janeiro 31, 2004

Uma viagem de amigos vol.I


Em Outubro último, um grupo de 4 companheiros da surfada decidiu fazer-se à estrada para assistir ao Billabong Pro Mundaka. Neste "pueblo", situado no país Basco, próximo da cidade mártir de Guernica, está aquela que é considerada por muitos a melhor onda da Europa. O objectivo da viagem era, além de ver os tops do WCT, poder surfar aquela onda (o que no meu caso era pouco provável, se a onda estivesse com tamanho), surfar em Bakio, e num dos dias ir até Biarritz e Hossegor.
Praticamente toda a viagem para lá, foi feita de noite, e as conversas versavam sobre Mundaka e a sua onda, visto que tanto o Carlos Melo, como o Abat-Jour já lá tinham estado em 98/99. Primeira conclusão: a onda é rapidíssima.
Assim que chegámos, histeria total: a carrinha alugada em Lisboa num estacionamento proibido, palanques, video-walls com filmes de surf, os pros, pranchas, cartazes, carrinhas cheias de pessoas, feiras de artesanato, famílias inteiras na rua.
Primeiro problema resolvido: o alojamento. Ficámos os quatro, num quarto com duas camas de solteiro em casa do sr. Jesus, um basco sexagenário, muito simpático, que já tinha albergado o Abat-Jour aquando da sua primeira passagem por lá. "Deus é meu amigo!" - referiu.
Mundaka estava flat, pelo que nos dirigimos a Bakio, onde surfámos um mar um pouco desordenado de meio-metro e sets maiores, mas com um nível de surf descomunal dentro de água – o Mick Campbell a destacar-se, claramente.
Depois do jantar: a noite. Mundaka é uma vila pacata, mas por altura do campeonato enche-se de gente e as pessoas ficam na rua até altas horas da madrugada.
E ali estávamos nós, quatro portugueses "mui salidos", a confraternizar com alguns dos nossos ídolos do surf: o Teco Padaratz, Fábio Gouveia, Mick Fanning.
Deitámo-nos muito tarde, quase de manhã, mas o sr. Jesus abriu-nos a porta de sua casa com um sorriso nos lábios.
JPC

Publicado por pedroadãoesilva em 10:10 PM | Comentários (5)

janeiro 30, 2004

Esconderijo


O Bernardo Soares escrevia sempre sobre o desejo de fugir, de fugir aos lugares orgânicos, ao que conhecia, ao que era dele. Fugir para se esconder não nas Índias impossíveis, que estavam para lá da Rua Augusta, ao Sul de tudo, mas num lugar que não fosse lugar.
As ondas que descemos, com a prancha instável debaixo dos pés, servem para isso mesmo, para “não ver mais estes rostos, estes hábitos e estes dias. (e) repousar(mos), alheios, do fingimento orgânico. (...) sentir(mos) o sono chegar como vida, e não como repouso.”
Quem se esconde nas ondas sabe que com elas fugimos aos lugares orgânicos, mas com uma alegria absoluta e com a vontade que faltava às angústias urbanas do empregado de escritório perdido na cidade. Com a água e com o movimento das ondas fazemos, com serenidade, face ao desassossego. PAS

PS
citação, quase reescrita, do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares.

Publicado por pedroadãoesilva em 05:49 PM | Comentários (1)

janeiro 29, 2004

Desenhos

para o André Almeida e Sousa

Ondas imaginadas, ondas que se formam e desenrolam e quebram nos oceanos e praias dentro de nós. Ondas com canetas e lápis e folhas de papel. Ondas nas aulas, nas paragens do autocarro, no metro, nos restaurantes, em reuniões. Tantas e tantas ondas que já desenhei, talvez tantas quantas as que surfei, não tenho a certeza. Comecei a apanhar ondas com pouco mais de dez anos e desde essa altura que todos os meus cadernos foram inundados de mar e surfistas, de grandes manobras em ondas impossíveis, sempre até ao ultimo ano da licenciatura. Ondas impossíveis, ondas gigantescas, mutantes, descomunais, perfeitíssimas, infinitamente belas. As ondas que desenhamos são a prova de que cada momento que um surfista passa fora de água é passado a sonhar com ondas. E há uma coisa da qual me orgulho, mesmo que me digam que é mentira e que só existe na minha cabeça, o Laird Hamilton em Jaws e o Cory Lopez em Teahupoo foram inventados nos desenhos que fizemos tantos e tantos anos atrás, se não os tivéssemos desenhado essas ondas não poderiam ser surfadas. PA


P.S. André, desculpa não te ter pedido autorização para pôr aqui este desenho. Tenho-o guardado há anos e já nem eu me lembrava dele. Um grande abraço, do tamanho desta onda, e eu não vi nada, não vi nada....

