dezembro 31, 2003

Regresso à Terra

a ouvir o Reveries do Paolo Conte

Depois de quatro dias em que os ventos, as ondas e o sol estiveram unidos, chegou o momento de voltar à Terra. É sempre assim. Há uma altura em que se acorda cedo, com a esperança de que tudo se repita e se parte à procura e, no entanto, para onde quer que se olhe, ao longo da costa, os elementos não estão do nosso lado. As razões confundem-se: o swell que desapareceu, os fundos maus onde a costa deveria receber o mar maior ou os ventos que não estão de feição. Pouco interessa. Temos de saber regressar à Terra. E para regressar à Terra ajuda estar nas dunas, a sentir o vento Norte na cara e olhar para o mar que subitamente ficou escuro. Mas ajuda ainda mais encontrar o reconforto na música dos homens. Pode parecer que não tem nada a ver com o surf – nem mesmo o facto de ter sido o seu amigo Hugo Pratt (que fez com que o Corto Maltese existisse) a convencê-lo que a voz rouca de sabedoria era para cantar – mas o Paolo Conte, que é duma estirpe de que gosto, tem, nele, muito do que está, para mim, no surf. Como a música que nos muda a vida e como o mar que se confunde com a vida, a sua voz densa e grave fala com claridade das coisas indizíveis e para as quais olhamos com segredo. É preciso buscar, sabendo que não se vai encontrar, e voltar à Terra, para, depois, com claridade, podermos fazer também nossos os segredos que são do Mar, dos Ventos e do Sol. PAS

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Um bom 2004

Pedro Arruda

Publicado por pedroarruda em 07:46 PM | Comentários (1)

dezembro 30, 2003

Mar

I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.

Sophia de Mello Breyner Andresen

PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 12:31 AM | Comentários (0)

dezembro 29, 2003

Rabo de Peixe

Certos locais só são conhecidos pelas piores razões. Hoje surfei em Rabo de Peixe. Glass sem vento, ondas de metro e meio dois com alguns sets, poucos, a fecharem a baia. Para o que costuma ser estava crowd, oito dentro de água. Para mim foi o fim de festas ideal, consegui até fazer um pequeno tubo numa das intermédias. Estava sol, as esquerdas buracosas de Rabo de Peixe quebravam quase clássicas com alguns drops a lembrar os melhores dias deste pico. Sai da água perto do meio dia depois de duas horas e meia de ondas com um daqueles sorrisos interiores que parece que cobrem a alma.

Rabo de Peixe é uma das freguesias mais pobres da Europa. O bairro de pescadores, chamado do caranguejo, que sobe do porto de pesca até ao largo da Igreja é um dos aglomerados de gente e casas mais desventurado que alguma vez vi. As razões dessa pobreza são muitas e antigas, mas podem ser explicadas duma forma simples, as gentes de Rabo de Peixe são gentes do mar que vivem as suas vidas numa ilha e num tempo que virou as costas ao mar.

Hoje de noite o Prof. Marcello relembrou a uma certa parte do país que Rabo de Peixe é uma das nossas mais pobres freguesias. Disse, também, que ai serão investidos mais uns tantos milhões de euros. Eu já assisti ao afundar de milhões de euros em betão sem que uma vida fosse modificada, já vi erguer molhes sem que um barco tivesse o seu rendimento melhorado, já presenciei o destruir de uma onda e um filho de pescadores aprendendo a surfar. Eu desconfio dos milhões dos políticos. Tenho amigos em Rabo de Peixe, tenho amigos que se esforçam pelas pessoas de Rabo de Peixe, espero que um dia Rabo de Peixe seja conhecido por outras razões que não a pobreza e que uma desses razões sejam as ondas. As excelentes esquerdas que quebram sobre as rochas na baia de Rabo de Peixe.


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dezembro 28, 2003

As palavras dos outros

O companheiro José Tolentino Mendonça escreveu-nos sobre as ondas, sem as quais o surf naturalmente não existiria. Porque a blogosfera é também o espaço da apropriação das palavras dos outros, uso aqui as palavras do companheiro secreto, como elas foram escritas. PAS

“No início da era Meiji, havia no Japão um famoso lutador que se chamava O-Nami, Grandes Ondas. O-Nami era forte e conhecia como ninguém a arte da luta. Quando lutava em privado, era até capaz de vencer o próprio mestre, mas em público tornava-se tão inseguro que os seus alunos o derrubavam.
Foi então que O-Nami partiu em busca de um mestre Zen, no mosteiro de Hakuju. «Chamas-te Grandes Ondas», disse-lhe o mestre. Imagina que és, não um lutador amedrontado, mas as próprias vagas. És as ondas enormes que nada deixam diante de si. És o seu turbilhão azul, verde-chumbo, negro e outra vez azul. Sê isso e nada te poderá vencer».
O mestre deixou-o só. O-Nami permaneceu em meditação, procurando imaginar-se a si como uma onda. A princípio, perdia-se nos pensamentos mais variados. Depois, pouco a pouco, abandonou-se à sensação das ondas. E estas cresciam, galopavam, tornavam-se cada vez maiores. Tudo devastavam diante de si: o jardim de areia do claustro, os gonzos da grande porta, as traves cruzadas daquela morada. Submergiram até o Buda e o seu altar. Antes da aurora, o templo de Hakuju mais não era que o fluir e o refluir incessantes do mar imenso.
Pela manhã, o mestre encontrou O-Nami absorto na meditação e tocou-lhe levemente no ombro: «Agora nada poderá perturbar-te. Tu és aquelas ondas». E, de facto, em todo o Japão, nunca mais ninguém conseguiu vencê-lo.”

