março 06, 2009

mínimo

ao menos um vestígio
de olhar um
leve cheiro de
pele

a ilusão de chegar em
algum lugar uma
fugaz
felicidade

resquícios de um arroio

débil memória de nuvens


Adair Carvalhais Júnior

Publicado por sol em 12:20 PM | Comentários (9)

janeiro 26, 2009

porque a vida é assim

                                        dali_primeiro-dia-de-primavera.jpg

[...] coisas como o sentido da vida, a busca de uma transcendência, a morte e a passagem do tempo, o conflito das gerações e por aí fora, não têm mais importância do que pôr e tirar o chapéu, beber um copo de água, fumar um cigarro, dar uma gorjeta, colher uma flor ou coçar o nariz. A vida passa-se a todos os níveis e porventura mais nos que não conseguimos nomear. Ninguém vale mais que o outro, tudo conta e de tudo depende cada destino. Cada silêncio tanto como o que se diz. O infinitamente grande só se vê com um microscópio. Porque a vida é assim. [...]

Eu ainda choro com esta sensação de vida. Ainda não desisti de ser apaixonado. Já sinto passar o tempo, mas ainda não quero chegar à idade da sabedoria.»

Luís Miguel Cintra,

Publicado por sol em 03:09 PM | Comentários (20)

janeiro 19, 2009

Dispersão

Na claridade do seu olhar poético, na música dos seus versos, perpassa um desencanto, uma melancolia subtil - porque toda a beleza é efémera ou intocável, toda a comunhão, adiada, o passado sem remédio, e a vida, enfim, uma brevidade sem apelo.

          
          dispersao1.jpg

É com muita alegria que saúdo a publicação, pelas Edições Sempre-Em-Pé, deste livro do Nuno Dempster, anunciada já aqui e também aqui .

O excerto acima, em itálico, retirei-o das badanas. O poema que transcrevo abaixo integra Inventário, a última das sete partes que confluem neste livro maravilhosamente arquitectado. E refiro a arquitectura do livro porque, tanto quanto cada poema concebido singularmente, é cheio de sentido e de um ritmo próprio o modo como esses poemas foram organizados em áreas temáticas, e estas, dispostas no livro.

                        1.

Não é sem alegria que olho em volta,
mesmo nesta hora longa de inventários
virtualmente unidos num apenas,
atravessando o tempo construído
com paciência, verso a verso,
até exaurir o que parece inexaurível.
A memória é um largo campo
com imagens tão díspares
como o voo dos patos ao cair do sol
e um homem trespassado de estilhaços
na selva da Guiné, sem perceber
porque a vida se lhe ia com o sangue,
talvez selando o peito
com a palavra azar, sem nenhum deus
ou lugar que o remisse, bicho casual
que deveria ter nascido anos depois
para tentar a sorte, o carro, a casa,
a mulher que o esperava com os dois anéis,
a vida degradada e o país podre,
com certeza pequenos sinais usados
em prosa de ficção, evitando-se a mãe
que chorava em silêncio a sua morte,
isto é, o melodrama, precisando:
o excesso de verdade, arquétipo difícil.
E no entanto não é sem alegria
que olho em volta de mim,
por dentro de mim mesmo, e sei
ter visto algo só meu,
as estrelas cadentes do Verão,
aquelas que riscavam certas noites
e que não mais irão voltar.
Não falo das estrelas
que atravessam o céu como antes,
são meteoritos apenas,
mas das noites vividas, horas únicas,
não interessa qual a sensação,
sequer os sentimentos que seguiam
o traço luminoso e breve,
interessa a riqueza vária e vaga
que juntei e descrevo longamente,
ó doce solidão enumerável.

Nuno Dempster, Dispersão - Poesia Reunida, Colecção Galáxia/Poesia, Edições Sempre-em-Pé, 2008

Publicado por sol em 04:25 PM | Comentários (10)

dezembro 05, 2008

Tocador de búzio

vento.bmp

O belo espírito dos ares sopra no búzio,
avermelhado e esguio, distribui com a mão
o som que vai e vem
e voa, tão diferente dos pássaros das margens.

O meu amigo, o espírito dos ares, gosta de dormir ali
nos salgueiros, e já com ele aprendi isto e
aquilo, só não aprendo com ele
a repousar assim tão leve, encostado apenas à orla

da noite e afinal sempre na luz,
para logo acordar com olhos grandes de criança.
Como hei-de ser igual ao meu amigo -
só com o amor, sem dormir, à chuva?

Johannes Bobrowski, Como um Respirar, Antologia Poética, tradução de João Barrento, Edições Cotovia, 1990


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novembro 04, 2008

Que se neguen a parir

LAURENT ZIEGLER.jpg
Fotografia de Laurent Ziegler


Mentres haxa un ser humano sen alimento
resignado e humillado por pedir
mentres digan que ennobrece o sufrimento
que se neguen as mulleres a parir!

Mentres diga o poderoso: así é a vida!
canda a vida xa esta cansa de sufrir,
a inxustiza da verdade escarnecida
que se neguen as mulleres a parir!

Mentres sigan sem dicir para que se paren
para ser livres ou escravos dum señor?,
que se neguen a parir ou que declaren
as mulleres para os seus fillos que é mellor?

Mentres sigan, por amor, parindo fillos
para velos condenados a vivir
explotados por hipócritas e pillos
que se neguen as mulleres a parir!

Ramón Sampedro, Cando eu Caia, Edicions Xerais de Galicia, Vigo, 1998


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outubro 22, 2008

La inmortalidad

MONTERO.JPG

Nunca he tenido dioses
y tampoco sentí la despiadada
voluntad de los héroes.
Durante mucho tiempo estuvo libre
la silla de mi juez
y no esperé juicio
en el que rendir cuentas de mis días.

Decidido a vivir, busqué la sombra
capaz de recogerme en los veranos
y la hoguera dispuesta
a llevarse el invierno por delante.
Pasé noches de guardia y de silencio,
no tuve prisa,
dejé cruzar la rueda de los años.
Estaba convencido
de que existir no tiene trascendencia,
porque la luz es siempre fugitiva
sobre la oscuridad,
un resplandor en medio del vacío.

Y de pronto en el bosque se encendieron los árboles
de las miradas insistentes,
el mar tuvo labios de arena
igual que las palabras dichas en un rincón,
el viento abrió sus manos
y los hoteles sus habitaciones.
Parecía la tierra más desnuda,
porque la noche fue,
como el vacío,
un resplandor oscuro en medio de la luz.

Entonces comprendí que la inmortalidad
puede cobrarse por adelantado.
Una inmortalidad que no reside
en plazas con estatua,
en nubes religiosas
o en la plastificada vanidad literaria,
llena de halagos homicidas
y murmullos de cóctel.
Es otra mi razón. Que no me lea
quien no haya visto nunca conmoverse la tierra
en medio de un abrazo.

La copa de cristal
que pusiste al revés sobre la mesa,
guarda un tiempo de oro detenido.
Me basta con la vida para justificarme.
Y cuando me convoquen a declarar mis actos,
aunque sólo me escuche una silla vacía,
será firme mi voz.

No por lo que la muerte me prometa,
sino por todo aquello que no podrá quitarme.


Luis García Montero, Completamente Viernes, Tusquets Editores, Barcelona, 1998

Publicado por sol em 12:46 AM | Comentários (9)

outubro 09, 2008

Salvados da meia noite

                        4

Mas tão-pouco esperava no meu tempo
testemunhar isto :: não era podia dizer-se
suficientemente lúcida ou atenta
para olhar através dos olhos raiados de sangue da história
para este comércio este naufrágio de couraçado desgarrado
de todos os votos, juramentos, patentes, pactos, promessas ::
                                                                                                                          Para ver
não Ó meu Capitão
derrubado frio & morto pela mão do assassino

mas frio vivo & encolhendo-se :: bebendo com os assassinos
vestido de seda de filme noir de Hong Kong
arrastando a filha de cintura famélica
vestida de cor de flamingo
pela pista de dança com os traficantes
de gás paralisante dizendo-lhes Força
e para a moça Vê se alinhas

Adrienne Rich, Uma Paciência Selvagem, Edições Cotovoa, Lisboa, 2008

Publicado por sol em 04:25 PM | Comentários (9)

setembro 10, 2008

O homem de mel

francis-picabia_eva.jpg

Ele brotou, deitou botões, é alface à beira d'água plantada,
meu quintal bem fornecido da planura..., meu favorito do seio,
meu grão luxuriante no seu sulco – ele é alface à beira d'água plantada.

O homem-de-mel, o homem-de-mel adoça-me sem cessar,
meu senhor, o homem-de-mel dos deuses, meu favorito de sua mãe,
cuja mão é mel, cujo pé é mel, adoça-me sem cessar,
cujos membros são doce mel, adoça-me sem cessar.

Meu adoçador do umbigo..., meu favorito da sua mãe,
meu..., de coxas mui esbeltas, ele é alface à beira d'água plantada.

Poema da Mesopotâmia, em Cantigas de Amor do Oriente Antigo, tradução de José Nunes Carreira, Ed. Cosmos, Lisboa, 1999

Publicado por sol em 04:13 PM | Comentários (14)

julho 20, 2008

Où que me porte mon voyage


Poeme de Giorgos Seferis , em tradução francesa, dito por Mélina Mercuri

Où que me porte mon voyage la Grèce me blesse
À Pilion parmi les oliviers
la tunique du Centaure
glissant parmi les feuilles
a entouré mon corps
et la mer me suivait pendant que je marchais

Où que me porte mon voyage, la Grèce me blesse

À Santorin en frôlant
Les îles englouties
En écoutant jouer une flûte parmi les pierres ponces
Ma main fut clouée à la crête d'une vague
Par une flèche subitement jaillie
Des confins d'une jeunesse disparue

Où que me porte mon voyage la Grèce me blesse

À Mycènes
j'ai soulevé les grandes pierres
et les trésors des Atrides
j'ai dormi à leurs côtés à l'hôtel de "La Belle Hélène"
ils ne disparurent qu'à l'aube lorsque chanta Cassandre
un coq suspendu à sa gorge noire
Où que me porte mon voyage la Grèce me blesse

À Spetsai, à Poros et à Mykonos
les barcaroles m'ont soulevé le coeur

Où que me porte mon voyage la Grèce me blesse
Que veulent donc ceux qui se croient à Athènes
ou au Pirée
l'un vient de Salamine
et demande à l'autre
s’il "ne viendrait pas de la place Omonia"
"non, je viens de la place Syndagma"
répond-il satisfait
"j'ai rencontré Yannis
et il m'a payé une glace
Pendant ce temps la Grèce voyage
et nous n'en savons rien
nous ne savons pas que tous nous sommes marins sans emploi
et nous ne savons pas combien le port est amer
quand tous les bateaux sont partis
Où que me porte mon voyage la Grèce me blesse

Drôles de gens
ils se croient en Attique
et ne sont nulle part
ils achètent des dragées pour se marier
et il se font photographier
l'homme que j'ai vu aujourd'hui
assis devant un fond de pigeons et de fleurs
laissait la main du vieux photographe
lui lisser les rides creusées
de son visage
par les oiseaux du ciel
Où que me porte mon voyage la Grèce me blesse

Pendant ce temps la Grèce voyage
voyage toujours
et si la mer Egée se fleurit de cadavres
ce sont les corps de ceux qui voulurent rattraper à la nage
le grand navire
Où que me porte mon voyage la Grèce me blesse

Le Pirée s'obscurcit
les bateaux sifflent ils sifflent sans arrêt
mais sur le quai nul cabestan ne bouge
nulle chaîne mouillée n'a scintillé dans l'ultime éclat
du soleil qui décline
Où que me porte mon voyage, la Grèce me blesse

Rideaux de montagnes archipels
granites dénudés
le bateau qui s'avance s'appelle
Agonie...

