novembro 26, 2009

Tempo

de encerrar ciclos e projectar recomeços.

Até um dia.

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março 06, 2009

do jardim

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Pilriteiro à chuva - Sabugal, Páscoa 2007

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janeiro 30, 2009

Uma ciranda

De Salvador, Bahia, recebo um convite gentil da Ana Cecília, para que me junte a esta ciranda que já antes passou por aqui sem que eu tivesse tido oportunidade de responder. Desta vez faço-o imediatamente, animada pelo facto de ter em cima da mesa um livro com mais de 161 páginas.

A ciranda inclui os seguintes passos:

- Agarrar o livro mais próximo: Orlando Furioso, de Ariosto.
- Abri-lo na página 161: é o início do Canto X.
- Procurar a 5ª frase completa... Eu sabia que algo ia correr mal, não há cinco frases nesta página! A bela ilustração de Doré, que antecede o Canto X, ocupa a maior parte dela.
- Transcrever a frase no blogue: tenho de desacertar o passo, mas não saio da ciranda, transcrevo a última frase da página:

E, se almas tão devotas e leais
são dignas de um amor de igual acerto,
Olímpia é digna que amor mais pequeno
sinta por si que por ela Bireno;
e de por ele não ser abandonada
por outra mulher, inda fosse aquela
que Europa e Ásia pôs alvoraçada,
ou outra que seja ainda mais bela;
antes a vista lhe seja tirada,
ouvido, gosto e fala, mas não ela,
e sua vida e a fama gloriosa,
ou coisa porventura mais preciosa.

- Passar a cinco pessoas: à Rita, à Joana, ao Daniel, ao Luís e ao Paulo. Quando tiverem tempo, porque os jovens de 30 anos ou menos têm vidas muito preenchidas. E aqui impunha-se um smile .

Publicado por sol em 05:42 PM | Comentários (9)

dezembro 22, 2008

O meu Natal de antigamente

Era muito semelhante ao que a Teresa Rita Lopes evoca, o meu Natal de antigamente, ainda que eu já tenha crescido com a televisão. Mas a tv não era uma presença eminente, nesse tempo.

A nossa primeira aventura também não consistia em aguardar que as sementes de trigo despontassem na "searinha" do presépio. A primeira aventura, a que iniciava o ciclo do Natal - que só terminava com os Reis, na casa da avó materna, em Salamanca - era a ida aos musgos, pelos campos que o Inverno mantinha suspensos na sua garra de gelo. E competir com as outras crianças pelos musgos mais viçosos e com menos terra presa; beber água nos córregos; vadear regatos de margens coalhadas; afastarmo-nos da vila, muito mais do que os pais suspeitavam; amedrontarmo-nos uns aos outros, contando histórias de lobos e de javalis, mitos locais que nos enchiam a cabeça, ainda que, em certos Invernos mais rigorosos, não fossem apenas mitos; e regressar com a cesta cheia do musgo mais verde e aveludado.

Nessa noite, a casa cheiraria ao musgo e a resina de abeto. E ajudaríamos o nosso pai a montar o presépio, ao som de vilancicos e outras canções de Natal.

Houve um ano em que, desembrulhando as imagens acondicionadas em caixotes guardados no sótão, senti uma tepidez macia, oculta nas dobras e rugas do papel de jornal. E, na palma da mão, caíram-me duas figurinhas cor-de-rosa que se agitavam: dois ratinhos ainda sem pêlo, de olhos cegos, pouco mais que recém-nascidos. Não sei o que lhes aconteceu, nada de bom, suponho, pois travava-se uma guerra sem quartel contra os ratos do sótão. Eu teria seis ou sete anos, mas até hoje consigo sentir a pele dos pequenos ratos na palma da mão - um calor não diferente do da pele humana - e recordar a ternura contrafeita e uma perplexidade diante do mistério das pequenas criaturas.

Enfim, montávamos o presépio que incluía um rio, com sua ponte e sua azenha. Nele nadavam cisnes e patos, um pescador lançava o anzol e uma lavadeira esfregava a roupa. Uma aldeia aninhava-se nos vales de musgo e um castelo de cortiça, de onde Herodes e os seus soldados vigiavam, alcandorava-se na crista das colinas. Todas as outras personagens (e eram bastantes, pois a cada ano o presépio se enriquecia com novos figurantes), os Reis Magos, os anjos, os animais, os pastores, os camponeses, os vendedores ambulantes e os músicos (havia um tocador de harmónio e uma vendedora de ovos de pata que faziam as minhas delícias) confluíam para o estábulo onde o Menino, desconforme em tamanho, a maior de todas as imagens do nosso presépio, sorria nas palhinhas, ladeado pela Virgem e por São José e aquecido pelo bafo doméstico da vaca e do burrinho.

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O MEU NATAL DE ANTIGAMENTE

Quando era menina
não havia Pai Natal nem Árvore de Natal.
Armava-se o presépio com chão de musgo
rochas de cortiça virgem ervas a valer
pedrinhas de verdade
e searinhas que se semeavam em pires e latas vazias
no dia 8 de Dezembro
e eram o pequeno milagre                 o primeiro
a despontar dos grãos de trigo e a crescer todos os dias.
As criaturas do deserto eram de compra
mas também moldei algumas em barro fresco.
Uma vez uma das minhas tias fez casas e igrejinhas de papel
e acendemos velas lá dentro.
Foi um deslumbramento a luz a sair pelas janelinhas!
Mas ardeu tudo de repente.
Desde então só a lamparina de azeite continuou a alumiar
esse parco mundo pobre.

