dezembro 12, 2006

Poética

A poesia, meu caro amigo, é como o amor: dura até ao momento em que nos abandona.

Marina Tsvétaïeva, em Rilke/Pasternak/Tsvétaïeva, Correspondência a Três, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006



Publicado por sol em 02:15 AM | Comentários (12)

setembro 15, 2005

Por Que Escrevemos

Há quem faça versos e ame
o estranho riso das crianças
o subsolo do homem
que nas cidades acres disfarça a sua lenda,
a instauração da alegria
que profetiza o fumo das fábricas.
Tem-se nas mãos um pequeno país,
datas horríveis,
mortos como facas exigentes,
bispos venenosos,
imensos jovens de pé,
sem outra idade além da esperança,
rebeldes padeiras com mais poder que um lírio,
alfaiates como a vida,
páginas, noivas,
esporádico pão, filhos doentes,
advogados traidores,
netos da sentença e o que foram
bodas desperdiçadas de impotente varão,
mãe, pupilas, pontes,
fotografias rasgadas e programas.
Morreremos,
amanhã,
um ano,
um mês sem pétalas esquecidas:
dispersos ficaremos sob a terra
e novos homens chegarão
pedindo um horizonte.
Perguntarão o que fomos,
quem com pura chama os precedeu,
e quais maldizer lembrando-os.
Certo.
É isso que fazemos:
Custodiamos para eles o tempo que nos coube.

Roque Dalton, 1935-1975, San Salvador (tradução minha)



Por Qué Escribimos

Uno hace versos y ama
la extraña risa de los niños,
el subsuelo del hombre
que en las ciudades ácidas disfraza su leyenda,
la instauración de la alegría
que profetiza el humo de las fábricas.
Uno tiene en las manos un pequeño país,
horribles fechas,
muertos como cuchillos exigentes,
obispos venenosos,
inmensos jóvenes de pie
sin más edad que la esperanza,
rebeldes panaderas con más poder que un lirio,
sastres como la vida,
páginas, novias,
esporádico pan, hijos enfermos,
abogados traidores
nietos de la sentencia y lo que fueron
bodas desperdiciadas de impotente varón,
madre, pupilas, puentes,
rotas fotografías y programas.
Uno se va a morir,
mañana,
un año,
un mes sin pétalos dormidos:
disperso va a quedar bajo la tierra
y vendrán nuevos hombres
pidiendo panoramas.
Preguntarán qué fuimos,
quienes con llamas puras les antecedieron,
a quienes maldecir con el recuerdo.
Bien.
Eso hacemos:
Custodiamos para ellos el tiempo que nos toca.

Roque Dalton, La Ventana en el Rostro, UCA Editores, San Salvador

Publicado por sol em 12:45 PM | Comentários (20)

outubro 29, 2004

Fidelidade

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O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo de conhecimento, que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e se consome, é a sua moral. E não há outra. Nesse mergulho do homem nas suas águas mais silenciadas, o que vem à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade. [...] Palavra de aflição, mesmo quando luminosa, de desejo, apesar de serena, rumorosa até quando nos diz o silêncio, pois esse ser sedento de ser, que é o poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura é uma reconciliação, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presença e ausência, plenitude e carência. Essa revelação do poeta, e dos outros com ele, essa descida ao coração da alma, de que Heraclito encontrou a fórmula, essa coragem de mostrar o que achou no caminho – e nunca é fácil, nem alegre, nem irresponsável revelar o que se encontrou ou sonhou nas galerias da alma – é o que chamarei agora dignidade do poeta, e com ele a do homem. Porque é sempre de dignidade que se trata quando alguém dá a ver o que viu, por mais fascinante ou intolerável que seja o achado.
[...]
Eis o homem, eis o seu efémero rosto, feito de milhares e milhares de rostos, todos eles respirando na terra, nenhum superior a outro, separados por mil e uma diferenças, unidos por mil e uma coisas comuns, semelhantes e distintos, parecidos todos e contudo cada um deles único, solitário, desamparado. É a tal rosto que cada poeta está religado. A sua rebeldia é em nome dessa fidelidade. Fidelidade ao homem e à sua lúcida esperança de sê-lo inteiramente; fidelidade à terra onde mergulha as raízes mais fundas; fidelidade à palavra que no homem é capaz da verdade última do sangue, que é também verdade da alma.


Eugénio de Andrade, Os Afluentes do Silêncio, Editorial Inova, Porto, 1974

Publicado por sol em 10:04 AM | Comentários (15)

junho 23, 2004

A modo de poética

La poesía, a la que yo llegué siendo muy niño por una inevitable atracción fatal, es un veneno íntimo en el que yo he logrado alojar mi vida o parte de mi vida, sin que hasta ahora haya podido explicarme de donde me vino tal lujo o tal esclavitud y digo una cosa y otra porque en la poesía encuentras uno de los más impagables placeres y una de las más ingratas compensaciones de esta vida. Como expresión artística la poesía es ilógica, indefinible.
(...)
Lo que empezó siendo, para mí, una temeridad de adolescencia, acabó por convertirse en la disciplinada mesura del buscador de un grial en una tierra incógnita de la que emana siempre una extraña e irrepetible música que seduce a los naúfragos. En esta isla de la poesía cada cual sobrevive como puede, cubriendo su identidad con palabras de procedencia ilusoria que son como la espuma o como los pájaros que siempre sobrevuelan el territorio oscuro del poema como un eterno simulacro.