Publicado por pedroadãoesilva em 12:43 AM | Comentários (2)

dezembro 26, 2003

continuação de boas festas

Waimea Shorebreak

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dezembro 25, 2003

O campeão do mundo

O Andy Irons ganhou há dias, pela segunda vez consecutiva, o campeonato do mundo de surf, numa disputa ombro a ombro com o não-sei-quantas-vezes campeão do mundo Kelly Slater. A verdade é que, para mim, o campeão do mundo continua a ser um: Tom Curren. O meu primeiro herói no surf, que ganhou apenas três vezes o circuito, e que tinha uma linha inconfundível, simples e depurada. Uma linha que hoje, com a sobrevalorização do surf circense, todo ele manobras acrobáticas, não daria para ganhar muitos campeonatos (ainda há uns tempos li que um dos problemas do Tiago Pires no circuito mundial era ter um estilo demasiado currenizado (SIC)). Acontece que passa o tempo e ficamos sempre agarrados aos nossos pequenos mitos iniciáticos. Quando comecei a fazer surf, era o Curren quem mais ordenava. Lembro-me, ainda que de modo desfocado, dum campeonato em Ribeira de Ilhas, já lá vão seguramente mais de dez anos, em que o vi a surfar. Um estilo simples, arredondado, onde a harmonia com a onda era o que contava. Nada de supérfluo, nem uma gota de água desperdiçada. Quem viu os round-house cutbacks do Curren, que eram lentos, sem a potência e a velocidade por vezes excessiva com que hoje são feitos, sabe do que falo. Quando víamos as fotos do Curren todos ambicionávamos ter linha na onda. Mas, hoje, o que se vê são miúdos incrivelmente virtuosos, que em cada onda fazem um número infindável de manobras, mas que depois têm falta de linha de surf. Ou se calhar o problema é só meu, do modo como vejo o surf, que não mudou desde o momento que pela primeira vez comecei a olhar para ele. Afinal é sempre assim. Com o tempo, muda pouco o modo como vemos as coisas e ficamos agarrados aos primeiros símbolos e afectos. E o surf é igual a tudo o resto. PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 07:37 PM | Comentários (0)

dezembro 24, 2003

Merry Christmas dudes

Rusty Long, Cortes Bank (um banco de areia no alto mar ao largo de San Diego)

Publicado por pedroarruda em 01:18 PM | Comentários (0)

dezembro 23, 2003

partituras

Raramente, acho mesmo que nunca, canto no duche. Tenho uma péssima voz e, para grande pena minha, não sei tocar nenhum instrumento, nem mesmo ferrinhos. Mas adoro música. Posso mesmo dizer que sem ondas, música e livros não vivia, ou vivia mas mais triste. Porém no mar canto. Quando estou a surfar canto muito, para dentro só para mim trauteio melodias familiares, versos de temas preferidos, pequenos excertos de canções que por uma razão ou por outra retive na memória. Para mim é normal estar a passar a rebentação e cantar, esperar por um set e cantar. Se calhar é por causa do balanço, do ritmo das ondulações. A música faz-me companhia no mar. Talvez por as coisas importantes serem sempre difíceis de explicar tinha, até agora, evitado falar de música e de discos aqui no blog. Descrever a emoção de um tema amado é tão impossível como a de uma onda surfada. Mas este blog, no fundo, é um blog de coisas impossíveis.

Existem muitos outros temas, de que, provavelmente, falarei noutra altura, mas se tivesse que referir o tema que para mim melhor reflecte o prazer de surfar seria este: Surfboard de António Carlos Jobim no álbum António Brasileiro.

A partitura musical perfeita para a coreografia da prancha no palco da onda em movimento. PA

Publicado por pedroarruda em 06:46 PM | Comentários (0)

a verdade desportiva

é o que dá ler as coisas na diagonal, apressei-me e fui induzido em erro, penitencio-me repondo a verdade desportiva. Este sim é o Hugo Pinheiro, o outro era o Rui Ferreira (também ele um dos grandes nomes do Bodyboard em Portugal). Ao Hugo e ao Rui o meu pedido de desculpa. E, mais uma vez, Parabéns Hugo.

Hugo Pinheiro
Campeão Europeu de Bodyboard 2003

Publicado por pedroarruda em 03:07 PM | Comentários (0)

A vingança perfeita!

Quase morri de inveja ao ver a foto das ondas que o Pedro Adão e Silva surfou este fim de semana em São Torpes, não porque ele as tenha surfado, mas por não ter estado lá! Dificilmente alguém entenderá a angústia que sente um surfista quando sabe que perdeu um dia clássico. Eu, qual escravo do trabalho, não faço surf há quase duas semanas! Pode parecer perfeitamente normal para qualquer desportista de fim de semana, mas para um qualquer surfista assume contornos de verdadeira tragédia. Felizmente, que o mesmo trabalho que me roubou das preciosas Ondas faz agora uma pequena pausa natalícia (ah como eu gosto do Natal!) e vai permitir que durante dez dias possa disfrutar da sua companhia sem qualquer outro tipo de preocupação, só eu e elas, as ondas! Depois de distríbuídos os presentes e, ainda com a tradicional ceia a pesar-me na consciência, embalo as pranchas e sigo também para o Sul! Não para o Sul de Portugal, mas para o de Marrocos, onde por esta altura do ano o clima é mais ameno e a àgua menos fria. Ouvi dizer que muito mudou desde que lá fui, há cinco anos atrás, que até já existe uma SurfShop (!), mas certamente que as cabras continuam a trepar as àrvores e que as longas direitas de Ancre Point e as paredes tubulares de Mysterys continuam iguais, ou seja, perfeitas como as que desenhei durante as infindáveis reuniões dos últimos dias. Perfeitas para vingar a minha ausência durante as últimas lestadas!HV