Georges Seferis, tradução de Jacques Lacarrière e Egérie Mavraki

Publicado por sol em 11:43 PM | Comentários (10)

julho 09, 2008

Because of a few songs

boile-76.jpg

Lembrando enternecidamente


Também aqui


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junho 24, 2008

Profundamente

estrela-bandeira.jpg

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala.
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente

                     *

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

- Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Pofundamente.


Manuel Bandeira, Libertinagem, em Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993

Publicado por sol em 11:00 AM | Comentários (17)

maio 15, 2008

Cheguei a ter medo

Cheguei a ter medo de te perder,
tu não chegaste sequer a ter medo.
Este silêncio de já não termos palavras
ouve-se nas outras palavras que trocamos.

Miserável mundo nosso e alheio,
igual ao que todos disseram da sua época,
e pior, porque este vivemos nós
e conhecemos nós, cada um conforme pode.

Já morrerem os ídolos todos da infância
e os da adolescência vão a caminho,
sobrevivente é o teu olhar cego
(hoje há já só um dos Righteous Brothers).

Na feira de velharias uma caixa
para tabaco com uma rosa verde.
Tem o preço ainda em escudos, uma falha
num dos cantos, uma pequena cruz de cal.

Permaneces aí, à lareira, lendo livros vivos
e o seu turbilhão de palavras profundas.
Nunca mais chega o medo de nos perdermos,
eco um do outro em ricochete de silêncios.

Helder Moura Pereira, Mútuo Consentimento, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005


Publicado por sol em 08:50 AM | Comentários (9)

maio 07, 2008

Inigi

delacroix-retrato.jpg
Eugène Delacroix

Um corpo tem a lembrança excessiva de outro corpo
um corpo já não tem imaginação
não tem paciência com nenhum outro corpo

Henri Michaux, Inigi, em A Rosa do Mundo, Assírio & Alvim, 2000



Publicado por sol em 10:41 PM | Comentários (8)

janeiro 14, 2008

tanka

Hiroshi-Watanabe_Kabuki.JPG
                                            Hiroshi Watanabe


Se esse que esperei
viesse ainda, o que faria?
Este jardim cheio de neve
é demasiado belo
para ser pisado agora.

Izumi Shikibu (974?-1034?) in O Japão no Feminino I, Tanka, Séculos IX a XI, organização e versão portuguesa de Luísa Freire, Assírio & Alvim, Lisboa, 2007


Izumi Shikibu viveu no período Hein, o mais florescente da literatura e da arte japonesas, que se estendeu do século VIII ao século XII. Com Ono Komachi (834?-?), é uma das escritoras mais brilhantes desse período, tendo tido, como pode ler-se na Introdução a esta colectânea, «um papel decisivo na fixação do japonês como língua poética e também na divulgação da uma forma principalmente feminina - o tanka (...).»

Publicado por sol em 01:40 PM | Comentários (33)

janeiro 11, 2008

O rasto da madrugada

Josef Sudek, Misty Morning, Prague, 1946.jpg
                                                                                                                  Josef Sudek

Madrugada

uma qualquer
de entre muitas

a chuva feriu a pele das paisagens adormecidas
passou por aqui quase como uma miragem
mas deixou nódoas de desespero por toda a parte

agora afastou-se
libertou um punhado de estrelas
e deixou respirar as florestas distantes

porém
o ténue brilho dos objectos molhados
reflecte o espectro de uma lenta rendição

existe no ar um cheiro estranho
a terra ensopada crava o seu odor
nas almas já então enlameadas
os olhares cambaleiam na berma dos precipícios
as vozes de revolta são abafadas
pelas muralhas do universo

por todo o lado surgem balas
apontadas aos peitos descobertos

Paulo Tavares, Pêndulo , Quasi Edições, 2007

Publicado por sol em 12:30 AM | Comentários (7)

dezembro 03, 2007

Fim

zhang_xiaogang_sem_titulo.JPG
                                                      Zhang Xiaogang (sem título)

Talvez no inverno
me tenhas oferecido uma pedra,
acesa, tão acesa que a guardava
ora na mão esquerda, ora na outra.

Viraram-se os dias como páginas,
e a pedra, pouco a pouco, congelando.
O que as minhas mãos juntaram
acabou por ser apenas sombra.

                  Yao Feng

Yao Feng nasceu em Pequim, em 1958. Poeta bilingue, escreve em chinês e em português. Vive em Macau desde 1992 e é o principal tradutor de Fernando Pessoa para chinês.


Publicado por sol em 08:21 PM | Comentários (11)

novembro 27, 2007

Da poesia e dos amigos

                       menino-sua-mae.JPG

No sábado estarei aqui. E será uma alegria - porque os sonhos permanecem.


No dia 6 de Dezembro gostaria de estar aqui:
pendulo_convite.JPG.
E o prazer não seria menor - porque as esperanças se estão cumprindo.


Publicado por sol em 10:53 PM | Comentários (3)

novembro 11, 2007

Há quase um ano

Há quase um ano não escrevo.
Pesada, a meditação
Torna-me alguém que não devo
Interromper na atenção.

Tenho saudades de mim,
De quando, de alma alheada,
Eu era não ser assim,
E os versos vinham de nada.

Hoje penso quanto faço,
Escrevo sabendo o que digo...
Para quem desce do espaço
Este crepúsculo antigo?


Fernando Pessoa, 23/05/1932



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outubro 21, 2007

mais avec élégance


AVEC ÉLÉGANCE

Se sentir quelque peu romain
Mais au temps de la décadence
Gratter sa mémoire à deux mains
Ne plus parler qu'à son silence
Et
Ne plus vouloir se faire aimer
Pour cause de trop peu d'importance
Etre désespéré
Mais avec élégance

Sentir la pente plus glissante
Qu'au temps où le corps étais mince
Lire dans les yeus de ravissantes
Que cinquante ans c'est la province
Et
Brûler sa jeunesse mourante
Mais faire celui qui s'en dispense
Etre désespéré
Mais avec élégance

Sortir pour traverser des bars
Où l'on est chaque fois le plus vieux
Y éclabousser de pourboires
Quelques barmans silencieux
Et
Grignoter des banalités
Avec des vieilles en puissance
Etre désespéré
Mais avec élégance

Savoir qu'on a toujours eu peur
Savoir son poids de lâcheté
Pouvoir se passer de bonheur
Savoir ne plus se pardonner
Et
N'avoir plus grand chose á rêver
Mais écouter son coeur qui danse
Etre désespéré
Mais avec espérance.

Jacques Brel

Publicado por sol em 10:13 PM | Comentários (17)

outubro 16, 2007

Déclarer son Nom

nomer_aguarela_de_char.JPG
                                                      Manuscrito e aguarela de René Char


Publicado por sol em 08:12 PM | Comentários (9)

setembro 20, 2007

Poema VIII

Publicado por sol em 09:33 AM | Comentários (9)

julho 27, 2007

Madrugada

Acorda-se ao som estridente
Dum galo a cantar ao longe,
Depois abrem-se as cortinas
Para ver as nuvens que voam -
E sente-se a estranheza de ter
Como elas o coração frio e sem amor.

Philip Larkin, Uma Antologia, trad. de Teresa Guerreiro, Editorial Minerva, Lisboa, 1989


Publicado por sol em 11:28 PM | Comentários (4)

maio 21, 2007

Ventanas

Kimberley Campbell -Ascension.JPG


¿No es éste un viaje
también — tan sólo — por tu mirada?
Mira: toda la ciudad enfrente
miope
con sus oscuras antiparras de niebla.
¿O será que respiro
tan cerca
que te mancho los ojos?
Quiero escribir en el cristal "Te quiero"
¡pero toda la ciudad se enteraría!

José Gorostiza, Muerte sin Fin y Otros Poemas, São Paulo / México, Editora da Universidade de São Paulo / Fondo de Cultura Económica, 2003


Publicado por sol em 11:50 PM | Comentários (5)

maio 01, 2007

[vi]

           canova_1787.jpg
                                                                      António Canova, 1787

já que sentir é primeiro
quem presta alguma atenção
à sintaxe das coisas
nunca há-de beijar-te por inteiro;

por inteiro ensandecer
enquanto a Primavera está no mundo
o meu sangue aprova,
e beijos são melhor fado
que sabedoria
senhora eu juro por toda a flor. Não chores
– o melhor movimento do meu cérebro vale menos que
o teu palpitar de pálpebras que diz

somos um para o outro: então
ri, reclinada nos meus braços
que a vida não é um parágrafo

E a morte julgo nenhum parêntesis

e. e. cummings, xix poemas, trad. de Jorge Fazenda Lourenço, Assírio & Alvim, Col. Gato Maltês, Lisboa, 1991

Publicado por sol em 01:34 AM | Comentários (6)

abril 20, 2007

5 blogues que fazem pensar

                           thinkingbloggerpf8.jpg

A Luísa R. distinguiu o Nocturno com Gatos com este galardão. A mim apetecia-me retribuir-lhe o prémio, por qualquer dos seus dois blogues, espaços de um bom gosto raro, mas o espírito do jogo determina que o faça seguir. Não é fácil escolher apenas cinco blogues. Teria sido simples há dois ou três anos, quando a minha actividade blogueira era mais empenhada e regular e os círculos em que navegava se interseccionavam.

De facto, parece que os blogues que mais me fizeram pensar - talvez porque o meu tempo de pensar diante de um ecran de computador tinha então outra qualidade - ficaram no passado. E muitos já não existem. Tudo era então (ou eu o sentia assim) inaugural.

Procurei nos "perdidos" da rede e encontrei vestígios de alguns deles. Como a escrita delida em cartas antigas - imagens, comentários e templates corrompidos, mesmo os daqueles de que guardei arquivos - eles emergem da memória fugaz da rede.

Por ordem alfabética, três blogues idos e dois blogues vivos a que atribuo o Thinking Blogger Award:

A Sombra do Sol
Um blogue colectivo iniciado em 2003 com uma turma de alunos que acompanhei do 10º ao 12º Ano e cujo nome nasceu de uma piada privada. Não podia adivinhar então, mas os dois anos durante os quais A Sombra do Sol se manteve como um projecto de aprendizagem, de liberdade e de convívio foram um canto do cisne.


O Homem é uma paixão inútil
Foi um blogue efémero. Mas a qualidade dos textos que publicou e a descoberta de afinidades e gostos partilhados constituiram uma espantosa revelação. Deu-me a conhecer George Steiner, um encontro cuja fulgurância perdura.


Ossa et Cinera
Um projecto de quatro jovens poetas (então estudantes da Universidade Nova de Lisboa), com o brilho, a generosidade e o desejo de inovar que só certa juventude tem. Um Cenáculo. Foi um privilégio ler-lhes a poesia durante o tempo em que o blogue manteve a espantosa energia criadora.


O quarto blogue que escolho é muito jovem - participa dessa voz primacial que referi acima. E cheira a terra fresca, à neve e ao lume em seu tempo, e às flores silvestres, vinda a Primavera. Ali, as árvores falam e dizem as coisas sábias que as árvores dizem: é A voz da romãzeira


O quinto blogue move-se ao ritmo nostálgico e compassado dos comboios. Cheio de maravilhas, faz jus ao dito de Steiner, segundo o qual deus vive no pormenor: Caminhos de Ferro Vale da Fumaça

Adenda: Uma palavra amiga ao Groze, um agradecimento pela lembrança que me surpreendeu e alegrou. E ao terrear, para que - roubando-lhe a epígrafe - não desistamos de inventar dias mais claros.