Publicado por pedroarruda em 04:08 PM | Comentários (7)

O músico mais surf

Para nós, estas ondas, como as verdadeiras, são de todos, não há aqui localismos e gostamos de ver os outros a apanhar as melhores do set. Aqui fica, por isso, o primeiro contributo do João Pedro Chasqueira, vindo de outra praia, mas que surfa também nesta. Escusado será dizer que aqueles que se quiserem juntar a nós no pico são bem vindos, basta que remem para aqui: ondas_blog@hotmail.com.


No primeiro dia de Novembro de 2003, Lisboa assistiu ao concerto com mais "feeling" dos últimos tempos, o de Ben Harper, no Pavilhão Atlântico.
Perante a ausência de Jack Jonhson, o músico destilou quase três horas de pura energia, quer através de riffs de guitarra poderosos, quer através da sua voz melódica acompanhada, só por uma guitarra acústica.
Pode Ben Harper ser considerado o músico "mais surf" do planeta?
Mais surf?! Sim, para além de ser amigo de cantorias de Rob Machado, outro mestre do estilo, Ben é presença assídua nos filmes de
Jack MCcoy, onde o vemos a traçar linhas dignas da melodia de "Women In You", tentando talvez descrever a mulher que existe em cada onda e vice-versa.
É também o músico preferido de muitos surfistas.
As sua músicas são fortes e distorcidas como um dia no Reef e suaves e
brilhantes como a última onda do dia em Malibu.
Talvez seja no surf que Ben vai beber um pouco da sua inspiração, que o leva a fazer músicas que são muitas vezes a única companhia de alguns surfistas enquanto viajam.
É muito bom ouvir a sua música quando saio da água estafado, num final de tarde qualquer, em que o surf me faz respirar fundo e pensar: Isto é tão bom!! Nessa altura, também eu me sinto um "Innocent Criminal".
JPC

Publicado por pedroadãoesilva em 03:51 PM | Comentários (7)

Hopopu


Hopupu (hawaiian): sublime state experienced by a person who has just become one with a wave - ecstasy. PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 12:36 AM | Comentários (1)

janeiro 28, 2004

Regressar


"Quando tenho medo, peço à onda para voltar a crescer. Desaparecem do meu corpo as marcas da idade adulta e volto a ser menino de corpo quase nu, fumando cigarros atrás de cigarrilhas em cima de muros feitos de pedra e de vidros cortados. Quando deixo de sentir o peso das coisas, peço à lua para voltar a erguer o oceano uma poderosa massa de água e enviá-la, num arco perfeito de força e de solidão em direcção à memória.
Aos outros, tenho sempre de explicar que onda é esta. A ti, não. Tu é que ergueste o dedo e apontaste a chegada das espumas."
Assim começa o primeiro dos "Dez Regressos" (edições salamandra) que o Nuno escreveu. O Nuno que nunca fez surf, mas que foi nosso companheiro de tardes de surf e que, imagino com orgulho que seja por isso, escreveu histórias de simplicidade sobre as ondas do mar e o surf. As ondas do mar e o surf que, mesmo quando nos causam medos ou especialmente quando nos causam medos, fazem-nos voltar a ser meninos - "crianças feitas para grandes férias". PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 12:16 AM | Comentários (1)

janeiro 26, 2004

esquecer

Vestir o fato ainda molhado numa manhã fria e cinzenta de Inverno com um sorriso. As ondas perfeitas, o vento off-shore, apenas duas ou três pessoas na água, são condições que atenuam qualquer espécie de choque térmico, que fazem esquecer o ar agreste das manhãs de inverno. Só um prazer imenso pode conseguir esse efeito anestesiante. É esse o poder das ondas na mente de quem faz Surf. Quantas e quantas vezes não saímos da água com os dedos congelados, em que só o pôr os pés no chão dói, mas apesar disso estamos como se as dores do corpo não passassem de uma trivialidade e aquecidos no interior pela euforia das ondas. Surfar é esquecer o que de mais mortal o corpo tem e por uns segundos ser um com os elementos. Na última onda e na próxima onda. PA