Publicado por HV em 12:27 AM | Comentários (0)

dezembro 22, 2003

Paraísos Terrestres

Sempre que posso. Sempre que posso, saio daqui e espaireço no Sul. Mesmo aqui ao lado, a menos de duas horas de distância de Lisboa, começa o país de que mais gosto. Gosto sempre, mas de modo diferente no Inverno, quando a terra muda de cor e, ainda que durante pouco tempo, convive o vermelho, quase ensanguentado, com um verde, que parece não lhe pertencer. Naquele lugar, onde a terra é como o mar, a perder de vista, há pequenos paraísos terrestres. O Proust, que se enganava em muitas coisas, dizia que os verdadeiros paraísos eram aqueles que perdemos. Quando vou para o Alentejo, e vejo os campos, com o mar ao lado, sei que não é assim. As ondas perfeitas de ontem e hoje, o sol que apareceu, o ambiente descontraído em São Torpes, são parte de um paraíso que existe mesmo e ao qual sei que posso sempre regressar. Quando o próximo swell vier, e com ele o vento fraco de leste, a mim basta-me ir para o Sul para o reencontrar. O surf não é só fuga e contemplação, é também, ou acima de tudo, um desejo de felicidade que, nuns quantos dias, quando os elementos estão do nosso lado, se torna realidade. PAS


São Torpes (ontem e hoje estava melhor)

Publicado por pedroadãoesilva em 12:18 AM | Comentários (5)

dezembro 21, 2003

the stuff legends are made of

A História é feita de mitos e de lendas e de personagens transcendentes que nos fascinam e estimulam e nos fazem sonhar. O desporto tem igualmente os seus heróis e momentos especiais e o Surf, por maioria de razão, também. Os golos do Eusébio no mundial de Inglaterra em 1966, as fintas do Maradona, a Rosa Mota e o Carlos Lopes, Lance Armstrong, o FCP a ganhar a Taça Intercontinental, e tantos outros momentos e pessoas que marcaram para sempre a nossa história. Faço esta introdução para que quem não faz surf possa por em perspectiva o que vou dizer a seguir. A final do Pipe Masters, que se desenrolou na sexta-feira passada foi um momento épico, um daqueles momentos que marcam a história, que deixam a sua impressão digital em quem os vive, um momento em que se criam mitos. Um extraordinário atleta conquistou nesse dia o estatuto de lenda num desporto onde até o respeito de outros surfistas é conquistado a muito custo. Andy Irons foi um dos protagonistas de uma luta digna dos romances de cavalaria, onde os dragões foram substituídos por ondas e o reino do Rei Arthur foi revivido nas praias do North Shore de Oahu no Hawaii. Não pensem que estou a exagerar, não estou.

Este ano o circuito mundial de surf, agora chamado de World Championship Tour, foi disputado até ao fim como nunca antes tinha acontecido. Taco a taco, campeonato a campeonato, onda a onda até aos últimos trinta minutos em Pipeline Andy Irons e Kelly Slater mantiveram uma luta extraordinária, como raramente se tinha visto no mundo do surf. Slater, o génio, a lenda viva, o melhor surfista de todos os tempos, depois de já ter ganho tudo, mesmo TUDO, de se ter afastado e viajado pelo mundo em busca... de ter voltado à competição com o seu equilíbrio reencontrado, de se ter tornado o primeiro milionário do surf, de ter reconquistado a vontade de vencer, pôs todo o seu surf em campo este ano para se sagrar pela sétima vez campeão do mundo. Irons, o campeão em titulo, o mais radical e consistente surfista do momento, o portento havaiano, demonstrou que não existem limites para quem acredita. Irons foi um justíssimo vencedor. Foi mais forte física e mentalmente, conseguiu sempre manter um nível de surf altíssimo, até ao fim e acabou o ano no topo.

Mas o mais memorável nesta vitória é que não foi conquistada a custa de derrotados. Kelly Slater, perdeu desta vez a hipótese de ser campeão mundial pela sétima vez, mas ganhou um companheiro no reino das lendas do surf. Não foi Slater que caiu foi o panteon do surf que abriu as portas para receber o seu mais novo membro, o campeão Andy Irons.

A muitas léguas de distância, noutro oceano, escutei em directo via internet o relato radiofónico do último dia do Pipe Masters, como noutros tempos se ouvia na radio os grandes acontecimentos. Na minha idade posso dizer que nasci no tempo de Gerry Lopez e Mark Richards, que cresci com Tom Curren e Tom Carrol, mas que vivi na época de Kelly Slater e Andy Irons.PA

Andy Irons


P.S. Somos feitos de várias coisas, para mim, o Surf é uma delas.

Publicado por pedroarruda em 11:56 PM | Comentários (0)

dezembro 20, 2003

and the winner is...

Andy Irons

XBox Gerry Lopez Pipeline Masters
The Vans Triple Crown of Surfing
World Championship Tour 2003

Andy ganha tudo o que tinha para ganhar este ano e de forma convincente.

