setembro 25, 2008

Ars Amatoria

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                                                    Klee, Remembrance of a Garden

... o poema [Cântico dos Cânticos] irrompe igualmente com o seu quê de inesperado dentro do quadro bíblico. (...) As palavras como que se tornam de seda. Há aqui um extraordinário trabalho de construção verbal que nos obriga a concluir que o autor anónimo seria um grande poeta (ou uma grande poeta, como hoje se tem por provável). A sonoridade do original hebraico alcança um vigor musical, cheio de ressonâncias, mesmo para lá das rimas. E há uma acumulação de imagens, raras pela sua sensualidade, que balançam do corpo humano para o misterioso corpo da criação: por toda a parte, um colorido intrincado, vegetal; há os animais que pululam metafórica e literalmente; há perfumes que se derramam profusamente, tornando inebriante a própria leitura. (...) E "naturalmente" o Cântico é um epitalâmio, um canto de admiração trocado por dois enamorados, um sussurro e uma extraordinária meditação acerca do amor. (...) E o texto exprime com verdade a experiência de amor entre uma mulher e um homem. É assim que nos ensina que este amor natural é profundamente espiritual. (...)

Nos séculos V ou IV a.C., quando se calcula que este livro tenha sido escrito, a condição da mulher estava marcada por uma subalternidade em relação ao homem, e o espaço social em que se movia (salvo raras excepções) era restrito. Mas ela aqui alcança um protagonismo que a torna parceira autêntica do seu par. Nenhum outro texto bíblico dá a palavra à mulher numa tal proporção. Há uma acumulação de verbos na primeira pessoa, com a amada por sujeito. Ela busca e é buscada. Pede e é pedida. A sua palavra inaugura o canto. A mulher olha para o homem e avizinha-se a ele com a mesma impaciência e a mesma alegria de ele a ela. (...)

Neste amor o encontro é interminável, é sempre e ainda o desejo do encontro. Desejo vital, encravado no segredo do corpo como uma doença (...). O amor está sempre a ser proposto e reproposto: nunca é construção terminada. (...) O amor faz dos enamorados nómadas, buscadores e mendigos. Todo o diálogo de amor é uma conversa entre mendigos: não entre gente que sabe, mas entre quem não sabe; não entre gente que tem, mas entre quem nada retém. Por isso, a maior declaração de amor não é uma ordem, é ainda um pedido: «Grava-me como selo em teu coração, como selo no teu braço, porque forte como a morte é o amor.» (Ct 8,6).

As mãos ardem folheando este livro que pede para ser lido por dentro dos olhos, este livro humano e sagrado, este cântico anónimo que todos sentem seu, este relato de um sucesso e de um naufrágio ao mesmo tempo manifestos e secretos, esta ferida inocente, esta mistura de busca e de fuga, este rapto onde tudo afinal se declara, esta cartografia incerta, este estado de sítio, este estado de graça, este único sigilo gravado a fogo, este estandarte da alegria, este dia e noite enlaçados, esta prece ininterrupta onde Deus se toca.

(...)

Enquanto «poesia corpórea», o Cântico «oferece sobretudo a possibilidade de nos reconciliarmos com a sexualidade» (G. Ravasi, Il linguaggio dell'amore, Bose, Qiqajon, 2005, 36), pois, na palavra que a proclama, os seres humanos emergem numa dignidade altíssima. (...) na experiência erótica, dá-se a aparição do Outro em toda a sua frágil vulnerabilidade, e esse acontecimento impele a que a distância seja elidida através de um gesto que nada mais quer além de ser amor.

(...)

O amor é a forma mais radical de hospitalidade.

José Tolentino Mendonça, A leitura Infinita, Bíblia e Interpretação, Assírio & Alvim, Lisboa, 2008


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abril 15, 2008

tudo começa

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                                           Roteiros ― Escrever, Viajar e Morrer com os Gregos

«Tudo começa na margem do continente de onde vão partindo os filhos com o fogo materno, onde esperam regressar um dia ainda que, por vezes, mal amados e acolhidos. Tróia, os excelentes heróis, o cansado Ulisses com um roteiro de regresso imenso, mapa imaginário das primeiras aventuras pelo Egeu, Mediterrâneo ou Atlântico e, contudo, uma recepção fria. Tróia, ainda, dos poetas sem escrita e sem sono, de prodigiosa memória, bastidor de imaginação, cédula essencial do passado, relato urgente e conciso das origens, a requisitar, no dealbar da época arcaica. E os outros sábios, parentes dos xamanes mais antigos, não gregos...
Ainda o tema da viagem, excursão da alma numa flecha, numa ave, e o regresso excelente, prestigiado, pelo desvelar do passado, do presente ou do futuro. Sempre através do aforismo, da poesia, um relato-mistérico.»

