abril 20, 2007

5 blogues que fazem pensar

                           thinkingbloggerpf8.jpg

A Luísa R. distinguiu o Nocturno com Gatos com este galardão. A mim apetecia-me retribuir-lhe o prémio, por qualquer dos seus dois blogues, espaços de um bom gosto raro, mas o espírito do jogo determina que o faça seguir. Não é fácil escolher apenas cinco blogues. Teria sido simples há dois ou três anos, quando a minha actividade blogueira era mais empenhada e regular e os círculos em que navegava se interseccionavam.

De facto, parece que os blogues que mais me fizeram pensar - talvez porque o meu tempo de pensar diante de um ecran de computador tinha então outra qualidade - ficaram no passado. E muitos já não existem. Tudo era então (ou eu o sentia assim) inaugural.

Procurei nos "perdidos" da rede e encontrei vestígios de alguns deles. Como a escrita delida em cartas antigas - imagens, comentários e templates corrompidos, mesmo os daqueles de que guardei arquivos - eles emergem da memória fugaz da rede.

Por ordem alfabética, três blogues idos e dois blogues vivos a que atribuo o Thinking Blogger Award:

A Sombra do Sol
Um blogue colectivo iniciado em 2003 com uma turma de alunos que acompanhei do 10º ao 12º Ano e cujo nome nasceu de uma piada privada. Não podia adivinhar então, mas os dois anos durante os quais A Sombra do Sol se manteve como um projecto de aprendizagem, de liberdade e de convívio foram um canto do cisne.


O Homem é uma paixão inútil
Foi um blogue efémero. Mas a qualidade dos textos que publicou e a descoberta de afinidades e gostos partilhados constituiram uma espantosa revelação. Deu-me a conhecer George Steiner, um encontro cuja fulgurância perdura.


Ossa et Cinera
Um projecto de quatro jovens poetas (então estudantes da Universidade Nova de Lisboa), com o brilho, a generosidade e o desejo de inovar que só certa juventude tem. Um Cenáculo. Foi um privilégio ler-lhes a poesia durante o tempo em que o blogue manteve a espantosa energia criadora.


O quarto blogue que escolho é muito jovem - participa dessa voz primacial que referi acima. E cheira a terra fresca, à neve e ao lume em seu tempo, e às flores silvestres, vinda a Primavera. Ali, as árvores falam e dizem as coisas sábias que as árvores dizem: é A voz da romãzeira


O quinto blogue move-se ao ritmo nostálgico e compassado dos comboios. Cheio de maravilhas, faz jus ao dito de Steiner, segundo o qual deus vive no pormenor: Caminhos de Ferro Vale da Fumaça

Adenda: Uma palavra amiga ao Groze, um agradecimento pela lembrança que me surpreendeu e alegrou. E ao terrear, para que - roubando-lhe a epígrafe - não desistamos de inventar dias mais claros.

Publicado por sol em 02:04 AM | Comentários (18)

abril 01, 2007

Allégeance

                                                        
          poema dito por René Char

Dans les rues de la ville il y a mon amour. Peu importe où il va dans le temps divisé. Il n'est plus mon amour, chacun peut lui parler. Il ne se souvient plus; qui au juste l'aima?

Il cherche son pareil dans le voeu des regards. L'espace qu'il parcourt est ma fidélité. Il dessine l'espoir et léger l'éconduit. Il est prépondérant sans qu'il y prenne part.

Je vis au fond de lui comme une épave heureuse. À son insu, ma solitude est son trésor. Dans le grand méridien où s'inscrit son essor, ma liberté le creuse.

Dans les rues de la ville il y a mon amour. Peu importe où il va dans le temps divisé. Il n'est plus mon amour, chacun peut lui parler. Il ne se souvient plus; qui au juste l'aima et l'éclaire de loin pour qu'il ne tombe pas?

René Char, Fureur et Mystère, Gallimard, 1962


                                                           CONSOLAÇÃO

Nas ruas da cidade caminha o meu amor. Pouco importa aonde vai no tempo dividido. Já não é o meu amor, todos podem falar-lhe. Ele já não se recorda. Quem de facto o amou?

Procura o seu igual no voto dos olhares. O espaço que percorre é a minha fidelidade. Ele desenha a esperança e ligeiro despede-a. Ele é preponderante sem tomar parte em nada.

Vivo no seu abismo como um feliz destroço. Sem que ele saiba, a minha solidão é o seu tesouro. No grande meridiano onde inscreve o seu curso, é a minha liberdade que o escava.

Nas ruas da cidade caminha o meu amor. Pouco importa aonde vai no tempo dividido. Já não é o meu amor, todos podem falar-lhe. Ele já não se recorda. Quem de facto o amou e de longe o ilumina para que não caia?

René Char, Fúria e Mistério, Tradução de Yvette K. Centeno, Edições Cotovia, Lisboa


Publicado por sol em 12:14 AM | Comentários (16)