dezembro 29, 2006

A voz da romãzeira

Vi-a em Pasárgada, à pequena romãzeira, toda fechada no seu mistério, entre a prata das oliveiras e o dourado evanescente da folhagem dos carvalhos. Afirmação de vida e beleza - o inverso do exílio - ganhou voz; e uma casa nasceu sob a sua égide: aqui.


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dezembro 21, 2006

Boas Festas

Que 2007 nos reconcilie com a esperança.

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                                       Matisse, Árvore da Vida

                                    
Nóirín Ní Riain - Magnificat cum Alleluia - Vox de Nube


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dezembro 20, 2006

Aimer, le dire

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Aimer c'est la peur
Que d'un mot l'on décale

Pour ne pas laisser

L'indifférence ôter
Briser tous nos rêves.

         * * *

Aimer c'est entrer

De plain pied
Dans un fait de lenteurs

De silences
Et de choix

Solitaire.

        * * *

C'est céder à ses sens

Regarder
Devenir

Le corps alors

Incandescent.


Émeric de Monteynard, Aimer, le dire (extraits)


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dezembro 19, 2006

No país dos segredos

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dezembro 12, 2006

Poética

A poesia, meu caro amigo, é como o amor: dura até ao momento em que nos abandona.

Marina Tsvétaïeva, em Rilke/Pasternak/Tsvétaïeva, Correspondência a Três, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006



Publicado por sol em 02:15 AM | Comentários (12)

dezembro 11, 2006

Olhando-a à sua própria luz

João Andrade Peres, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, editou nesta página um ensaio, com data de 6 de Dezembro - Elementos para uma Crítica Científica da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS) - de que o semanário Expresso da passada 6ª feira publicou um resumo.

Do ensaio, que pode ler-se na íntegra aqui , destaquei algumas passagens: aquelas em que se conclui ou perora após argumentação fundamentada na análise linguística do objecto em causa. Creio que a todos os que se debatem há dois anos com as incongruências, as contradições e as definições tautológicas da TLEBS interessará de forma particular a análise dos exemplos concretos - é de ler, atentamente e na íntegra, o ensaio. Se possível, com a base de dados da Terminologia aberta, para cotejar. Se possível, abrindo também o blogue Reflectindo, onde a emn compilou algumas das respostas dadas no fórum do GramaTICª.


                                              

«A meu ver, a TLEBS não é um objecto inaceitável pelo facto de ser inovadora nos termos (ainda que as inovações possam ser discutíveis), nem por nela se pretender assumir uma postura científica, nem por conter termos de estrutura complexa e difícil de apreender. Não, a TLEBS deve ser rejeitada, antes de mais, porque cientificamente não merece crédito (quod est demonstrandum, obviamente). Adicionalmente, e dado o fim a que se destina a Terminologia, não é também despiciendo o facto de que, mesmo que ela tivesse mérito científico, se tornaria um objecto inútil por não ser servida por materiais de consulta sólidos, nomeadamente uma boa gramática do português de perspectiva inovadora, que não existe. Acresce ainda que a TLEBS é chocante pela sua insensatez no que respeita a extensão, pelo carácter abrupto (direi mesmo brutal) do seu modo de introdução (por oposição a um processo eventualmente faseado ao longo de anos) e pela insensibilidade que revela à importância da coesão inter-geracional, criando rupturas absolutamente inúteis.

Antes de formular as minhas críticas, respondo a uma pergunta que pode surgir no espírito de quem me lê: mas, então, a TLEBS não está já avaliada e creditada cientificamente, uma vez que a sua base de dados de definições foi elaborada exclusivamente por docentes universitários? Lamento responder que não está.

Pelo menos por três razões, as duas primeiras das quais espero que fiquem evidenciadas no presente texto: em primeiro lugar, alguns dos autores não são, de modo algum, as pessoas mais qualificadas do país nas suas áreas e estas não foram chamadas a dar o seu contributo crítico sobre o seu trabalho; em segundo lugar, alguns dos autores claramente excederam os limites das suas competências específicas, trabalhando sobre questões de que pouco ou nada entendem; finalmente, por mais elevada que pudesse ser a qualidade do trabalho realizado separadamente por oito entidades distintas (nuns casos, indivíduos, noutros grupos), só por milagre a conjugação dessas peças autónomas no todo da TLEBS poderia ter resultado em algo de coeso e consistente, quando nem uma única vez essas diferentes entidades trabalharam em conjunto para articular a nova terminologia para o ensino do português. Eu sei que é inacreditável esta última afirmação, mas oiça-se o cândido depoimento de uma das autoras, que se pode encontrar no sítio oficial da TLEBS, na secção de “perguntas mais frequentes”: “Na TLEBS há duas definições para Adjectivo, como para Advérbio, Nome e Verbo. Esta duplicação resulta de cada domínio ter sido tratado por um diferente autor e nunca ter sido feito um cruzamento dos dados.” Lê-se e não se acredita. Como é possível que, em tais condições, tenha sido assumida a responsabilidade de fazer chegar a Terminologia ao Diário da República e que ela esteja hoje a ser imposta ao país inteiro? Alguém terá de responder por tamanho absurdo