                                                                                                                        José Augusto C. Ribeiro Graça - Biblioteca Digital, FLUP

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junho 13, 2007

Evocando Eugénio de Andrade

no dia em que se cumprem dois anos sobre a sua morte, no mesmo dia em que celebramos o aniversário de Fernando Pessoa. Mas hoje Eugénio, o meu primeiro poeta, o primeiro que descobri sozinha, sem intermédio da família ou da escola. Encontro solitário e deslumbrante que selou para sempre uma fidelidade.



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Todos os paraísos tiveram sempre a dimensão do homem, e os deuses que lá habitaram nunca foram mais que o reflexo da sua face branca, da sua face negra. A história dos deuses é o espelho da nossa aflição, da nossa esperança. O paraíso de hoje volta a reflectir as mesmas ilusões: começa a povoar-se de robots. O desamparo inventa sempre uma tábua de salvação: a última é a superstição da técnica. Uma vez mais o homem declina o seu nome, enquanto os deuses mudam de manto e ajeitam a coroa.
Nem cristal nem lixo, mas lixo-e-cristal é o nosso tempo. E não temos outro onde mergulhar as raízes. Nele teremos de acabar de nascer, se algum destino nos foi reservado ou alguma paixão consentida. É um tempo ambíguo, como se sabe: estamos num limiar.
(…)
Que tempo é o nosso? Há quem diga que é um tempo a que falta amor.
Convenhamos que é, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. A obsessão do lucro foi transformando o homem num objecto com preço marcado. Estrangeiro a si próprio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem à tona é o mais abominável dos simulacros. Toda a arte moderna nos dá conta dessa catástrofe: o desencontro do homem com o homem. A sua grandeza reside nessa denúncia; a sua dignidade, em não pactuar com a mentira; a sua coragem, em arrancar máscaras e máscaras e máscaras. E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogmático é mais que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias à «sabedoria» do corpo, em que o priviléqio de uns poucos é utilizado implacavelmente para transformar o indivíduo em «cadáver adiado que procria», como poderia a arte deixar de reflectir uma tal situação (...)? Desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade — eis o homem! Eis a triste, mutilada face humana, mais nostálgica de qualquer doutrina teológica que preocupada com uma problemática moral, que não sabe como fundar e instituir, pois nenhuma fará autoridade se não tiver em conta a totalidade do ser; nenhuma, em que espírito e vida sejam concebidos como irreconciliáveis; nenhuma, enquanto reduzir o homem a um fragmento do homem.

Eugénio de Andrade, "Resende entre a Angústia e a Esperança", em Os Afluentes do Silêncio, Editorial Inova, Porto, 1974


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outubro 05, 2006

Ética para um Jovem

Revisitando um livro cuja leitura costumo propor aos meus alunos:


De um ponto de vista ético, quer dizer, da perspectiva do que convém à vida boa, como será a organização política preferível, aquela que devemos esforçar-nos por conseguir e defender? Se recapitulares um pouco aquilo que temos vindo a discutir até aqui (mas receio, infelizmente, que a lição já vá longa demais para te lembrares de tudo), certos aspectos desse ideal ser-te-ão evidentes, contanto reflictas um pouco no caso:

a) Como todo o projecto ético parte da liberdade, sem a qual não há vida boa que valha, o sistema político desejável terá de respeitar ao máximo – ou limitar ao mínimo, como preferires – as componentes públicas da liberdade humana: a liberdade de nos reunirmos ou separarmos, a de exprimirmos as nossas opiniões ou inventarmos a beleza e a ciência, a de trabalharmos de acordo com a nossa vocação ou interesses, a de intervirmos nos assuntos políticos, a de nos deslocarmos de um lugar para outro e nos instalarmos aqui ou ali, livremente, a liberdade de escolhermos os nossos prazeres do corpo ou da alma, etc. Devemos recusar as ditaduras, sobretudo as que são «para nosso bem» (ou querem «o bem comum», o que vem a dar no mesmo). O nosso maior bem – particular ou comum – é sermos livres. Assim, um regime político que conceda a devida importância à liberdade insistirá também na responsabilidade social das acções e omissões de cada um (digo «omissões», porque às vezes também se faz não fazendo). Regra geral, quanto menos responsável se revele cada pessoa pelos seus méritos ou más acções (sustentando, por exemplo, que tudo isso são frutos da «história», da «sociedade estabelecida», das «reacções químicas do organismo», da «propaganda», do «demónio» e outras coisas do mesmo género), menor o grau de liberdade que lhe será concedido. Nos sistemas políticos em que os indivíduos nunca são completamente «responsáveis» tão pouco costumam sê-lo os governantes, que agem sempre impelidos pelas «necessidades» históricas ou pelos imperativos da «razão de Estado». Cuidado com os políticos para os quais toda a gente é vítima das circunstâncias... ou tem a a «culpa» delas.

