneros por onde escolher. Os surfistas devem ser, para as raparigas inteligentes, como o marisco à beira-mar. Embora se coma geralmente peixe e carne, num dia de Verão sabe bem ir comer marisco a uma esplanada de praia. Os surfistas são os camarões da época. É por isso que um dos pratos mais populares nas praias portugueses é, precisamente, “Camarões à la prancha”.
Não se devia dizer mal dos surfistas porque os surfistas são um género novo, que não havia na Idade Média, e que se acrescenta com proveito à variedade do género humano. Querer que sejam profundos, literatos, extremamente sensíveis é como lamentar que os Beach Boys não saibam tocar Bach. Mas infelizmente é uma mania das raparigas portuguesas esta de querer misturar os géneros todos. Vejamos.
As raparigas portuguesas não se contentam com rapazes de um só género. Olham para um surfista, gostam do que vêem, mas depois pensa: “que pena não ter nada naquela cabeça...” E suspiram, como se o mundo fosse injusto. Se o surfista fosse professor catedrático de filosofia já podiam apaixonar-se imediatamente. As raparigas mais literárias pensam ao contrário – olham para o jovem professor que lhes está a dar uma aula fascinante sobre Kant e pensam: “que pena ela ser tão pouco parecido com o Rob Lowe...”.
(...)
É cada vez mais frequente ver raparigas a tratar assim os surfistas namorados. “Então queridinho, - perguntam docemente pousando o livro de Kierkegaard que estão a ler, - hoje havia muitas ondas na praia? Havia? Ai que bom! Que bom para ti!”. E depois viram-se para as amigas e dizem: “coitadinho – é que ele fica tão contente quando eu lhe pergunto...”
Não pode ser.

PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 01:02 AM | Comentários (17)

abril 26, 2004

Voar

E se, por acaso, voássemos?
MCG

Publicado por manuel castro em 08:24 PM | Comentários (3)

abril 25, 2004

Ondas de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andersen


Agarrámos o nosso futuro há 30 anos. Escolhemos a Liberdade, a Fraternidade e a Paz. Palavras de surf, também e sempre. Sempre, menos hoje. MCG

Publicado por manuel castro em 10:52 PM | Comentários (2)

25 de Abril

Que Liberdade
tem
quem vive
refém
das ondas
do mar

Para celebrar Abril permitam-me este pequeno Haiku. 25 de Abril sempre

Publicado por pedroarruda em 08:49 PM | Comentários (0)

A liberdade passa por aqui

PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 12:04 AM | Comentários (3)

abril 23, 2004

O mundo perfeito

"O vento sopra fraco a moderado do quadrante Nordeste/Leste. A ondulação diminuiu e está mais ordenada. Existem várias opções para fazer surf hoje. Conte com a continuação do tempo agradável para o fim de semana", do infopraias.PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 12:28 PM | Comentários (4)

abril 21, 2004

Pausa no soul

Uma pausa no soul para duas pequenas notas. Em primeiro lugar, o luso-venezuelano Justin Mujica, após uma vitória e um segundo lugar nas duas provas já realizadas e a dois dias da primeira prova em Portugal, o Rip Curl Pro em Peniche, vai liderando o circuito EPSA, o campeonato europeu de surf. Justiça a Justin que é, sem dúvida, dos melhores surfistas em águas lusitanas neste momento e, à semelhança do que fez Almir Salazar, outro imigrante de luxo no nosso surf, no passado, está, com o seu surf recheado de qualidade e competitividade, a elevar o nível do surf português a patamares mais altos.
De resto, uma sugestão para quem gosta de surf de alto nível. A segunda prova do WCT feminino 2004, na esquerda de Cloudbreak, em Tavarua, nas ilhas Fiji, já começou e, até agora, num mar pequeno, mas obscenamente perfeito, a sensação está a ser a jovem peruana Sofia Mulanovich. Um escape de exotismo, sol e boas ondas, que nos faz sonhar com dias melhores e com outras paragens, numa semana cinzenta, com muita chuva e, até agora, poucas ondas. Para acompanhar, como sempre aqui.
MCG

Publicado por manuel castro em 10:13 PM | Comentários (0)

abril 20, 2004

O guardador de ondas

Brian Wilson que nunca surfou ondas,
Mas é como se as surfasse.
PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 12:12 PM | Comentários (1)

e o oscar vai para...

