novembro 29, 2007

A ordem legítima é por vezes desumana

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Braque, ilustração para Lettera Amorosa, de René Char


Aqueles que partilham lembranças
regressam à solidão, mal o silêncio se instala.
A erva que os aflora desponta da sua fidelidade.

Que dizias tu? Falavas-me de um amor tão longínquo
Que remontava à tua infância.
Tantos estratagemas a memória tece!

René Char (tradução minha)


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L'ORDRE LÉGITIME EST QUELQUEFOIS INHUMAIN

Ceux qui partagent leurs souvenirs,
La solitude les reprend, aussitôt fait silence.
L´herbe qui les frôle éclôt de leur fidélité.

Que disais-tu? Tu me parlais d'un amour si lointain
Qu'il rejoignait ton enfance.
Tant de stratagèmes s'emploient dans la mémoire!

René Char, Les Loyaux Adversaires



Publicado por sol em 08:31 PM | Comentários (17)

novembro 27, 2007

Da poesia e dos amigos

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No sábado estarei aqui. E será uma alegria - porque os sonhos permanecem.


No dia 6 de Dezembro gostaria de estar aqui:
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E o prazer não seria menor - porque as esperanças se estão cumprindo.


Publicado por sol em 10:53 PM | Comentários (3)

novembro 20, 2007

Engrenagem

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Hoje, a Escola cumpre a duras penas (ou não cumpre de todo) os múltiplos, ciclópicos e paradoxais papéis que lhe são cometidos. Esmagada por normativos, instruções e sanções que penetram em todos os recessos, que tecem uma rede temível, inclusivamente de incongruências, e regulamentam toda a acção educativa, a Escola já não é, excepto acidentalmente, lugar de transmissão do conhecimento e de construção do saber. A herança que as gerações anteriores nos legaram está ameaçada; e não é certo que as novas gerações consigam dar continuidade à aventura do Saber.

Os medidores de sucesso apontam a situação difícil da Escola portuguesa, mas não contextualizam o problema no quadro europeu, excepto para estabelecer comparações estatísticas segundo indicadores de duvidosa fiabilidade.

Como chegámos aqui?

Transcrevo alguns excertos de uma comunicação de Christian Laval, proferida em Setembro de 2007. Faço ligação para o texto original, bem como para a respectiva tradução.


POLÍTICA EUROPEIA E PROBLEMÁTICA DAS COMPETÊNCIAS

Melhor dizendo, a educação foi concebida como actividade económica, ou mesmo como a actividade económica essencial.

(…)

Estratégia de Lisboa: pretende-se construir, até 2010, a economia do conhecimento mais competitiva do mundo. Ambição desmesurada, evidentemente, que faz lembrar os grandes objectivos de Kroutchev, "apanhar e ultrapassar os EUA". Ambição que desembocará rapidamente na desilusão e na constatação do falhanço, a partir de 2005 (…). Mas a conclusão que a União Europeia retira dessa constatação é paradoxal: longe de pôr em causa os objectivos, os métodos, as contradições, decide acelerar naquilo que falhou.

A partir de 2002, assistimos à instalação de uma espécie de maquinaria política encarregada de difundir as instruções e de impelir à realização dos objectivos (…). Consiste em solicitar a grupos de peritos que definam objectivos, que os traduzam em números – esta conversão da educação em números é fundamental nas novas modas políticas – que determinem os bons indicadores, os bons níveis de referência na Europa e que comparem estes "benchmarks". O método consiste portanto em produzir instrumentos pretensamente técnicos, mas que na realidade são normativos. Estes indicadores e estas medidas levantam problemas temíveis, o primeiro dos quais reside no facto de a técnica e a estatística terem passado a determinar a definição das políticas educativas, com todas as mistificações da falsa "neutralidade" dos números relativamente a outros modos de fundamentação. Os objectivos podem ser louváveis (menos iletrados, mais mulheres nas carreiras científicas), mas todos levantam problemas que nunca são abordados pelos técnicos porque não fazem parte da sua alçada. É precisamente o caso das "competências chave", que são apresentadas como meras evidências, quando na verdade envolvem conteúdos de ensino que relevam das ambições e das finalidades dos sistemas educativos. Ao colocar no centro do seu método a comparação estatística, a política de Educação na Europa deu lugar a uma verdadeira usurpação em matéria de responsabilidades políticas, ao mesmo tempo que inaugurou uma política de convergência dos sistemas educativos europeus baseada num raciocínio económico que reduz a difusão do conhecimento à formação de uma mão de obra adaptada e móvel.

De agora em diante, e pela primeira vez de forma tão unidimensional, a política de educação não se funda na moral, na política, na cultura, na história, isto é, no universo dos valores, mas no único horizonte que agora importa à engrenagem da União Europeia, o do "valor económico", da eficiência e da competitividade. É na realidade uma outra concepção do Homem que aqui está em causa. Com a ideia de que o humano é antes de tudo um capital, um recurso produtivo, uma mão-de-obra, é a questão do destino do humanismo europeu que se coloca. Arriscamos uma crise séria da tradição democrática para a qual a formação do homem é a condição da soberania dos cidadãos. Arriscamos igualmente uma crise da cultura europeia que, justamente, forjou esse ideal de soberania do cidadão alicerçada na dignidade do Homem.

Christian Laval, 8 de Setembro de 2007



Publicado por sol em 12:36 AM | Comentários (16)

novembro 11, 2007

Há quase um ano

Há quase um ano não escrevo.
Pesada, a meditação
Torna-me alguém que não devo
Interromper na atenção.

Tenho saudades de mim,
De quando, de alma alheada,
Eu era não ser assim,
E os versos vinham de nada.

Hoje penso quanto faço,
Escrevo sabendo o que digo...
Para quem desce do espaço
Este crepúsculo antigo?


Fernando Pessoa, 23/05/1932



Publicado por sol em 12:32 PM | Comentários (11)