novembro 06, 2007

Intendências II....

O "Prima Scripta" está, desde Abril, disponível aqui.

abril 03, 2007

A Música do Tempo.


“Quicksilver”. Imagem de DVD em loop. Zilla Leutenegger. 2002.

Primeiro
o espaço de um instante
e tu nele.

Cortejo o vazio
que me espera
do teu outro lado
e aprendo a ler o rio
enquanto cantas
à lua e às estrelas.

A música do tempo
corre prazenteira
e não sei se estou
ou sou inteiro
no aconchego da escuridão.


Mais tarde
quando o lirismo
se confunde com o sangue
e a efusão com a agonia
acabo náufrago
na margem estreita
entre o êxtase
e esta maldição.
O dia começa cedo
e as nossas vozes
ainda tão cheias
de tudo.

março 26, 2007

Intendências...

Por razões alheias à minha vontade, o serviço de blogues a que venho recorrendo nem sempre garante a introdução dos comentários.

O "Prima Scripta" ( e a possibilidade de comentar...) passará a estar disponível aqui.


P.S.: a actual url continuará funcional até Maio.

março 05, 2007

A Constância dos Objectos.


"Sin - Without". Litografia de Ed Ruscha. 2002.

Se eu pudesse domar
a memória daquelas tardes
a curva dos teus rins
desenhando
o rosto (in)provável da felicidade
no velame dos lençóis.

Se eu pudesse
trazer à boca
a sombra escarlate
dos lábios
porta derradeira
do teu tremor.

Se eu pudesse
acordar o réptil
que dorme em mim
e resgatar o poder demiúrgico
da tua geografia.

Se eu pudesse subtrair-me
ao império dos meus fantasmas
e não vivesse neste apego
paradoxal
à constância dos objectos.

Inventaria a tua fragância
na polpa dos dedos
e no calor peninsular do corpo
montaria uma coreografia de brisas
só para poder gozar
as pretensões metafísicas
do teu arrepio.

fevereiro 23, 2007

A Arte da Atenção.


"In line". Fotografia de Ori Gersht. 2005.

Aprender
a ler o silêncio
e dar carne
ao espaço ígneo
entre as palavras.
(Re)abrir os olhos
e celebrar
em cada uma
as bodas dionisíacas
do pensamento e da emoção.

Refundar a paixão
pela escassez.
Pensar um verso
que sendo fragmento
ponha cobro à fragmentação
e desenhe uma brecha num real
que não passa de encenação.

Estar atento à figura
que diz o silêncio
e a sua ausência
uma palavra de iniciação
como o sopro que vive inteiro
no recesso de uma flor.

Sílabas
habitadas pelo relâmpago
crepitando na boca
como se fossem
o ponto de apoio
de todo o universo
o poema é um pássaro
que voa o seu canto
som feito carne
que se imola num destino branco
chave de qualquer coisa
bálsamo de outra morte.

fevereiro 17, 2007

Nudez.


"Tree". Acrílico sobre tela. Merlin James.2003-2006.

Cai uma chuva de outro tempo.

Contemplo a nudez desta árvore.
Ainda que domine o olhar
a métrica perfeita das gotas
e o brilho lustral
com que resvalam na carne
devolvem-me a própria nudez.

A chuva banha a madrugada.
A noite coagulou
num ramo de rosas negras
como se as palavras
cifra de uma ausência
nos pensassem do outro lado
do sonho.

Cá dentro
um animal furtivo
continua a uivar
o seu ofício de sombras.


janeiro 24, 2007

Coração Alado.

RC6017lg.jpg
"Stairs To Nowhere" Fotografia de Ray Carofano. 2004.



Regresso outra vez
ao silêncio insone da sombra.
Noiva zelosa
a noite oficia o seu ritual
com o desvelo de sempre
e ignoro
se é o negro imperial
do firmamento
a invadir-me
por inteiro
ou se continuo sendo
um acidente estelar
sem gravidade.

Ainda não sei se vivo
mas persisto
o peito feito
ao vagaroso gotejar dos dias
e uma ilusão de transcendência
ensaiando variações
no lugar da alma.

Já não reconheço
os contornos da madrugada.
O código opaco
a que alguns chamam loucura
talvez espere
a chegada da tarde
ou a claridade fulgurante
dos agostos
que ainda trago em mim.