[...]

Quero de novo acentuar que fiquei com a impressão geral de que a TLEBS tem partes que, após revisão cuidada, são de acolher. Tenho pena de que não sejam todas, porque preferiria poder escrever um texto de elogio ao trabalho dos meus colegas, que passaria a usar e a difundir com muito gosto. Porém, perante o que me foi dado observar, não tenho dúvidas em declarar publicamente, com plena convicção e sentido da responsabilidade que assumo, que, independentemente das partes válidas que a TLEBS contém, o conjunto que abrange a Morfologia, as Classes de Palavras, a Sintaxe, a Semântica Lexical e a Semântica Frásica – que constitui precisamente o cerne do sistema linguístico – apresenta deficiências e lacunas de uma gravidade tal que fazem desta terminologia, tomada na sua globalidade, um objecto que não merece crédito científico, que envergonha a Linguística portuguesa e o próprio país e que não se entende como pode estar a ser introduzido no sistema de ensinoSe alguém tivesse como objectivo contribuir para tornar o ensino do português algo de odioso para os alunos, não poderia ter dado melhor ajuda..

Foi imensa pena que não tivesse surgido alguém, até de entre a equipa de supostos especialistas da TLEBS, desde que tivesse autoridade, nomeadamente científica, e que logo de início lhes dissesse: “por favor, não falem do que não sabem”. Eu, ainda que não reclame para mim tal tipo de autoridade, imaginando-me no papel de tal pessoa teria ainda acrescentado: “e escrevam só o que interessa aos destinatários e possa ser por eles entendido, e sejam rigorosos, e, por favor, escrevam em bom português”. Que pena, porque, se os autores pudessem ter cumprido estas directivas – mormente a de só escreverem sobre aquilo de que efectivamente sabem com segurança alguma coisa –, embora provavelmente não tivessem escrito mais de dez por cento do que contém a TLEBS, teriam evitado a provação por que agora passam e teriam poupado a muitos dos seus concidadãos, entre os quais me incluo, muitas e muitas horas de trabalho desperdiçadas a tentar impedir que tão nefando objecto se torne um facto consumado. Claro que teriam recebido menos honorários, mas como sei que em geral o Estado paga bastante mal, não creio que daí lhes viesse grande prejuízo. A propósito, é bom que a sociedade portuguesa não ignore que, como é natural e justo, os autores da TLEBS foram pagos para realizar a sua obra e creio até que ainda hoje há quem continue assalariado ao serviço do empreendimento (não falo agora de autores, mas de gente do gabinete que tem por função apoiar os professores). Seria interessante saber quanto já despendeu o Estado com toda esta barafunda: com autores, gabinete de apoio, materiais, deslocações, acções de formação realizadas e a realizar, etc.

[...]

A falta de qualidade científica da TLEBS, aliada a uma clara ausência de sentido da realidade no que respeita tanto a professores como a alunos, faz desta Terminologia uma verdadeira calamidade que se abate sobre as escolas do país. Em conformidade, é como cidadão e como linguista que daqui apelo à Senhora Ministra da Educação no sentido de travar o insano processo já iniciado de experimentação da TLEBS. Em nome do rigor e da qualidade científica e a bem do ensino da língua portuguesa, peço-lhe instantemente que, corrigindo erros de Governos anteriores, suspenda a sua aplicação e nomeie de imediato uma comissão de peritos que faça o ponto da situação.

[...]

Não disse alguém que a guerra era séria de mais para ser deixada só aos militares? Pois bem, a terminologia com que todos falaremos sobre a língua que em parte nos identifica talvez mereça preocupação análoga. O que não pode acontecer é, como parece ser o caso, estar a TLEBS a ser revista pelo grupo a quem foi confiada e que já mostrou do que é capaz. Pelo menos alguns dos seus membros revelaram à saciedade não ser idóneos para continuar ligados a este processo e seria um escândalo nacional que nele se mantivessem.