No meu Natal de antigamente havia menos presentes.
Os meninos não exigiam esses brinquedos extrabíblicos:
computadores, jogos de computadores, cêdêroms, sei lá.
Nem o Menino Jesus podia com tanto peso!
Sim, porque no meu Natal de antigamente era o Menino Jesus
quem dava as prendas.
Púnhamos na véspera o sapatinho na chaminé
mas tínhamos que ir para a cama esperar pela manhã
porque Ele só descia pela calada da noite
se ninguém estivesse à espreita
(hoje o Pai Natal não tem esses pudores).
Eu imaginava-o a saltar das palhinhas nuzinho em pêlo
e a Nossa Senhora a agasalhá-Lo logo com a sua capa.
E lá ia Ele
como um menino pobre enrolado no casaco do pai
a contentar todas as crianças do mundo.
O Pai Natal, esse, foi encarregado (não sei por quem)
de dar presentes a pequenos e grandes.
Com o Menino Jesus tudo ficava entre meninos.
E se a prenda não agradava
a gente fazia-lhe uma careta
a até, à socapa, chamava-lhe um nome feio.

O Pai Natal é um palhaço cheio de postiços:
barba bigode cabeleira
até a barriga é uma almofadinha.
E vai à televisão convencer-nos a comprar coisas.
Agora o Natal antecipa o Carnaval.
O Menino Jesus, esse não! nunca ia à televisão
(que para dizer a verdade não existia ainda.)

Mas que menino de hoje trocaria o seu Pai Natal
(gerente de um supermercado de vendas)
pelo meu Menino Jesus
a tiritar nas palhinhas?

Teresa Rita Lopes, Afectos, Editorial Presença, Lisboa, 2000

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novembro 06, 2008

Um dia virá

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Luís Demée, 1966

«Os Fremen eram supremos nessa qualidade a que os antigos chamavam "spannungsbogen", a demora auto-imposta entre o desejo por uma coisa e o acto de estender a mão para a agarrar.»

Frank Herbert, Dune 1-A, Edição Livros do Brasil, Colecção Argonauta Gigante, Lisboa, 1986

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outubro 20, 2008

Reconhecimentos

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O Inatingível atribuiu o dardos ao Nocturno com Gatos. E explica que o prémio, ao mesmo tempo que busca promover a confraternização entre blogueiros, constitui o reconhecimento do valor que cada um de nós vem acrescentando à blogoesfera.

Agradeço a gentileza do Inatingível e fico com a tarefa difícil de atribuir o selo a quinze outros blogues.

Quinze é muito. Mas há três blogues de facto especiais, criativos e irreverentes, que leio com prazer e com o refrescante sentimento de quem saboreia um gelado de tangerina numa bela tarde de verão.

São eles:

o blogue da Marta: Improvisações em Dó Menor

o da Rita: Somewhere Over the Rainbow

e o da Adriana: Cada palavra em cada momento



Publicado por sol em 02:58 PM | Comentários (12)

outubro 02, 2008

Por aí

onde os pés me levaram, neste verão que passou.


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setembro 14, 2008

Recomeçar

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Para dar sorte - a capa do bloco de notas deste ano.

Uma prenda da Ana :-)

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julho 26, 2008

Um oásis no momento

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fotode Laurie Turner


se vieres à minha procura
estou atrás do lugar que não existe
atrás do lugar que não existe há um lugar
atrás do lugar que não existe
são as veias do ar cheias de mensageiros
que trazem notícias da mais longínqua florida flor da terra
na face da areia estão traçadas as marcas do cavalo de um cavaleiro gracioso
que de manhã subiu ao cimo da montanha de Ascensão
atrás do lugar que não existe está aberto o leque dos desejos
tocam as campainhas de chuva para que a brisa sequiosa possa chegar ao cimo
de uma folha das campainhas de chuva que tocam
aqui o homem está só
e nesta solidão a sombra de um ulmeiro flui para a eternidade
se vieres à minha procura
vem devagar e suavemente para não quebrar a porcelana da minha solidão.

Sohrab Sepehry


Publicado por sol em 02:01 AM | Comentários (8)

julho 23, 2008

Intensidade


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                        Georges Braque, Carnets Intimes


Mon corps était plus immense que la terre et je n’en connaissais qu’une toute
petite parcelle. J’accueille des promesses de félicité si innombrables, du fond
de mon âme, que je te supplie de garder pour nous seuls ton nom.

         René Char, Fureur et Mystère, Éditions Gallimard, 1962

Publicado por sol em 11:50 PM | Comentários (10)

dezembro 21, 2007

Chegada

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Publicado por sol em 04:17 PM | Comentários (14)

outubro 15, 2007

inventar dias mais claros

O Nocturno com Gatos recebeu esta distinção. Não me interessa se o jogo terminou em Julho e tão-pouco sei que blogues foram os finalistas. Alegrou-me por vir a recomendação do José Matias Alves.
Uma visita ao terrear – espaço de referência na blogoesfera dos professores e sítio onde se afirma por muitas formas o propósito de inventar dias mais claros – permite perceber melhor a razão desta entrada, ainda que tardia, e a minha satisfação.