Publicado por sol em 02:04 AM | Comentários (18)

abril 01, 2007

Allégeance

                                                        
          poema dito por René Char

Dans les rues de la ville il y a mon amour. Peu importe où il va dans le temps divisé. Il n'est plus mon amour, chacun peut lui parler. Il ne se souvient plus; qui au juste l'aima?

Il cherche son pareil dans le voeu des regards. L'espace qu'il parcourt est ma fidélité. Il dessine l'espoir et léger l'éconduit. Il est prépondérant sans qu'il y prenne part.

Je vis au fond de lui comme une épave heureuse. À son insu, ma solitude est son trésor. Dans le grand méridien où s'inscrit son essor, ma liberté le creuse.

Dans les rues de la ville il y a mon amour. Peu importe où il va dans le temps divisé. Il n'est plus mon amour, chacun peut lui parler. Il ne se souvient plus; qui au juste l'aima et l'éclaire de loin pour qu'il ne tombe pas?

René Char, Fureur et Mystère, Gallimard, 1962


                                                           CONSOLAÇÃO

Nas ruas da cidade caminha o meu amor. Pouco importa aonde vai no tempo dividido. Já não é o meu amor, todos podem falar-lhe. Ele já não se recorda. Quem de facto o amou?

Procura o seu igual no voto dos olhares. O espaço que percorre é a minha fidelidade. Ele desenha a esperança e ligeiro despede-a. Ele é preponderante sem tomar parte em nada.

Vivo no seu abismo como um feliz destroço. Sem que ele saiba, a minha solidão é o seu tesouro. No grande meridiano onde inscreve o seu curso, é a minha liberdade que o escava.

Nas ruas da cidade caminha o meu amor. Pouco importa aonde vai no tempo dividido. Já não é o meu amor, todos podem falar-lhe. Ele já não se recorda. Quem de facto o amou e de longe o ilumina para que não caia?

René Char, Fúria e Mistério, Tradução de Yvette K. Centeno, Edições Cotovia, Lisboa


Publicado por sol em 12:14 AM | Comentários (16)

março 05, 2007

Kerouac

Que eu não sabia ter escrito haiku, alguns dos quais pude ler nesta selecção e tradução do mexicano Fernando Cantú Jauckens. Instantes de desolada belleza lembra-me as pinturas de Hopper, a melancolia, um vazio, o sentimento do transitório: algo passa – ou passou – sem remédio.

1
Una flor
al lado del risco
Se inclina ante el cañón

2
Cruzando el campo de futbol
al regresar de su trabajo
el solitario hombre de negocios

3
Ningún telegrama hoy
— Sólo cayeron
Más hojas

4
Chicas preciosas corren
y suben los escalones de la biblioteca
Con sus shorts puestos

5
Un toro negro
y un pájaro blanco
Parados juntos en la playa

6
Los grillos — lloran
por la lluvia —
¿De nuevo?

7
La silla de verano
meciéndose sola
En la ventisca

8
Una rosa blanca
salpicada de rojo — ¡O
la cereza de un helado de vainilla!

9
Descalzo junto al mar
me detengo para rascarme un tobillo
Con el dedo gordo del pie

10
Mañana de octubre fría y quebradiza
— los gatos peleándose
En las hierbas

11
Las estrellas corren
con rapidez
A través de las nubes

12
El sonido del silencio
es toda la instrucción
Que recibirás

13
Hombre muriéndose
Luces del puerto
Sobre agua quieta

14
Autobús Greyhound,
fluyendo toda la noche,
Virginia

15
Por siempre y por siempre
todo está bien —
bosques de medianoche

16
Bebiendo vino
— la Reina de Grecia
en una estampilla postal

17
Bach a través
de una ventana abierta
los pájaros guardan silencio

18
Mañana fresca y con brisa
— el gato retoza
Sobre su lomo

19
Solo, en ropas
viejas, bebiendo vino
Bajo la luna

20
Mirándose mutuamente,
Ardilla en la rama,
Gato sobre el césped

21
Invierno — ese
nido de golondrina
Aún vacío

22
Mucha bebida & fiestas
de piano — llegó

23
El hijo empaca
sin hacer ruido mientras la
Madre duerme

24
Cierra los ojos —
El rentero llama
A la puerta trasera


Jack Kerouac, Instantes de desolada belleza (tradução e selecção de Fernando Cantú Jauckens in Con|fabulário)

Publicado por sol em 11:26 AM | Comentários (12)

fevereiro 18, 2007

El hombre prevalecerá sobre todas las angustias, dice William Faulkner

Sobre la angustia de un amanecer
              donde no estás.
Sobre el blanquísimo sol
             y la dolorosa penumbra cuando llueve.
Sobre la angustia de los cómplices
             traidores.
Sobre el golpe de las gotas
             en el fondo.
Sobre la angustia del lazo
             y las correas.
Sobre el más lento redoblar
             de las campanas.
Sobre la angustia de los cielos
             perdidos.
Sobre vicios y bondades y
             desesperanza y melodías.
Sobre colmos y mañanas
             el hombre será más que silencio.
Sobre la angustia de su propio miedo
             prevalecerá.


Edel Morales, publicado em Malabia


Publicado por sol em 12:24 AM | Comentários (8)

janeiro 28, 2007

Lendo Horácio

Nem o próprio dilúvio
Foi eterno.
Um dia as negras
Águas partiram. Mas como,
É verdade, houve poucos
Sobreviventes.

Bertolt Brecht, Poemas, tradução, selecção, estudos e notas de Arnaldo Saraiva, Campo das Letras, Porto, 1998

Publicado por sol em 05:20 PM | Comentários (17)

janeiro 24, 2007

solidão

a cidade entupida de clarões e
estridências insiste em não
dormir aos

poucos invade meu
corpo minhas

horas
frágeis

a cidade imunda e sempre
cheia de coisas muito
pouco importantes usurpa meus

dias e ninguém
mais

meus

poemas


Adair Carvalhais Júnior

Publicado por sol em 10:51 PM | Comentários (5)

dezembro 20, 2006

Aimer, le dire

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Aimer c'est la peur
Que d'un mot l'on décale

Pour ne pas laisser

L'indifférence ôter
Briser tous nos rêves.

         * * *

Aimer c'est entrer

De plain pied
Dans un fait de lenteurs

De silences
Et de choix

Solitaire.

        * * *

C'est céder à ses sens

Regarder
Devenir

Le corps alors

Incandescent.


Émeric de Monteynard, Aimer, le dire (extraits)


Publicado por sol em 01:36 AM | Comentários (12)

dezembro 04, 2006

À luz clara

À luz clara tudo arde
Mas não pode ser só isto.

Arsenii Tarkovskii, «8 ícones» (fragmento), Col. Gato Maltês, Assírio & Alvim, Lisboa, 1987

Western_Motel.JPG
Edward Hopper, Western Motel

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Edward Hopper, Early Sunday Morning

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Edward Hopper, Morning Sun

Publicado por sol em 12:35 AM | Comentários (19)

novembro 26, 2006

Galáxia

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Dans nos ténèbres, il n'y a pas une place pour la Beauté.
Toute place est pour la Beauté.

René Char, Feuillets d'Hypnos

Publicado por sol em 01:00 AM | Comentários (13)

novembro 14, 2006

Plena luz

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Cabeço de São Cornélio

Fotografia que o amigo Zef me enviou, com os seguintes dizeres:

«Não é dos Candeeiros, mas do Cabeço de São Cornélio, ao lado de Dirão da Rua, mesmo pertelinho do Sabugal.»

Ditosos olhos! Bem-haja, Zef. Dias felizes, muitos, que amanhã se comemoram!

Publicado por sol em 04:31 PM | Comentários (12)

outubro 10, 2006

herança

meu mundo recende a
pólvora e fumaça ao
meu redor os
gritos continuam
aumentando os

desertos

meu mundo devasta a
pele faz a vida
morrer em cada
dia ceifa todos os
dias

cada vez mais
áridos vazios sem
lugar

meu mundo e meus
poemas

Adair Carvalhais Júnior


Publicado por sol em 08:29 PM | Comentários (12)

setembro 16, 2006

Ó excesso puro!

castanheiro_2005.JPG
Castanheiro seco, Sabugal, 2005

A árvore é mais alta que ela própria, a árvore supera-se a si própria – por isso ela é tão alta. Uma dessas criaturas com as quais Deus, felizmente, não se preocupou, (elas tomam conta de si próprias) e sobem na direcção dos céus.

Rilke/Pasternak/Tsvétaïeva, Correspondência a Três, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006


Publicado por sol em 04:12 PM | Comentários (23)

julho 25, 2006

Há Dias

angelo de sousa.JPG


Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo nos cai
em cima. Depois
ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam.
Não lhes sei o nome. Uma
ou outra parece-se comigo.
Quero eu dizer: com o que fui
quando cheguei a ser
luminosa presença
da graça,
ou da alegria.
Um sorriso abre-se então
num verão antigo.
E dura, dura ainda.

Eugénio de Andrade, Os Lugares do Lume, Fundação Eugénio de Andrade, 2ª ed, 1998

Publicado por sol em 12:04 AM | Comentários (18)

maio 16, 2006

confissão

Odile Redon _Les yeux clos.JPG
Odile Redon, Les yeux clos

confissão

todo poema é um risco
lançado sobre o
nada todo
poema ceifa completamente o
corpo

em cada angústia
vespertina arrisco todos
meus poemas naufrago na
carne
devastada

Adair Carvalhais Júnior, Desencontrados Ventos


Publicado por sol em 10:13 PM | Comentários (20)

abril 30, 2006

Do Esquecimento

AngeloSousa.JPG


Oh circe circe de lentas folhas
faz do esquecimento o brilho furtivo das maçãs
a pequena orgia da chuva na vidraça
os dentes miúdos da carícia.

Eugénio de Andrade, Véspera de Água, Editorial Inova, Porto, 1973

Publicado por sol em 11:50 PM | Comentários (6)

março 29, 2006

Imagens que passais pela retina

Às vezes penso que se tivesse de escolher um só poema...


                    Isabel Munuera.jpg
                                                                                                       fotografia por Isabel Munuera


     Imagens que passais pela retina
     Dos meus olhos, porque não vos fixais?
     Que passais como a água cristalina
     Por uma fonte para nunca mais!...

     Ou para o lago escuro onde termina
     Vosso curso, silente de juncais,
     E o vago medo angustioso domina,
     ― Porque ides sem mim, não me levais?

     Sem vós o que são os meus olhos abertos?
     ― O espelho inútil, meus olhos pagãos!
     Aridez de sucessivos desertos...

     Fica, sequer, sombra das minhas mãos,
     Flexão casual de meus dedos incertos,
     ― Estranha sombra em movimentos vãos.

     Camilo Pessanha, Clepsidra, Editora Nova Crítica, Porto


Agradável coincidência, hoje, em Germina.


Publicado por sol em 07:53 PM | Comentários (8)

março 13, 2006

Mãe-D'Água

silencio2.JPG


Deitar fora sem desgosto a tigela antiga que se partiu
(isto é: que eu parti)
                                 e pensar com a risada de minha
Mãe: «Deixá-lo! Temos que fazer viver os oleiros!»
(a consolar-se do seu gesto desastrado)
                                                                  e aceitar o passar
do tempo sem angústia e sem saudade
                                                                  e dizer
como ela dizia sem palavras:
                                            «O tempo fez-se para
passar!»
                Ah sim! que passe e nos leve e não se fala
mais nisso!
                    Mas se ao menos nos levasse para o mesmo
sítio, Mãe!»