b) Um princípio de base da vida boa, como já vimos, é tratar as pessoas como pessoas, quer dizer: sermos capazes de nos pormos no lugar dos nossos semelhantes e de relativizar os nossos interesses para os harmonizarmos com os deles. Se preferes dizer a mesma coisa de outro modo, trata-se de aprendermos a considerar os interesses do outro como se fossem nossos, e os nossos como se fossem do outro. A esta virtude chama-se justiça, e não pode existir regime político decente que não pretenda, por meio de leis e instituições, fomentar a justiça entre os membros da sociedade. A única razão que justifica limitar a liberdade dos indivíduos quando indispensável é impedi-los, pela força se não houver outro modo, de tratarem os seus semelhantes como se estes o não fossem, ou seja, como instrumentos, bestas de carga, brinquedos, seres inferiores, etc. À condição de que cada ser humano pode exigir ser tratado como semelhante pelos demais, seja qual for o seu sexo, cor de pele, ideias ou preferências, etc, chama-se dignidade. E repara como é curioso: embora a dignidade seja coisa que todos nós, os seres humanos, temos em comum, ela é precisamente o que também serve para reconhecermos cada um de nós como único e irrepetível. As coisas podem ser «trocadas» umas pelas outras, podem ser «substituídas» por outras parecidas ou melhores, numa palavra: têm o seu «preço» (o dinheiro costuma servir para facilitar estas trocas medindo-as a todas por um mesmo padrão). (...) Pois bem, todo o ser humano tem dignidade e não preço, ou seja, não pode ser substituído nem deve ser maltratado em vista do benefício de outro. (...) É a dignidade humana que nos toma a todos semelhantes, justamente porque certifica que cada um de nós é único, não intercambiável e detentor dos mesmos direitos a ser socialmente reconhecido que qualquer outro.

Fernando Savater, Ética para um Jovem, Publicações Dom Quixote

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outubro 01, 2006

Aproximação ao absurdo

«Ele tinha visto quão improvável é termos de vir uns dos outros e quão improvável é o virmos realmente uns dos outros. Nascimento, sucessão, as gerações, a história – absolutamente improvável.
Ele tinha visto que não vimos uns dos outros, que apenas parece que vimos uns dos outros.»

                                                    * * *

«A ordem é mínima. Ele pensara que quase tudo era ordem e que a desordem era apenas um bocadinho. Afinal era ao contrário. (...)
O velho sistema que criou a ordem já não funciona. Tudo o que lhe restava era o medo e o espanto mas agora escondidos por detrás do nada.»

Philip Roth, Pastoral Americana, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1999


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julho 01, 2006

Único consolo

Thoreau ainda podia contar com a floresta de Waldau - mas onde está hoje a floresta na qual o ser humano prove que pode viver livre, e não limitado pelos rígidos moldes da sociedade?

Sou obrigado a responder: em parte alguma. Se desejo viver livre, é por enquanto necessário que o faça no interior desses moldes. Sei que o mundo é mais forte do que eu. E para resistir ao seu poder só me tenho a mim. O que já não é pouco. Se o número não me esmagar, sou, também eu, um poder. E enquanto me for possível empurrar as palavras contra a força do mundo, esse poder será tremendo, pois quem constrói prisões expressa-se sempre pior do que quem se bate pela liberdade. E no dia em que só o silêncio me restar como defesa, então será ilimitado, pois gume algum pode fender o silêncio vivo.

É este o meu único consolo.

