novembro 29, 2007

A ordem legítima é por vezes desumana

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Braque, ilustração para Lettera Amorosa, de René Char


Aqueles que partilham lembranças
regressam à solidão, mal o silêncio se instala.
A erva que os aflora desponta da sua fidelidade.

Que dizias tu? Falavas-me de um amor tão longínquo
Que remontava à tua infância.
Tantos estratagemas a memória tece!

René Char (tradução minha)


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L'ORDRE LÉGITIME EST QUELQUEFOIS INHUMAIN

Ceux qui partagent leurs souvenirs,
La solitude les reprend, aussitôt fait silence.
L´herbe qui les frôle éclôt de leur fidélité.

Que disais-tu? Tu me parlais d'un amour si lointain
Qu'il rejoignait ton enfance.
Tant de stratagèmes s'emploient dans la mémoire!

René Char, Les Loyaux Adversaires



Publicado por sol em 08:31 PM | Comentários (17)

maio 05, 2007

em celebração

de todos os fulgurantes encontros que a vida me proporcionou.

        rodin-catedral.JPG


               doação
                                 para Soledade

    nunca te pensei porto para rotas
    embarcações apenas caminho
    compartilhado nunca te
    quis guia dos meus inúteis

    combates comigo
    mesmo somente par nas
    incompreendidas
    saudades

    havia tanta coisa a
    fazer nesta terra
    inclemente de mãos
    dadas e quando a

    noite se desfez nossas
    frágeis palavras enfim encheram
    se de
    asas

    Adair Carvalhais Júnior


Publicado por sol em 12:33 AM | Comentários (18)

março 08, 2007

Às vezes

                      oferecem-me poemas.


              ESBOÇO

Às vezes queima incenso,
ouve música indiana, acende velas,
e há baunilha na entrada para quem
chega do mundo.
No crepúsculo vago da casa
um fluido plana,
e assim tudo parece em ordem.
Talvez o fluido seja o espírito
que diz sentir em si,
por dentro do silêncio do yoga,
Mahadev sentada num asana,
abstraída da infância e do futuro.

Só quando o telemóvel dá o alarme
e sobe as gelosias automáticas
é que a luz do ocidente
invade em vagalhões a casa,
e carros e aviões passam na sala,
destruindo o CD, o incenso, as velas,
já Madahev vai de regresso à Europa,
na bolsa um manual
de guerrilheiro urbano sem saída
e decretos que matam de revolta.

                                                        ng

Publicado por sol em 09:54 PM | Comentários (14)

julho 11, 2006

Ventos do Passado

alfredo zalce-meditacion.JPG
Alfredo Zalce


É tua filha, não é? Reconheci-a
pela estrela fugaz que há nos seus olhos,
a cabeça inclinada e a maneira
tão tua, de fitar cheia de assombro.
É tua filha, não é? Intuíram-no
– de tão fundo! –
certos ventos calados que dormiam
sob as águas sossegadas, no poço
dos tempos perdidos, onde guardo
as folhas que tombaram
dos salgueiros remotos.
Ostenta luz na fronte
– a tua luz. – E o gesto melancólico.
O pescoço frágil como era o teu
e no cabelo os mesmos
pássaros loucos.
Guarda um vento do passado entre os dedos,
e no rosto…
a tua assinatura
escrita num sangue
que desconheço.

Torcuato Luca de Tena (tradução minha*)



    VIENTO DE AYER

¿Es tu hija, verdad? La he conocido
por la estrella fugaz que hay en sus ojos,
la cabeza inclinada y la manera,
tan tuya, de mirar llena de asombro.
¿Es tu hija, verdad? lo han presentido
– desde tan hondo! –
unos vientos callados que dormían
bajo las aguas quietas, en el pozo
de los tiempos perdidos, donde guardo
las hojas que cayeron
de los sauces remotos.
Tiene luz en la frente
– tu misma luz –. Y el gesto melancólico.
Tiene el cuello tan frágil como tú lo tenías
y en el pelo los mismos
pájaros locos.
Tiene un viento de ayer entre los dedos,
y en el rostro...
tu firma escrita
con otra sangre
que no conozco.

Torcuato Luca de Tena, España, 1923-1999

[* Esta tradução foi primeiro publicada na revista Ilha Negra, nº 2]

Publicado por sol em 12:02 AM | Comentários (17)