Avanço e abraço
incerto
a figura de um coração alado
ícone distraído
da minha errância.

Durmo
desalmado.
Deixo-me embalar
pelo rumor ausente do mar
e abandono a metafísica
à sua sisudez.

janeiro 07, 2007

A noite.

IMG_3404.JPG
"Madrugada 2". Fotografia de J.A.S. Cabanas de Tavira. 2006.



A parte de noite
que se acolhe
no mais fundo de nós
vive soberana
na cumplicidade
entre a luz e o sangue.

O calor do aperto abrasa
e o negro absoluto
espreita dos teus olhos.

Uma voz chama
quando me acho em ti
(o tempo embala
as suas vítimas)
e tudo se resolve
na equação impossível
dos corpos bailando
um fado divino.


Assim se esvai a vida
pulsão de morte
e enquanto a mordo
imprudente
em mim lateja e pulsa
a velha aliança
da noite com o fim.


Não adianta querer
calar o tempo
os mortos terão sempre
uma voz.

dezembro 02, 2006

A Natureza do Pranto.

10.jpg
"Lijiang River. Study 3. Guilin. China". Fotografia de Michael Kenna. 2006.


Fosse eu rio
caudal majestoso
de silêncio e morte
o corpo transmutado
num tropel de espuma
e entraria em ti
para sair
ufano
do aperto do leito.

Fosse eu rio
e fui-o
que este travo na boca
não desmente
o frio dos seixos
enrolando-me a língua
e estas mãos leriam
insones
a suavidade vertical
do teu desejo.


Fosse eu rio
matéria do tempo
travestida
e talvez compreendesse
a intimidade da sombra
e do prazer
como a pálpebra compreende
e desposa
a natureza líquida
do pranto.


novembro 20, 2006

Meridianos.


"The Bed, The Chair, Head to Foot". Óleo sobre linho. Eric Fischl. 2000.

Ignoro
o capricho
que te leva
a altear o peito
quando me olhas
ou o momento
em que a lágrima
desce furtiva
as espiras do cerebelo.
Algo na penumbra
me revela
que durante sua viagem
forças afins à noite
e ao movimento dos corpos
se entretêm a semear
esta urgência
de cruzar meridianos.


novembro 06, 2006

O Sopro do Tempo.

strsba1.jpg
"An 11. Dawa 2001 (42)". Fotografia a cores a partir do video. Anellies Strba. 2001.

A noite
(essa coisa que me trabalha
amor
ou cifra obscura)
abre uma brecha
no real.

A religião da carne
cria outro mundo.

Um jardim
ao fim da tarde.

Um cheiro
a rosa madura
e o desejo insensato
de cartografar
o veio lírico.

Escrever
para firmar passo
num terreno varrido
pelo sopro do tempo.

novembro 05, 2006

Paralaxe.


"Ich weiß nicht, wie sich die Dinge jetzt weiterentwickeln". Crayon acrílico sobre madeira. Robert Lucander. 2003.

Acho-me bem
nesta vida errante
o olhar fendido
presa duma paralaxe
insanável.

O pasmo é um acidente.
Gravito em torno
deste silêncio vestibular
e conjecturo revoluções.

outubro 30, 2006

Recados da Noite.


"Koto-no-Owari". Part of installation with 6 tv monitors. Noritoshi Hirakawa. 1995.


Amassar a matéria do passado
sono que amanhece estreito
sobre a vida.
Ancorar a memória
murmúrio
num corpo de trevas
e trazer recados da noite.
Arrancar a voz
à jurisdição do silêncio.
Triunfo de um sagrado
sem teologia.
Tudo em nome de uma manhã de outono.

outubro 08, 2006

A Boca das Palavras.

SaintExupery.jpg
"Saint Exupery". Acrílico sobre tela. Jorge Fin. 2003.


O ritual é efémero
instante dos instantes.
O artista
pressente
o acaso
surpreende
a noite
revela-lhe
o coração
oferta-lhe
os olhos
adere
a uma realidade
que lhe escapa.

O ritual é efémero.
O poeta
abre a janela
lança-se no espaço
e sonha
delírios de sangue.
Um magma
informe
sobe-lhe urgente
à boca das palavras.

O ritual é efémero.


Versão revista de um texto escrito "a duas mãos" (com C S A ) e publicado a 9 de Outubro de 2005.

setembro 18, 2006

O Coração da Sombra.

