setembro 25, 2008

lembranças do Verão

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Publicado por sol em 05:29 PM

Ars Amatoria

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                                                    Klee, Remembrance of a Garden

... o poema [Cântico dos Cânticos] irrompe igualmente com o seu quê de inesperado dentro do quadro bíblico. (...) As palavras como que se tornam de seda. Há aqui um extraordinário trabalho de construção verbal que nos obriga a concluir que o autor anónimo seria um grande poeta (ou uma grande poeta, como hoje se tem por provável). A sonoridade do original hebraico alcança um vigor musical, cheio de ressonâncias, mesmo para lá das rimas. E há uma acumulação de imagens, raras pela sua sensualidade, que balançam do corpo humano para o misterioso corpo da criação: por toda a parte, um colorido intrincado, vegetal; há os animais que pululam metafórica e literalmente; há perfumes que se derramam profusamente, tornando inebriante a própria leitura. (...) E "naturalmente" o Cântico é um epitalâmio, um canto de admiração trocado por dois enamorados, um sussurro e uma extraordinária meditação acerca do amor. (...) E o texto exprime com verdade a experiência de amor entre uma mulher e um homem. É assim que nos ensina que este amor natural é profundamente espiritual. (...)

Nos séculos V ou IV a.C., quando se calcula que este livro tenha sido escrito, a condição da mulher estava marcada por uma subalternidade em relação ao homem, e o espaço social em que se movia (salvo raras excepções) era restrito. Mas ela aqui alcança um protagonismo que a torna parceira autêntica do seu par. Nenhum outro texto bíblico dá a palavra à mulher numa tal proporção. Há uma acumulação de verbos na primeira pessoa, com a amada por sujeito. Ela busca e é buscada. Pede e é pedida. A sua palavra inaugura o canto. A mulher olha para o homem e avizinha-se a ele com a mesma impaciência e a mesma alegria de ele a ela. (...)

Neste amor o encontro é interminável, é sempre e ainda o desejo do encontro. Desejo vital, encravado no segredo do corpo como uma doença (...). O amor está sempre a ser proposto e reproposto: nunca é construção terminada. (...) O amor faz dos enamorados nómadas, buscadores e mendigos. Todo o diálogo de amor é uma conversa entre mendigos: não entre gente que sabe, mas entre quem não sabe; não entre gente que tem, mas entre quem nada retém. Por isso, a maior declaração de amor não é uma ordem, é ainda um pedido: «Grava-me como selo em teu coração, como selo no teu braço, porque forte como a morte é o amor.» (Ct 8,6).

As mãos ardem folheando este livro que pede para ser lido por dentro dos olhos, este livro humano e sagrado, este cântico anónimo que todos sentem seu, este relato de um sucesso e de um naufrágio ao mesmo tempo manifestos e secretos, esta ferida inocente, esta mistura de busca e de fuga, este rapto onde tudo afinal se declara, esta cartografia incerta, este estado de sítio, este estado de graça, este único sigilo gravado a fogo, este estandarte da alegria, este dia e noite enlaçados, esta prece ininterrupta onde Deus se toca.

(...)

Enquanto «poesia corpórea», o Cântico «oferece sobretudo a possibilidade de nos reconciliarmos com a sexualidade» (G. Ravasi, Il linguaggio dell'amore, Bose, Qiqajon, 2005, 36), pois, na palavra que a proclama, os seres humanos emergem numa dignidade altíssima. (...) na experiência erótica, dá-se a aparição do Outro em toda a sua frágil vulnerabilidade, e esse acontecimento impele a que a distância seja elidida através de um gesto que nada mais quer além de ser amor.

(...)

O amor é a forma mais radical de hospitalidade.

José Tolentino Mendonça, A leitura Infinita, Bíblia e Interpretação, Assírio & Alvim, Lisboa, 2008


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setembro 18, 2008

Não sou paciente

Não sou paciente eu só finjo
que tenho paciência.
Aprendi a abrandar marés contando lentas
inspirações expirações alternadas completas,
aprendi a dormir com a chuva a lavar os telhados.
Mas em dias
como o de hoje era capaz
de te arrancar os olhos e fazer com eles dois anéis
para usar como punhais
entalados no cinto da saia.


      Soledade Santos

Publicado por sol em 09:26 PM | Comentários (22)

setembro 14, 2008

Recomeçar

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Para dar sorte - a capa do bloco de notas deste ano.

Uma prenda da Ana :-)

Publicado por sol em 02:44 PM | Comentários (22)

setembro 10, 2008

O homem de mel

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Ele brotou, deitou botões, é alface à beira d'água plantada,
meu quintal bem fornecido da planura..., meu favorito do seio,
meu grão luxuriante no seu sulco – ele é alface à beira d'água plantada.

O homem-de-mel, o homem-de-mel adoça-me sem cessar,
meu senhor, o homem-de-mel dos deuses, meu favorito de sua mãe,
cuja mão é mel, cujo pé é mel, adoça-me sem cessar,
cujos membros são doce mel, adoça-me sem cessar.

Meu adoçador do umbigo..., meu favorito da sua mãe,
meu..., de coxas mui esbeltas, ele é alface à beira d'água plantada.

Poema da Mesopotâmia, em Cantigas de Amor do Oriente Antigo, tradução de José Nunes Carreira, Ed. Cosmos, Lisboa, 1999

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setembro 09, 2008

saltarello

Dead Can Dance - Saltarello

Publicado por sol em 11:34 PM | Comentários (15)