Publicado por sol em 07:56 PM

setembro 17, 2007

Uma declaração

de intenções: directamente da porta do frigorífico para o blogue. Com um agradecimento à Ana.

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agosto 14, 2007

Lugar

À claridade das pedras e das árvores, eleva-se, num silencioso gesto de presença, a figura germinal de uma alegria terrestre.

                                                                                                                                                   António Ramos Rosa, Clareiras, Ulmeiro, 1986


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julho 28, 2007

Regresso

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maio 24, 2007

tears in the rain


Blade Runner, Ridley Scott, 1982


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março 18, 2007

le sentiment, comme tu sais

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Ne cherche pas les limites de la mer. Tu les détiens. Elles te sont offertes au même instant que ta vie évaporée. Le sentiment, comme tu sais, est enfant de la matière; il est son regard admirablement nuancé.

René Char, Poèmes des Deux Années , GLM, Paris, 1955

Publicado por sol em 09:56 AM | Comentários (16)

março 04, 2007

As tranças da noite ficaram brancas

As tranças da noite ficaram brancas
À passagem do tempo, como eu?
Ou derramou-se no céu um jardim de lírios?

Ibn as-Sid, em Adalberto Alves, O Meu Coração é Árabe, Poesia Luso-Árabe, Assírio & Alvim, Lisboa, 1980


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                Eclipse em 3 de Março de 2007

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fevereiro 17, 2007

Inverno

E eu peço ao vento: traz do espaço a luz inocente

                                                                                          Herberto Helder


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janeiro 21, 2007

Fiama

        Lembro-me da Fiama quando era eu jovem universitária e frequentadora assídua da biblioteca do Centro de Linguística. Também, durante um ano lectivo, tomei parte, com um pequeno grupo de alunos, num seminário sobre Filologia que ali decorreu. A Fiama juntava-se-nos, às vezes.
       Numa das sessões, a convite do professor, foi ela quem dirigiu o seminário – nessa tarde acerca das duas edições princeps d' Os Lusíadas – apresentando uma leitura cabalística do frontispício das edições. Sorrio ao recordar essa tarde, longa e talvez chuvosa, de uma tão antiga 2ª feira.
       Lembro-me da mulher bonita e esguia, com cabelos lisos e pretos apartados ao meio, o sorriso doce, o ar tranquilo. Parecia-se com a poesia que escrevia.

        Tudo isto aconteceu há muito tempo. Breve – como todos nós – só a memória permanece.



           DO AMOR

Esta vista de mar, solitariamente,
dói-me. Apenas dois mares,
dois sóis, duas luas
me dariam riso e bálsamo.
A arte da natureza pede
o amor em dois olhares.

Fiama Hasse Pais Brandão, As Fábulas, Ed. Quasi, 2002



Publicado por sol em 08:10 PM | Comentários (19)

janeiro 18, 2007

Sépia

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Praia Nova, 2004


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dezembro 29, 2006

A voz da romãzeira

Vi-a em Pasárgada, à pequena romãzeira, toda fechada no seu mistério, entre a prata das oliveiras e o dourado evanescente da folhagem dos carvalhos. Afirmação de vida e beleza - o inverso do exílio - ganhou voz; e uma casa nasceu sob a sua égide: aqui.


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dezembro 21, 2006

Boas Festas

Que 2007 nos reconcilie com a esperança.

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                                       Matisse, Árvore da Vida

                                    
Nóirín Ní Riain - Magnificat cum Alleluia - Vox de Nube


Publicado por sol em 03:13 PM | Comentários (16)

dezembro 19, 2006

No país dos segredos

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dezembro 10, 2006

Vista

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dezembro 2006


Publicado por sol em 08:19 PM | Comentários (13)

novembro 09, 2006

Nocturno


Serra de Aire e Candeeiros

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julho 28, 2006

...

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                     Luís Castro Lopo, Manta de Trapos

                     Cantam, cantam.
                     Onde cantam os pássaros que cantam?
                     (...)

                     Trinta e Duas Canções de Juan Ramón Jiménez, tradução de Manuel Bandeira


Publicado por sol em 11:36 AM | Comentários (14)

julho 18, 2006

70 anos desde a Guerra Civil Espanhola

Todo empezó un 17 de julio

«Quien dice que se olvida? No hay olvido» - Luis Cernuda

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                                    Cartaz de Calsina, La Barricada, 1936

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                                                        Cartaz de Enric Cluselles Albertí



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junho 15, 2006

Fragmento

Tho' you are singing somewhere still
I can no longer hear you


Leonard Cohen, Nightingale

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Klee, Remembramce of a Garden, 1914



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junho 11, 2006

Dune

«Arrakis ensina a atitude da faca ― cortando o que é incompleto e dizendo: Agora está completo porque acabou aqui».

            Frank Herbert, Dune, Edições Livros do Brasil, Colecção Argonauta Gigante, Lisboa, 1985


Publicado por sol em 06:14 PM | Comentários (9)

janeiro 30, 2006

Impossibilidade

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foto de Keith Carter

«Este coração, este pequeno ruído que há tanto tempo me acompanha, como imaginar
que ele parará, como imaginá-lo sobretudo no próprio segundo...»