Congratulations


Publicado por pedroarruda em 03:17 AM | Comentários (1)

A grande final

Andy Irons e Kelly Slater na grande final. A mais entusiasmante final do World Championship Tour de sempre.

Publicado por pedroarruda em 02:08 AM | Comentários (0)

desejo de surf

Entre um heat e outro heat, descubro um desejo de casamento..
Casar não digo, mas aulas de surf e bodyboard gratuitas é só pedir.

Publicado por pedroarruda em 12:59 AM | Comentários (0)

quem será??

Uma corrida renhida até ao fim. Neste momento Andy e Kelly, cada um numa meia final, quem terminar à frente ganha. Se conseguir ficar acordado até ao fim, prometo postar o meu comentário mal saiba o resultado.

Publicado por pedroarruda em 12:42 AM | Comentários (0)

dezembro 19, 2003

Saber Esperar


O surf não é só a acção e o movimento, é também a contemplação e a espera. Uma improvável contradição entre a energia absoluta e uma bonança que chega logo a seguir, de imediato. Aquilo que para os que estão de fora parece estranho, as esperas intermináveis sentados nas pranchas, é, para nós, parte da acção. Ser contemplativo e saber esperar é o outro lado do mesmo jogo. É também isso que se está a passar em Pipeline, onde a espera por condições perfeitas para escolher o novo campeão do mundo continua. PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 05:06 PM | Comentários (1)

dezembro 18, 2003

No mar

O mar é o meu aconchego. Quantas e quantas vezes me refugio no mar, longe da monotonia dos dias, buscando o vasto e ilimitado prazer das ondas, a ausência absoluta dos pequeníssimos destinos da vida de todos os dias. Mais do que num bar ou sob o mar, é na curva de uma onda em movimento que me escondo do sol e do desapontamento das coisas fúteis, dos momentos inúteis. No mar tenho plenitude e vazio e nisso tenho tudo. O prazer das ondas, como o prazer do amor, é eterno porque é sem palavras... PA

Publicado por pedroarruda em 12:59 AM | Comentários (1)

dezembro 17, 2003

In a bar, under the sea

Lembras-te Pedro,
Era antes do trabalho e no tempo das grandes férias.
Já lá vão sete anos. Tu andavas às voltas com o Antero, para quem os dEUS escreveram esta música, ainda não havia o México nem o reencontro com os Açores. Eu, às voltas com o fim da sociologia, fazia, por essa altura, menos surf do que devia. Desde que saiu este disco, temos vivido aqueles anos que não admitimos que ninguém diga que são os melhores das nossas vidas. E enquanto os tempos passam, vamos reencontrando no surf a serenidade. A música serve também para isso. Nos últimos dias, andei muito de carro e, sem saber bem porquê, ouvi outra vez este cd dos dEUS, que parece já de outros tempos. É quase impossível não gostar do “disappointed in the sun” e, entre a chuva, não deixei de pensar no bar debaixo do mar como metáfora do surf. A forma como o Tom Barman começa a gritar a meio da música não se sente no blog, mas só ouvindo esses gritos podemos perceber como a música, na simplicidade singela da letra, combina a calma que há nos tempos de espera do surf com a energia absoluta do movimento do apanhar das ondas. E tudo acaba em calmaria, com um “I wonder”, já fugidio e sussurado.

Need I say my only wish was
To escape my earthly life
High skies were no option whereas
Diving deep in ocean wide
Was the way for me, to hide away
A possibility, to leave today
(...)
Under the sea, is where I’ll be
No talking ‘bout the rain no more
I wonder what thunder will mean, when only in my dream
The lightning comes before the roar
Under the sea, down here with me I find I’m not the only one
Who ponders what life would mean if we hadn’t been
So disappointed in the Sun

And that’s why we’re thinking,
That’s why we’re drinking in a bar under the sea

PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 08:32 PM | Comentários (3)

dezembro 15, 2003

O meu sonho de Corto

O meu camarada Pedro abriu uma caixa quase tão funda e selvagem como a de Pandora, uma caixa que contém enormes oceanos por navegar e por surfar. Ao invocar a imagem e o espirito de Corto Maltese, o Pedro, invoca um universo espiritual que há muito me conquistou. Para mim surfar é uma forma de religiosidade, é uma comunhão quase mística com algo sublime. A mesma comunhão que Corto tem com o mar e com a Liberdade. A grande catedral onde Corto encontra o seu Deus é a catedral da Liberdade e não há melhor metáfora para isso do que os vastos oceanos sem fronteiras nem governos que nos impeçam de os navegar. O mar é, também, para os surfistas o verdadeiro templo onde a alma e o espirito se unem em comunhão com o inexplicável. Um dos meus maiores desgostos sempre foi não saber velejar, estar preso na orla dos oceanos sempre sonhando com vastidões de mar e horizontes marinhos 360º em torno de mim. As ondas são apenas uma parte do oceano, são um abraço do mar com a terra, mas são um pequeno detalhe do Oceano. Nas infindáveis navegações de Corto pelos oceanos da Terra, encontrei um ideal de vida que espero guardar para sempre, uma liberdade interior comparável apenas com a liberdade que vejo no interior de um tubo, num set que se aproxima, no dropar uma onda e vê-la ganhar forma e vida, na diversidade de momentos e de sensações que cada surfada me dá. Estou, estive desde sempre, a preparar a minha própria volta ao mundo. Só ainda não zarpei porque viver numa ilha é como viver num barco eternamente ancorado no mais profundo dos oceanos.PA

Publicado por pedroarruda em 06:01 PM | Comentários (2)

Ainda a propósito do Mar Salgado

“if we are always arriving and departing, it is also true that we are eternally anchored. One’s destination is never a place, but rather a new way of looking at things.”
Henry Miller

Há rostos, imagens e palavras que nos dizem tudo sobre o mar e o resto da vida. O Corto Maltese, que para mim existe mesmo, ou existiu, podia ter dito esta frase do Henry Miller, que, por sua vez, podia ter sido escrita a pensar no surf, que nenhum dos dois fez. Mas, sendo verdade que a culpa é do Hugo Pratt, que se esqueceu de fazer com que o Corto se perdesse nas ilhas do Hawai, no fundo a culpa é sempre e apenas do modo como olhamos para as coisas.

PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 01:05 PM | Comentários (1)

dezembro 14, 2003

Parabéns


Hugo Pinheiro
Campeão Europeu de Bodyboard 2003

Publicado por pedroarruda em 11:21 PM | Comentários (3)

dezembro 13, 2003

Master Slater

Kelly Slater, Pipeline. 13/12/2003
E é o delírio no estádio.

Tal como Kelly Slater, também Andy Irons passou para a terceira ronda do Pipe Maters. O Show continua na terça-feira.

Publicado por pedroarruda em 11:31 PM | Comentários (0)

Pipe Masters...

Primeiro dia de prova, ontem, do Pipe Masters. Fase dos trials, 31 surfistas dos quais apenas nove não eram havaianos, eram “haolees”. No fim passaram ao evento principal 9 havaianos. Um sinal de que no Hawaii ainda mandam os locais. Nunca estive no North Shore, mas ao fim de tantos anos a estudar detalhadamente incontáveis fotografias de Pipeline posso, com segurança, dizer que esta não é uma onda qualquer e a experiência em Pipe conta muito. Afinal, pelo caminho ficaram nomes como Rob Machado e Joel Tudor. Para hoje está prevista a continuação da primeira ronda e logo no primeiro heat do dia é Andy Irons que entra na água, logo depois Kelly Slater, a coisa deve arrancar aí pelas quatro, cinco, da tarde hora de Portugal, vale a pena ficar atento, algum deslize e o campeonato do mundo pode ficar decidido.

Derek Ho, um dos 9 "black trunks" que conquistou um lugar no main event e continua em prova. Cool under pressure.

Publicado por pedroarruda em 03:09 PM | Comentários (0)

dezembro 12, 2003

O Havaí é aqui


"O Havaí seja aqui
Tudo o que sonhares
Todos os lugares
As ondas dos mares"

Caetano Veloso, Menino do Rio
PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 06:34 PM | Comentários (2)

Pipeline

O espectáculo vai começar.

Publicado por pedroarruda em 06:17 PM | Comentários (5)

Havaii

O início do ano costuma ser época de muitas promessas e com a mesma facilidade com que se fazem assim também se esquecem! Nesse campo costumo antecipar-me, e lá pelo meio de Dezembro volta a mesma de sempre: "Para o ano não falho, tenho de estar lá, no Havaii!" É um daqueles lugares que sinto que tenho de ir, nem que seja para descobrir que não vou querer voltar. Não tenho sequer a esperança de apanhar muitas ondas, que o Havaii dizem não é local fácil, mas só o facto de poder assistir a um campeonato em Pipe, bem de perto, quase que paga a viajem, e logo este ano que a disputa pelo título dificilmente podia estar mais quente! E por falar em calor, ontem quase me congelavam os pés de tão fria que estava a água, será que ainda preciso de mais razões para partir? Para o ano não falho, vou estar lá...prometo! Entretanto este ano fico-me pelo plano B de fuga do frigorifico, e devia talvez iniciar uma nova promessa, "para o ano mudo-me para um país tropical", quem sabe um dia cumpro! HV

Publicado por HV em 01:00 AM | Comentários (2)

dezembro 11, 2003

The Go-Betweens

Há mais ou menos duas décadas que os senhores Robert Forster e Grant Mclennan, escondidos por detrás de uma banda fantástica – os The Go-Betwens –, fazem canções pop perfeitas. Assim mesmo, pop. Guitarras suaves, vozes harmoniosas e melodias que não nos largam mais. Canções perfeitas para ouvir antes de entrar na água ou perfeitas para ouvir a pensar na água. A verdade é que durante uns dez anos suspenderam a carreira conjunta, mas, em 2000, voltaram com um excelente álbum e o ano passado reincidiram, com direito a um memorável concerto em Lx. Não sei se algum dos dois Go-Betweens faz ou fez surf. Australianos como são, é provável que sim. O que sei é que entre as muitas músicas deles que trauteio para mim, está uma com que regressaram, chama-se “Surfing Magazines” e tem toda a simplicidade pop e, para além do mais, o espírito certo para explicar os sonhos de olhos abertos que todos os surfistam tiveram. Os sonhos que tivemos e temos a ler a Fluir, a Surf Portugal, a Surfer, a Surfing.....