Teresa Rita Lopes, Afectos, Editorial Presença, Lisboa, 2000

Publicado por sol em 08:48 PM | Comentários (40)

março 04, 2006

eu que poderia ter dormido

orfeu-e-euridice.jpg
Rodin, Orfeu e Euríce


EURÍDICE

Lançaste-me então para trás,
eu que poderia ter caminhado com as almas vivas sobre a terra,
eu que poderia ter dormido entre flores vivas
por fim;

então pela tua arrogância
pela tua truculência
fui lançada para trás
para onde o líquen morto escorre
escórias mortas sobre musgo de cinza;

então pela tua arrogância estou
por fim despedaçada,
eu que vivi inconsciente,
que fui quase esquecida;

se me tivesses deixado esperar
teria crescido da indiferença
para a paz,
se me tivesses deixado repousar com os mortos, ter-me-ia esquecido de ti
e do passado.


Ezra Pound (tradução de Filipe Jarro)

Publicado por sol em 10:05 PM | Comentários (4)

fevereiro 16, 2006

citação após breve silêncio

helmo-etrusco-sec-vi.jpg


«Os seres imperfeitos agitam-se e acasalam-se para se completarem, mas as coisas só belas são solitárias como a dor humana.»

Marguerite Yourcenar, Gherardo Perini, in O Tempo, Esse Grande Escultor, Ed. Difel, Lisboa, 1983

Publicado por sol em 02:20 PM | Comentários (22)

novembro 06, 2005

por onde sai um som escuro

           fernao-oliveira-rosto.JPG

Primeira Gramática da Linguagem Portuguesa, séc. XVI. Todos os começos são árduos, mas alguns guardam a candura da novidade, o ardor dos princípios. E a poesia das analogias no esforço descritivo.


                                                                    *  *  *

Esta letra u vogal aperta as queixadas e prega os beiços, não deixando entre eles mais que só um canudo por onde sai um som escuro, o qual é a sua voz.
[…]

A pronunciação do m muge entre os beiços apertados, apanhando para dentro.

A pronunciação do n tine, diz Quintiliano, tocando com a ponta da língua as gengivas de cima.
[…]

O s singelo, diz Quintiliano, é letra mimosa, e, quando a pronunciamos, alevantamos a ponta da língua para o céu da boca e o espírito assobia pelas ilhargas da língua.

O ss dobrado pronuncia-se como o outro, pregando mais a língua no céu da boca.
[…]

Ao x nós lhe chamamos cis, mas eu lhe chamaria antes xi, porque assim o pronunciamos na escritura. Pronuncia-se com as queixadas apertadas no meio da boca, os dentes juntos, a língua ancha na boca e o espírito ferve na humidade da língua.

A pronunciação do z zine entre os dentes cerrados, com a língua chegada a eles e os beiços apartados um do outro.


A Gramática da Linguagem Portuguesa de Fernão de Oliveira, por Maria Leonor Carvalhão Buescu, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1975

Publicado por sol em 03:42 AM | Comentários (16)

outubro 27, 2005

Na noite terrível

PaddedCell-Slime.JPG

Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado – esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.

Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido –
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso – e foi afinal o melhor de mim – é que nem os Deuses fazem viver...

[...]

Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível pra mim.


Álvaro de Campos, 1928

Publicado por sol em 10:58 PM | Comentários (16)

setembro 28, 2005

No meu desejo

AngeloSousa.JPG

Tem dó de quem não dorme,
de quem passa a noite à espera
que desperte o silêncio.
O vento devia cantar nos plátanos
com a lua nova, ser mais uma folha
feliz nos ombros do outono.
Mas o vento parecia ter endoidecido:
de leste a oeste varria
a rua, varria a noite: o vento
alegremente
varria o mundo ― em turbilhão
arrastava o lixo mil vezes imundo.
E o sono chegava.

Eugénio de Andrade, O Sal da Língua, Ed. Fundação Eug. Andrade, Porto, 1ª ed, 1995

Publicado por sol em 08:08 AM | Comentários (8)

setembro 26, 2005

Em Setembro, no Algarve

yvette.JPG
Desenho de Tóssan


Deito-me no muro do quintal.
Aguardo o pôr do sol
quando os pássaros cantam
e a terra exala um cheiro quente
a caruma e a tojo.
No meio das árvores
a romãzeira florida parece descansar.
Chegou ao fim do seu dia.
Olho o sol.
E eu
quando chegarei eu?

Yvette K. Centeno, Algol, Colecção O Oiro do Dia, Editorial Inova, Porto, 1979

Publicado por sol em 08:05 AM | Comentários (9)

agosto 02, 2005

Dedicatória

A todos os que nas noites tempestuosas das revoltas
                                                                  procuram uma lua infantil
aos que já não tinham tempo, aos que foram esquecidos
na doçura do sono quando todos nos tinham abandonado
aos espelhos onde nos fitámos, aos mares que não
                                                                       navegaremos
aos caminhos que percorremos apaixonados e a que talvez
                                                                      não tenhamos voltado
ao destino, à bela juventude, aos viajantes
(e eu, aonde ia? e era assim tanto o que pedia? Mas agora é
                                                                      tarde - tempo de partir)
às aves de arribação, às locomotivas a vapor que se
                                                 cansaram e se viraram de lado para dormir
às espigas que a luz ilumina, às raparigas que despem a saia
                                                                        para entrarem no céu
às cartas de um anjo para um menino, aos que se atrasaram,
                                                                       aos que nunca voltarão
à mulher que deita as cartas, ao velho que chora
à Odisseia que vive o poeta ao escrever o mais pequeno
                                                                                       poema
ao instante luminoso que viveu um homem vivendo uma
                                                                                  vida inteira...

Tasos Leivaditis, tradução de Manuel Resende, em Di Versos nº 8, revista semestral de Poesia e Tradução, Inverno de 2004



Publicado por sol em 07:18 PM | Comentários (8)

junho 23, 2005

Basta un instante

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Manuel Alvarez Bravo, 1931

Basta un instante
para saber onde hai un ser humano:

Alí onde haxa ternura
para unha debilidade.

Onde haxa para un frío, un acto de calor.
Onde haxa, pola vida, absoluto respecto.

Alí onde haxa un ser que sinta a humillación
dun semellante como a súa propia humillación.

Alí onde non se confunda humor con burla
nin hipocrisía con amor.

Basta un instante para entender a dor.


Ramón Sampedro, Cando eu Caia, Edicions Xerais de Galicia, Vigo, 1998

Publicado por sol em 12:47 PM | Comentários (5)

junho 13, 2005

Sem ti

Que país será o meu? Este,
onde vivo e sou estrangeiro?
O da luz atravessada
pelos cisnes? Sem ti, como saber?

Eugénio de Andrade, excerto




Publicado por sol em 11:00 PM | Comentários (16)

junho 10, 2005

Soneto em 10 de Junho

hands-estudo.jpg
A. Dürer


Oh! Como se me alonga, de ano em ano,
a peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
perde-se-me um remédio, que inda tinha;
se por experiência se adivinha,
qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
no meio do caminho me falece,
mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
se os olhos ergo a ver se inda parece,
da vista se me perde e da esperança.


Luís de Camões, Rimas, texto estabelecido por A. J. Costa Pimpão, Livraria Almedina, Coimbra


Publicado por sol em 12:02 AM | Comentários (11)

maio 20, 2005

O Escritor Prodigioso

sena.jpg

Notícia aqui.

                           *    *    *

GLOSA À CHEGADA DO OUTONO

O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.

                                                                                     28/8/1958

Jorge de Sena, Antologia Poética



Publicado por sol em 05:43 PM | Comentários (10)

maio 01, 2005

La Luna

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Paul Delvaux *


Hay tanta soledad en ese oro.
La luna de las noches no es la luna
que vio el primer Adán. Los largos siglos
de la vigilia humana la han colmado
de antiguo llanto. Mírala. Es tu espejo.

Jorge Luis Borges, Antología Poética 1923-1977, Biblioteca Borges, Alianza Editorial, Madrid, 2002



* Imagem oferecida por ocasião do primeiro aniversário do Nocturno com Gatos. Reproduzo-a, com os meus agradecimentos a mb.

abril 11, 2005

Breve escatologia

summers-end-Jeane Vogel.jpg


Caminhando na praia
olho para trás -
nem uma só pegada.

Hosai Ozaka (1885 - 1926)


             * * *


Crisântemo de Inverno -
apenas visitado pela sua
fatigada luz.

Shuoshi Mizuhara (1892-1981)


O Haicai no Século XX - Antologia, selecção e tradução de Casimiro de Brito e Ban'ya Natsuishi




Publicado por sol em 11:15 PM | Comentários (18)

março 30, 2005

Se descalzan los dias

chagall3.JPG
Chagall


Se descalzan los días
para pasar de largo sin que nos demos cuenta.
Son casi despedidas, casi encuentros
– felices pero incómodos –
de cuerpos que se miran
y que aplazan la cita.
                      Aunque detrás,
suelen quedarnos huellas que no son los recuerdos.

De aquel jardín inculto yo conservo
el hombre que venía a desearte,
a caminar sin ti,
silvestre y solo.
Porque de ti le hablaban las adelfas,
con sus ramas difíciles como muchachas jóvenes,
y las palmeras altas igual que tu desnudo,
y aquel cielo corrido
que buscaba
la luz con que el amor te distingue los ojos.

No envejecemos nunca. Tal vez no envejecemos.

Y ahora puedo decírtelo,
cuando tú me recuerdas las adelfas,
y tu desnudo en arco dibuja una palmera,
y los ojos se nublan
sobre el jardín silvestre de los enamorados.

Tal vez no envejecemos. O es acaso que el tiempo
se quitó los tacones para no molestarnos.
O es acaso el deseo
que camina en los labios todavía descalzo.


Luis García Montero


Publicado por sol em 11:59 PM | Comentários (29)

março 18, 2005

Do poder das palavras

Nos comentários ao poema anterior falou-se, naturalmente, de palavras. Às vezes, "umas chatas", disse o Paulo; um "círculo de luz", disse o Jorge; "perigosas ou inocentes e ambas as coisas", citou o Zef; e a mb ocorreu que um dia eu lhe dissera serem os melros os goliardos entre as aves.

Lembrei-me assim de Heloísa e Pedro Abelardo, de quem alguns dizem ter sido o percursor dos goliardos. Lembrei-me em particular das cartas que trocaram, sobretudo a primeira que, do convento de Paraclet, Heloísa envia a Abelardo - espécie de gatilho da comunicação. Lendo-a, quem poderá dizer que as palavras são inermes?

Encontrei há tempos, na revista online da Faculdade de Filosofia e Humanidades da Universidade do Chile, um ensaio acerca dessa primeira carta, ensaio que percorri com agrado e alguma malícia: porque Heloísa foi mulher e viveu há novecentos anos. E como argumenta bem com o mestre da Lógica - e o persuade! O ensaio é longo. Reproduzo aqui, traduzindo-os livremente, apenas alguns excertos sobre a natureza e o alcance do discurso amoroso.


Lettres_Eloise1.JPG


                        HELOÍSA E ABELARDO: PALAVRAS DE AMOR

                                              María del Pilar Jarpa Manzur
                                 Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación

(...)