It proved to be quite a fateful night for Pete Cabrinha, who not only won the Billabong XXL Award for the biggest wave ever ridden, but who took home a $70,000 check and a new world record, as his left at Peahi on January 10 was deemed to have been 70 feet, two feet bigger than Brazilian Carlos Burle's wave at Maverick's that won the same award in 2002. His first words on taking the stage told it all: "This is an out of body experience." Cabrinha took his time, stepped back, breathed deep and took to the microphone, engaging in the typical list of thank-yous: his wife, his tow-partner, the Strapt crew, etc., etc. But then he stepped back to take a look at the cardboard check in his hands--$70,000--and deadpanned. "I hadn't looked at the number," he said. "That'll buy a few bars of wax."

Surfer Magazine

PA

Publicado por pedroarruda em 11:45 AM | Comentários (1)

Hope

Por vezes é preciso olhar a vida com outros olhos. Olhar a vida com olhos de mar. PA


Foto de Chris Garden. Fluidzone

Publicado por pedroarruda em 11:37 AM | Comentários (1)

abril 18, 2004

Don’t let your dreams be dreams


E já lá vão dois fins-de-semana de ondas más, numa época em que os elementos deveriam conjugar-se para as coisas correrem bem. Mas, mesmo quando tudo parece andar ao contrário do desejado, surgem sempre alguns sinais de mudança. Tenho de sair da água, de um mar desordenado, inesperadamente. Entro no carro e já perto de Lisboa, a Radar faz-me ouvir o “dreams be dreams” do surfista/músico/realizador Jack Johnson e, de repente, entre as nuvens escuras, no carro que avança veloz, com o cabelo ainda molhado, eu vejo um pouco de claridade no futuro e naquela voz amaciada por ondas perfeitas, encontro as promessas do Verão que chegará e vislumbro, por breves momentos, o princípio de uma outra coisa. É para isto que existe a música pop: para, com toda a sua simplicidade singela, nos salvar.
“but girl dont let your dreams be dreams
you know this living is not so hard as it seems
dont let your dreams be dreams”
.
PAS

Dreams Be Dreams
shes just waiting for the summertime
when the weathers fine
and she could hitch a ride out of town
and so far away
from that low down, good for nothing
mistake making fool with excuses like
baby that was a long time ago
but thats just a euphemism
if you want the truth he was out of control
but a short time is a long time
when your mind just wont let it go

well summer came along and then it was gone
and so was she but not from him
because he followed her just to let her know
her dreams are dreams
all this living is so much harder that it seems
but girl dont let your dreams be dreams
you know this living is not so hard as it seems
dont let your dreams be dreams

Publicado por pedroadãoesilva em 04:50 PM | Comentários (4)

abril 16, 2004

Fim de Férias

Está a acabar o pretexto para ir surfar a qualquer hora do dia, em qualquer lugar, de sol a sol, de praia em praia. A partir de segunda-feira voltarei à minha categoria de irresponsável. MCG


Publicado por manuel castro em 09:45 PM | Comentários (4)

abril 15, 2004

Parko


E no fim, nem Irons, nem Slater, mas foi sim um out-runner (será mesmo?), Joel Parkinson, a vencer a final, contra outro Aussie, Taj Burrow. Está, mais uma vez, tudo aqui. PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 03:57 PM | Comentários (1)

abril 14, 2004

Serão deste planeta?


Estratosféricas as pontuações do heat Irons/Egan, como já aqui escreveu o Pedro. Mas as coisas lidas são diferentes das coisas olhadas. E aqui de longe, com a net, podemos olhar para as quilhas do Andy Irons a fugir da água cristalina, mas, ver as fotos só tem um efeito: querer estar na Austrália. PAS
P.S.
E que dizer do Slater, que abriu o heat com uma onda de 9 pontos?