"We used to get our kicks reading surfing magazines
Some good looking people wearing
Lee Cooper jeans
They're breaking on the headland, they're breaking on the shore
And when you're living in Hawaii they're breaking at your door

We used to wet our fingers on surfing magazines
Going to throw school and follow those scenes
Going to get a Kombi and go from beach to beach
Be the kind of people the Authorities can't reach

We used to get our kicks reading surfing magazines
Wake up in the morning and the waves are clean
Standing on the headland taking in the scene
Just like they do it ... in surfing magazines".
PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 03:18 PM | Comentários (0)

dezembro 09, 2003

Anos 80

Quando comecei a apanhar ondas e o mar se tornou o centro da minha vida ainda não havia o Portugal Radical. Nesse tempo era mais fácil ver um bom filme na televisão do que uma imagem de surf perdida no meio da programação. Acho mesmo que na altura a expressão “desportos radicais” não existia. Lembro-me vagamente de ver um Domingo Desportivo com uma reportagem sobre um campeonato de “morey-boogie” (assim mesmo) disputado em Ribeira D’Ilhas, ganho pelo Miguel Therriaga, que fazia El Rollos na espuma e eu ficava extasiado. Depois apareceu o Eurosport que lá de vez em quando dava um programa com imagens de surf e bodyboard, mas era muito de vez em quando. Nesse tempo aprendíamos com as revistas e uns com os outros, dentro de água. Nomes anteriores à geração “portugalradical”: Rodrigo Bessone e Miguel Simões, “Bubas” e “Frei Tuck”, Miguel Fortes, João Antas, Zé Seabra, e estes são só os que me vêm imediatamente à cabeça, se ficasse aqui mais um pouco a lista aumentava. Era um tempo em que as ondas não eram uma moda, era uma paixão partilhada em silêncio por uma minoria de jovens e menos jovens nas margens do que se entendia por normalidade. Estávamos a meio, finais, dos anos 80 e Portugal era muito diferente. Depois o Henrique Balsemão deu a conhecer os “desportos radicais” ao país e foi a explosão.

Este meu regresso ao passado vem a propósito de uma pequenina noticia que li no Blitz que dá conta que o programa Chili Factor vai ser retirado da programação, dizem eles que não tem audiência. Acredito. As poucas vezes que vi não gostei, talvez eu seja antiquado, mas pareceu-me demasiado forçado, um “radicalismo” estudado, sem alma, sem personalidade, uma coisa feita por um punhado de produtores, sem duvida muito profissionais no seu trabalho, mas que, julgo eu, nunca devem ter apanhado uma onda na vida. A relação desta noticia com o Portugal Radical é a seguinte. Apesar de ter sido um fenómeno impressionante e de ter impulsionado de forma quase assustadora a evolução dos desportos radicais em Portugal, ao fim de uns tempos o programa foi perdendo audiência e foi sendo chutado para horas cada vez mais desajustadas até ter acabado. Por natureza quem pratica estes desportos está pouco em casa, o ar livre é o habitat natural dos surfistas, sentar no sofá a ver televisão só por um motivo muito especial, foi por isso que o programa acabou, o Francisco Penim já devia saber isso, surfista que é surfista não perde tempo com televisões mesmo que sejam radicais. Quando começámos o Blog falei vagamente nisto e esta noticia de hoje do Blitz veio dar-me razão, quando não estou a surfar e quero ver surf tenho revistas e dvd’s que posso pôr no ar quando quero, programas de televisão em horários estúpidos não são para surfistas, o meu relógio é o das marés e das ondulações, essa é a unica programação que eu sigo.

Publicado por pedroarruda em 11:55 PM | Comentários (6)

Afastar Fantasmas Educados


Quando visto o fato e pego na prancha e já dentro de água, mas ainda não deitado na prancha, dou os primeiros passos antes das primeiras espumas – aquelas espumas pequenas, que não têm ainda a força que nos empurra para a areia – costumo sentir um desligar, cujo primeiro sinal é ouvir um eco da minha voz. Nada disto é misticismo, pelo contrário, é a razão que fica pura, compartimentada apenas por água. Em poucos sítios se pensa com uma clareza tão absoluta e tão pouco censurada.
Faço surf porque gosto de fazer surf, e gosto do resto que vem com o apanhar das ondas. Mas faço surf também porque dentro de água afasto os “fantasmas educados” em que encostamos a cabeça e de que falava a Natália Correia (num dos mais bonitos e brutais poemas em português, feito música pelo José Mário Branco), e, depois, posso voltar à areia para os enfrentar de novo, com redobrada força. Sirvo-me do mar, uso-o para aquilo que é mais difícil ter: um desassossego, mas um desassossego habitado por "personagens do assombro". É só a seguir que chega a serenidade. PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 12:53 PM | Comentários (5)

dezembro 08, 2003

Pipe Masters

Começou hoje o tempo de espera do X-Box Gerry Lopez Pipeline Masters. É a Superbowl, a final da Champions League, a America's Cup do surf. E este ano será ainda mais emocionante do que o habitual. Para acompanhar de perto.

Publicado por pedroarruda em 11:07 PM | Comentários (0)

dezembro 07, 2003

dias passados em oceanos diferentes

Hoje foi um quase perfeito dia de inverno. Sol, o céu azul, a água transparente, cristalina, muito pouco vento, apenas uma brisa, glassada e umas direitas de metro e meio a quebrarem perfeitas e, apenas, cinco pessoas na água. Para quem não surfava há já uns dias foi quase perfeito.

Entretanto no meio de outro Oceano, que não o nosso, o mundo do surf espera por amanhã e que esta onda e a sua irmã gémea comecem a bombar...

Publicado por pedroarruda em 11:37 PM | Comentários (0)

dezembro 06, 2003

Andy Irons

Kelly Slater


Um destes dois génios das ondas vai ser o próximo campeão do mundo de surf.


