março 18, 2007

le sentiment, comme tu sais

          bernardino_luini2.JPG


Ne cherche pas les limites de la mer. Tu les détiens. Elles te sont offertes au même instant que ta vie évaporée. Le sentiment, comme tu sais, est enfant de la matière; il est son regard admirablement nuancé.

René Char, Poèmes des Deux Années , GLM, Paris, 1955

Publicado por sol em 09:56 AM | Comentários (16)

março 11, 2007

Jogar no lugar do morto

                       
                       egpipt-maos.JPG


Uma inquietante análise apresentada pelo Henrique Santos no edutica - "PORTUGAL E ESPANHA: OS BONS ALUNOS". Nos comentários à entrada do Henrique, a ligação para um artigo de Anselmo Borges, no DN.

Neste Nocturno com Gatos, alguns excertos d' O Triângulo Pedagógico, de António Nóvoa - um artigo apontado pelo excelente blogue terrear


                                                                                     *   *   *   *   *   *   *

«Nos dias de hoje, há uma retórica cada vez mais abundante sobre o papel fundamental que os professores são chamados a desempenhar na construção da "sociedade do futuro". Um pouco por todo o lado, políticos e intelectuais juntam as suas vozes clamando pela dignificação dos professores, pela valorização da profissão docente, por uma maior autonomia profissional, por uma melhor imagem social, etc.

Nos programas de acção política ou nos discursos reformadores, nos documentos dos "especialistas" da União Europeia ou na literatura produzida pelos investigadores, reencontramos sempre as mesmas palavras, repetidas uma e outra vez, sobre a importância dos professores nos "desafios do futuro". (...)

É muito interessante verificar o ressurgimento desta retórica, recorrendo até a imagens típicas do discurso iluminista da transição do século XIX para o século XX. Todavia, é como retórica que estas intenções devem ser lidas, uma vez que a sua tradução na prática escolar ou nas políticas educativas é bastante limitada. Na verdade, os professores estão hoje submetidos a um conjunto de pressões sociais e políticas, que põem em causa a sua própria identidade profissional. Sem entrar em detalhes, parece-me útil apontar três destes processos contraditórios:

Em primeiro lugar, a existência de um controlo mais apertado sobre o trabalho docente, devido a uma maior visibilidade pública dos professores e a um reforço dos dispositivos institucionais de avaliação, o que contradiz a retórica corrente sobre a autonomia profissional.

Em segundo lugar, a desvalorização efectiva dos professores, sobretudo no que diz respeito às suas condições de trabalho, originada em grande medida pelas políticas economicistas dos últimos anos, o que contradiz a retórica sobre a melhoria do estatuto e do prestígio profissional.

Em terceiro lugar, a intensificação do trabalho docente no quadro das perspectivas de racionalização do ensino, que dificulta a partilha de experiências e a reflexão colectiva sobre a acção pedagógica, o que contradiz a retórica dos professores como profissionais reflexivos.

Na década de noventa, reforçou-se uma série de processos de exclusão dos professores, no quadro de uma redefinição que tende a modificar as funções sociais e os papéis profissionais que lhes estavam tradicionalmente atribuídos. Julgo oportuno explicar melhor estes processos, pois eles constituirão uma referência obrigatória dos debates sobre o futuro da profissão docente. Para tal, recorro à imagem do bridge, em parte já utilizada por Jean Houssaye (Le triangle pédagogique, 1988), na qual um dos parceiros ocupa o "lugar do morto", sendo obrigado a expor as suas cartas em cima da mesa: nenhuma jogada pode ser feita sem atender às suas cartas, mas não pode interferir no desenrolar do jogo. (...)»



Publicado por sol em 01:25 AM | Comentários (11)

março 08, 2007

Às vezes

                      oferecem-me poemas.


              ESBOÇO

Às vezes queima incenso,
ouve música indiana, acende velas,
e há baunilha na entrada para quem
chega do mundo.
No crepúsculo vago da casa
um fluido plana,
e assim tudo parece em ordem.
Talvez o fluido seja o espírito
que diz sentir em si,
por dentro do silêncio do yoga,
Mahadev sentada num asana,
abstraída da infância e do futuro.

Só quando o telemóvel dá o alarme
e sobe as gelosias automáticas
é que a luz do ocidente
invade em vagalhões a casa,
e carros e aviões passam na sala,
destruindo o CD, o incenso, as velas,
já Madahev vai de regresso à Europa,
na bolsa um manual
de guerrilheiro urbano sem saída
e decretos que matam de revolta.

                                                        ng

Publicado por sol em 09:54 PM | Comentários (14)

março 05, 2007

Kerouac

Que eu não sabia ter escrito haiku, alguns dos quais pude ler nesta selecção e tradução do mexicano Fernando Cantú Jauckens. Instantes de desolada belleza lembra-me as pinturas de Hopper, a melancolia, um vazio, o sentimento do transitório: algo passa – ou passou – sem remédio.