Publicado por pedroadãoesilva em 04:03 PM | Comentários (7)

Na Buzina

Ao que parece, que eu não vi, o quarto heat da quarta ronda do Rip Curl Pro em Bell's foi uma autentica batalha de titãs. Luke Egan vs. Andy Irons, com um empate no final, 18,30, e Irons a levar a melhor com um 9,40 na melhor onda contra 9,17 de Egan. Na Buzina. Isto é Surf de competição no seu melhor, vale a pena conferir o Wave/Wave no site do campeonato.

P.S. e nas quarter finals dois heats de cortar a respiração; heat 1 - Parko vs Fanning; heat 2 - Taj vs Occhi. Como eu queria estar na Australia... PA

Publicado por pedroarruda em 10:42 AM | Comentários (0)

abril 13, 2004

Hugo Pinheiro

Interrompo um involuntário silêncio para me congratular por mais uma conquista dos desportos de ondas em Portugal. Não vale a pena desenrolar o rol de lamentações pela pequenez do Surf e do Bodyboard em Portugal, não vale sequer o espaço de blog lamentar as faltas de apoios, os magros resultados, ou as ausências das competições internacionais do nosso mar. Da mesma forma que aqui tenho, temos, torcido pelas vitórias do Saca, não posso deixar de registar com muito agrado esta noticia. Desde o inicio do Super Tour que Portugal sempre teve atletas qualificados para o disputar mas que se viram impossibilitados de o fazer pela falta de apoios, desta vez o Hugo, que por sinal até é campeão europeu, conseguiu esse dinheiro e vai, com toda a justiça, poder disputar com os melhores do mundo nas melhores ondas do mundo o lugar de melhor entre os melhores. É muito melhor junto. Força Hugo, boas ondas. Este é um momento de orgulho para o Bodyboard em Portugal, minto, para os desportos de ondas em Portugal. PA

Publicado por pedroarruda em 06:24 PM | Comentários (0)

vontade fela da puta de ser americano


As televisões não acompanham as etapas do circuito mundial, mas via net é possível seguir quase tudo em directo, nos excertos em video disponíveis on-line. E enquanto não regressa o swell, e a etapa em Bells está suspensa, vale a pena ver o video da expression session, vencida por um Raoni Monteiro em grande forma, e que completou um reverse 360 aerial. Impressionante é a palavra.
Como bem lembra o Julio Adler, fora o rapaz australiano ou norte-americano, o que se andaria a dizer das suas performances deste ano. Raoni tem apenas 21 anos, julgo que é o mais novo entre os Top e, por exemplo, um par de anos mais jovem do que Bruce Irons, em torno de quem há um enorme hype (ainda por provar!). Mas Raoni é brasileiro e, por isso, antes de vencer “a luta” precisa, como canta o Caetano, de “exibir uma vontade fela-da-puta de ser americano”. PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 03:00 PM | Comentários (6)

abril 12, 2004

O surf na TV


Muito provavelmente feita a proporção número de praticantes/minutos de televisão, o surf é a modalidade que mais sai a perder. Desde o fim do Portugal Radical, mesmo com todas as suas limitações, tudo o que se pode ver em televisão são tímidas tentativas de programas, quase sempre limitadas à Sport TV – de que são exemplo os resumos do circuito nacional, de péssimas montagens e com quase total ausência de comentários, mas, também, os excelentes resumos do WCT, mas cujo horário de transmissão é sempre de um enorme grau de imprevisibilidade e, aliás, resta saber se este ano a Sport TV adquiriu os direitos. Sei, mas ainda não vi, que a NTV tem também, desde há uns tempos, um magazine (semanal?) dedicado ao surf.
Mas, no meio deste deserto de surf televisivo, por vezes, lá aparecem, nos telejornais, umas quantas imagens de um qualquer campeonato sem qualquer critério que não seja o de alindar os alinhamentos. Foi isso que a SIC-notícias fez hoje, ao transmitir, um campeonato do mundo na Austrália (Sic) onde, de acordo com a voz off, Andy Irons brilhou. Depois, nada mais, apenas imagens de umas ondas de Andy Irons, dois tubos do Mick Fanning e mais umas quantas ondas de surfistas que não identifiquei. Por momentos, pensei que o Rip Curl Pro, a decorrer em Bells Beach já tinha terminado, e que Andy Irons tinha saído vitorioso. Puro engano, checkada a excelente página na net, confirmo que ainda não foi completada a 4ª ronda, que apura para os quartos-de-final e, aliás, o bi-campeão do mundo, Andy Irons, é precisamente um dos competidores que não disputou o seu heat. Ou seja, a peça estava totalmente desenquadrada e tratava-se apenas de um conjunto de imagens utilizado, sem critério e sem explicações, para embelezar o noticiário.
Agora faça-se o seguinte exercício. Pegue-se numa etapa do Masters de Ténis, diga-se que Gustavo Kuerten brilhou, e depois mostre-se um conjunto de imagens avulsas de algumas partidas. Todos ficarão espantados se mais tarde se aperceberem que se tratavam de imagens dos oitavos de final e que, ao contrário de muitos outros competidores, Kuerten era precisamente um dos que não se havia ainda apurado para os quartos. Estranho, não é?
A questão que fica é porque razão será o surf – que já move muito dinheiro em patrocínios – tão mal tratado na televisão? PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 06:07 PM | Comentários (4)