Stig Dagerman, A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Fenda Edições & Norstedts Förlag, Lisboa, 2004

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maio 11, 2006

Poesia em tempo de guerra e banalidade

«O legado do século XX revela-se como um desastre contínuo. Deixou-nos como aporia a incapacidade de a poesia, como síntese da atividade criadora, lidar com a estupidez e a barbárie. O ceticismo face à transformação revolucionária, à consistência das vanguardas ou ao dogmatismo ideológico, não resultou em ações mais livres, mas apenas numa produção mais prolixa, dentro de ambientes cada vez mais homogêneos. A atividade paroquial ofende-se com a crítica e o debate. A condescendência generalizada evidencia a pouca seriedade com que se toma a poesia, bem como a descrença em sua ação transformadora. Mas que criação real pode renunciar à transformação? Um efeito impressionante desse legado de continuidade catastrófica — que abafa e absorve o desastre como normalidade —, é a conformidade da poesia com uma dimensão mediana de produção. Escrever se reduz a um hábito ligeiro, um hobby — isto é, uma atividade infanto-juvenil que se abandona tão logo se chega à vida adulta, ou se preserva depois disso como lazer de fim-de-semana —, ou então a uma atividade profissional entre quaisquer outras, um modesto ganha-pão associado a várias atividades editoriais e universitárias. Como responder a essa falta de perspectiva e de urgência particular à poesia, domínio por definição hostil à mediocridade? Como resistir a este encolhimento de horizontes, proporcional à proliferação redundante do escrito? Ou, ao menos, como desnaturalizar o desastre e reconquistar a dor diante dele? A poesia ainda pode ser mais do que uma afirmação de frivolidade, arrivismo e afetação intelectual, ou, na direção oposta do mesmo eixo, de modéstia boçal e sobrevivência sem esperança? Se já não temos planos para o futuro, é bom que se diga que tampouco o presente nos pertence: o amortecimento das expectativas resulta em indiferentismo, alienação e tédio, não na fruição de uma vida amena. O que a poesia pode contra esse estado de coisas que não parece ter fim? E se nada pode, como pode ser mais do que fatuidade?»


Alcir Pécora e Régis Bonvicino, Março 2006, encontro internacional de poesia: texto-proposta e programa em Germina

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janeiro 16, 2006

Uma Canção Doce

Neste Natal, um meu amiguinho, de nove anos, escreveu no postal que me endereçou, a par das felicitações da quadra, alguns excertos de um livro que a mãe lhe dera a ler e que ambos acharam eu gostaria de ler também. Não se enganaram, o Gonçalo e a mãe. Não só li com prazer o postal, como procurei por minha vez o delicioso livro. É dele que retiro os excertos abaixo. E os dedico à Eliana, do Reflectindo. Para que sorria.




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          «Porque é verdade que as palavras se organizam em tribos, como os humanos. E cada tribo tem o seu ofício.
         O principal ofício é o de designar as coisas. Já visitaram um jardim botânico? Em frente de cada planta rara, espetaram um cartão, uma etiqueta. É o principal ofício das palavras: colar um rótulo a todas as coisas do mundo, para que sejam reconhecidas. É o mais difícil dos ofícios. Há tantas coisas e coisas tão complicadas e que mudam tão constantemente! E no entanto todas têm de ter uma etiqueta. As palavras encarregadas deste terrível ofício chamam-se nomes. A tribo dos nomes é a mais importante, a mais numerosa. [...] As outras tribos de palavras tiveram de lutar para ocupar um lugar.
         Por exemplo, a minúscula tribo dos artigos. [...]
         Os nomes e os artigos passeiam-se juntos, de manhã à noite. E a sua ocupação favorita consiste em encontrar uma roupagem ou um disfarce. Como se se sentissem nus, caminhando assim pelas ruas. Talvez sintam frio, mesmo à luz do sol. Portanto passam o tempo nas lojas.
         As lojas estão a cargo da tribo dos adjectivos. [...]
         Deliciosos adjectivos, indispensáveis companheiros! Como seriam sensaborões os nomes sem as prendas que os adjectivos lhes dão, o sainete que lhes conferem, a cor, os pormenores...
         E, no entanto, como são maltratados!
         Vou dizer-vos um segredo: os adjectivos têm uma alma sentimental. Acreditam que o seu casamento durará para sempre... É por conhecerem mal a infidelidade dos nomes, verdadeiros rapazes, esses, que mudam de qualificativo como quem muda de camisa.
[...]
         As palavras são seres vivos, reunidos em tribos que mereciam o nosso respeito, que viviam, se as deixássemos em liberdade, uma existência tão rica quanto a nossa, com a mesma necessidade de amor, a mesma violência oculta e ainda mais fantasia jovial.»