A primeira carta de Heloísa a Abelardo confessa uma petição de palavra. Através de argumentos que deslizam e se cruzam no texto, Heloísa implora traços da boca ou da mão do seu amado. Como numa ode, enaltece o poder da palavra. As suas cartas não contêm apenas um discurso acerca do amor, mas também o discurso do amor.
(...)

No entanto, que podia esperar Heloísa de Abelardo, se todo o contexto da sua relação se tinha desvanecido? Se todos os prazeres lhes tinham sido arrebatados? Se Abelardo era agora mudo para a linguagem erótica dos amantes?

Surgia então a palavra como possibilidade - talvez a única - do reencontro amoroso; como um antídoto contra a saudade e a melancolia; como um espelho em cujo reflexo regressaria - intacto - o ser amado.
(...)

A linguagem, forjada em cartas, concede-lhes a oportunidade de se contemplarem, de se tentarem, de regressarem um ao outro. «É como se tivesse palavras à maneira de dedos, ou dedos na extremidade das minhas palavras.» (Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso).
(...)

Desta perspectiva, a do amor, [as palavras] não podem ser vistas como meras etiquetas, meras instruções desvinculadas do real. Ancoradas no profundo do mundo, ligam-se 'realmente' ao que significam, e também a quem as profere e a quem as acolhe. E de tal maneira se tornam imprescindíveis, pois sustentam a alma.

Assim, a linguagem é erigida a lugar primordial da comunicação, do encontro e da consolidação. O desvelar do ser que se efectua através delas é também sustento para o enamorado. Aos que se encontram a mundos de distância, aos que se amam a contratempo, as palavras oferecem sortilégios.

No último vaivém da agonia, a ausência do outro torna-se intransigente, devastadora. Sem palavras tudo é queda, tudo é esquecimento, e perguntar-se-á como podem elas suster a alma. Responderemos que quando o amor já se não pode escrever na pele, talvez as palavras confiram um refúgio onde a fusão seja possível, onde o amor torne a dizer-se a duas vozes.
(...)

Abelardo dedicará até ao fim dos seus dias muitas palavras a Heloísa: cartas, tratados e até a sua controversa declaração de Fé. Mas nunca mais, nem dos seus lábios nem da sua pena, Heloísa voltou a ouvir palavras de amor... Pelo menos é isso que nos contam os vazios que o tempo costuma deixar.

em: http://www.uchile.cl/facultades/filosofia/publicaciones/cyber/cyber10/mjarpa.html#13



Publicado por sol em 09:59 AM | Comentários (37)

fevereiro 28, 2005

Eros


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desenhos de Rodin


Não, estes desenhos não são aquilo por que os tomam, esboços apressados, preliminares, passageiros; o momento, assim surpreendido na sua intangibilidade, assim submetido a todas as leis: o que o distingue ainda do definitivo e do eterno?

E ouvimos dizer que são eróticos. Ah, sim, são eróticos; mas quem diz da noite de Junho que é «erótica», saturada pelo canto dos rouxinóis, num anseio quase ameaçador sob as estrelas febris? Ou quem chama «erótica» à sabedoria profunda e abençoada que tudo abarca e torna fértil, ou à alegria ou à morte ou ao dobrar dos sinos?...

Uma palavra regressa aqui à sua grandeza, ao terror e à glória: ao incomensurável.

Nestas folhas, nestas coisas, Eros, o deus, regressou para junto de nós — o Eros de Sócrates, talvez, que apesar de Fedro e do Banquete se perdera —: este tão doce e leve Eros, este espírito profundo, este amante grandioso e imodesto...

Ele tinha de tornar-se corpo; pois de que outro modo podem as artes plásticas tomar posse do espírito se todos os seus meios dependem dos sentidos, do palpável! — E quanto mais desenvolvem estes meios, quanto maior a paixão com que de si mesmas ganham consciência, tanto mais sensuais têm de tornar-se, mais é forçoso que mostrem o espírito através do corpo.

Para o criador vale ainda o que para Dante valia:

O corpo... é para ele a alma.

Rilke, sobre os desenhos de Rodin (1905), in Auguste Rodin e Rainer Maria Rilke, Momentos de Paixão, Relógio D'Água, Lisboa, 2004



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fevereiro 01, 2005

Le temps des cerises

Testa di Giovinetta.jpg
Da Vinci, Testa di Giovinetta


Quand nous en serons au temps des cerises
Et gai rossignol et merle moqueur
Seront tous en fête
Les belles auront la folie en tête
Et les amoureux du soleil au cœur.
Quand nous en seront au temps des cerises
Sifflera bien mieux le merle moqueur.

Mais il est bien court le temps des cerises
Où l'on s'en va deux cueillir en rêvant
Des pendants d'oreilles
Cerises d'amour aux robes pareilles
Tombant sous la feuille en gouttes de sang.
Mais il est bien court le temps des cerises
Pendants de corail qu'on cueille en rêvant.

Quand vous en serez au temps des cerises
Si vous avez peur des chagrins d'amour
Evitez les belles
Moi qui ne crains pas les peines cruelles
Je ne vivrai pas sans souffrir un jour.
Quand vous en serez au temps des cerises
Vous aurez aussi des chagrins d'amour.

J'aimerai toujours le temps des cerises
C'est de ce temps là que je garde au cœur
Une plaie ouverte
Et dame Fortune en m'étant offerte
Ne saura jamais calmer ma douleur.
J'aimerai toujours le temps des cerises
Et le souvenir que je garde au cœur.

Canção de Jean-Baptiste Clément e Antoine Renard (1867)

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janeiro 19, 2005

Voltar a nascer

Eugénio de Andrade faz hoje 82 anos. E há um silêncio em torno dele, um silêncio cuja qualidade conheço - conheci em outras situações. Um silêncio de que não gosto.

Então celebro: o esplendor das palavras e todos os princípios que nelas germinam.




Tom Chambers - ex-votes.jpg
Tom Chambers


Escrevo já com a noite
em casa. Escrevo
sobre a manhã em que escutava
o rumor da cal ou do lume,
e eras tu somente
a dizer o meu nome.
Escrevo para levar à boca
o sabor da primeira
boca que beijei a tremer.
Escrevo para subir às fontes.
E voltar a nascer.


Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede, Fundação Eugénio de Andrade, Porto, 2001

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janeiro 11, 2005

A Rainha Arcaica

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                             V
           EU ERA MOÇA, MENINA...

Eu era moça, menina, em meus paços
muito honrada, por nome Inês de Castro
quando o vi no Mondego, inquieto e esgalgo,
a sitiar-me a fímbria das espáduas.
Era o infante meu primo, ajaezado,
o dinasta afonsino com seus gládios,
seus cães de fino faro em meu encalço
no afã de decifrar-me a foz do orgasmo.
Ele se veio a mim como quem sabe
que à fêmea apraz o macho sem alarde.
Nada pediu. Quis-me. Fiz-lhe a vontade.
E a sorte, bem sabeis, lançada estava
quando o vi no Mondego (e já era tarde
para o perdão de Portugal e o Algarve).


                             VI
           INÊS E CONSTANÇA

Foi de Castela que vieram as duas
ao encontro do infante e do infortúnio:
Constança, a que jamais lhe aprouve à gula;
e a outra, que lhe coube como adúltera.
Vieram ambas de Castela: uma,
de alta linhagem e trânsfuga luxúria;
e Inês, a de Galiza e coma ruiva,
também fidalga, mas de berço avulso.
E desde logo perceberam as duas
que dele ao todo não seriam nunca,
nem nesta terra nem em parte alguma,
nem como esposas nem rainhas suas:
a que desceu antes de sê-lo ao túmulo
e a que somente o foi quando defunta.

                            IX
            MORTE DE INÊS

Foram dois, sim, que deles guardo a injúria
sepulta neste pélago do mundo,
onde mais nada me apetece ou pulsa
e em vão meus lábios rezam a pedras mudas
Sim, foram dois, eu sei, alfanje em punho
que se soltaram contra mim, aduncos,
com garras de rapina e cenho duro
tão logo el-rei foi surdo às minhas súplicas
e à fala que lhe fiz entre soluços,
pondo ali de redor meus três miúdos.
À vista deles trespassou-me o gume
como um dilúvio de aguilhões e acúleos.
Que dor, infante, a de não mais ser tua!
E foi então que a noite me fez sua.


                             XII
           VAI NUMAS ANDAS...

            . . . sempre o seu corpo foi per todo o caminho per antre círios acesos.
                        Femão Lopes, Crónica de D. Pedro I, cap. XLIV

Por entre a luz dos círios, sob a névoa,
navega o féretro de uma donzela.
Vai numas andas que os fidalgos levam
em lento périplo ao redor das glebas.
E voa assim por dezassete léguas
que entre Alcobaça e as serras se enovelam.
Vai leve o séquito em seu curso aéreo
ao som do réquiem que sussurram os clérigos.
Flameja a infanta sobre um mar de flechas
e nave adentro flui rumo à capela,
cerca de Pedro, que na pedra a espera
e em pedra a entalha da coroa aos pés.
Descansa Inês, longe dos reis terrestres,
Pois que outro reino agora te celebra.

                             XIII
           INÊS, RAINHA PÓSTUMA

Estavas, linda Inês, póstuma e lívida,
como se a vida em ti não mais fluísse,
mas quem te contemplasse saberia
que eras enfim o nervo do conflito:
não tanto aquele que te fez a vítima
dos reis e das intrigas da península,
mas o que dentro de ti mesma urdiram
teu sangue abrupto e teu amor sem bridas.
Por isso é que o sossego não te cinge
nem te refreia o frémito do instinto
que ainda fustiga o flanco de tuas cinzas.
Ali, na pedra, és de ti própria a epígrafe:
princípio e fim da mísera e mesquinha
que despois de ser morta foy Rainha.


Ivan Junqueira, A Rainha Arcaica, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1980




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1964 - II

Ya no seré feliz. Tal vez no importa.
Hay tantas otras cosas en el mundo;
Un instante cualquiera es más profundo
Y diverso que el mar. La vida es corta
Y aunque las horas son tan largas, una
Oscura maravilla nos acecha,
La muerte, ese otro mar, esa otra flecha
Que nos libra del sol y de la luna
Y del amor. La dicha que me diste
Y me quitaste debe ser borrada;
Lo que era todo tiene que ser nada.
Sólo me queda el goce de estar triste,
Esa vana costumbre que me inclina
Al Sur, a cierta puerta, a cierta esquina.


Jorge Luis Borges, El Otro, El Mismo, in Obras Completas, Tomo II, Emecé Editores, Barcelona, 1989

Publicado por sol em 11:00 AM | Comentários (10)

dezembro 23, 2004

O mais luminoso

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Fra Angélico

«Amor é um dos nomes de Deus, justamente o mais luminoso.»

           Eugénio de Andrade, Tão perto do coração

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dezembro 15, 2004

À beira de água

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Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.


Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede, Fundação Eugénio de Andrade, 2ª ed, Porto, 2001

Publicado por sol em 12:31 AM

dezembro 06, 2004

Universos em Colisão

Tentava lembrar-me de um conto sobre um onnagata célebre. De Mishima, o conto. Seria do livro "O Tumulto das Ondas"? Talvez de "Morte em Pleno Verão"? Se fosse deste (e era) não poderia relê-lo: emprestei o livro a alguém que gostou tanto dele que lho ofereci. Está em paz, esse livro, o que não posso dizer de todos os que emprestei.