14_seen_94_3_m.jpg
"Seen and Not Seen 94-3". Fotografia de Ken Rosenthal. 2006

Uma língua vibrátil
quente
afeiçoa o espaço
e adensa-se
absoluta
na forma dos corpos.

Soberana
códice antigo
de trevas e luz
afirma com fragor
o império do sangue.

Do coração da sombra
dessa flor negra
rubra
instante
renasce
maré submissa
de lábios e dedos
a força silenciosa
de umas mãos.

setembro 17, 2006

Ângulo Vivo.


"Kabuki 3". Óleo, acrílico e fotografia sobre tela. Arturo Cuenca. 2005.


Um ângulo vivo
entre o teu corpo
e o meu olhar.

Uma geometria caprichosa
toda ela
alusões e desvios
no jeito
com que subvertes
as categorias
do espaço.

Um ritmo lunar
na respiração
e uma toada
de redenção
no som cavo da tua voz.

Há uma ciência oculta
na forma como
os teus lábios
entreabertos
aceleram o
o ar em volta.


Misteriosa embriaguez
esta urgência
de profanação
que avança
sorvendo
cada voluta do teu hálito.


Utopia da diluição
busca insana
do não-tempo.

setembro 11, 2006

Química Oculta.


"Ava Gardner". Fotografia (c-print) de Coke Wisdom O’Neal. 2001.

Despeço
um beijo
e vejo
como vence
a fronteira
do visível.

A noite
desvela
uma química oculta.

Lábios
disputando
impunes
a supremacia do olhar.

setembro 07, 2006

Flor Inflamada.


"Blauwe Zarina". Fotografia ("andreatype") de Floris Andrea. 1998.


Instalo-me
no teu recôncavo
mais fiel.

Faço de ti
o lugar
capital
dos meus des(a)tinos
e colho
o néctar
espesso
do instante.

Espero
que o poema
flor inflamada
não falte
ao encontro.

agosto 16, 2006

A Vocação de um Corpo.


"Portrait". Óleo sobre tela. Wilhelm Sasnal. 2001.

Outra vez
me interrogo
sobre o que seja
a vocação
de um corpo.


O lugar
onde as palavras
servem um projecto
de reinvenção
do cosmos
ou a porta aberta
por onde espreita
o místico
ferido de intermitência.

Outra vez
esta urgência
de encontrar
a máquina ideal
que viesse revogar
a história
e fazer da noite
a redenção
da geografia.

Outra voz.
Queria
um canto
que fosse mais
que um destino.
Regressar
do exílio
com uma música
lunar
cantando-me o sangue
em harmónicos
desconhecidos.


Outra voz.
Como se
plantar
palavras
à sombra
de um corpo
fosse
consubstancial
à arte do som.

agosto 08, 2006

Tempo de Sagração.


"From Dawa An II". Fotografia a cores sob placa de vidro. Annelies Strba . 2001.

I

Diz
o teu
nome.

Como
se a palavra
tivesse
o peso ritual
de outrora
e nos teus olhos
bailasse
solene
o mar de Agosto.

Diz-mo
uma e outra vez.
O verão
é um projecto
em marcha
e a saudade
de um pinhal
qualquer
faz-se mais
presente.

Vamos diz.
Deixa
que os lábios
arrendondem
o som
e o peito
se te vá
todo nele.

II

Exploro
meticuloso
o texto escrito
no corpo
litoral
e o teu canto
ressoa
com mais maresia.

Um raio quente
desperta-te o colo
quando
devota
chamas
por mim.

Tempo
de sagração.
Dizes
o meu nome
agora.
Sim?

julho 28, 2006

Reverso.


"Yin.Yang". Fotografia de Koichiro Kurita. 2002.


Escrever
um reverso
é visitar
um lugar
improvável.

Como acariciar
uma nuca
a contrapelo
e cometer
um poema
porque
o veludo quente
de um seio
nos interpela
incontinente
dos bordos
da blusa.

Ou
aspirar
à ciência
infusa
das marés
porque habitados
pelo marulhar
distraído
do sangue.

Vaga
que se alteia
e derrama
o verso
é outra história.

julho 17, 2006

A Possibilidade de um Céu.

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"A someone-else version of me". Fotografia de Maggie Preston. 2004.