Albert Camus, Primeiros Cadernos, Ed. Livros do Brasil, Lisboa, sd

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janeiro 14, 2006

Puto de Paris

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Um sorriso traquina para celebrar o primeiro aniversário de Ao Longe os Barcos de Flores. Que navegue longamente, aportando a terras férteis, onde a poesia e os amigos floresçam.

Publicado por sol em 08:09 PM

dezembro 22, 2005

Boas Festas

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Virgem Glykophilousa (Virgem da Ternura), segundo modelo monástico do século XIV



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novembro 24, 2005

Semeadora de Poemas

Hoje há festa aqui.

E deve também espreitar-se ali.

Et pour cause, um campo de papoilas:

Ian Britton.jpg
foto de Ian Britton

Publicado por sol em 04:27 AM

novembro 05, 2005

Por Favor, um Blues

Ontem, na Livraria Lello, no Porto, teve lugar o lançamento do livro Por Favor, um Blues, de Silvia Chueire.

Tínhamos pensado que seria a oportunidade, há muito aguardada, de nos reencontrarmos. O acaso não dispôs assim. Por Favor, um Blues inicia, solitário, a sua odisseia.

Lamentando a ausência da minha amiga no lançamento do próprio livro, alegro-me porque ela se estreia em Portugal. E alegra-me o livro que agora vem à luz, o talento assumido, a límpida humanidade da mulher e da poeta. Essa coragem de mergulhar nas águas mais silenciadas e dar a ver o que se viu, como afirmou um dia Eugénio de Andrade.

A Silvia escreveu-nos:

Amigos

É quase quatro de novembro e não saberei dos vossos olhares. Minhas palavras viajaram longe e suas pernas e braços não se cansaram.

Não são eu mesma, são as muitas de mim e nenhuma delas. Esta é a minha liberdade. São minha procura, meu afeto. São minha esperança e minha desesperança depositadas na linguagem. Numa linguagem que quer pensar o mundo, olhá-lo, atravessá-lo, refleti-lo. Desprezar as categorias lógicas da linguagem. Elevar o significante à altura da viagem, da melodia. Buscar forma e música, conteúdo e visão de mundo, a minha, a vossa. Sim, vossa. Sempre há esta transição quando lemos.

Proponho que o poema pense, provoque, viva, toque. Toque a pele, a alma, os músculos, a vossa vida, mesmo que por um átimo. E que acima de tudo, subverta. Nada é mais subversivo do que o contato conosco mesmos. Este impacto. Esta possibilidade de (re)criar espaços de pensamento, de emocionalidade, de verdade pessoal.

Meus poemas hoje vos recebem, nus. E é aí que a minha presença é dispensável. É aí que eu não importo aos poemas, ou à (vossa) leitura deles. É aí que atravessada pelas palavras, desapareço. Sem deixar de existir. Ainda que eu gostasse de receber os amigos, de agora e futuros. Ainda que eu gostasse de os abraçar. De os conhecer.

[...]

Estes são poemas de uma mulher que nunca publicou antes, que não é portuguesa, e que começou a escrever tarde (demorei a encontrar minimamente as palavras que buscava, na verdade ainda as procuro). Um conjunto de contra-sensos. Editá-los seria o cúmulo da loucura, do atrevimento? Talvez seja isto: é preciso que as pessoas enlouqueçam, atrevam-se, para que a vida se mova.

[...]

Agora amigos, Por Favor, Um Blues deixa de ser meu, é vosso. Sejam muitíssimo bem-vindos !

Meu grande abraço com a promessa de uma visita próxima,
Silvia Nogueira da Gama Chueire

Rio de Janeiro , 03 de novembro de 2005

Publicado por sol em 12:22 AM | Comentários (7)

outubro 17, 2005

Cosmogonia

A filha do oleiro Dibutades que amava um jovem recortou com um estilete a sombra do perfil dele sobre uma parede. Seu pai, ao ver o desenho,descobriu o género de ornamentação dos vasos gregos. O amor está no início de todas as coisas.

Albert Camus, Primeiros Cadernos, Edição Livros do Brasil, Lisboa, sd

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setembro 12, 2005

Regresso às aulas

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Foto de Robert Doisneau, cit. de Guilhaume Apollinaire

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setembro 06, 2005

Bilbo's Song in Rivendell

I sit beside the fire and think
of all that I have seen,
of meadow-flowers and butterflies
in summers that have been;

Of yellow leaves and gossamer
in autumns that there were,
with morning mist and silver sun
and wind upon my hair.

I sit beside the fire and think
of how the world will be
when winter comes without a spring
that I shall ever see.

For still there are so many things
that I have never seen:
in every wood in every spring
there is a different green.

I sit beside the fire and think
of people long ago,
and people who will see a world
that I shall never know.

But all the while I sit and think
of times there were before,
I listen for returning feet
and voices at the door.


Songs and Tales from J.R.R. Tolkien's work

Publicado por sol em 10:03 PM | Comentários (20)

julho 29, 2005

Enumeração

cronológica de surpresas felizes:

- recebi duas prendas: podem ser vistas aqui e aqui; obrigada, Ricardo e Manuel.

- um amigo emergiu do casulo e abriu as asas; bem vindo, b.


Publicado por sol em 09:17 AM | Comentários (6)

julho 20, 2005

Onde param os gatos?