Erik Orsenna, A Gramática é uma Canção Doce, ilustrações de Bigre, Edições Asa, Porto, 2003

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janeiro 02, 2006

Uma Ideia de Europa

Numa comunicação proferida no Nexus Institute, em 2004, acerca do conceito de Europa, entendida como algo mais vasto e mais fundo do que uma unidade puramente económica e geográfica, George Steiner aponta cinco pontos que, em seu entender, definem e distinguem o espírito europeu:

- a importância que os cafés tiveram como espaços de reunião e de debate intelectual;
- o facto de o território europeu ter sido percorrido a pé, ou seja, a sua escala humana, pedestre;
- a coabitação permanente com o passado, manifesta, por exemplo, na toponímia (Europa é lugar da memória);
- a síntese, nem sempre pacífica, das heranças grega e judaica;
- a consciência escatológica da própria história.

E o futuro?

«O génio da Europa é aquilo a que William Blake teria chamado "a santidade do pormenor diminuto". É o génio da diversidade linguística, cultural e social, de um mosaico pródigo que muitas vezes percorre uma distância trivial, separado por vinte quilómetros, uma divisão entre mundos. Em contraste com a terrível monotonia que se estende do ocidente de Nova Jérsia às montanhas da Califórnia, em contraste com aquela avidez de uniformidade que é simultaneamente a força e o vácuo de grande parte da existência americana, o mapa estilhaçado, por vezes absurdamente divisor, do espírito europeu e sua herança, tem sido incansavelmente fértil. [...] Nada ameaça a Europa mais radicalmente – "as suas raízes" – do que a onda detersiva e exponencial do anglo-americano e dos valores e imagem mundial uniformes que o Esperanto devorador traz consigo. O computador, a cultura do populismo e o mercado de massas fala anglo-americano desde as discotecas de Portugal ao império de comida rápida de Vladivostok. A Europa morrerá efectivamente, se não lutar pelas suas línguas, tradições locais e autonomias sociais. Se se esquecer de que "Deus reside no pormenor".

[...]

Num mundo actualmente nas garras do fundamentalismo assassino – seja ele o do Sul e Centro americanos, ou seja o do Islão –, a Europa ocidental pode ter o privilégio imperativo de produzir, de pôr em prática, um humanismo secular. Se conseguir libertar-se da sua própria herança negra, confrontondo-a sem receios, a Europa de Montaigne e Erasmo, de Voltaire e Immanuel Kante pode, uma vez mais, indicar o caminho a seguir.

Esta tarefa pertence ao espírito e ao intelecto. É disparate supor que a Europa rivalizará com o poderio económico, militar e tecnológico dos Estados Unidos. Já a Ásia, e em particular a China, se prepara para ultrapassar a Europa em importância demográfica, industrial e, por fim, geopolítica. [...] As tarefas e as oportunidades que agora se nos apresentam são precisamente aquelas que testemunharam a intensa claridade matinal da Europa no pensamento grego e na moral judaica. [...] É vital que a Europa reafirme certas convicções e audácias de alma que a americanização do planeta – com todos os seus benefícios e generosidades – obscureceu. [...]

Pode ser que, de modos agora muito difíceis de discernir, a Europa venha a gerar uma revolução contra-industrial, assim como gerou a própria revolução industrial. Certos ideais de lazer, de privacidade, de individualismo anárquico, ideais quase apagados pelo consumo conspícuo e pelas uniformidades do modelo americano e americano-asiático, poderão ter a sua função natural num contexto europeu, mesmo que esse contexto implique uma certa medida de apetrechamento material. Aqueles que conheceram a Europa durante as décadas de penúria, ou a Grã-Bretanha durante a austeridade, saberão que solidariedades e criatividades humanas podem despontar da pobreza relativa. Não é a censura política que mata: é o despotismo do mercado de massas e as recompensas do estrelato comercializado.