Incluía também, essa perdida colectânea, um outro conto que me comoveu profundamente, a história de um homem que, enfrentando um dilema, não vê outra solução além do seppuku e pede à esposa que seja a testemunha do suicídio. Invulgar pedido para se fazer a uma mulher, e prova do amor que unia o casal. Ela segui-lo-á, depois. É um texto arrepiante, pela descrição minuciosa do suicídio ritual. Eros e Thanatos entrelaçam-se intimamente, e a atmosfera trágica (a da inocência impiedosamente castigada pelo destino inelutável que esmaga os melhores) é de uma beleza terrível. Talvez volte a comprar o livro. O meu projecto de ter apenas três - os indispensáveis - continua muito longe de alcançar. É difícil o despojamento. E saber por fim quais serão os três livros indispensáveis.

Também pesquisei na internet, onde o acervo é de tal ordem que me perdi, entrei noutros ramos do labirinto da informação, encontrei maravilhas. Entre as páginas que visitei, uma exposição sob o título: «Universes in Collision, Men and Women in 19th-century Japanese Prints». Não resisto a reproduzir aqui algumas das imagens, muito belas, representando cenas de Kabuki (afinal foi pelos onnagata que esta busca começou), bem como excertos dos comentários que as acompanham e alguns dos poemas que as complementam - excertos e poemas em tradução livre, minha.

                                              * * * * * *

                                   Universos em Colisão

                                  Os amantes jogam com a vida e a morte
                                   o mais perigoso de todos os jogos

                                                        Ihara Saikaku (1641-1693)


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Utagawa Kunisada (1786-1864), cena de uma representação de Kabuki, 1842

Num cenário nocturno, à neve, um homem e uma mulher lutam apaixonadamente por uma espada envolta numa esteira. Nas pinturas japonesas, a neve apresenta com frequência conotações sobrenaturais, ou pelo menos dramáticas. Também as espadas, como os botões de cerejeira e os crisântemos, detêm um significado espiritual. A violência e a pureza coexistem na mesma desesperada cena.

                                             * * * * * *

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Tsukioka Yoshitoshi (1839-1892), Demência, 1889

Uma mulher enlouquece, depois da morte do amado, e desenrola a última longa carta que ele lhe enviou e que ela leu até a reduzir a farrapos. Parece ser o nascer da lua, como indiciando o regresso do amor à sua infortunada casa. Na vida, como na arte, homens e mulheres, no Japão tradicional, comunicavam frequentemente através de cartas poéticas, frágeis pontes entre os seus mundos separados.

                                              * * * * * *

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Utagawa Kuniyoshi (1798-1861), Edo Murasaki, ca 1850

A palavra Murasaki pode referir-se à grande novelista medieval japonesa, ou à cor púrpura do traje da mulher; Edo é a actual Tóquio. Mas a cena surpreende pela sua ambiência de aprazível e doméstica normalidade. Embora o homem que lava as mãos aguarde a mullher com a toalha, não há traços de servilismo, e eles trocam amigáveis olhares.

                                              * * * * * *

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Tsukioka Yoshitoshi (1839-1892), A história de Jirozaemon of Sano, 1886

A mais bela das cortesãs assemelha-se a uma deusa aos olhos de um rústico como Jirozaemon, que se apaixona por ela e a assassina quando é repelido. O teatro Kabuki mostra-nos tanto a adoração como as perseguições de que as cortesãs eram alvo. A versão de Yoshitoshi mergulha o espectador em sangue e lirismo, enquanto as cartas de amor da cortesã voam como pássaros.

                                                   * * * * * * * * * * * *


Tu e eu vivemos no interior de um ovo
e eu, eu sou a clara
envolvo-te e embalo-te dentro do meu corpo.

Canção de uma gueixa anónima

                                              * * *

Para punir os homens pelos seus pecados,
Deus fez-me esta pele macia
deu-me estes longos cabelos negros.

Yosano Akiko, 1878-1942

                                              * * *

Esta noite sonhei
Que empunhava uma espada contra o meu corpo nu.
Que significará?
Que em breve estaremos juntos.

Kasa no Iratsume, 8th Century

                                              * * *

Os deuses celestes são irracionais:
Eu podia morrer sem haver-te conhecido,
a ti a quem amo tanto.

Kasa no Iratsume, 8th Century

                                              * * *

A lembrança de longos encontros amorosos é como a neve derretendo
Pungente como os patos mandarins flutuando lado a lado no sono.

Lady Murasaki (Murasaki Shikibu), 974-1031

Publicado por sol em 08:40 AM | Comentários (18)

dezembro 05, 2004

A propósito

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foto de Debe Hale



                      ONE ART

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

                      Elizabeth Bishop


(Agradeço à minha amiga Eneida Leite, que me pôs na pista deste poema)





                      UMA ARTE

A arte de perder não é difícil de se dominar;
tantas coisas parecem cheias da intenção
de se perderem que a sua perda não é uma calamidade.

Perder qualquer coisa todos os dias. Aceitar a agitação
de chaves perdidas, a hora mal passada.
A arte de perder não é difícil de se dominar.

Então procura perder mais, perder mais depressa:
lugares e nomes e para onde se tencionava
viajar. Nenhuma destas coisas trará uma calamidade.

Perdi o relógio da minha mãe. E olha! a última, ou
a penúltima, de três casas amadas desapareceu.
A arte de perder não é difícil de se dominar.

Perdi duas cidades encantadoras: E, mais vastos ainda,
reinos que possuía, dois rios, um continente.
Sinto a falta deles, mas não foi uma calamidade.

- Mesmo o perder-te (a voz trocista, um gesto
que amo) não foi diferente disso. É evidente
que a arte de perder não é muito difícil de se dominar
mesmo que nos pareça (toma nota!) uma calamidade.


in Poemas de Marianne Moore e Elisabeth Bishop, tradução de Maria de Lourdes Guimarães, Campo das Letras , 1999


(E agradeço à Amélia Pais pela tradução, que eu sou demasiado preguiçosa para ensaiar, e que agora acrescento.)

Publicado por sol em 12:01 AM | Comentários (10)

novembro 28, 2004

O último poema

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Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manuel Bandeira, Libertinagem, in Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993

Publicado por sol em 07:27 PM | Comentários (12)

novembro 05, 2004

Advertencia

Si alguna vez sufres — y lo harás —
por alguien que te amó y que te abandona,
no le guardes rencor ni le perdones:
deforma su memoria el rencoroso
y en amor el perdón es sólo una palabra
que no se aviene nunca a un sentimiento.
Soporta tu dolor en soledad,
porque el merecimiento aun de la adversidad mayor
está justificado si fuiste
desleal a tu conciencia, no apostando
sólo por el amor que te entregaba
su esplendor inocente, sus intocados mundos.

Así que cuando sufras — y lo harás —
por alguien que te amó, procura siempre
acusarte a ti mismo de su olvido
porque fuiste cobarde o quizá fuiste ingrato.
Y aprende que la vida tiene un precio
que no puedes pagar continuamente.
Y aprende dignidad en tu derrota,
agradeciendo a quien te quiso
el regalo fugaz de su hermosura.


Felipe Benítez Reyes, Los Vanos Mundos, in Trama de Niebla, Poesia Reunida 1978-2002, Tusquets Editores, Barcelona, 2003

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novembro 02, 2004

Because of

Os primeiros cinco discos de Leonard Cohen, até New Skin For The Old Ceremony (1974), foram e permanecem para mim - todos eles - objecto de veneração. Depois, só com Recent Songs, em 1979, reatámos a velha magia. E, a partir daí, se a minha relação com o poeta e o músico continuou apaixonada, é porque lhe sou fiel de um modo difícil de explicar a quem não for coheniano.





Dear Heather acaba de sair neste Outubro de 2004. À primeira audição não gostei do cd. Agora enternece-me, tal como os 70 anos do músico. A voz, mais rouca, apoia-se nas das acompanhantes e nos arranjos. Mas em todo o cd uma melancolia suave e reconciliada e, sobretudo, alguns pequenos maravilhosos poemas. Como este que transcrevo. Quem, além de Cohen, falaria assim das mulheres, com essa terna, irónica cumplicidade, que se percebe mútua? Este é um jogo muito antigo.


Because Of

Because of a few songs
Wherein I spoke of their mystery,
Women have been
Exceptionally kind
To my old age.
They make a secret place
In their busy lives
And they take me there.
They become naked
In their different ways
And they say,
"Look at me, Leonard,
Look at me one last time."
Then they bend over the bed
And cover me up
Like a baby that is shivering.

Leonard Cohen

Publicado por sol em 02:35 PM | Comentários (9)

setembro 19, 2004

Da vida opaca



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Um pedaço de pão, um copo de água fresca,
a sombra de uma árvore e os teus olhos!
Nenhum sultão é mais feliz do que eu.
E nenhum mendigo é mais triste.


                   * * *


Escuta este grande segredo:
Quando a primeira aurora iluminou o Mundo,
Adão já não era mais que uma criatura dolorida
que invocava a noite e a morte.

                  * * *


Não se pode incendiar o mar
nem convencer o homem de que a felicidade é perigosa.
Ele sabe, todavia, que o menor choque é fatal à ânfora cheia
e deixa intacta a ânfora vazia.


Omar Khayyam, Rubaiyat, Odes ao Vinho, Moraes Editores, Lisboa, 1981

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julho 30, 2004

Nossa Senhora da Ternura

                       
                                  K. H. de Josselin de Jong


Nossa Senhora da Ternura,
Abre a ele tua alma pura.

Dissipa a sua noite, e ele veja
Onde estás. Tua mão o proteja.

Afasta-o, Mãe, da gente má,
Para que a ti, puro, ele vá.

Guarda-o da dor, dá-lhe a alegria,
Para que, junto a ti, sorria.

Dá-lhe aos olhos pudor bastante
Para visão de teu semblante.

Dá-lhe compreensão maior,
Para que entenda o que é o amor.

E além da morte, em teu regaço
Descanse enfim seu corpo lasso.

Nossa Senhora da Ternura,
Bendita sejas, Virgem pura.


tradução de Manuel Bandeira, em Poemas Traduzidos

Publicado por sol em 02:00 PM | Comentários (15)

julho 29, 2004

Miércoles, día del espectador

No se descarta que al salir del cine
una pareja cuente con nuevos enemigos.
La pelicula es mala,
las sombras buscan cuerpos para encontrar deseos,
se oyen voces de actores,
imágenes dudosas,
pero los labios son materia viva
en las butacas observadas
y los botones pierden su vergüenza.
Suena un disparo inútil,
la camisa deshecha,
la mano que naufraga entre los muslos.
Se persiguen dos coches por tus hombros
y estalla un edificio,
una lengua de fuego en la ventana,
llamas que desesperan vientre abajo,
el pelo negro por la mano abierta,
negro como la vida en la pantalla,
como el silencio del actor que mira,
del acomodador,
del público encendido.
Ya no tienen edad para estas cosas,
comienta el matrimonio da la última fila.
Y pienso que es verdad. No se descarta,
no se descarta que al salir del cine
una pareja cuente con nuevos enemigos.

Luis Garcia Montero, Completamente Viernes, Tusquets Editores, Barcelona, 1998

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julho 24, 2004

Attends, je sais des histoires

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«Há quase setenta e três anos que te conheço, vida louca, e parece-me que tenho ainda de te descobrir. Ainda não te encontrei, morte danada, mas parece-me que te conheço de cor. (...)

Il faut vivre d'amour, d'amitié, de défaites.
Donner à perte d'âme, éclater de passion
Pour que l'on puisse écrire à la fin de la fête:
Quelque chose a changé pendant que nous passions.»