Foto de Thomas Colla. Surfista Chris Colvin. Long Island, New York

Publicado por pedroarruda em 10:56 PM | Comentários (3)

Guia das Praias


"Assim como quatro quintas partes do corpo humano são água, assim quatro quintas partes da grande corpulência do globo são mar. Parecendo separar os homens, o belo destino eterno do mar é reuni-los. (...)
De tal modo o mar foi o primeiro guia da humanidade.
Amorável e austero, foi ele que primeiro embalou o berço do homem e que em seguida o acordou para os nobres trabalhos, sugerindo-lhe as primeiras noções do universo.
O desenvolvimento dos estudos naturais tem progressivamente modificado a opinião inculta e supersticiosa e aterrada de que o mar é o insondável abismo tenebroso e deserto."
Assim começa "As Praias de Portugal" de Ramalho Ortigão, a que voltarei frequentemente. Este início é de uma simplicidade espantosa e tem a curiosidade de Ramalho começar por descrever o mar como um horizonte (insondável) de aproximação entre os homens e até de aproximação destes com o universo, para acabar no estilo positivista que, com maior ou menor intensidade, afasta toda a irracionalidade da relação do homem com o seu meio (no caso o mar). As praias de Portugal que Ramalho conheceu estão hoje muito diferentes, mas haverá grandes diferenças entre a forma como ele olhou para elas e o olhar que hoje lhes lançamos? PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 12:36 AM | Comentários (0)

janeiro 23, 2004

pedido

a weblog.com.pt precisa de ajuda.

Publicado por pedroarruda em 11:52 PM | Comentários (0)

Sons de Surf 2

The Durutti Column
Sex and Death
1999 Factory

A guitarra de Vini Reilly tem o som dos grandes espaços. Amplo, infinito, a perder de vista como o oceano. Embora eu não associe uma música especifica, ou um estilo musical ao Surf, há álbuns concretos que não consigo dissociar de determinadas emoções que, também, o Surf dá. Este é um desses álbuns. Pela intensidade, pelo pendor melódico, pelo ritmo cruzado de tempos calmos com outros mais rápidos, como se fosse um bailado, um corpo e uma prancha em cima de uma onda. Rest of my life é o tema que podia resumir em música muito do que sinto pelas ondas e o mar e o Surf. E haverá descrição mais adequado do oceano do que My irascible friend. Hoje esta guitarra e esta música vão estar em Lisboa, quem puder não perca, será como perder um dia de glass com ondas de metro e meio.

Publicado por pedroarruda em 04:44 PM | Comentários (1)

janeiro 22, 2004

Um desporto de nobres


Conta a lenda que terão sido os príncipes havaianos os primeiros a aventurarem-se nas vagas e que era também a coragem demonstrada nessa arte que os tornava objecto de reverência aos olhos dos seus pares. A idade moderna, com ganhos assinaláveis para a convivência entre todos e com algum sucesso, colocou termo à distinção baseada na origem social. No surf também foi assim. É verdade que às vezes custa, principalmente nos fins de semana em que chocamos uns com os outros dentro de água, tanta democratização no acesso às ondas e é isso que faz com que tenhamos todos o desejo, mais ou menos confesso, de tê-las só para nós e para os amigos. Mas o que dizer da história do Público de hoje, sobre o príncipe regente norueguês, que se fez plebeu e num acto de modernidade partiu com um par de amigos para as ondas de Peniche?
PAS
obrigado ao (uns)meridianos pela chamada de atenção.

Publicado por pedroadãoesilva em 05:07 PM | Comentários (0)

janeiro 21, 2004

O início

As ondas nascem aqui.

Publicado por pedroarruda em 11:30 PM | Comentários (0)

janeiro 20, 2004

"Eu tenho uma doutrina"

"Não é bonito o mar, as ondas, tudo isto?
Até já soube formas de o dizer de outra maneira"

Ruy Belo, Ácidos e Óxidos

PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 11:26 PM | Comentários (2)

janeiro 19, 2004

O Verão do nosso contentamento

Para o NCS

E de repente, outros anjos ruidosos e indolentes, especialistas em mergulhos lentos em águas escuras, encheram-se de luz. Deixaram os Slowdive e fizeram outras músicas, com capas em que o mar frio de antes, é agora o fim de tarde solarengo. Sabes que não há regressos ao passado que sejam excessivas concretizações de felicidade. É melhor, por isso, agora estarmos com os olhos no Verão e no futuro, onde vamos encontrar o contentamento. Ouvirmos os Slowdive e os My Bloody, mas desejarmos concertos dos Mojave e do Kevin Shields a solo. E ainda assim, recordarmo-nos sempre das músicas que ouvimos e que continuamos a ouvir.