Tudo isto serão sonhos, talvez imperdoavelmente ingénuos. Mas trata-se de fins práticos a que vale a pena almejar. É desesperadamente urgente fazermos cessar, na medida do possível, a saída dos nossos jovens talentos científicos (e humanísticos) da Europa, devido às ofertas edénicas dos Estados Unidos. [...] estou convencido de que a correcção desta situação, tanto económica como psicológica, não está fora do nosso alcance. Se os jovens ingleses escolhem classificar David Beckham acima de Shakespeare e Darwin na lista de tesouros nacionais, se as instituições culturais, as livrarias e as salas de concertos e teatro lutam pela sobrevivência numa Europa que é fundamentalmente próspera e onde a riqueza nunca falou tão alto, a culpa é muito simplesmente nossa. Assim como o poderia ser a reorientação do ensino secundário e dos meios de comunicação social, por forma a corrigir o erro. Com a queda do marxismo na tirania bárbara e na nulidade económica, perdeu-se um grande sonho [...]. Liberto de uma ideologia falida, o sonho pode, e deve, ser sonhado novamente. É porventura apenas na Europa que as fundações necessárias de literacia e o sentido de vulnerabilidade trágica da condition humaine poderiam constituir-se como base. É entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que "a vida não reflectida" não é efectivamente digna de ser vivida

George Steiner, A Ideia de Europa , Gradiva Publicações, Lisboa, 2005 (sublinhados meus)



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julho 06, 2005

A esperança é a gramática

A nossa condição biossomática é fundamentalmente limitada e interrompida pela extinção pessoal. É uma presa perpétua da enfermidade, da doença, da decomposição e das deficiências. O recém-nascido já tem idade para morrer (Montaigne). Uma retórica gasta, mas válida, insiste na brevidade, na brutalidade, na fealdade e no tédio fundamental da maioria das vidas, naquilo que Thoreau designou por «sereno desespero», ou o desespero nem sempre sereno que apenas nos abandona nas horas de excepção, nas ilusões ou epifanias que visitam qualquer vita comum. O postulado grego de que «o melhor é morrer jovem e melhor ainda é não nascer» reveste-se de um realismo irrefutável, sendo a velhice, com raríssimas excepções, um desperdício bafiento, uma incontinência de mente e corpo acentuada pela memória do que não se fez.

Em que se fundam então as nossas esperanças persistentes, os nossos planos para o futuro, os nossos sonhos e utopias, públicos e privados? Em que se baseia o radioso escândalo do nosso investimento no amanhã, no depois de amanhã? Em que radica a «vida de mentira», a aposta na improbabilidade que faz com que a maioria dos indivíduos e sociedades rejeitem, apesar das recorrentes excepções, a lógica do desespero e do suicídio? Em resumo: o que é que faz crescer a grande maré do desejo, das expectativas, de uma obsessão com a vitória sobre a dor, o ramerrão da tortura, a escravatura, a injustiça e os massacres que fazem a história?

Acredito que esta libertação dos constrangimentos físicos, da parede branca da nossa própria morte e de uma aparente eternidade de desilusões pessoais e colectivas, é crucialmente linguística. Bio-socialmente somos de facto mamíferos de curto prazo, votados à extinção, como todas as outras espécies. Mas nós somos animais de linguagem, e é este atributo que, mais do que qualquer outro, faz com que o nosso estado efémero seja suportável e profícuo. A evolução no discurso humano (possivelmente tardia), dos conjuntivos, dos optativos, dos condicionais contrafactuais e das formas verbais que exprimem o futuro (nem todas as línguas têm tempos), definiu e salvaguardou a nossa humanidade. É por sermos capazes de contar histórias, sejam elas fictícias ou matemático-cosmológicas, sobre um universo criado há biliões de anos; é por sermos capazes de, como já referi, discutir e conceber a manhã de segunda-feira depois da nossa cremação; é por os nossos «se» («Se eu ganhasse a lotaria», «Se Schubert tivesse atingido a maturidade», «Se encontrarem uma vacina contra a sida») serem capazes de, a seu bel-prazer, negarem, reconstruírem e alterarem o passado, o presente e o futuro, delineando de outro modo os determinantes da realidade pragmática; é por isto que a existência continua a valer a pena. A esperança é a gramática.

George Steiner, Errata: Revisões de Uma Vida, Col. Antropos, Relógio D'Água Editores, Lisboa, 2001

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junho 22, 2005

Ritos de excelência

Giacometti Goes Canoeing.jpg  Giacometti


É aqui que eu quero chegar. O que é importante é orientar a atenção de um aluno para aquilo que, de início, excede a sua compreensão, mas cuja estatura e fascínio irresistíveis o atraem. A simplificação, o nivelamento que dominam agora toda a educação, salvo a mais privilegiada, são criminosos. Descuram fatalmente capacidades que permanecerão ocultas. Os ataques ao chamado elitismo escamoteiam uma condescendência vulgar para com todos aqueles que julgamos a priori serem incapazes de fazer melhor. Tanto o pensamento (o conhecimento, Wissenschaft, a imaginação a que se dá forma) como o amor exigem demasiado de nós. Tornam-nos humildes. Mas a humilhação e até o desespero face à dificuldade — depois de suarmos durante toda a noite, a equação ainda por resolver, a frase grega por compreender — podem irradiar com a luz do Sol.