(Serge Reggiani, Último Correio Antes da Noite, Campo das Letras, Porto, 1996)

Para que possamos dizer que algo mudou quando nós passávamos, diz ele. E mudou. Tantas canções na voz de Reggiani, ouvidas ao longo de tantos anos, e que se tornaram, com a maravilhosa voz, uma parte do meu imaginário e da minha construção do mundo. Canções como esta, por exemplo, pela qual tenho um particular carinho:

       LE PETIT GARÇON

Ce soir, mon petit garçon
Mon enfant, mon amour
Ce soir, il pleut sur la maison
Mon garçon, mon amour
Comme tu lui ressembles!
On reste tous les deux
On va bien jouer ensemble
On est là tous les deux
Seuls

Ce soir elle ne rentre pas
Je n'sais plus, je n'sais pas
Elle écrira demain peut-être
Nous aurons une lettre
Il pleut sur le jardin
Je vais faire du feu
Je n'ai pas de chagrin
On est là tous les deux
Seuls

Attends, je sais des histoires
Il était une fois
Il pleut dans ma mémoire
Je crois, ne pleure pas
Attends, je sais des histoires
Mais il fait un peu froid, ce soir
Une histoire de gens qui s'aiment
Une histoire de gens qui s'aiment

Tu vas voir
Ne t'en vas pas
Ne me laisse pas

Je ne sais plus faire du feu
Mon enfant, mon amour
Je ne peux plus grand-chose
Mon garçon, mon amour
Comme tu lui ressembles!
On est là tous les deux
Perdus parmi les choses
Dans cette grande chambre
Seuls

On va jouer à la guerre
Et tu t'endormiras
Ce soir, elle ne sera pas là
Je n'sais plus, je n'sais pas
Je n'aime pas l'hiver
Il n'y a plus de feu
Il n'y a plus rien à faire
Qu'à jouer tous les deux
Seuls

Attends, je sais des histoires
Il était une fois
Je n'ai plus de mémoire
Je crois, ne pleure pas
Attends, je sais des histoires
Mais il est un peu tard, ce soir
L'histoire des gens qui s'aimèrent
Et qui jouèrent à la guerre

Écoute-moi
Elle n'est plus là
Non... ne pleure pas...

Letra de Jean-Loup Dabadie, música de Jacques Datin, 1967

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julho 19, 2004

Calamidade

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Linda Connor


na casa desabitada tua
voz silenciosa preenche
meus vazios invade meus
ocos venta na minha
insensatez

e me intima a amar-te na tua
cidade sem causa ou
efeito feito uma
calamidade
pública

mas os aeroportos estão todos fechados


Adair Carvalhais Júnior, Desencontrados Ventos, Outras Letras Editora, Rio de Janeiro, 2002

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julho 05, 2004

La Quête

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Rêver un impossible rêve
Porter le chagrin des départs
Brûler d'une possible fièvre
Partir où personne ne part
Aimer jusqu'à la déchirure
Aimer, même trop, même mal,
Tenter, sans force et sans armure,
D'atteindre l'inaccessible étoile

Telle est ma quête,
Suivre l'étoile
Peu m'importent mes chances
Peu m'importe le temps
Ou ma désespérance
Et puis lutter toujours
Sans questions ni repos
Se damner
Pour l'or d'un mot d'amour

Je ne sais si je serai ce héros
Mais mon cœur serait tranquille
Et les villes s'éclabousseraient de bleu
Parce qu'un malheureux
Brûle encore, bien qu'ayant tout brûlé
Brûle encore, même trop, même mal
Pour atteindre à s'en écarteler
Pour atteindre l'inaccessible étoile.

      Jacques Brel

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julho 02, 2004

O poema te levará no tempo, Sophia

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, 1962

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junho 22, 2004

O esplendor da luz

Sun Setting over a Lake-1840.jpg

Turner - Pôr do sol sobre um lago, 1840 - Tate Gallery, Londres


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junho 15, 2004

A montanha

Balthus-a-montanha-1937.jpg
Balthus - 1937

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junho 10, 2004

As fontes

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As fontes regressam
de que incêndio cativas?


Eugénio de Andrade, Véspera de Água, Editorial Inova, Porto, 1973

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junho 09, 2004

Celebrar Camões

porque

«a pátria (...) está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dua austera, apagada e vil tristeza.»

E porque Camões é «um esplendor» - como diz a minha amiga Amélia Pais, referindo-se ao Poeta que ao longo de anos vem divulgando. Há relações assim felizes e frutíferas. Como muitos, sou-lhe devedora no que respeita a um melhor entendimento de Camões. Fica aqui o público registo dessa dívida. E o convite para uma festa.

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Publicado por sol em 07:19 PM | Comentários (17)

junho 07, 2004

Estrela da Vida Inteira

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Manuel Bandeira, dos meus afectos – a poesia requintada e fraterna, a sábia candura.
Um poema para começar a semana a sorrir.


Brisa

Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.


Manuel Bandeira, Belo Belo, em Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993

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maio 26, 2004

Il faut de l'adresse pour aimer

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Rodin, Cupido e Psique



À force de parler d'amour, l'on devient amoureux.

***

L'amour donne de l'esprit, et il se soutient par l'esprit. Il faut de l'adresse pour aimer.

***

À mesure que l'on a plus d'esprit, les passions sont plus grandes, parce que les passions n'étant que des sentiments et des pensées, qui appartiennent purement à l'esprit, quoiqu'elles soient occasionnées par le corps, il est visible qu'elles ne sont plus que l'esprit même, et qu'ainsi elles remplissent toute sa capacité.

***

Un amour ferme et solide commence toujours par l'éloquence d'action; les yeux y ont la meilleure part.

***

N'excluons (...) point la raison de l'amour, puisqu'elle en est inséparable. Les poètes n'ont donc pas eu raison de nous dépeindre l'amour comme un aveugle; il faut lui ôter son bandeau, et lui rendre désormais la jouissance de ses yeux.

***

Les grandes âmes ne sont pas celles qui aiment le plus souvent; c'est d'un amour violent que je parle: il faut une inondation de passion pour les ébranler et pour les remplir. Mais quand elles commencent à aimer, elles aiment beaucoup mieux.



Blaise Pascal, Discours sur les Passions de l'Amour, Association de Bibliophiles Universels

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maio 22, 2004

Uma aspereza que me agrada



CANTO DÉCIMO PRIMEIRO

Anteontem primeiro domingo de Novembro
a névoa podia-se cortar à faca.
As árvores brancas da geada e as estradas e planícies
apareciam cobertas por lençóis. Depois apareceu o sol
enxugando o universo e somente as sombras
permaneceram banhadas.

Pinela, o camponês, atava as cepas
com ervas secas
que segurava entre as orelhas.
Enquanto trabalhava falei-lhe da cidade,
da minha vida que passara num relâmpago
do meu terror à morte.

Aí silenciou todos os rumores que fazia com as mãos
e só então se ouviu um pequeno pardal cantando ao longe.
Disse-me: medo porquê? A morte nem sequer é maçadora,
apenas vem uma vez.


Tonino Guerra, O Mel, tradução de Mário Rui de Oliveira, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004

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maio 13, 2004

Génesis

De Louvada Seja, porque é um dos livros mais comoventes que li. Este excerto onde o verbo cria a essencialidade e a ânsia de infinito; e onde tudo é novo e escasso – como o pássaro bleu et gris.


braque-georges-loiseau-bleu-et-gris-1962.jpg


«Cada palavra com sua andorinha
para te trazer a Primavera no Verão» disse

E muitas oliveiras
para que peneirem com as mãos a luz
e esta leve se derrame sobre o teu sono
e muitas cigarras
para que não as sintas
tal como não sentes o pulso no teu punho
mas pouca água
para que que a tenhas por divina e entendas o que significa a sua fala
e a árvore só consigo
sem rebanho
para que a faças amiga
e conheças o seu verdadeiro nome
rala sob os teus pés a terra
para que não tenhas onde alargar raízes
e não pares de buscar um pouco de fundo
e vasto por cima o céu
para que por ti sozinho leias a infinidade

ESTE
o mundo, o pequeno, o grande!


Odisséas Elytis, Louvada Seja, tradução de Manuel Resende, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004

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maio 02, 2004

Canto do Sonho

Lá onde acaba a montanha,
nos cimos, nem eu sei onde,
vagueei por onde a minha cabeça e o meu coração pareciam perdidos,
vagueei ao longe.


América do Norte, Papagos, versão de Herberto Helder em Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001

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abril 23, 2004

O rigor

AngeloSousa.JPG


O rigor do verão quase
extinguiu os pequenos
oásis do coração:
nenhum
de nós conseguiu dobrar
o lume, acariciar
o tigre, desviar a sombra
dos lábios - arder
era afinal a nossa vocação.

Eugénio de Andrade, Rente ao Dizer , 2ª ed, 1992

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abril 15, 2004

Chuva na primavera

China_secXVIII_marfim.jpg

Pesadas cortinas duplas no quarto de Mo-Ch'ou.
Deitada, o frio do anoitecer, pouco a pouco cresce.
A vida que partilhou com a deusa foi apenas um sonho:
Nenhum jovem visita a casa da donzela.
O vento e as ondas não se apiedam das folhas frágeis do castanheiro do lago.
Quem adoçará, ao luar e no orvalho, as folhas da acácia, já sem cheiro?
Repetimo-nos que o amor é sempre insensato -
E ainda que o desgosto é uma loucura lúcida.


Li Shang-Yin, Chuva na Primavera e Outros Poemas, Selecção e tradução de José Alberto Oliveira, Colecção Gato Maltês, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001


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março 24, 2004

Escalada ao céu

Alta se arqueia a abóbada celeste,
Onde há um brilho de flores (e são mundos!),
Vagueiam sombras afanosamente.

Misteriosa a voz que assim me chama
A subir. Escalada interminável,
Áspera e ansiosa. Em vão, em vão procuro
O meu céu (tão longínquo!). Em vão, perdida
A terra para mim, clamo por entre
Aqueles mundos. Só, minha voz perde-se
Nos profundos silêncios desta noite.


Luigi Fiorentino, tradução de Manuel Bandeira

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março 17, 2004

Morte em Veneza

morte em veneza.jpg
de Luchino Visconti



«Perguntou-me baixinho o que me matara:
- A beleza, respondi.»

Emily Dickinson, trad. de Manuel Bandeira (excerto de poema)

Publicado por sol em 02:39 PM | Comentários (16)

março 14, 2004

Pequena Razão

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Pequena razão, pequena
claridade:
fraterna voz que não esconde
a rouquidão,
a brusca
sombra da garganta:
fechada flor da tarde,
também ela rouca.