Waves (Slowdive)

Watch the waves so far away
they`re washing cross the paths that I have made

leaving all my sins I turn away
like soaring birds I watch my sorrows play

don`t you know
I`ve left and gone away
you`re knocking on the door I closed today
and everything looks brighter
the waves they just soothe my pain away

it felt so good to see the sun
I`ll choose my time before I choose the one

floating cross the waves the silence runs
my thoughts can go but now my sorrows done

PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 01:27 PM | Comentários (8)

janeiro 18, 2004

Saco de Areia

A malvada da forma física. Basta parar uns dias e quando volto à água todos os músculos do meu corpo gritam por misericórdia. Ontem, estive o que me pareceu serem dez longuíssimos e sofridos minutos só para passar a rebentação. Não foi tão mau como há uns anos, em que ao fim de uma extenuante meia hora de remada, patinho, remada, patinho me rendi à força dos quebra-cocos da Praia Grande, dei meia volta e regressei à areia sem apanhar uma única onda e com o ego feito em farrapos. Ontem, consegui passar e apanhar umas ondas (óptimas por sinal, dois metros, glass, esquerdas e direitas), mas, por mais que as ondas ajudassem, o corpo não queria aceitar a sua parte. Fiz umas seis ondas e acabei com a língua de fora. Um dos meus problemas é que o único desporto que eu consigo fazer é surfar. Nunca fui bom, nem nunca tive paciência para mais nada, nem natação. A grande maioria dos surfistas pratica outros desportos, que são importantíssimos para compensar o esforço físico do surf. Há, aliás, uma certa facção de “yoga-surfers” que, parece, nunca se cansam e nunca têm dores musculares. Os brasileiros são famosos por serem “capoeira-surfers” e não se deixarem intimidar por ninguém, ou por nada, nem mesmo uma morra de Jaws com vinte seis pés de onda em fúria. O Laird Hamilton, esse Apolo da era moderna, é o homem de todos os desportos e da suprema forma física, até na televisão o corpo dele mete medo quanto mais ao vivo. Na Austrália, há os seguidores de Rob Rowland-Smith, um fanático guru da resistência, que transformou as vidas de Tom Carrol e Kelly Slater e se tornou no preparador físico do team da Quiksilver. Só um último exemplo, o jovem Sebastian Slovin, especialista em dropknee, que é também boxeur, tal como o australiano Koby Aberton. Aliás o boxe é uma boa metáfora para o que me aconteceu ontem. As ondas eram os Mike Tyson’s e eu o saco de levar porrada. Enfim, a idade não perdoa, a vida que não me deixa surfar com a regularidade necessária, também não, o gostar de boa comida e boa bebida, menos ainda. Mas, como sou preguiçoso e detesto ginásios, futebol ao fim-de-semana só ver pela televisão, vou continuar, de tempos a tempos, a levar umas sovas bem dadas.


Ribeira Grande. Bem no outside depois de levar uma sova.

Publicado por pedroarruda em 05:15 PM | Comentários (1)

janeiro 16, 2004

Como uma onda no mar

O Caetano tem, entre muitos outros, o dom de nos pôr a ouvir músicas delico-doces de um modo diferente. Aquilo que cantado por outros soaria mal, com a voz dele parece ter uma outra vida. Esta música, um original de Lulu Santos, no dueto entre os dois, que está num disco que não teve o reconhecimento merecido (Noites do Norte ao Vivo) é exemplo disso mesmo. Quem é que não consegue estar horas a fio a olhar para o mar. A olhar para o mar porque ele tem o horizonte absoluto, o espaço e a possibilidade de viagem. Mas a olhar para o mar porque é nele, como em mais nenhum lado, que vislumbramos aquele “indo e vindo infinito”, sempre diferente do que se via antes. Escusado será dizer que faz toda a diferença ouvir, tal como estar a ver.

Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa, tudo sempre passará
A vida vem em ondas, como um mar
Num indo e vindo infinito
Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo no mundo
Não adianta fugir
Nem mentir pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre
Como uma onda no mar

PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 07:48 PM | Comentários (6)

janeiro 14, 2004

Puerto

Começo por pedir desculpa pelo excesso de saudosismo pessoal. Mas quando se abre o baú das memórias é difícil fechá-lo. Como quando há uma fuga num cano e a água teima em não estancar. Ontem, fui aos álbuns de fotografias surfar ondas passadas em oceanos diferentes. Foi em 1998, mais precisamente em Março de 98, que estive em Puerto Escondido. Cheguei num autocarro vindo da cidade de Oaxaca, de madrugada. Do apeadeiro viam-se as ondas ao longe, é uma visão que aniquila qualquer fadiga. Com a mochila às costas, as pranchas debaixo do braço, desço a vila até à baia e continuo a pé até Zicatela, que fica depois de um promontório de pedras que separam a baía do imenso areal de Zicatela, onde quebram as ondas – o Graal dos surfistas. Nessa altura ainda não sabia, mas em Puerto o mar só está bom de manhã, invariavelmente, por volta das onze, o on-shore entra destruindo a perfeição dos tubos de Puerto. Nesse primeiro dia deixei-me ficar debaixo de uma palapa, bebendo Sol e sonhando. Na manhã seguinte, com o nascer do sol, eu e mais já não sei quantos surfistas, atravessámos a areia ainda fria da noite em direcção ao glass, perfeito e redondo dos melhores tubos que já vi na vida. Foi assim durante os vinte e dois dias que fiquei em Puerto Escondido, em Março de 1998. PA

Publicado por pedroarruda em 08:54 PM | Comentários (3)

A realidade que nos engana

De repente parece que estamos face à corporização do maior terror dos surfistas. Ali mesmo à frente, na insuspeita praia de Malibu.


Mas, o perigo parece ter passado.


Acontece que a realidade é que também o perigo só existe quando o modo como olhamos para as coisas nos engana.

PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 05:24 PM | Comentários (1)

janeiro 13, 2004

Sons de surf

Air
Moon Safari
1998 Source

Dá para perceber que sou leitor do Blitz. Metem os Air na capa, um novo disco em breve e pega de ir buscar o disco da estante, limpar como um panhinho amarelo humedecido com um líquido próprio (sempre de dentro para fora, com passagens leves, a humidade dos Açores não perdoa), pôr no leitor e aumentar ligeiramente o volume do amplificador e ouvir. Depois memórias de sítios, pessoas, eventos, o agora já longínquo ano de 98 e a minha vida tão incrivelmente diferente, o México. Os Air, para mim fazem musica para memórias e Moon Safari é a banda sonora ideal para o filme do meu passado. Mas é também um grande disco de surf. Começa com La Femme D’Argent que entra devagar, um pouco a medo, como pôr os pés na água. Depois Sexy Boy que é a epítome do surfista de fato vestido prancha de baixo do braço à beira de água a olhar as ondas esperando passar o set para se lançar á água (isto pode parecer estranho, ou roto, dito por um gajo, mas, acreditem, é mesmo assim). E All I Need e a voz angelical de Beth Hirsch e remar para o outside é mesmo tudo o que preciso. Uma surfada completa este disco, com direito a grandes rasgadas como You Make It Easy e Ce Matin La. Um grande disco de Surf.

Publicado por pedroarruda em 11:19 PM | Comentários (1)

Parabéns

Remar, Remar - Xutos e Pontapés

Mares convulsos, ressacas estranhas
Cruzam-te a alma de verde escuro
As ondas que te empurram
As vagas que te esmagam
Contra tudo lutas
Contra tudo falhas

Todas as tuas explosões
Redundam em silêncio
Nada me diz

Berras às bestas
Que te sufocam
Em braços viscosos
Cheios de pavor
Esse frio surdo
O frio que te envolve
Nasce na fonte
Na fonte da dor

Remar remar
Forçar a corrente
Ao mar, ao mar
Que mata a gente

PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 03:43 PM | Comentários (2)

Bodyboard

Mais uma noticia para ficarmos todos orgulhosos. Na meca do surf, Pipeline, Rui Ferreira obteve um impressionante terceiro lugar no mais importante campeonato do World Super Tour de Bodyboard, o RockstarGames Pipe Pro. Parabéns Rui.