abril 11, 2004

Sem surf

Depois de um fim de semana longe do mar, por força das vagas pequenas, a que se juntava o indesejável vento forte vindo do norte. Mas com o olhar aceso na direcção de futuro, de onde, como num sonho, virão novas ondas, cobertas de vento tranquilo.


Perto do Mar

"O corpo sabe.
O corpo não esqueceu ainda
a direcção do sol:
fará a casa perto do mar,
fiel ao quase adolescente
coração da água.
As mãos acesas - altas, altas."

Eugénio de Andrade
PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 11:58 PM | Comentários (4)

espera

Publicado por pedroarruda em 08:05 PM | Comentários (1)

abril 08, 2004

Bells

Quem irá tocar o sino em Bells Beach? Uma das mais mitícas etapas do World Championship Tour já decorre na Austrália. Para acompanhar, em directo, aqui.
MCG


Publicado por manuel castro em 01:41 AM | Comentários (1)

abril 07, 2004

Os sábios

O surf ganha uma nova atmosfera com a mudança de estação.
Ganha uma musicalidade diferente do Inverno. Ganha novos tons, mais alegres e coloridos. Ganha um novo cenário, menos melancólico, mais ritmado. Mas nesse cenário há coisas que nunca mudam. Muitas das vezes, surfamos ondas que quebram longe daquilo a que chamamos praia, algures entre uma falésia e uma baía quase inacessível ao habitual dos banhistas.
Não há testemunhas nem plateia para sessões de surf que não o mar e os próprios surfistas. Não se vê vivalma. Excepto aqueles vultos. Entre as rochas, quase escondidos. Seja Inverno, Primavera, Verão ou Outono. Os verdadeiros lobos do mar. Os pescadores. Quase sempre, a caminho do pico, por entre as rochas, encontro um solitário pescador, entregue à sua paciente e fatalista ocupação. Vivemos na era da Internet, das webcams, dos satélites e das previsões de tudo e mais alguma coisa e disso dependemos de um modo quase obsceno. Eu continuo a deixar a última palavra a quem sabe e por isso, não raras vezes, detenho por alguns minutos a minha caminhada para o pico e troco umas palavras com eles, os sábios do mar. Falamos sobre as marés, sobre a lua, sobre as ondas. Eles têm sempre qualquer coisa para dizer e eu qualquer coisa sempre para ouvir. Sabem do que falam e sabem de surf, também. Ouvir um velho pescador a falar sobre o mar, como ouvir um surfista de outros tempos, é ouvir o mar a falar e a revelar os seus segredos.
Segredos e sabedoria que não vêm na previsão do estado do mar para as "próximas 36 horas" do satélite menos falível em órbita.
Segredos e sabedoria que não viajam à velocidade dum clique, mas que estão à distância duma palavra. MCG