George Steiner, Errata: Revisões de Uma Vida, Col. Antropos, Relógio d'Água Editores, Lisboa, 2001


                                                             *   *   *


Por outro lado, tanto quanto me é permitido perceber, as pessoas estão a tornar-se mais tolas de hora para hora. Todas essas universidades a organizarem programas de emergência para ensinarem aos alunos o que eles deviam ter aprendido no nono ano. No liceu de East Orange há muito deixaram de ler os clássicos antigos. Nunca ouviram sequer ouvir falar de Moby Dick, quanto mais lê-lo. (...) No tempo dos meus pais, e até em boa parte no seu e no meu, costumava ser a pessoa que ficava aquém. Agora é a disciplina. É muito difícil ler os clássicos; logo, a culpa é dos clássicos. Hoje o estudante faz valer a sua incapacidade como um privilégio. Eu não consigo aprender isto, portanto alguma coisa está errada nisto. E há especialmente alguma coisa errada no mau professor que quer ensinar tal matéria. Deixou de haver critérios, Mr. Zuckerman, para só haver opiniões.

Philip Roth, A Mancha Humana, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2004

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junho 02, 2005

Cartilha do Marialva

A propósito de objectos tão diversos como o texto da Constituição Europeia, o programa de Português na revisão curricular do Ensino Básico e Secundário, ou simplesmente do que pode presidir à intenção de "épater le bourgeois":


Necessariamente, a divinização do Poder conduz à despolitização das populações, já que as dispensa de qualquer comparticipação activa nos destinos colectivos. Promove mesmo uma «zona zero» entre o ser comum (real) e o predestinado (irreal) que lhe garante o mito indispensável e o sentido providencialista do seu exercício. Esta distância (conveniente) reservada entre os governantes e o homem da rua é na comunicação circunstancial ou na análise dos problemas um fosso de «altos» conceitos expostos numa linguagem hermética, contrária, por exemplo, à dos liberais esclarecidos de Pombal que, numa época em que imperava uma medida universalista do progresso, utilizavam a expressão directa de quem se expõe de peito aberto e pretende convencer pela razão.

«As cousas», ditou um dia o Marquês, «não são boas por serem custosas e magníficas mas porque são próprias e adequadas ao uso que delas se deve fazer.»

Estilo funcional como o barroco e como todos os estilos, é certo. Só que este, na forma clara do édito público, procura fazer-se entender à escala do País e não somente à do reduzido grupo da Corte e dos protegidos. Os ditadores conhecem-se até pelo estilo: o estilo dos ditadores define o seu alcance popular.
(...)
Uma estilística (sociológica, porque não?) da língua portuguesa poderia certamente demonstrar o ponto de pureza da nossa expressão verbal (pureza=clareza) nas etapas de maior identidade dos governantes com os governados ou, pelo contrário, o divórcio entre ambos nas estapas de conflito nacional.

José Cardoso Pires, Cartilha do Marialva, 1960, Co-edição do Círculo de Leitores e de Publicações Dom Quixote, 7ª ed, 1989

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maio 17, 2005

...e seria tão fácil

Ficava surpreendido, contra a minha vontade, pela extraordinária insignificância das nossas faltas mais graves, pelo escasso lugar que ocupariam na nossa vida, se o remorso não as prolongasse no tempo. O nosso corpo esquece como a nossa alma; talvez isso explique, nalguns de nós, renovadas inocências. (...)

Venci. À custa de recaídas miseráveis e de mais miseráveis vitórias, consegui viver um ano inteiro como teria desejado viver toda a minha vida. (...) Não pretendo exagerar o meu mérito: ter o mérito de se abster de uma falta é uma maneira de ser culpado. Dirigimos por vezes os nossos actos; não tanto os nossos pensamentos; não dirigimos os nossos sonhos. (...) Assim, eu amara a vida. (...) Mas detesta-se a vida, quando se sofre. (...)

Tornei-me duro. (...) Receava o amolecimento proporcionado pelas sensações suaves; acabei por detestar a natureza, devido às carícias da Primavera. (...)

O Inverno a seguir foi um Inverno chuvoso. Apanhei frio. (...) Esse resfriamento, que não tratei, veio debilitar-me ainda mais: voltei a adoecer, e desta vez com muita gravidade. (...)