Agradecendo a umblogsobrekleist a gentil e bem humorada referência e o contributo para a Arca da Jade , aqui fica um gato. Francês, naturalmente.

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foto de Jean-Didier Risler, Trocadéro, Paris

Publicado por sol em 12:30 AM | Comentários (19)

junho 29, 2005

A saudade

A saudade assume uma forma:
os verdes pinhos da serra distante
que tapa a minha vista
a flutuarem numa névoa de lágrimas


Saiónji Sanekane - séc. XIII

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maio 30, 2005

O amigo

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Não voltará - o que dele me ficou
é como no inverno entre cortinas
de chuva um tímido fio de sol:
ilumina mas não aquece as mãos.

Eugénio de Andrade, Pequeno Formato, em Antologia Breve, Fundação Eugénio de Andrade, 7ª ed, Porto, 1999

Publicado por sol em 10:31 AM

abril 21, 2005

Apanhada

na corrente, respondo ao repto da Linha de Cabotagem e das Musas Esqueléticas .

Não podendo sair do "Fahrenheit 451", que livro quererias ser?
Os que já sou: alguns poemas de Eugénio de Andrade, Camões, Pessanha, Pessoa, Cesário, Manuel Bandeira, Leonard Cohen, René Char...; fragmentos de "Os Lusíadas", "Menina e Moça", "Dune". Talvez houvesse lugar, no universo do "Fahrenheit 451", para um livro não especializado.

Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?
Sim. Por todas as personagens que me interpelam, ou me comovem, ou me batem familiarmente no ombro. Tantas... Ao acaso da memória: Quióaqui, de Mishima; Alexandre Magno, de Mary Renault; João da Ega, de "Os Maias"; Lazarus Long, da "História do Futuro", do Heinlein; o protagonista de "Os Despojados", da Ursula K Le Guin; Mersault, de Camus; o próprio Camus, nos seus "Cadernos"; Zenon, Adriano e Dona Anna, de "Anna Soror", da Yourcenar. Em tempos mais remotos, o herói, cujo nome já não recordo, de "Uma Aventura na Escócia" e "Catriona". Mais recentemente, encantei-me com o jardineiro de "Três Cavalos".

Qual foi o último livro que compraste?
"Poemas de Mário de Sá-Carneiro", em edição de Teresa Sobral Cunha; "Duelo", de Luís Quintais; e "Don Quijote de la Mancha" (9,5 euros, edição da Real Academia Española).

Qual o último livro que leste?
Excepção à poesia, cuja leitura vou fazendo em permanência e intercaladamente, o último livro que li de uma assentada foi "As Lições dos Mestres", de George Steiner.

Que livros estás a ler?
"A Mancha Humana", de Roth, "À Procura da Língua Perfeita", de Umberto Eco e "Aventuras de Tom Bombadil", de Tolkien, estão aqui, juntamente com vários livros de poesia, a Bíblia, e umas quantas e díspares gramáticas da língua portuguesa.

Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Nenhum. Incapaz de escolher entre tantos, ficaria como o burro entre os dois fardos de palha. Por outro lado, a leitura, ainda que actividade a sós connosco, é uma prática cultural. Sozinha, numa ilha deserta, sem a referência do Outro, não teria sentido ler.

A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?

Ao Rogério Santos - pelo seu interesse específico nos fenómenos da blogolândia.
Ao Sete Sóis - porque temos cruzado leituras e para passar testemunho à geração mais jovem (e porque ele está a preparar-se para me bombardear, em breve, com muitas e difíceis perguntas, vingança antecipada).
Ao Adair - porque é poeta, meu amigo e está do outro lado do mar, no Brasil.



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março 08, 2005

Uma casa que canta

Em agradecimento a todos os amigos, em especial ao Zef, que animaram o Nocturno com Gatos por ocasião da 20.000ª visita, e pedindo desculpas pela ausência da anfitriã, ofereço uma casa que canta e umas flores de Van Gogh.

VG-ramo de amendoeira.jpgramo de amendoeira

ESTA CASA

Gosto dela assim: ainda vibrante dos passos
que a deixaram a sós comigo
                                               desobrigada
de abrigar seus moradores
                                             Comigo é
diferente:
                 não me limito a usá-la
a habitá-la:
                 namoro com ela
                                             Comigo
abandona-se a seus mais íntimos rumores
e cheiros
                 e aliviada do dever de ser útil
em silêncio
                 canta

Teresa Rita Lopes, Afectos, Editorial Presença, Lisboa, 2000



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fevereiro 14, 2005

Scrapbook

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fevereiro 10, 2005

Sintaxe das raizes

plaza mayor.JPG

Nevou na minha terra. Eu não estive na minha terra.

Perdida a conjunção que um dia fez delas uma única, complexa, permanecem simples, as duas pequenas frases. Desgarradas, e possivelmente sem esperança de encontrar conector.

Contudo (sempre se arranja uma adversativa, e sem queixumes) há outras terras que são minhas.

Não sei se nevou em Salamanca, já não resta ninguém que mo possa dizer, a avó, os tios, os primos, nem a velha casa com janelas de sacada existe mais. Mas a Praça sim.

Salamanca, Plaza Mayor - a mais bela de Espanha. Com os meus agradecimentos a Rogério Santos, por partilhar esta fotografia onde a pedra se faz luz, e o mesmo encantamento pela velha Praça.