Este é mesmo o Rui Ferreira

Publicado por pedroarruda em 11:35 AM | Comentários (3)

o Blog

Uma pausa nas divagações sobre aquilo que não pode ser dito mas apenas vivido. Uma pausa nas ondas para falar um pouco do ONDAS. Quando o Pedro me ligou a sugerir este blog, eu hesitei. Fui, durante demasiado tempo, um anti-bloguista. Repetia, convicto, todos os lugares comuns – coisa mais masturbatória, p’ra que é que eu quero saber disso, não têm nada melhor p’ra fazer, há coisas que devem ficar na gaveta – enfim... E, para dificultar ainda mais, a sugestão do Pedro de que este fosse um blog só sobre surf. Mas isso não pode ser descrito, pensei eu. Escrever sobre surf é impossível, ainda para mais em português, não pode ser. Depois havia o problema de como escrevi no meu primeiro post, eu achar que os surfistas nunca iriam ler este blog e, à parte dos surfistas, quem é que ia querer ler coisas sobre surf. O Pedro incitava-me com a ideia de que o blog era sobre surf mas, também, sobre o que está em torno do surf, as referências, os sons, os filmes, as pequenas grandes coisas que compõem o mundo de quem vive de e para as ondas. Hesitei mas acabei por ceder. Eu, que andei meses a olhar de lado para os blogs, agora participo em dois. Aquilo que, acho eu, aqui temos tentado fazer, o Hugo, o Pedro e eu, é dar uma ideia do que é o Surf para nós, uma ideia por vezes romanceada mas certamente poética e afectuosa de algo que, por fazer de tal maneira parte das nossas vidas, e isto independentemente do número de vezes que cada um surfa por semana, está para além de desporto, da evasão, do passatempo, do hobby, da ocupação ocasional de fim de semana, da mania. Acredito que tal como para mim, para os meus companheiros de blog, o Surf é uma parte fundamental daquilo que somos.
Este desabafo surge porque uma das coisas mais extraordinárias que este blog me deu foi a constatação de haver tantas pessoas interessadas em ler sobre a nossa ideia de surf. Essa expansão que o ondas teve pela blogosfera, a adesão de tantas pessoas, os links, os comentários, foram para mim uma enorme e grata surpresa. Tem também sido um factor de regozijo descobrir outros blogs, de outros surfistas. Quem anda nas ondas sabe que no surf existe todo o tipo de pessoas, mas é óptimo poder provar que o estereótipo do surfista louro e burro, não passa de um estereótipo.
Continuo a ter dificuldade em escrever sobre surf e, apesar do pedido do Pedro, ainda não escrevi muito sobre os meus sons, os meus filmes e os meus livros, espero com o correr do tempo conseguir descrever cada vez melhor a emoção maravilhosa das ondas mas, entretanto, aquilo que me deixaria mais contente seria descobrir que, por causa deste blog, alguém pegou numa prancha e se fez às ondas. Aloha. PA

Publicado por pedroarruda em 12:02 AM | Comentários (6)

janeiro 12, 2004

Fé inabalável no Sul

Sábado, Lisboa amanhecia pesada e cinzenta. As previsões da véspera não eram famosas. Mas há momentos e lugares assim, onde tudo parece insistir em afluir para nos satisfazer. A menos de duas horas de distância, estava um daqueles swells de que o Inverno parece deter o exclusivo, a água quente e o sol cá fora. Há muito que se sabe dessa fé inabalável no Sul e da tentação constante que é podermos ir ter com ele. Uma tentação concreta e que nos afasta da vontade de partirmos para as “Índias Impossíveis”. Por vezes, um fim de semana basta para consolidarmos a nossa devoção.PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 11:48 AM | Comentários (1)

janeiro 09, 2004

Soul Surfer

Houve um tempo em que podíamos dedicar a vida a uma paixão. Em tempos a história, ou o ritmo da história, permitia que os indivíduos dedicassem a totalidade das suas vidas a uma paixão. Era-se escritor, ou pintor, ou filósofo, ou etc. e ponto. Não havia necessidade de se ser outra coisa para o efeito de “ganhar a vida”, essa nefasta expressão que hoje condiciona tudo. É certo que muitas destas pessoas viveram em condições de extrema pobreza mas dedicavam-se de corpo e alma à sua paixão e tiravam daí todos os lucros que necessitavam. Hoje, alguém que se dedique na totalidade a uma paixão é um lunático e como tal é condenado ao ostracismo pela sociedade dita normal. Quem não tem um emprego, uma casa, uma família, um carro, um horário e um sem número de outras responsabilidades não é uma pessoa normal. E se para além de não ter nenhum destes distintivos, ainda por cima, dedicar a sua vida a uma paixão, então, é um doido. Ser surfista é hoje tão ou mais estranho do que ser pintor ou poeta.