Publicado por manuel castro em 08:01 PM | Comentários (2)

abril 06, 2004

Tentar de novo


Nas poucas etapas do WQS que já decorreram este ano, o Tiago Pires perdeu sempre de primeira e, do mesmo modo que se assiste invariavelmente a um justo entusiasmo pelas suas prestações quando elas são positivas, os seus resultados menos bons, que em nada deslustram o seu surf, pura e simplesmente não foram referidos nas diversas páginas nacionais que noticiam as etapas do circuito mundial – apesar de abundantes referências aos vencedores, no caso do Salomon Masters, dois brasileiros nos dois primeiros lugares, Neco Padaratz e o Raoni Monteiro.
A passagem do entusiasmo absoluto, para a depressão total e para o esquecimento é uma atitude típica entre nós, portugueses. O Saca não passou de bestial a besta, foi, nestes casos, apenas votado ao esquecimento. Mas, naturalmente, continua o mesmo excelente surfista, com as mesmíssimas, que são muitas, possibilidades de qualificação para o WCT, nós é que lidamos menos bem com o falhanço. O que me recorda que no desporto de competição, como na vida, devíamos ter mais presente a velha máxima de Samuel Beckett: “Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better”. E, acima de tudo, que as vitórias começam e nascem dos falhanços e os perdedores aprendem melhor a construí-las, lentamente. PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 06:50 PM | Comentários (6)

abril 05, 2004

Experiência concreta


Depois de dois dias de bom surf de prancha nova, acabo de ler o excelente “o mel” de Tonino Guerra, traduzido do romagnolo pelo companheiro secreto Mário Rui de Oliveira e no posfácio encontro as palavras justas de Italo Calvino: “e poesia quer dizer uma experiência precisa, concreta, inesperada, cheia de sentimento e com a acentuação de uma voz que nos fala.” E eu leio e, ao ler, sinto por todo o lado o ressoar das ondas e do remar tranquilo do fim-de-semana e no lugar que é o da poesia vislumbro essa experiência concreta, inesperada e com a acentuação de uma voz que nos fala. PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 12:25 AM | Comentários (1)

abril 02, 2004

As palavras dos outros


"Para mim a maior riqueza é ter tempo para fazer surf, e isso chega-me."
João Alexandre "Dapin" em entrevista à novíssima e muito recomendável Soup. PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 08:12 PM | Comentários (3)

abril 01, 2004

Utopia Sem Fim

Estou a um dia das Férias da Páscoa. Não que eu mereça qualquer tipo de descanso, muito menos um descanso "abençoado". Mas é um pretexto. Duas semanas na Ericeira. Fuga, escape, muito surf. Estar lá duas semanas não é o mesmo que estar lá aos fins de semana ou ir lá durante a semana. São duas semanas. Sem pressas nem horários. Simplesmente lá. Quantas sessões de surf cabem em duas semanas? Quantas ondas? Duas semanas que, em anos anteriores se transformaram em vários e irresponsáveis meses. Não me arrependo. Se há alguns anos divido o meu tempo entre Lisboa e a Ericeira faço-o com a plena consciência que há sempre coisas que vão ficar para trás. "Coisas". Responsabilidades e não só.
Mas com a certeza também de que estou mais perto do meu sonho.
Nunca imaginei que a Ericeira que acolhia os meus primeiros e frios banhos iria fazer parte duma maneira tão plena daquilo que são os meus sonhos.
Nunca pensei viver tão intensamente as ondas que sonhava surfar, nem partilhar line ups com os meus heróis de adolescência. E se são os meus heróis, não é só porque são todos grandes surfistas. Se são os meus heróis, é porque são pessoas que deixaram uma vida confortável e socialmente recompensada para trás para correrem atrás do seu sonho salgado, conseguindo moldar o seu espaço na sociedade ao sabor do seu amor pela ondas e pelo mar.
Mas nem por isso Lisboa deixa de ser a minha cidade e onde me sinto verdadeiramente em casa. A cidade que vivo e respiro, desde sempre. O que não implica estar sempre cá. Pelo contrário até. Um dos pratos fortes destas ausências temporárias, aqui ou ali, é essa fantástica e única sensação que é matar saudades de Lisboa. O regresso. Era muito bom que fosse sempre assim.
Ir, ficar, voltar, sentir. Um permanente dilema. Uma utopia sem fim. Boas férias, vou mandando postais. MCG

Publicado por manuel castro em 02:06 AM | Comentários (4)