Publicado por sol em 12:04 AM | Comentários (40)

fevereiro 04, 2005

Chegou

à blogolândia um amigo que é um poeta admirável, e cujos poemas me movem desde o primeiro, lido na internet há quase seis anos, e foi então como um reconhecimento.

No Nocturmo com Gatos há dois poemas do Adair - um deles do seu último livro, Desencontrados Ventos, título que deu também ao blogue.

Quis celebrar a sua vinda, mas o Weblog não mo permitiu. E hoje que finalmente acedo ao menu de edição, dou por mim a agradecer-lhe um gesto de afecto. E a lembrar. Por exemplo, este é um poema de que muito gosto. E que "vi" nascer.


Jim Vechy_2002_center of the universe.jpg


Perecimentos

Não sei se o rio
que banhava minha cidade
ainda corre
para o mar.

Nem se as paredes
da casa onde vivi ainda
estão coloridas.

Não sei se o asfalto já
ocultou as pedras
onde viajou o primeiro fusca
de meu pai.

Nem se cresceu mato
ou edifícios brilhantes
no lote vago onde brincávamos.

Faz tempo esqueci
de quais tios sobrinhos e primos
nasceram ou morreram.

E minha cidade não é
mais sequer um retrato
na parede.

Longe cada ano mais
me distancia
dos meus primeiros dias

da mamadeira no chão da sala
dos canarinhos amarelos
das goiabas e do limoeiro.

Longe cada dia mais
me distancio do que
fui ou poderia

e vou me esquecendo
pelos corredores cada vez mais vazios
deste meu minúsculo mundo.


Adair Carvalhais Júnior

Publicado por sol em 12:06 AM | Comentários (11)

janeiro 17, 2005

Apontamento nostálgico

raposadodeserto.JPG
Jeane Vogel, raposa do deserto




«Do desespero, meu amor, trouxe o cestinho mais pequeno
que se pôde entrelaçar em vime.»

René Char, A Companheira do Cesteiro (excerto), em Furor e Mistério, Relógio D'Água Editores

Publicado por sol em 01:00 PM | Comentários (10)

dezembro 01, 2004

Dedicatória

Para a Helena Roque que, no seu digitalis, publicou uma excelente selecção de materiais – próprios e de outros, reflexões filosóficas, representações pictóricas, referências musicais, poemas – sobre a morte, a que chama «estado desejável de eterno vazio», definição que me agrada, nem tanto pelo estado em si, mas por supor inconsciência de tal estado. Aliás, por não haver consciência de todo. Que a gente também se cansa, como no poema de Ruy Belo citado no digitalis. E neste que aqui deixo. Para a Helena, com admiração.


PREPARAÇÃO PARA A MORTE

A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

Manuel Bandeira, Estrela da Tarde, in Estrela da Vida Inteira, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993


Publicado por sol em 09:35 PM | Comentários (13)

novembro 11, 2004

Porque faz hoje um ano

que o Nocturno com Gatos se mudou para o Weblog e se tornou público, depois de duas atribuladas e sigilosas semanas no Sapo.

Para os amigos e para os companheiros do universo virtual que me têm visitado e ajudado a transformar o Nocturno num espaço de afectos e aconchegos, Nuit sur La Mer, de um pintor que me acompanha há muitos anos.

nuit sur la mer.jpg
Paul Delvaux, Nuit sur la mer - 1976



Publicado por sol em 11:59 PM | Comentários (17)

outubro 17, 2004

A noite se fez navegável

Ao Astrophil, ao Groze e ao Sete Sóis, com carinho e admiração.


Pela terna insistência do Sete Sóis.
Pela verve brilhante do Groze.
Pela apaixonada serenidade do Astrophil.
Pelas palavras e pelo riso.
Pela poesia. Pela música.
             Pela noite que se fez navegável.


Um poema de que gosto, palavras ou «relâmpagos/que hão-de chegar saltando de uma ilha para outra ilha». Como as conversas. E as cerejas:-)



Em torno do Imponderável

O mais seguro abrigo
é o que oscila um pouco
como se oscilássemos
sobre a matéria viva
ou no coração do espaço.

Ramos Rosa, Uma Rã que Salta, Ed. Limiar, 1995


Publicado por sol em 11:52 PM | Comentários (19)

setembro 21, 2004

bird on the wire

kadir70.jpg


Nenhum outro poeta-músico me acompanha há tantos anos e tão intimamente. Nenhum foi tão central na construção da minha mundividência.

Hoje faz 70 anos. Field Commander Cohen.


dh-hat.jpg


Esta entrada é-lhe ternamente dedicada. E a um amigo comum - outro pássaro no arame.


I'D LIKE TO READ

I'd like to read
one of the poems
that drove me into poetry
I can't remember one line
or where to look

The same thing
happened with money
girls and late evenings of talk

Where are the poems
that led me away
from everything I loved

to stand here
naked with the thought of finding thee

Leonard Cohen, The Energy of Slaves


Publicado por sol em 10:59 PM | Comentários (14)

agosto 06, 2004

Férias

Nocturno com Gatos vai a banhos.

Noah Grey.jpg Noah Grey
Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.

Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d'alva
Rainha do mar.

Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.