Publicado por pedroarruda em 01:21 AM | Comentários (1)

dezembro 05, 2003

o miúdo que queria ver o mar


O companheiro secreto José Tolentino Mendonça, que dá-se o caso de ser um enorme poeta português, conta a história, relatada no jornal La Reppublica, de um miúdo que deixou a sua escola, perto de Roma e esteve desaparecido por cinco horas. Alarme lançado por pais e professores, a polícia acabaria por encontrá-lo na marginal de Óstia, são e salvo. «Tinha vontade de ver o mar», explicou o miúdo de 11 anos às autoridades.
Os dias da semana vão passando, uns atrás dos outros, e a minha vontade de ver o mar vai crescendo. Sentado na secretária, enredado pelo trabalho, penso todo o tempo no mar. E quando penso no mar sou como um miúdo, o meu pensamento é todo ele espaço e o tempo desaparece. Eu preciso de ver o mar; eu quero ver o mar. PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 05:33 PM | Comentários (2)

dezembro 04, 2003

Partilhar para proteger

A continuação do meu último post, sobre o elogio da partilha é a rejeição total e absoluta do “localismo”. E, para citar o meu camarada de blog Pedro Adão, nem de propósito, hoje no Público, uma muito curta noticia dava conta da preocupação das autoridades australianas com relação ao aumento de conflitos entre surfistas nas praias de Sydney, conflitos provocados pelos chamados “locais”. Em traços gerais a situação é esta: na Austrália o Surf é um desporto nacional e da mesma maneira que em Portugal quando faz bom tempo não há relvado deste país onde não corra uma bola de futebol, na Austrália com a chegada do verão as praias ficam lotadas de surfistas, ora os “locais” que surfam todo o ano, “no matter what”, reagem como se fosse uma invasão alienígena e pega a dar paulada, não nas ondas mas nos “outros” surfistas. A, muito curta noticia, ainda adiantava que as regras que iam ser impostas não seriam bem vistas pelos surfistas porque o surf é “um desporto em que a palavra “liberdade” é sagrada”.
Bom, na minha opinião, não existe liberdade sem respeito. O localismo é uma manifestação da mais primária falta de respeito, é uma forma de racismo e como tal básica e estúpida. Só é “localista” quem nunca viajou e os verdadeiros surfistas são os que nutrem sempre o desejo de viajar, de procurar outras ondas porque, como já aqui postei, não existem duas ondas iguais e a natureza do tipo de liberdade que caracteriza os surfistas radica, precisamente, nessa necessidade incessante de procurar novas ondas para surfar, sempre.
Outra perspectiva que gostava de aqui deixar é esta: o “localismo” é potencialmente responsável pela destruição de muitos picos. Qualquer onda que permaneça secreta, apenas do conhecimento de alguns, corre o risco de não poder ser defendida quando for ameaçada por quem não tem um pingo de respeito pelo mar, pelas ondas, quanto mais pelos surfistas. É este o caso da Madeira, é também e de uma forma ainda pior o caso dos Açores e só não foi, totalmente, em Santo Amaro, porque aí, como na Austrália, já quase que há mais surfistas que futebolistas. Tenho discutido muitas vezes com amigos meus se nas revistas deve ou não ser referido o nome e a localização dos picos, a minha opinião é que sim na grande maioria dos casos. Só se os bons spots forem conhecidos, surfados e respeitados, tanto pelos surfistas como por quem só vê as ondas de terra, só assim se conseguirá defender esses spots. Aqui em São Miguel já duas óptimas ondas foram aniquiladas pela fúria destruidora do dinheiro, do betão e da ignorância. Foi impossível a um pequeno grupo de amantes de ondas impedir que isso acontecesse. Só um grupo grande e abrangente de surfistas livres, respeitados e respeitadores pode fazer frente a tais ameaças e, desde que não estejam frente a ditadores de província, de pouca visão e pouco mundo, podem-se mesmo criar alternativas que vão ao encontro de todos. Na Austrália, em Surfer’s Paradise um grave problema de erosão de areias foi combatido com a criação de reefs artificiais e não com paredes de betão e ignorância. Pedro Arruda

Cottesloe, West Australia. Reef Artificial.

Publicado por pedroarruda em 07:54 PM | Comentários (0)

dezembro 03, 2003

o espírito de partilha

O surf moderno é uma actividade solitária. Mesmo numa praia como Carcavelos ao fim-de-semana cada um dos milhares de surfistas na água estão a sós, eles e as ondas. Uma das regras mais importantes do surf, actualmente, é ela mesma representativa desta solidão. Uma onda um surfista. Nada é pior para um surfista que um dropinanço, nem mesmo levar com um set todo na cabeça. A lei da prioridade retém essa essência individualista do acto de apanhar ondas. Assim, a sós com as ondas, os surfistas criam um enorme muro entre eles e o resto da sociedade. Não sendo o surf actual, infelizmente, um desporto colectivo é extraordinariamente difícil explicar ao resto das pessoas o valor global de uma onda, uma onda que seja. Quem nunca apanhou uma onda não vê mais do que uma banalidade nesse fenómeno, as ondas não são únicas, são banais, estão sempre lá, vindas do mar, umas maiores, outras mais pequenas, ininterruptas, sem mais utilidade nenhuma que não seja dar vazão aos sonhos dos surfistas, essa imensa minoria de surfistas que habitam as costas do mundo. Para o resto das pessoas, para a maioria, as ondas não servem para nada. Nos dias de hoje, quando as ameaças que pairam sobre o futuro da Terra são de tal maneira graves, cabe a todos os surfistas, a cada um de nós que sabe dentro de si a emoção de uma onda, cabe-nos a obrigação de partilhar com os outros, os que não sentem as ondas, essa emoção. A tarefa de defender as ondas começa na defesa do meio ambiente, na luta pela sustentabilidade, na preservação e na partilha dos recursos. O nível da água do mar está a subir. Provavelmente num futuro não tão longínquo como desejaríamos os passeios marítimos e as avenidas litorais do Dr. Alberto João Jardim serão submarinos mas, nessa altura, Teahupoo, Pipeline, os Coxos e outras ondas terão, também, desaparecido.