- Então você o que é que faz?
- Sou surfista
(expressão de pasmo, leve silêncio)
- Então e isso dá para ganhar a vida?
- ...

Quem entrega a sua vida à paixão pelas ondas, vive numa comunhão quase monástica com o mar, a natureza, os elementos, o próprio corpo. O único objectivo é o prazer sublime de correr uma onda, tão próximo do prazer de um poema. O único lucro é o enobrecimento interior. Quem dedica a sua vida a uma paixão não o faz para ganhar a vida mas para dar razão à vida. O Surf, como a arte, é uma paixão porque é vivido, antes de mais, na alma.PA

Publicado por pedroarruda em 07:53 PM | Comentários (5)

olhar de novo


vejo as previsões, olho para os mapas do swell, para os ventos, para as marés, vejo qual é a fase da lua. Ao fim de tarde de sexta-feira é quase sempre assim. Hoje, as previsões não parecem convidativas, a chuva lá fora, as webcams que mostram o on-shore e o mar cinzento, que quase parece o mar do norte, fazem crer que o fim de semana vai correr mal. Mas eu olho de novo para os mapas, vejo os ventos e tenho uma certeza, mais ou menos secreta: vai haver um swell decente e os ventos vão ajudar. Eu quero que a Sexta-feira passe depressa e quero já estar a acordar Sábado, bem cedo pela manhã. PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 06:10 PM | Comentários (0)

Rick Griffin

Uma sucessão de situações adversas, como se um set todo se abatesse sem recurso sobre mim, obriga-me a negligenciar aquilo que para mim é mais importante, tudo o que é mais importante. Mas no espaço de dois dias uma entrevista de um grande editor e não menos importante homem de cultura português e escritor e um artigo de uma grande revista sobre um grande artista faz-me regressar às coisas que realmente interessam.

As festas natalícias, o final de ano, a gripe que se prolonga infindavelmente, as chatices próprias de quem é empresário no tempo da Dra. Manuela, tudo isto mais 98º de humidade me desgasta. Mas acreditar numa vida dedicada ao mar e à arte leva-me para longe deste tempo e para mais perto de mim.

Prometo voltar a falar na dedicação absoluta de uma vida a um ideal, uma ideia de ser.

Para já fica a arte de Rick Griffin.

Publicado por pedroarruda em 12:22 AM | Comentários (0)

janeiro 08, 2004

Guitarras rasgadas

Repetimo-nos muito e os nossos comportamentos são quase sempre regulares, isso já sabemos. Na maior parte das coisas que fazemos mais não há do que pequenas variações do que antes fizemos. Invariavelmente, ouço um tipo de música no carro e outro em casa. E ouço um tipo de música quando vou para o surf e outro quando venho do surf. Na ida, gosto do rock quadrado, de guitarras rasgadas ou da pop perfeita, por exemplo, dos “cars and girls” dos Prefab Sprout. A semana passada foi também assim, em sucessivas viagens para o surf não consegui parar de ouvir o novo dos The Strokes – Room On Fire. Sim, não tem o génio (irrepetível?) da primeira vez do Is This It, mas continuam lá as guitarras que parecem puxar-nos para a frente, a voz que parece vinda debaixo de água e a bateria e o baixo que estão ali só para assegurar que o resto é que é essencial. Música com os condimentos perfeitos e viciantes para enfrentarmos as paredes de água. As paredes que se repetem e perante as quais temos um comportamento regular: uma vontade de as percorrer e um desejo de, depois de cada uma, recomeçar de novo. Um desejo intenso como nenhuma outra coisa na vida. PAS


Publicado por pedroadãoesilva em 07:43 PM | Comentários (4)

janeiro 07, 2004

Mar de Aventuras

Quando estou no Alentejo, vou sempre que posso ao velho “Cinema Girassol”. Vou, assim mesmo, esquecendo as estrelas, ou os actores pouco convidativos. Numa semana de sol, calhou-me um filme cheio de água, com viagens e aventuras. Master and Commander, duas horas no mar, entre as ilhas galápagos do médico naturalista e as batalhas no meio das ondas do comandante escondidamente sensível. Mergulhar num bom filme de aventuras para rapazes, daqueles em que os bravos saltam de um barco para o outro, com as cordas entre as mãos e as espadas presas à cintura, é em muito igual ao esquecimento das horas passadas nas ondas. E tudo com lições que ficam das frases certeiras dos opostos – médico e comandante –, que encontram a harmonia na música que, no fim do dia, tocam a dois. A mesma metáfora do surf: a harmonia dos opostos que se encontra quando desenhamos linhas frágeis nas ondas, todas elas força. PAS


Publicado por pedroadãoesilva em 12:45 AM | Comentários (2)

janeiro 06, 2004

O ano do Bodyboard Português

Parece que este é o ano dos bodyboarders portugueses. Chega agora a noticia que Manuel Centeno se sagrou campeão do mundo do circuito World Qualifing Tour. Um feito impressionante e extraordinário. Somos campeões europeus e mundiais. Parabéns aos dois atletas e parabéns ao Bodyboard Português.