Nas tuas mãos
solidárias
a luz
e o negro
conspiram
no silêncio
dos símbolos mudos.

Nas tuas mãos
sábias
cartografo
a possibilidade
de um céu.

Nas tuas mãos
e além
na doce embriaguês
do teu sorriso
vertical
o meu olhar
vindima
o calor rubi
de um vinho
redondo.

julho 01, 2006

Fases da Lua.


"Hard To Wait". Fotografia de Mathew Handelman. 2006.

A lua cheia
entra
em casa
e uma embriaguez
arterial
veste-nos de luz.

Um feixe iridiscente
abrigou-se
no teu colo.
Grito púrpura
no lugar do coração.


Que mistério
guarda a lua
que cada sístole
é um pássaro
à espera
de abrir as asas.

Animal sedento
assisto-te na lenta
transformação da luz
em matéria.

Fiel às profecias
e ao teu fervor
órfico
sorvo as gotículas
que te perlam
o decote
e demando
um mar
de tranquilidade.

O que nos separa
afinal
da penumbra.


O que é a lua nova
senão o triunfo
de uma litania
negra.


junho 19, 2006

O Rumor das Pétalas.


"Madrugada de 30 de Agosto. Cabanas de Tavira". Fotografia de J.A.S.. 2005.

Vi
a substância rósea
da manhã
e a graça
das pétalas
tombadas.

(Tudo é augúrio.)

Vi
a rosa
abraçada
à própria morte.
Um perfume
de vertigem
e esquecimento
impregna o tempo
de um lamento.

E senti
o vento
como o sopro
de uma sílaba
inelutável
desposando
o rumor doce
das pétalas
caindo.

(Tudo é presságio.)

Flecha do tempo.
Vento e flor
recuperam
o diálogo perdido
entre a terra e o céu.

A rosa diz
sem dizer
numa língua urdida
de verão
e noites estreladas.


(Tudo está na atenção
e nada mais
importa.)

junho 10, 2006

Corpos Celestes.


"Faith". Óleo sobre tela e cartão.Colecção privada. Frank Moore . 2000.

Quando suspeitei
que os meus fantasmas
se organizavam
em constelação
compreendi a minha atracção
pelos corpos celestes.

Como vivemos
em estado de excepção
permanente
quem sabe
se
este teatro de vultos
ocupados em povoar
o firmamento
irredutível às leis da biologia
não será
a forma de vida
que nos resta?

junho 08, 2006

Projecto de Poema.


"Fact of matter tending to exist". Fotografia de Terry Taylor. 2005.

Quando em mim
pulsa
um coração
que não me pertence
sei que é
vontade do mar.

E sei
quando no teu colo
choro
sem razão aparente
que é o mar
que por sua vontade
me invade
e nos submete
ao seu ritmo.


Pudesse eu
projecto de poema
simular
o marulhar hipnótico
das vagas.

junho 07, 2006

Teatro do Mundo.


"Exhibition image". Fotografia de Annelies Strba. 2006.



Teatro do mundo.

O arco e a flecha.

A quietude
rendida
ao encanto délfico
do abismo.

Um voo rasante
rumo ao lugar
impossível
da revelação.

junho 06, 2006

Perfume.


"The Milk". Lápis sobre papel.Toc Fetch. 2005.

Sonho um amor
casto e evanescente.

Sonho relâmpagos
na noite
e um perfume
exaltado
a mar.

O santo
e o louco
prisioneiros
do mesmo desejo.

Firmamentos.

lalecturadelsol.jpg
"LA LECTURA DEL SOL". Acrílico sobre tela. Jorge Fin. 1996.


O lirismo.

Ainda que
agonia
imcompleta
é a defesa possível
contra a marcha
da morte.

Enquanto o sangue
e o brilho
de uma lágrima
inundam
o império da razão
uma mulher
ergue os braços
e semicerra as pálpebras.

Convite
à contemplação
de outros firmamentos.

Pacto.


"Untitled (08), Siberia Series". Medium c-print. Anna Shteynshleyger. 2002.


Pacto com o além.

Explorar
a etimologia
da palavra
celeste.

junho 05, 2006

A Idade da Sombra.


"2005, VII.X" . Medium oil on panel. Stephen Pentak. 2005.


Ver para crer.

Uma manhã
tão sensível
que grava a idade
da minha sombra.

Desfiar palavras
e encontrar
o silêncio.

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