Quando melhorei, quando consegui erguer-me na cama, o meu espírito, débil ainda, continuava incapaz de reflexões muito prolongadas; foi por intermédio do meu corpo que me chegaram as primeiras alegrias. Revejo a beleza, quase sagrada, do pão, o humilde raio de sol em que eu aquecia o rosto, e o atordoamento que a vida me causou. Até que um dia pude assomar à janela aberta. Morava numa simples rua pardacenta dos arredores de Viena, mas há momentos em que basta uma árvore despontando atrás de um muro para nos lembrar que existem florestas. Tive, nesse dia, através de todo o meu corpo espantado por voltar a viver, a minha segunda revelação da beleza do mundo. (...) chorei só de pensar que a vida era tão simples, e seria tão fácil se nós próprios fôssemos suficientemente simples para a aceitar.

Marguerite Yourcenar, Alexis ou o Tratado do Vão Combate, Difel, Lisboa, 1988

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janeiro 13, 2005

Memória de Inês de Castro

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Constantin Brancusi


Há qualquer coisa de miraculoso no encontro em que Pedro repara pela primeira vez, com atenção, em Inês. O infante tinha chegado da Atouguia, com seu ar despreocupado, meio aborrecido e cheio de uma sede insaciável. Foi Inês que preparou na cozinha a bebida de Pedro. Ele agradeceu ligeiramente com a cabeça e bebeu, sem reparar em mais nada. Quando ergueu a cabeça e fitou o rosto de Inês, reparou, intrigado, que os cabelos desta pareciam despedir labaredas. Era um lume que crepitava em silêncio. Foi então que Inês, de forma inesperada, lhe encostou a ponta dos dedos na face. Todas as margens do ser, a esse contacto, foram incendiadas, os diques derrubados. Foi, porém, um gesto inocente, quase pueril. A célebre gaguez de Pedro pode datar desse instante. O amor foi nele o terror dum susto. [...]

Inês ganhou Pedro e depois a própria coroa portuguesa, não por um privilégio de matrimónio, mas pelo privilégio humano dos seus próprios dons. Ela encarnava qualidades humanas raras e todo o seu corpo era a expressão silenciosa das mais altas virtudes do homem. [...]

- Senhora, abri, que é El-Rei de Portugal.
Inês estava junto da janela onde esvoaçava o lençol branco do seu enxoval. Mandou Fátima ir passear pela alameda com as crianças. A solidão do aposento apareceu-lhe como a expressão do seu sacrifício. Preparava-se para a morte como se tinha antes preparado para o amor. Penteou-se e vestiu-se de branco. Inês vestiu-se de branco para morrer e pôs nas mãos um colar de pedras que Pedro lhe dera. E fê-lo, não para interpelar Afonso, mas para mostrar à morte a sua aliança com a vida. [...]

A entrada do rei e dos seus conselheiros nos aposentos de Inês foi intempestiva. Vinham sobretudo preparados para um longo desacordo com Inês, mas a gelada indiferença desta petrificou-lhes os intentos. Todas as tradicionais hesitações atribuídas a Afonso no momento de assassinar Inês devem-se justamente à inesperada atitude dela: nem filhos nem palavras. É fácil vencer um opositor armado e feroz, mas é difícil matar uma mulher que, em vez de brandir argumentos, nos apresenta um vestido branco cheio de silêncio. [...]

O sol declinava no horizonte. Afonso trazia enfim a mão manchada de sangue e os olhos baixos. [...]

Pedro, de madrugada, quando chegou à alameda dos olhos de água, onde hoje é a fonte dos amores, avistou o lençol branco a esvoaçar ao vento. Teve de arrombar sucessivas portas fechadas, no palácio deserto, enquanto gritava desalmadamente por Inês. Quando viu o corpo de Inês desfeito em sangue, a voz ficou-lhe presa na garganta. A célebre gaguez de Pedro, tão falada por Femão Lopes, não era congénita. A gaguez de Pedro foi a consequência imediata da morte de Inês. Se o amor, em vida de Inês, lhe tirou o significado das palavras, o amor, com a morte, tirou-lhe para sempre a fala. Era de madrugada e em Coimbra levantavam-se os primeiros rumores sobre a morte de Inês de Castro. Amanheceu baço e sem luz aquilo que foi o dia.

António Cândido Franco, Memória de Inês de Castro, Publicações Europa-América, Lisboa, 1990


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