Carlos Rivera, A modo de poética o mi experiencia sensible, 2004

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dezembro 01, 2003

Não ter outro rosto

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Em face da sua imagem ou da sua sombra, o homem realiza um dia o encontro decisivo com os seus limites. A aventura misteriosa de Narciso repete-se desde a infância em frente de cada espelho. Gostaríamos de nos tocar do lado de lá sem quebrar o vidro nem turvar a água. [...]

A aventura é impossível, pois a imagem e a sombra são reais. Isso significa que um mundo nos cerca, nos divide e nos limita. Jamais seremos esse que pode ver-se face a face. Mas o jogo é demasiado sério para o perdermos ao primeiro gesto. Se não nos podemos olhar procuremos entre os monstros, os demónios e os deuses que criámos, esse rosto impassível que o vento e a chuva de cada dia não nos consentem. [...]

É impossível reconhecer um homem em Anúbis de focinho de chacal, ou uma mulher em Ísis, a virgem-mãe de face de lua. Mas é fácil reconhecê-lo nesse ser ambíguo que os antigos Egípcios talharam na rocha do deserto e os Gregos ágeis deixaram errar perigosamente pelos caminhos de Tebas a Corinto. Espírito da Terra capaz de romper através da vida obscura da inércia animal para oferecer uma face de Deus ao apelo universal da luz, a Esfinge é encarnação perfeita da ambiguidade radical da situação humana. E ao mesmo tempo a realização plástica mais concreta do acto original do homem: a poesia.[...] No espírito do seu criador, a Esfinge é uma resposta. A poesia é expressão de origens. Solicitado pela noite animal e a plenitude solar, um poeta talhou na rocha uma forma visível da sua condição. [...]

É humano sentir-se cansado ao fim duma obra. O nosso poeta cansou-se e adormeceu entre as patas poderosas da sua criatura. Durante a noite o vento do deserto (e todos os criadores serão conduzidos ao deserto em certas horas, como o Cristo) arrastou a areia e cobriu com ela as raízes da criatura e o seu criador. Quando veio a manhã, foi assim, sem autor e desfigurada, que a obra apareceu aos outros que por acaso a encontraram no caminho. Então puseram-se a interrogá-la longamente pelo dia adiante. A interrogar o silêncio. Como admirarmo-nos se o silêncio não respondeu?[...]

A segunda história, a da esfinge grega, é mais estranha. [...] O enigma é agora real e os jovens mortos testemunham da seriedade do mistério. Os poetas oficiais de Tebas (e os sacerdotes) não compreendiam como a poesia se pudera tornar mortal. Como o deus silencioso do antigo Egipto adquirira poderes para devorar o seu criador. Cada poeta sabia que se repetisse novamente o gesto original da criação, o monstro se tornaria humano, mas esquecera-se dele. [...] Impotentes, imaginaram dominar o monstro repetindo os antigos encantamentos, fazendo poesia da poesia. [...] Assim o seu passado os alcançou, mineralizando-os como à mulher bíblica. Os seus poemas, a esfinge criada, vinham novamente ter com eles. Não podiam renovar-se.

Quem afrontaria o monstro, o deus da inércia, do hábito, da Morte? Um poeta novo, capaz de recordar ao deus as suas origens. [...] Édipo só sabia uma única coisa: é que todos os enigmas são enigmas do homem. Logo, o HOMEM devia ser a resposta a todos os enigmas. [...] Édipo pensou que uma fórmula era uma solução. E ela era só uma dificuldade. Que bastava dizer uma só vez HOMEM e o terror e os monstros se sumiriam para sempre. Foi o primeiro humanista sincero, mas abstracto. A verdade é que os monstros voltam sempre. O combate com o anjo é de todas as horas. Servirmo-nos do escudo do homem é assumir a sua ambiguidade. É saber que nada existe à nossa frente senão o que consentimos criar com as nossas mãos. A cada hora o mundo é o que fazemos dele. A história o que fizermos dela. E os valores. E os encontros. Impossível aceitar como Édipo que tudo está feito só porque descobrimos a fórmula que permite que tudo se faça. [...]

Como na hora em que concebemos a Esfinge para nos tocarmos melhor, continuamos sendo aqueles que procuram danadamente uma autêntica face de homem, uma existência de si-mesma buscando-se entre possibilidades múltiplas de existir. Por isso sabemos hoje que não teremos uma face diferente daquilo que fizermos. Mas fazer de novo é continuar a criação e criar é ser poeta. O que significa finalmente não ter outro rosto senão o que a Poesia nos modelar.

Eduardo Lourenço, Tempo e Poesia, Relógio d'Água

Publicado por sol em 03:40 PM | Comentários (4)