dezembro 22, 2008

O meu Natal de antigamente

Era muito semelhante ao que a Teresa Rita Lopes evoca, o meu Natal de antigamente, ainda que eu já tenha crescido com a televisão. Mas a tv não era uma presença eminente, nesse tempo.

A nossa primeira aventura também não consistia em aguardar que as sementes de trigo despontassem na "searinha" do presépio. A primeira aventura, a que iniciava o ciclo do Natal - que só terminava com os Reis, na casa da avó materna, em Salamanca - era a ida aos musgos, pelos campos que o Inverno mantinha suspensos na sua garra de gelo. E competir com as outras crianças pelos musgos mais viçosos e com menos terra presa; beber água nos córregos; vadear regatos de margens coalhadas; afastarmo-nos da vila, muito mais do que os pais suspeitavam; amedrontarmo-nos uns aos outros, contando histórias de lobos e de javalis, mitos locais que nos enchiam a cabeça, ainda que, em certos Invernos mais rigorosos, não fossem apenas mitos; e regressar com a cesta cheia do musgo mais verde e aveludado.

Nessa noite, a casa cheiraria ao musgo e a resina de abeto. E ajudaríamos o nosso pai a montar o presépio, ao som de vilancicos e outras canções de Natal.

Houve um ano em que, desembrulhando as imagens acondicionadas em caixotes guardados no sótão, senti uma tepidez macia, oculta nas dobras e rugas do papel de jornal. E, na palma da mão, caíram-me duas figurinhas cor-de-rosa que se agitavam: dois ratinhos ainda sem pêlo, de olhos cegos, pouco mais que recém-nascidos. Não sei o que lhes aconteceu, nada de bom, suponho, pois travava-se uma guerra sem quartel contra os ratos do sótão. Eu teria seis ou sete anos, mas até hoje consigo sentir a pele dos pequenos ratos na palma da mão - um calor não diferente do da pele humana - e recordar a ternura contrafeita e uma perplexidade diante do mistério das pequenas criaturas.

Enfim, montávamos o presépio que incluía um rio, com sua ponte e sua azenha. Nele nadavam cisnes e patos, um pescador lançava o anzol e uma lavadeira esfregava a roupa. Uma aldeia aninhava-se nos vales de musgo e um castelo de cortiça, de onde Herodes e os seus soldados vigiavam, alcandorava-se na crista das colinas. Todas as outras personagens (e eram bastantes, pois a cada ano o presépio se enriquecia com novos figurantes), os Reis Magos, os anjos, os animais, os pastores, os camponeses, os vendedores ambulantes e os músicos (havia um tocador de harmónio e uma vendedora de ovos de pata que faziam as minhas delícias) confluíam para o estábulo onde o Menino, desconforme em tamanho, a maior de todas as imagens do nosso presépio, sorria nas palhinhas, ladeado pela Virgem e por São José e aquecido pelo bafo doméstico da vaca e do burrinho.

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O MEU NATAL DE ANTIGAMENTE

Quando era menina
não havia Pai Natal nem Árvore de Natal.
Armava-se o presépio com chão de musgo
rochas de cortiça virgem ervas a valer
pedrinhas de verdade
e searinhas que se semeavam em pires e latas vazias
no dia 8 de Dezembro
e eram o pequeno milagre                 o primeiro
a despontar dos grãos de trigo e a crescer todos os dias.
As criaturas do deserto eram de compra
mas também moldei algumas em barro fresco.
Uma vez uma das minhas tias fez casas e igrejinhas de papel
e acendemos velas lá dentro.
Foi um deslumbramento a luz a sair pelas janelinhas!
Mas ardeu tudo de repente.
Desde então só a lamparina de azeite continuou a alumiar
esse parco mundo pobre.

No meu Natal de antigamente havia menos presentes.
Os meninos não exigiam esses brinquedos extrabíblicos:
computadores, jogos de computadores, cêdêroms, sei lá.
Nem o Menino Jesus podia com tanto peso!
Sim, porque no meu Natal de antigamente era o Menino Jesus
quem dava as prendas.
Púnhamos na véspera o sapatinho na chaminé
mas tínhamos que ir para a cama esperar pela manhã
porque Ele só descia pela calada da noite
se ninguém estivesse à espreita
(hoje o Pai Natal não tem esses pudores).
Eu imaginava-o a saltar das palhinhas nuzinho em pêlo
e a Nossa Senhora a agasalhá-Lo logo com a sua capa.
E lá ia Ele
como um menino pobre enrolado no casaco do pai
a contentar todas as crianças do mundo.
O Pai Natal, esse, foi encarregado (não sei por quem)
de dar presentes a pequenos e grandes.
Com o Menino Jesus tudo ficava entre meninos.
E se a prenda não agradava
a gente fazia-lhe uma careta
a até, à socapa, chamava-lhe um nome feio.

O Pai Natal é um palhaço cheio de postiços:
barba bigode cabeleira
até a barriga é uma almofadinha.
E vai à televisão convencer-nos a comprar coisas.
Agora o Natal antecipa o Carnaval.
O Menino Jesus, esse não! nunca ia à televisão
(que para dizer a verdade não existia ainda.)

Mas que menino de hoje trocaria o seu Pai Natal
(gerente de um supermercado de vendas)
pelo meu Menino Jesus
a tiritar nas palhinhas?

Teresa Rita Lopes, Afectos, Editorial Presença, Lisboa, 2000

Publicado por sol em 12:34 AM | Comentários (24)

dezembro 05, 2008

Tocador de búzio

vento.bmp

O belo espírito dos ares sopra no búzio,
avermelhado e esguio, distribui com a mão
o som que vai e vem
e voa, tão diferente dos pássaros das margens.

O meu amigo, o espírito dos ares, gosta de dormir ali
nos salgueiros, e já com ele aprendi isto e
aquilo, só não aprendo com ele
a repousar assim tão leve, encostado apenas à orla

da noite e afinal sempre na luz,
para logo acordar com olhos grandes de criança.
Como hei-de ser igual ao meu amigo -
só com o amor, sem dormir, à chuva?

Johannes Bobrowski, Como um Respirar, Antologia Poética, tradução de João Barrento, Edições Cotovia, 1990


Publicado por sol em 10:51 PM | Comentários (10)

dezembro 03, 2008

Canção da fundação do National Deposit Bank

Pois não é?: Fundar um banco
É bom para preto e branco.
Se o dinheiro se não herda,
Arranjai-o; senão – merda!
Boas são para isso acções;
Melhores que facas, canhões.
Só uma coisa é fatal –
Capital inicial.
Mas, quando o dinheiro falta,
Donde vem se não se assalta?
Ai! não nos vamos zangar!:
Donde outros o vão tirar.
De algum lado ele viria
E a alguém se tiraria.

Bertold Brecht, Poemas e Canções, tradução de Paulo Quintela

Publicado por sol em 10:03 PM | Comentários (6)