janeiro 04, 2007

Doble


Côa, Sabugal - Dezembro de 2006

Una patria es la lengua en la que sueñas.

Juan Bonilla


Publicado por sol em 01:10 PM | Comentários (15)

maio 01, 2006

Nem sempre o passado é um país estrangeiro

   «E a vida vai tecendo laços
    Quase impossíveis de romper:
    Tudo o que amamos são pedaços
    Vivos do nosso próprio ser.»

            Manuel Bandeira


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Sabugal - Torre do relógio


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          Sabugal - Castelo


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Sabugal - Praia Fluvial

Da colecção de postais editada pela ADES - Associação Desenvolvimento Sabugal - reproduzindo trabalhos de artistas do concelho.


Publicado por sol em 10:09 PM | Comentários (21)

junho 24, 2005

Noites de S. João e S. Pedro no Sabugal

rosmaninho.jpg São curiosos, embora simples, os festejos nas noites de S. João e S. Pedro. Quinze dias antes, ranchos de rapazes e raparigas, aos domingos, vão colher rosmaninhos e bela-luz, pelos campos, quási sempre de noite, para que os donos dos prédios não ralhem.

Quinze dias antes não é muito para o rosmaninho e bela-luz secarem, mas é preciso também ensaiar os cantos e preparar os adufes, afiná-los bem para acertarem com os pífanos dos pastores e contar com rapazes que saibam notar (improvisar) para cantarem à viola, ao desafio, o que nalgumas aldeias dá mais realce à festa.

Em quási todas as aldeias, mas principalmente na vila do Sabugal, há o costume de cravarem nas ruas ou largos principais altos pinheiros, que cobrem de rosmaninhos, dando-lhes o aspecto de ciprestes, deixando-lhes no cimo e dos lados muitos foguetes e bandeiras e por vezes um cântaro com um gato dentro. Perto do carvalho, nome dado ao pau revestido de rosmaninho, eleva-se um altar, bem ornamentado, improvisa-se um jardim e um repucho e ali se colocam muitos vasos com flores, craveiros, mangericos, cécias, melindres, etc. Em volta do altar, onde há estampas e imagens de S. João, estão muitas raparigas recebendo os visitantes, que de rua em rua percorrem todos os carvalhos, enquanto numa bandeja vão depondo o que querem, para ajuda das despesas, e perto do carvalho um grande rancho dança animadamente ou canta o S. João com acompanhamentos de pífanos e adufes ou executa jogos de roda.

Às dez da noite os ranchos de cada fogueira, ou, melhor diremos, de cada carvalho, visitam todos os outros, entoando o S. João e tocando adufes, pífanos e violas, num entusiasmo indescritível. Todas as famílias percorrem as ruas e visitam os carvalhos. Nessa noite as raparigas têm toda a liberdade, as mães confiam nelas, embora as vigiem mais ou menos; mas todas se enfeitam e nunca há razões de queixa.

Mal soa a meia noite lançam o fogo a um dos carvalhos, cujas labaredas se elevam a grande altura e, depois, aos outros, sucessivamente, ficando a vila iluminada como por encanto, por tantas fogueiras, estalando nos ares grande número de bombas e morteiros. Quando chega o fogo ao cimo do carvalho rebentam os morteiros e girândolas e, de vez em quando, raramente, despenha-se do alto o cântaro, de onde, ao cair na calçada, o gato foge espavorido e quási sempre incólume, desaparecendo do povoado, miando, açanhado, temível, ameaçador, ao som do alarido dos rapazes. É raro já tão bárbaro costume.

Mal o carvalho começa a arder, todos os ranchos cantam, entoando o S. João num verdadeiro delírio. São inumeráveis as cantigas que se ouvem e delas apenas copiaremos algumas:

                                                             O S. João embarcou
                                                             Eu bem no vi embarcar,
                                                             Embarcou para a Mourama
                                                             Aos mouros foi a pregar.

                                                             No altar do S. João
                                                             Nasceu uma cerejeira...
                                                             Quam seria o bem-ditoso
                                                             Que lhe comeu a primeira?...

                                                             S. João p'ra namorar
                                                             Fez uma fonte de prata;
                                                             As moças não vão a ela
                                                             S. João todo se mata.

Tanto na noite de S. João como na de S. Pedro, não há casa junto da qual não façam fogueiras de rosmaninho e bela-luz, pulando sôbre elas, defumando-se, homens e mulheres, numa verdadeira devoção e crença de que assim ficam livres de doenças (...).

Todos gostam de beber água em jejum; só os mandriões deixam de regar as hortas antes do nascer do sol; muitas pessoas expõem ovos à orvalhada da noite de S. João para descobrirem o futuro. Há muito quem creia que para curar sezões não há melhor remédio do que, na madrugada da noite de S. João, deitar-se sobre uma relva ou linho viçoso, cobertos de orvalho.