1
Una flor
al lado del risco
Se inclina ante el cañón

2
Cruzando el campo de futbol
al regresar de su trabajo
el solitario hombre de negocios

3
Ningún telegrama hoy
— Sólo cayeron
Más hojas

4
Chicas preciosas corren
y suben los escalones de la biblioteca
Con sus shorts puestos

5
Un toro negro
y un pájaro blanco
Parados juntos en la playa

6
Los grillos — lloran
por la lluvia —
¿De nuevo?

7
La silla de verano
meciéndose sola
En la ventisca

8
Una rosa blanca
salpicada de rojo — ¡O
la cereza de un helado de vainilla!

9
Descalzo junto al mar
me detengo para rascarme un tobillo
Con el dedo gordo del pie

10
Mañana de octubre fría y quebradiza
— los gatos peleándose
En las hierbas

11
Las estrellas corren
con rapidez
A través de las nubes

12
El sonido del silencio
es toda la instrucción
Que recibirás

13
Hombre muriéndose
Luces del puerto
Sobre agua quieta

14
Autobús Greyhound,
fluyendo toda la noche,
Virginia

15
Por siempre y por siempre
todo está bien —
bosques de medianoche

16
Bebiendo vino
— la Reina de Grecia
en una estampilla postal

17
Bach a través
de una ventana abierta
los pájaros guardan silencio

18
Mañana fresca y con brisa
— el gato retoza
Sobre su lomo

19
Solo, en ropas
viejas, bebiendo vino
Bajo la luna

20
Mirándose mutuamente,
Ardilla en la rama,
Gato sobre el césped

21
Invierno — ese
nido de golondrina
Aún vacío

22
Mucha bebida & fiestas
de piano — llegó

23
El hijo empaca
sin hacer ruido mientras la
Madre duerme

24
Cierra los ojos —
El rentero llama
A la puerta trasera


Jack Kerouac, Instantes de desolada belleza (tradução e selecção de Fernando Cantú Jauckens in Con|fabulário)

Publicado por sol em 11:26 AM | Comentários (12)

março 04, 2007

As tranças da noite ficaram brancas

As tranças da noite ficaram brancas
À passagem do tempo, como eu?
Ou derramou-se no céu um jardim de lírios?

Ibn as-Sid, em Adalberto Alves, O Meu Coração é Árabe, Poesia Luso-Árabe, Assírio & Alvim, Lisboa, 1980


plena.JPG

halo.JPG


3.JPG

4.JPG

5.JPG

6.JPG

                Eclipse em 3 de Março de 2007

Publicado por sol em 03:30 PM | Comentários (13)

março 01, 2007

Às voltas dentro da prisão

Gostaria que a lembrança que guardassem de mim - por pouco que eu perdure nas memórias - fosse a de um mestre de leitura, de alguém que passou a vida a ler com os outros. (...) Eis porque o ensino sempre me foi indispensável. (...)

Não conheço um grande poeta que não seja um mestre da gramática ou um virtuoso da sintaxe, pois não há sintaxe que não encerre uma visão do mundo, uma metafísica e também uma filosofia da morte. Dizer que em certas línguas o pretérito não existe, dizer que em hebraico não existem verbos no futuro é falar de uma visão global do universo, do homem e da identidade de cada um de nós. (...)

Depois vem o contexto histórico. Recuso totalmente a ideia de uma ficção que não aceite a biografia, a história e o contextual. Muito pelo contrário, não existe, a meu ver, uma única frase de Madame Bovary que não reflicta a história do Segundo Império, da vida de Flaubert, da língua francesa e da crise da burguesia. Nenhum texto pode ter a pretensão de situar-se fora de um contexto que não se possa comparar à infinita torre de Babel da biblioteca imaginária de Borges. (...)

Então, regresso ao método medieval, com as quatro etapas que percorrem a leitura, essa leitura tão pregnante e tão presente que podemos confessar que não entendemos um poema ou um parágrafo e que é preciso sabê-lo de cor. Isso não resulta de nenhuma técnica, mas de uma metafísica que se faz amor, que se faz Eros. Pois o que se sabe de cor é inalienável; não se pode despojar quem quer que seja daquilo que ele traz em si em termos de conhecimento, num mundo em que reinam a censura e a opressão, o barulho, o exílio numa condição humana que se limita a uma segurança material vazia de toda a interioridade. (...)

Saber de cor uma página de prosa não é um exercício, pois este logos entra dentro de nós (...) isso significa que o convidamos a morar na casa do nosso ser e que aceitamos viver com ele! É assumir o risco de que uma noite, um texto, um quadro, uma sonata batam à nossa porta (...) e pode acontecer que esse convidado destrua e incendeie totalmente a casa.

George Steiner: à Luz de Si Mesmo, Editora Perspetiva, S. Paulo, Brasil, 2000 (texto adaptado por mim à variedade europeia do Português)

Publicado por sol em 12:13 AM | Comentários (10)