Duke Kahanamoku, embaixador do surf e do espírito Aloha


Se não começarmos já a partilhar o prazer das ondas com quem nunca surfou será impossível passar a mensagem de quanto é importante preservar uma onda. Uma ideia que todos os surfistas de hoje deviam ter bem presente é que se os antigos havaianos não tivessem partilhado as suas ondas, ou se Duke Kahanamoku não tivesse ensinado tanta gente pelo mundo fora a surfar nenhum de nós saberia o que é surfar. Também eu procuro a maneira ideal de fazer passar essa mensagem de amor pelo mar e pelas ondas e de partilha, talvez este blog seja uma forma de o fazer, julgo, no entanto, que o mais importante é a atitude, como no nome desse fórum que me fizeram descobrir, a atitude dos surfistas dentro e fora de água, de uns com os outros e para os outros. Uma atitude que obrigue quem nunca surfou a respeitar as ondas e, a seguir, a respeitar os surfistas. Se todos começarmos por partilhar, partilhar uma onda, por exemplo, com um amigo ou com um desconhecido e se outros fizerem o mesmo por nós, será, de certeza, mais fácil preservar o que nos rodeia. O mundo não é nosso para gastar, nós apenas o guardamos para os que vierem a seguir. Aloha.

Publicado por pedroarruda em 11:55 PM | Comentários (1)

O Surf como motor da economia


Nem de propósito, depois de escrever o post anterior, li mais um excelente texto do Gonçalo Cadilhe na Surf Portugal, de que cito este excerto: "Uma onda perfeita de surf pode ser o motor da economia de uma inteira região. Pequenas localidades que nunca teriam saído do anonimato, que teriam permanecido esquecidas na periferia do mundo, são hoje internacionalmente famosas em todo mundo pelo simples facto de possuírem uma onda perfeita ao fundo da rua. (...) O turismo de surf não é turismo de massa, é turismo sustentável e continuado, é um nicho de mercado sólido e em crescimento." Mas, face a isto, o Dr. Alberto João - será preciso qualificar, ou escrever o nome basta? - prefere dizer: "o surf na Madeira acabou. Vão fazer surf para outro lado". PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 03:08 PM | Comentários (1)

dezembro 02, 2003

A Força do Betão


Depois de muitos anos incógnitas, as costas norte e oeste da ilha da Madeira tornaram-se um destino surfístico quase mítico e, por muitos, considerado o melhor da Europa (veja-se, a este propósito, o óptimo dossier da Surf Portugal deste mês). Eu, em várias idas à Madeira, sempre em trabalho, nunca tive oportunidade de experimentar as ondas poderosas, o pouco crowd e o cenário deslumbrante que as envolve. Mas, agora, vai ser ainda mais difícil fazê-lo. Por força de um conjunto de obras de necessidade duvidosa, desde já, o Jardim do Mar vai deixar de quebrar como até aqui. Mas a autêntica fúria construtora que está na base do modelo de desenvolvimento do arquipélago ameaça pôr fim a uma série de outros picos. A miopia imensa desta opção, condimentada com o tratamento ultrajante que esse indivíduo inqualificável que governa o arquipélago teve face às associações ambientalistas, que justamente protestaram contra a destruição dos picos, é um exemplo acabado de um mau caminho e não apenas para os que gostam do surf. Não perceber o que a Madeira está a perder, é não perceber o potencial do surf enquanto instrumento ao serviço de um desenvolvimento harmonioso e de futuro para as nossas zonas turísticas. Aliás, não há nenhuma razão para que, desde que haja boa gestão e visão, as zonas propícias ao surf não evoluam para locais à imagem das estâncias de ski, em que os casos de sucesso de planeamento e desenvolvimento virtuoso abundam por toda a Europa.
Infelizmente o caso da Madeira, apesar de ser eventualmente o mais dramático, não é o único e os exemplos semelhantes abundam. O estado a que está a chegar a orla marítima portuguesa é tristemente espantoso. A absoluta inércia tem feito com que a costa se degrade e as oportunidades de desenvolvimento passem ao lado. Quem vê a maré cheia na Costa da Caparica hoje e há 15 anos; quem vê as dunas a serem destruídas com o estacionamento caótico no Litoral Alentejano, porque para o Parque Natural é melhor nada fazer do que ordenar o que requer ordenamento; sabe do que falo.
A Madeira, pelo seu potencial de surf e pelas oportunidades turísticas perdidas é apenas mais um exemplo da miopia com que a Costa portuguesa é gerida, ou abandonada. Tanta oportunidade desperdiçada e tanta estupidez, se nada mais, irrita. PAS

Publicado por pedroadãoesilva em 06:15 PM | Comentários (1)

dezembro 01, 2003

Grego

José Gregório - Campeão Nacional de Surf 2003.

Publicado por pedroarruda em 11:58 PM | Comentários (0)