São curiosas as cantigas e os costumes nessa noite, em volta das fogueiras. Cada um que salta por cima destas vai sempre dizendo:

                                                             Sarna em vós
                                                             Saúde em nós
                                                                         Sarna no Manel,
                                                                         Saúde na Zabel...

Estas e outras parelhas improvisadas servem para provocar e estimular os versejadores populares, que vão sarnar-se, isto é, saltar as fogueiras para se livrarem de sarna e outras doenças...

Joaquim Manuel Correia, Terras de Riba-Côa, Memórias sobre o Concelho do Sabugal, Lisboa, 1946 (Ed. Fac-similada da Câmara Municipal do Sabugal)

Publicado por sol em 11:37 AM | Comentários (17)

dezembro 18, 2004

Castelo de cinco quinas

sabugal-castelo.jpg

A torre de menagem, de base pentagonal, deu origem à quadra que aprendíamos a dizer ainda antes de chegarmos aos bancos da escola:

Castelo de cinco quinas
Só há um em Portugal
Que fica à beira do Côa
Na vila do Sabugal.

"Cidade" tem uma sílaba a mais e destrói a redondilha; tem oclusivas a mais e cria cacofonias; "cidade" não faz sentido nenhum.

O meu amigo Zef envia-me este poema de Bandeira, com dedicatória sua - um texto deliciosamente arcaizante (arcaica me sinto também) quando a vila onde nasci é elevada a cidade. Bem-haja, Zef.

             * * *

«Rimas dedicadas a uma dama que, por natura, ama uma terra que tem povo e rio que não vivem um sem o outro, a quem desmiolados embrulharam em nome de cidade, o que é prazer de novos-ricos e patos bravos e edis aparentados com faunas de quintas de celebridades, sabedoras, as ditas rimas, de que a dita dama arrenega de tais disparates. E vão escritas em Manuel Bandeira por declarada falta de jeito do presente escriba:

Saí menino de minha terra.
Passei trinta anos longe dela.
De vez em quando me diziam:
Sua terra está completamente mudada,
Tem avenidas, arranha-céus.
É hoje uma bonita cidade!

Meu coração ficava pequenino.

Revi afinal o meu Recife.
Está de fato completamente mudado.
Tem avenidas, arranha-céus.
É hoje uma bonita cidade.

Diabo leve quem pôs bonita a minha terra!

(in: "Belo Belo")»

Publicado por sol em 12:16 AM | Comentários (8)

julho 08, 2004

A Confraria dos Solteiros

Na minha meninice, ouvi falar destes costumes que permaneciam, de forma diluída e folclórica, apenas nas aldeias mais remotas, não já na sede do concelho. O que não impediu que um dos meus irmãos tivesse tido de pagar o vinho, para gáudio do resto da frátria, eu incluída.

                                                           ***

«Na maior parte, se não na totalidade das povoações do Riba-Côa, existe ainda a Confraria dos Solteiros, cujas raízes históricas mergulham em épocas muito recuadas. Solteiro não é, na linguagem típica da zona, todo o indivíduo que ainda não casou, mas simplesmente aquele que, atingida certa idade, foi julgado apto a pagar o vinho à rapaziada.

"O nosso Zé já é um solteiro" é uma expressão muitas vezes invejosamente repetida pelos irmãos mais novos do felizardo, que já se antevêem, como ele, circulando livremente, altas horas da noite, pelas ruas do povoado; entrando nos serões; participando nas rusgas e nas romagens nocturnas às aldeias vizinhas (...).

Cria-se assim, na mente dos mais pequenos, uma atmosfera de lenda a respeito da vida nocturna do povoado e, consequentemente, a primeira ambição do rapazola que já fez dezassete anos, tem corpo e arte para dar e levar duas cacetadas, e discrição suficiente para calar o que entre a rapaziada se passa, é pagar o vinho. Mas a entrada na confraria não é fácil e tem o seu cerimonial.
(...)

A Confraria dos Solteiros tem a seu cargo «importantes missões» que tradicionalmente lhe competem. Primacial é a de vigiar a intromissão dos rapazes de fora na conquista dos corações femininos da aldeia. Também são os Solteiros que se encarregam, durante a quaresma, de entoar as ladainhas e os martírios do Senhor. Compete-lhes, igualmente, velar pela grandeza da fogueira do Natal e pela manutenção de certos rituais, na festa do orago.

Por via de regra, são amistosas as relações entre as confrarias dos vários povoados vizinhos. Mesmo assim, rapazes de fora só poderão percorrer afoitamente, pela calada da noite, as ruas da povoação, se acompanhados por um membro da confraria da terra.