Manuel Bandeira, Estrela da Manhã

Publicado por sol em 12:24 AM | Comentários (34)

agosto 04, 2004

De outra maneira

«Aconteça o que acontecer, não chegueis nunca a odiar-vos.» Esta sua suprema admonição põe-nos em guarda contra o pecado mortal da paixão levada ao extremo, depressa virada contra si própria e transformada em ódio, em rancor, ou, o que é pior, em irritada indiferença. A felicidade alcançada e a dor aceite salvam-nos desse desastre.

Marguerite Yourcenar, Anna Soror, em Como a Água que Corre, Difel, 1983

Publicado por sol em 06:10 PM | Comentários (3)

Do amor

O amor é um castigo. Somos punidos por não termos podido permanecer sós.

Marguerite Yourcenar, Fogos, Relógio D'Água, 1988

Publicado por sol em 06:05 PM | Comentários (18)

julho 23, 2004

Intensidade

                                                          226

Mon corps était plus immense que la terre et je n’en connaissais qu’une toute
petite parcelle. J’accueille des promesses de félicité si innombrables, du fond
de mon âme, que je te supplie de garder pour nous seuls ton nom.

René Char, Fureur et Mystère, Éditions Gallimard, 1962

Publicado por sol em 03:40 PM | Comentários (8)

julho 16, 2004

Três Irreflexões

Política

Da História encarrega-se o tempo.
Mas quem se encarrega das pessoas?


                          ***

A experiência diz-me: estou longe
e estou sozinha.


                          ***

Moral?
Não é Deus, é o homem
que está cheio de zonas interditas

I. K. Centeno, Irreflexões, Edições Ática, Lisboa, 1974

Publicado por sol em 11:51 AM | Comentários (14)

julho 09, 2004

Inscrição

Eu vi a luz em um país perdido.

Camilo Pessanha, Clepsidra

Publicado por sol em 11:41 PM | Comentários (6)

junho 28, 2004

Dilectus meus mihi

Toda me entreguei, sem fim,
e de tal sorte hei trocado,
que é meu Amado para mim,
e eu sou para meu Amado.

Quando o doce Caçador
me atirou, fiquei rendida,
entre os braços do amor
ficou minha alma caída.
E ganhando nova vida,
de tal maneira hei trocado,
que é meu Amado para mim,
e eu sou para meu Amado.

Atirou-me com uma seta
envenenada de amor,
e minha alma ficou feita
una com seu Criador.
Eu já não quero outro amor,
que a meu Deus me hei entregado,
meu Amado é para mim,
e eu sou para meu Amado.


Santa Teresa de Ávila, Seta de Fogo, trad. de José Bento, Assírio & Alvim, 1989


Publicado por sol em 12:18 AM | Comentários (11)

junho 25, 2004

Verão sobre o corpo

AngeloSousa.JPG


Como se houvesse um incêndio de giestas para atravessar, eu não dormia.

Eugénio de Andrade, Limiar dos Pássaros, Ed Limiar, Porto, 1976

Publicado por sol em 01:15 AM

junho 24, 2004

Outra poética

quinas.gif

«Desculpem - mas jogar futebol assim é também poesia :)
Feliz, após jogo impróprio para cardíacos...»

                        Amélia Pais dixit.

Eu concordo

Publicado por sol em 11:55 PM | Comentários (13)

maio 21, 2004

Origem

Agora sei que houve um só lugar onde acendi o lume.

Larry Towell.jpg
fotografia de Larry Towell

Publicado por sol em 08:40 AM | Comentários (7)

maio 07, 2004

Retrato de rapaz

AngeloSousa.JPG


Vinha de terras altas, conhecera a sede e
a água dos trigos de março, os pés habituados
à poeira lentíssima da eternidade.
O rigor da neve veio vindo depois.

Eugénio de Andrade, Memória Doutro Rio, Limiar, Porto, 1978

Publicado por sol em 12:15 PM | Comentários (8)

abril 26, 2004

Ajenidad

El sentimiento de la desposesión radical – no poseer lo que se tiene, no vivir la vida sino su remedo o aparencia –, la percepción del tiempo como una amenaza destructiva, la experiencia de lo que podríamos llamar ajenidad – percibir la existencia como algo lejano que nunca será nuestro del todo; ni siquiera nuestros cuerpos y almas los sentiremos como proprios.


Ángel Rupérez, El Mundo como Meditación, Introduccion a Luis Cernuda, Antología Poética, Espasa Calpe, Madrid, 2002

Publicado por sol em 04:35 PM | Comentários (9)

março 27, 2004

Esforço-me por aceitar

katarse1.jpg
© Zoe Zimmerman


Não pedi para viver.
Esforço-me por aceitar sem espanto e sem cólera
tudo o que a vida me oferece.
Partirei sem ter interrogado ninguém
sobre a minha estranha estada na terra.