Eugénio de Andrade, Rente ao Dizer

Publicado por sol em 02:11 AM | Comentários (5)

fevereiro 28, 2004

A Margem da Alegria

Que tudo o mais se esqueça na presença do mosteiro de santa maria de alcobaça]
(...)
É a maior igreja portuguesa e alicerça essa grandeza
nas três naves que no silêncio talha com a precisão de uma navalha
e na grande desproporção entre a pouca largura e a altura
(...)
No túmulo deitada inês parece a própria placidez
ela que em vida ouvindo alguém chamar
julgava respirar esse cheiro envolvente português
dos laranjais e jamais o da nave donde nunca mais
havia de sair não já para criança inaugurar
o dia a dia o vasto espaço onde cada folha
dos plátanos a até canas e oliveiras
valem humidamente mais do que a melhor palavra minha
mas sim ver só o sol inevitável renascer
da morte e vir tal como ela de castela com o vento
(...)
Que sei pergunta ela para sempre imóvel
no túmulo de pedra inamovível que sei eu desse homem tão instável
mais triste e mais sozinho quanto mais alegre e rodeado
que ao dar-me um outro nome como que me deu um novo ser
e a quem toda me dei como se dá em parte na arte alguém mais que no amor]
(...)
Eu canto os amores e a morte a apoteose e a sorte
dessa que tão horizontal em pedra jaz e esse pedro neto desse trovador de quem se diz]
que sempre dom dinis fez o que quis
(...)
Na igreja abacial de santa maria de alcobaça
os que em vida se amaram para sempre se juntaram
No cruzeiro de pedra poisam hoje os dois moimentos
dois poemas em pedra onde em quarenta e seis edículas se narra
a história desse amor às vezes alegria quase sempre dor
amor pétreo de pedro que prepara para inês esse alvo leito em pedra
pois morta a sua amada mais não pôde já por ela
e assim o seu moimento fez poer acerca do seu dela
em tudo semelhável para dela sempre se membrar
quando se aqueecesse de morrer
E na dureza desses dois sarcófagos escreveu o escopro
o que somente a agulha pode pôr no bastidor
ou um buril pode imprimir no ouro
para que na memória dos mortais reinasse
aquela que do ânimo de pedro fora
dominadora dama absoluta senhora
(...)

Ruy Belo, A Margem da Alegria, Editorial Presença, Lisboa, 4ª ed, 1998

Publicado por sol em 12:01 AM | Comentários (6)

fevereiro 20, 2004

Lua nova e saudades de casa


Os ameados terraços brancos recortam-se secamente sobre o alegre céu azul, gélido e estrelado. O norte silencioso acaricia, vivo, com a sua pura grandeza.
Todos julgam que têm frio e escondem-se nas casas, fechando-as. Nós, Platero, vamos devagar, tu com a tua lã e com a minha manta, eu com a minha alma, pela límpida aldeia solitária.
Que força interior me eleva, como se eu fosse uma torre de pedra tosca com cúpula de prata! Olha quantas estrelas! De tantas que são, dão-nos tonturas. Dir-se-ia que o céu reza à terra um rosário aceso de amor ideal.
Platero, Platero! Daria toda a minha vida, e ansiaria que tu quisesses dar a tua, pela pureza desta alta noite de Janeiro erma, clara e dura!

Juan Ramón Jiménez, Platero e Eu


Publicado por sol em 02:28 AM | Comentários (17)

fevereiro 19, 2004

Reflectindo o mar

Papilionidae_Ulysses_Jo_Whaley.jpg
Papilionidae Ulysses - foto de Jo Whaley

Publicado por sol em 10:38 PM | Comentários (5)

fevereiro 14, 2004

Gift


You tell me that silence
is nearer to peace than poems
but if for my gift
I brought you silence
(for I know silence)
you would say
This is not silence
this is another poem
and you would hand it back to me.


Leonard Cohen, Stranger Music - Selected Poems and Songs, 1993

Publicado por sol em 03:14 PM | Comentários (8)

janeiro 28, 2004

Da maneira mais simples

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É apenas o começo. Só depois dói,
e se lhe dá nome.
Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode
acontecer da maneira mais simples:
umas gotas de chuva no cabelo.
Aproximas a mão, os dedos
desatam a arder inesperadamente,
recuas de medo. Aqueles cabelos,
as suas gotas de água são o começo,
apenas o começo. Antes do fim terás de pegar no fogo
e fazeres do inverno
a mais ardente das estações.


Eugénio de Andrade, Sulcos da Sede

Publicado por sol em 11:16 PM | Comentários (4)

janeiro 19, 2004

Ver claro

AngeloSousa.JPG


Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.


Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede

Publicado por sol em 09:53 PM | Comentários (8)

Para Eugénio de Andrade

No seu aniversário

Foz5.jpg

Publicado por sol em 09:47 PM | Comentários (3)

janeiro 18, 2004

Amor mudo

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Ardendo de amor, as cigarras
cantam: mais belos porém são
os pirilampos, cujo mudo amor
lhes queima o corpo!


Canções de camponeses do Japão, poemas mudados para o português por Herberto Helder, em Poesia Toda, Assírio & Alvim, Lisboa, 1990

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janeiro 17, 2004

Não tem sido bem amado

Jorge de Sena, deste lado do Atlântico. Muito me alegra, por isso, que a minha amiga Márcia Maia, lá do seu longínquo Recife, afirme a sua paixão por este escritor. E que me atribua alguma responsabilidade nessa paixão. Obrigada, Márcia. O prazer foi meu :-)

Publicado por sol em 10:20 PM | Comentários (4)

janeiro 15, 2004

Três fragmentos de Safo



grega2.jpg



Devastador
o vento - e a angústia.

tradução de Eugénio de Andrade

***

Quando o sono de uma noite inteira
cai sobre os olhos...

tradução de Eugénio de Andrade

***

Mãe, sobre a teia,
não mais me dobro,
não mais a teço. Por um rapaz
de amor me dobra
a tecelã Afrodite.

tradução de Pedro Alvim

Publicado por sol em 08:02 AM | Comentários (10)

janeiro 11, 2004

Porquinho-da-índia

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas . . .

- O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.


Manuel Bandeira, Antologia de Poesia Brasileira

Publicado por sol em 12:15 AM | Comentários (2)

janeiro 07, 2004

Versos de Inverno

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Outra vez o abutre, o abutre
da tristeza, cai-nos em cima,
crava as garras, rasga,
retalha: - Oh irmão
do deserto, breve
oásis de sol
neste inverno: não há terra
de promissão
fora do corpo; ou da palavra.


Eugénio de Andrade, Rente ao Dizer


Publicado por sol em 12:19 AM | Comentários (10)

janeiro 06, 2004

Toutes les lumières

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Paul Delvaux, 1962

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dezembro 30, 2003

Filmes

que não esquecem.

au hasard balthazar-bresson.jpg
Au hasard Balthazar

Robert Bresson




Une austérité intense, fervente, passionnée [...]. Il y avait chez ce catholique qu’on a appelé un «janséniste de la mise en scène» quelque chose de racinien. Dans ses Notes sur le Cinématographe, il cite d’ailleurs la préface de Bérénice: «Ils pensent que cette simplicité est une marque de peu d’invention.»
cinema

En "écrivant" ses films contre vents et marées, Robert Bresson a porté à leur maximum d'intensité les moyens propres au cinéma. Pour ce faire, il a séparé le septième art de tous les autres, de la peinture, de la photographie, de la musique, du théâtre. Pas d'acteurs, pas d'études de rôles, mais des "modèles" et une quête de leur "substance".[...] "Cinématographe, art, avec des images, de ne rien représenter". Cette remarque nous plonge au cœur du mystère bressonnien. S'il fuit la représentation, c'est que toute idée de spectacle nie ce qu'il cherche: filmer l'énigme, ce que nous ignorons de nous-mêmes, l'appartenance à ce qui nous dépasse. [...] Comment filmer ce qui dépasse? Comment communiquer ce qui relève de l'esprit par ce qui relève de la perception? En ne filmant que ce dont il a absolument besoin.
célébrations

There is nothing even remotely ordinary about Bresson's films: Every choice, from the sound effects to the transitions between scenes, feels like a brush stroke. Bresson began as a painter, and much to the consternation of his exasperated crews and producers, he carried that private mode of creation into the most industrially tainted of all art forms.
femme douce.jpg


Os 13 filmes de Robert Bresson:

Les Anges du péché (1943)
Les Dames du bois de Boulogne (1945)
Journal d'un curé de campagne (1951)
Un condamné à mort s'est échappé (1956)
Pickpocket (1959)
Le Procès de Jeanne d'Arc (1962)
Au hasard Balthazar (1966)
Mouchette (1967)
Une femme douce (1969)
Quatre nuits d'un rêveur (1972)
Lancelot du Lac (1974)
Le diable probablement (1977)
L'Argent (1983)

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dezembro 19, 2003

Último poema

AngeloSousa.JPG


É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os diospiros ardendo na sombra.
Quem tem assim o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.


Eugénio de Andrade, Rente ao Dizer

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dezembro 15, 2003

Cuarentena

Con qué ferocidad y a qué hora importuna
salen tus veinte años de la fotografía
para exigirme cuentas.
En los ojos heridos por la luz
sostienes la mirada de mis sombras,
en el descaro de tus profecías
desdeñas la lealtad de mis recuerdos,
en la piel transparente
anegas el cansancio de mi piel
y defines mis años por traiciones.

No escandalices más,
hablemos si tú quieres,
elige tú las armas y el paisaje
de la conversación,
y espera a que se vayan
los invitados a la cena fría
de mis cuarenta años.
Por evaporaciones,
como las aguas sucias de los charcos
se acercan a las nubes,
caminaré contigo
hasta la plaza de tu juventud.
Allí están los magníficos
árboles de las ciencias y las letras
con sus palabras en el mes de mayo,
y el orden de los números
a la orilla del tiempo,
más cerca de las sumas que de las divisiones.

Imagino tu voz, supongo el aire
- porque a veces regresa hasta mis labios
en noches de espesura -
con el que afirmarás
que toda libertad es una roca,
que no faltan el viento y las razones,
sino la voluntad en el timón,
para gritar después que mi conciencia
es ya ropa tendida,
palabras puestas a secar.

Tendrás razón. No digo
ni la mitad de lo que siento.
Pero recuerda que mi soledad,
la que arde en mi lámpara de desaparecido,
es el silencio de las causas públicas.
Y puedes comprenderme:
mis mujeres dormidas,
el cajón de los barcos indefensos,
un teléfono antiguo...,
todas las tachaduras se parecen
a la inquietud que sufres
ante la vida en blanco.

Ya que fuerzas mis sombras con tu luz
comprende mi silencio en tus exclamaciones.
Porque sabes que sé
el lado frágil de la impertinencia,
lo que hay de imitación en tu seguridad,
la certeza que llega de los otros
para empujarte
por el afán de ser el elegido,
por el deseo de gustar,
hasta vivir de oídas en muchas ocasiones.

Aceptaré las quejas, si tú me reconoces
la legitimidad de la impostura.

Ahora que necesito
meditar lo que creo
en busca de un destino soportable,
me acerco a ti,
porque sabías meditar tus dudas.
Cuando tengas la edad que se avecina,
admitirás el tiempo de los encajadores,
la piel gastada y resistente,
el tono bajo de la voz
y el corazón cansado de elegir
sombras de pie o luz arrodillada.

Después de lo que he visto y lo que tú verás,
no es un mal resultado, te lo juro.
Baja conmigo al día,
ven hasta los paisajes verdaderos
en los que discutimos,
y me agradecerás
la difícil tarea de tu supervivencia.


Luis García Montero, La Intimidad de la Serpiente, Tusquets Editores, Barcelona, 2003


ouvir o poeta

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dezembro 13, 2003

As amoras

AngeloSousa.JPG


O meu país sabe às amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.


Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra


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novembro 21, 2003

Casida en la alta madrugada

Quando te acuerde de mi cuerpo,
y no puedas dormir
y te levantes medio desnuda
y camines a tientas por tus habitaciones
borracha de estupor y de rabia,

en algún lugar de la tierra
yo andaré insomne por algún pasillo
careciendo de ti toda la noche
oyéndote ulular muy lejos y escribiendo
estos versos degenerados.


Felix Grande, España

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novembro 14, 2003

tudo aquilo que é belo


Canção Malgaxe

Subiu a rapariga para cima da amoreira,
e ao cimo do limoeiro subiu o homem também.
Uma aranha os enlaçou, e tudo aquilo que é belo
não deixa que se separem.


Poema mudado para o português por Herberto Hélder

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