Duas ou três vezes por ano, sempre na época das grandes seroadas - de 8 de Setembro ao Carnaval - há intercâmbio com as aldeias das redondezas. Os moços, de bengala ou bordão, acompanhados de tocador de harmónia e viola, correspondendo a um amável convite que é de brio pagar com juros, vão aos povoados mais próximos, onde são recebidos festivamente. Os visitados são pródigos em oferecer carne e vinho e em mostrar-lhes os serões onde as raparigas, avisadas a tempo da visita dos forasteiros, se apresentam envergando os seus trajos de ver a Deus. (...)

Todavia o namoro em terra alheia não é coisa fácil. Os rapazes do burgo, por mais amigos que sejam, têm por obrigação fazer a vida cara a quem quer que pretenda roubar-lhes as beldades. E assim, na primeira visita que fizer à conversada, para assentar ideias e receber dela o sim (o que só acontecerá algum tempo depois, visto que parece mal responder logo afirmativamente, ainda que se esteja morrendo de amores) o nosso homem tem de ir preparado. (...)

O mais novo dos rapazes tem de aprisioná-lo e combinar com ele o pagamento de uma quantia de resgate, quantia que varia segundo a fortuna e beleza da moça, mas que nunca será tão pequena que não dê para a compra de um chibarro e de uma coluna de pães de trigo (eles dizem carrola) da altura de quem não teve pejo de vir colher uma das mais lindas flores do jardim da terra (...). O rapaz, complacente e gostoso, paga, depois de interrogar a rapariga sobre se vale a pena pagar, isto é, depois de uma resposta que equivale a uma confissão de amor eterno. Rapariga que se negue depois de um rapaz ter pago o vinho por ela, é rapariga desconceituada, videira, na terminologia dos moços da terra, que esperam que um outro forasteiro venha pagar nova cantarada, pois para eles já não serve.

E o rapaz que, depois de pagar o vinho, abandona a rapariga, é também pecador caído no índex das moçoilas de sete léguas em volta e dificilmente poderá aspirar à mão de rapariga de vergonha.

Manuel Leal Freire, Por Terras do Sabugal, Quadros Etnográficos, Porto, 1969

Publicado por sol em 11:55 PM | Comentários (6)

maio 17, 2004

A furna

furna.jpg

Publicado por sol em 06:30 PM | Comentários (5)

maio 03, 2004

Outro calendário

Assim se falava, popularmente, em terras de Riba-Côa, há muitos anos. Usei (e uso ainda, embora muito intencionalmente e em contextos precisos) algumas destas expressões. Aprendi-as na rua e amplieei depois o meu léxico pitoresco com os colegas, na escola primária. Hoje, excepto entre os mais velhos, é apenas memória linguística.

A maior parte das expressões confirmei-as na edição facsimilada de Terras de Riba-Côa, Memórias Sobre o Concelho do Sabugal, de Joaquim Manuel Correia, 1ª edição de 1946. Outras não constam ali, mas eram usadas por mim e pelos meus amigos.

Lembrei-me, sem grande esforço, destas:

amuxar - amuar
arrechinado - apertado
arreganhado - cheio de frio
arremangar - arregaçar as mangas
arrenegar-se - zangar-se
bachicar - borrifar com água
barranhão - grande alguidar de barro
búzio - embaciado
calhandra - pedra usada no jogo do descanso (macaca)
canalha - pequenada
concho - contente
conduto ou peguilho - alimento para acompanhar o pão (queijo, carne, azeitonas, chouriço...)
chinas - cada uma das pedras redondas e polidas usadas no jogo das cinco pedrinhas
dondinho - macio, brando
esnocar - quebrar alguma coisa com as mãos
estavanado - estouvado
fanfar - gabar-se
esfarraixar - ferir
gaifonas - palhaçadas
grencho - com o cabelo encaracolado
lapacheiro - lodaçal
morinhar - cair chuva miúda

Publicado por sol em 11:09 PM | Comentários (17)

abril 21, 2004

Sol do Côa

soldocoa-luisribeiro.jpg
outras fotografias de Luís Ribeiro em: 1000imagens

Publicado por sol em 02:30 PM | Comentários (11)

abril 08, 2004

Sincelo

sincelo.jpg
e ardem no sincelo

Publicado por sol em 02:20 PM | Comentários (0)

janeiro 12, 2004

Açude

acude.jpg
rio Côa

Em: www.cm-sabugal.pt/

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dezembro 14, 2003

O passado é um país estrangeiro

sabugal-40.jpg

Publicado por sol em 10:55 AM | Comentários (2)

dezembro 06, 2003

Axis Mundi

carvalho2.jpg


Em: www.cm-sabugal.pt/

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