Omar Khayyam, Rubaiyat, Odes ao Vinho, Trad. de Fernando Couto, Moraes Editores, Lisboa, sd

Publicado por sol em 02:10 PM | Comentários (16)

março 25, 2004

Ítacas



Suzanne

Suzanne takes you down
to her place near the river
you can hear the boats go by
you can spend the night beside her
And you know that she's half crazy
but that's why you want to be there
and she feeds you tea and oranges
that come all the way from China
And just when you mean to tell her
that you have no love to give her
then she gets you on her wavelength
and she lets the river answer
that you've always been her lover

And you want to travel with her
you want to travel blind
and you know that she can trust you
for you've touched her perfect body
with your mind

And Jesus was a sailor
when he walked upon the water
and he spent a long time watching
from his lonely wooden tower
and when he knew for certain
only drowning men could see him
he said All men will be sailors then
until the sea shall free them
but he himself was broken
long before the sky would open
forsaken, almost human
he sank beneath your wisdom like a stone

And you want to travel with him
you want to travel blind
and you think maybe you 'II trust him
for he's touched your perfect body
with his mind

Now Suzanne takes your hand
and she leads you to the river
she is wearing rags and feathers
from Salvation Army counters
And the sun pours down like honey
on our lady of the harbour
And she shows you where to look
among the garbage and the flowers
There are heroes in the seaweed
there are children in the morning
they are leaning out for love
they will lean that way forever
while Suzanne holds the mirror

And you want to travel with her
you want to travel blind
and you know that you can trust her
for she's touched your perfect body
with her mind

Leonard Cohen, Stranger Music - Selected Poems and Songs, 1993

Publicado por sol em 11:53 PM | Comentários (12)

fevereiro 28, 2004

Que no silêncio talha

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Mosteiro de Alcobaça - nave central

Publicado por sol em 12:12 AM | Comentários (11)

fevereiro 05, 2004

M'illumino d'immenso

Entrava em casa, numa destas raras noites sem brumas. Cassiopeia abria os braços do outro lado do horizonte. Da Ursa, só a carreta, cauda perdida atrás dos prédios. Não sei por onde andaria a Lua, quase cheia, que subira a serra horas antes, ainda o céu desmaiava. Mas acima do telhado, em glória, o cinturão de Orion. Acode-me o Mattina de Ungaretti. Por segundos, ensaia-se um regresso.

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Publicado por sol em 02:13 PM | Comentários (19)

janeiro 27, 2004

Amigos

Não consigo publicar comentários no Nocturno, há uma falha qualquer no weblog, respondo-vos aqui.

Lembram-se do filme "Esplendor sobre a relva"? Assim se tornaram para mim os sobreiros: os ícones de um irrepetível fulgor. Essas árvores que eu via na planície alentejana, no Algarve, mas distraidamente, pois que não eram as minhas, as que julgava ancestrais.

Quem me havia de dizer que anos depois, olhando-os da minha janela, de dois sobreiritos haveria de fazer uma floresta inteira - para alegria e sobrevivência do olhar?

Agradeço a todos os que me leram. E hoje destaco o Groze pela sua gentileza e por nos encontrarmos assim, contra todas as probabilidades, excepto a que um querido amigo comum representa nestes jogos de acaso.

E ao Carlos, à Márcia, ao António, à Amélia, à Adelaide, ao Nuno, à Louise, ao Wilson, à Eugênia, à Sara, ao Fernando, ao Manuel, ao Mário, ao Rui, à Joana, à Diana, à Eduarda, ao Sete Sóis, ao NorMal... a quem por aqui passa e volta, ou não, um beijo.

Publicado por sol em 10:38 PM | Comentários (7)

janeiro 20, 2004

Pela atenção que lhe mereceu

o Nocturno com Gatos, o meu muito obrigada a Rogério Santos de Indústrias Culturais.

Como bem nota, afinidades e ternura são os elementos centrais deste salão semi-público onde recebo os amigos, nem todos virtuais.

E também eu existo :-)

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dezembro 28, 2003

De regresso

após um breve interregno natalício, agradeço aos amigos e visitantes que passaram pelo Nocturno com Gatos, e a todos desejo um excelente ano novo.

E se 2004 não for o que desejamos, para nós e para o mundo, que ao menos conservemos esse olhar "à Eugénio de Andrade", capaz de aquecer-se ao sol da esperança, na contemplação das coisas mais elementares.

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novembro 12, 2003

Há encantamentos

que nos acompanham a vida toda.


Famous Blue Raincoat

It's four in the morning, the end of December. I'm writing you now just to see if you're better. New York is cold but I like where I'm living. There's music on Clinton Street all through the evening. I hear that you're building your little house deep in the desert. You're living for nothing now. I hope you're keeping some kind of record. Yes, and Jane came by with a lock of your hair. She said that you gave it to her the night that you planned to go clear. Did you ever go clear?

The last time we saw you you looked so much older. Your famous blue raincoat was torn at the shoulder. You'd been to the station to meet every train but then you came home without Lili Marlene. And you treated my woman to a flake of your life. And when she came back she was nobody's wife. I see you there with a rose in your teeth, one more thin gypsy thief. Well I see Jane's awake. She sends her regards.

And what can I tell you, my brother my killer? What can I possibly say? I guess that I miss you. I guess I forgive you. I'm glad that you stood in my way. If you ever come by here, for Jane or for me, I want you to know that your enemy is sleeping. I want you to know that his woman is free. Yes, and thanks for the trouble you took from her eyes. I thought it was there for good, so I never tried.

And Jane came by with a lock of your hair. She said that you gave it to her that night that you planned to go clear.

Sincerely, L. Cohen.



Leonard Cohen, Songs of Love and Hate

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novembro 11, 2003

sul cuor della terra

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Publicado por sol em 01:17 PM | Comentários (5)