Publicado por pedroarruda em 11:48 AM | Comentários (5)

Entrar na água

Por vezes o melhor momento de uma surfada é a primeira remada. Quando lanço o corpo sobre a prancha e arremesso o primeiro impulso com os braços e deslizo sobre a água. Esses breves segundos em que o corpo se familiariza com o mar, em que o mar se abre para nos receber e deixamos para trás a rigidez impenetrável da terra firme e nos entregamos absolutamente à fluidez quase maternal do oceano. Há dias em que para mim esse é o melhor, o mais puro momento da surfada. Quando num click deixo tudo na areia, completamente, e fico só com o mar e as ondas. Quem bebe para esquecer nunca entrou na água como eu. Essas primeiras braçadas em direcção ao outside são como abrir uma janela para o interior do espaço, pleno, absoluto e universal.PA

Publicado por pedroarruda em 01:17 AM | Comentários (2)

janeiro 05, 2004

Endless Summer

Esqueçamos por momentos os elogios ao Inverno. Esta semana no Alentejo esteve quase Verão: sol, calor, água quente e ondas pequenas na maior parte dos dias (mas ao menos não houve nortada). Este poderia parecer um mau cenário, mas não foi. Quatro dias de 2004, ano em que mudo de novo as dezenas, e, premonição ou não, no dia 1 surfei com uma prancha de 8 pés, depois passei para uma 9' 1", e hoje acabei com uma 9' 4". Resultado: descobri as maravilhas do longboard, já encomendei um (confesso que andava há muito tentado!) e percebi que os fins de tarde com o sol a pôr-se no horizonte, as linhas certas e famílias inteiras dentro de água (Portugal está finalmente a tornar-se num país em que o surf é desporto familiar) têm o seu encanto. Claro que, ainda assim, para o próximo fim-de-semana continuo a contar com um swell decente. Mas se ele não vier, também não há problema. PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 12:09 AM | Comentários (0)

janeiro 04, 2004

Imaginar ondas

Ausente de mar o meu coração bate em ânsia de estar na água. Cumpro os rituais, vejo a previsão e consulto os sites, olho pela janela o lado para onde pendem as folhas da trepadeira, elaboro uma carta mental com a previsão exacta do estado do mar para hoje. Quero ir ao mar mas não posso ou não consigo ou não fui eu o suficiente para ir. Hoje o meu corpo não esteve na água, apenas o meu corpo não esteve na água.

Publicado por pedroarruda em 04:53 AM | Comentários (1)

janeiro 01, 2004

Ondas Grandes

O Surf é um desporto de inverno. Apesar de ser no verão que se vêem mais surfistas na água é no inverno que vemos mais e melhores ondas. É também no inverno que há ondas maiores. Apanhar ondas grandes é o “rush” maior de qualquer surfista. Se o Surf é uma droga as ondas grandes são a cocaína do Surf. E é no inverno que as ondas sobem a tamanhos tantas vezes assustadores. É me tão difícil explicar a atracção das ondas grandes como o é explicar o puro prazer das ondas, são coisas intangíveis, são emoções invioláveis, impossíveis de serem dissecadas pelo bisturi da razão que tudo explica. Emoções tão perfeitas e puras e brutas como diamantes. Para alguns surfistas a partir do momento que se começa a surfar um desejo dentro do desejo começa a impulsionar as nossas vidas – ondas maiores. Passamos os invernos à espera que uma depressão seja mais cavada, que o swell tenha a orientação e a duração certas, que os ventos estejam favoráveis, sonhamos com uma conjugação infindável de elementos apenas com um fim – Surfar ondas grandes e cada vez maiores...PA


Para todos os amantes de ondas grandes, em especial para os participantes do Siemens Mobile Bodyboard Special Edition na Nazaré.

Publicado por pedroarruda em 10:53 PM | Comentários (3)