Publicado por sol em 10:40 AM | Comentários (2)

dezembro 10, 2006

Vista

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dezembro 2006


Publicado por sol em 08:19 PM | Comentários (13)

dezembro 06, 2006

A língua que já não é desta pátria

Muitíssimo ponderado, este ensaio de Carlos Ceia. Uma reflexão desapaixonada e lúcida: os aplausos - que a TLEBS também merece - e as críticas; e as tantas perplexidades:

AS TERMINOLOGIAS LINGUÍSTICAS NO ENSINO

No dia 24 de Dezembro de 2004, foi publicada a portaria 1488/2004 que aprova a Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário de Portugal (T.L.E.B.S.), que previa um período experimental de três anos, substituindo a Nomenclatura Gramatical Portuguesa (N.G.P.), em vigor desde 1967 (Portaria 22 664/67 de 28 de Abril). A discussão pública sobre a T.L.E.B.S. devia começar por aqui, pelo lado político da questão: por que razão foi publicada desta forma uma portaria que pretende corrigir a soberania nacional do funcionamento da nossa língua? Por que razão se esconde no silêncio quem promoveu politicamente este projecto, feito lei pela prática pedagógica conformada dos professores de Português? Sabemos todos que houve precipitação na metodologia política utilizada. Saibamos ver em que aspectos devemos condenar o projecto e em que aspectos o devemos aplaudir.


Começo por estes, por serem de fácil arrumação num único parágrafo: a construção de uma base de dados terminológica de fácil consulta a todos os utilizadores e a tentativa de construção de uma terminologia linguística como meio de criar um vocabulário abundante na descrição técnica e científica da língua, reduzindo a um denominador comum as metalinguagens oblíquas que os professores de Português e os construtores de manuais escolares foram criando ao longo das últimas décadas, ao sabor muitas vezes da sua imaginação individual, em vez de agirem em obediência a descrições científicas do funcionamento da língua.

O primeiro problema tem precisamente a ver com o primeiro aplauso: esta T.L.E.B.S. quer ser uma norma final para um determinado uso escolar da língua. Não faz sentido que um projecto desta natureza seja circunscrito a um nível de escolaridade. As normas de uma língua não são descritas, estudadas e sistematizadas em função de um determinado público. Simplesmente, com o devido rigor, nunca poderá ser sustentável a existência de uma Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário. Pensou melhor quem propôs, em 1967, uma Nomenclatura Gramatical Portuguesa, porque as nomenclaturas, como as terminologias, servem todos os que as utilizam e não apenas aqueles que as aprendem compulsivamente na sua formação escolar. Se existir uma T.L.E.B.S., também tem de existir uma Terminologia Linguística para o Ensino Superior, uma Terminologia Linguística para o Ensino das Ciências, ou uma Terminologia Linguística para o Direito, para a Filosofia, para a Psicologia, etc.

Nos Estados Unidos, o estudo gramatical da língua faz-se na grande área chamada Language Arts curriculum. Durante o século XX, ninguém inovou tanto no campo das ciências da linguagem como os norte-americanos. Não tenho conhecimento de que as suas teorias, de Edward Sapir a Leonard Bloomfield, de Noam Chomsky a Sydney M. Lamb, tenham obrigado a transformações profundas, a nível nacional, no currículo dos ensinos básico e secundário. As grandes teorias linguísticas do século XX foram certamente corrigidas, debatidas, adoptadas e desenvolvidas para outros estádios do conhecimento das ciências da linguagem, no âmbito da investigação universitária. Nos Estados Unidos, os professores, as escolas e as editoras sempre tiveram liberdade para adoptar uma teoria gramatical ou linguística em detrimento da outra, mas a base de tudo continua a ser a nomenclatura tradicional, quer nos exames de acesso à Universidade quer nos melhores manuais escolares. É esta a grande diferença de paradigma: não se deve paralisar no tempo uma nomenclatura gramatical, mas também não se deve actualizá-la completamente, para fins de ensino elementar e inicial da língua materna, ao sabor de uma corrente de pensamento dominante.

Há princípios que são imutáveis e que nenhuma descrição teórica linguística consegue apagar. Mantenho para mim que continuam válidas as duas razões para o ensino da Gramática tradicional que a Arte da Grammatica da Lingua Portugueza de Reis Lobato (1770) anuncia: «Por duas razões se faz indispensavelmente precisa a noticia da Grammatica da Lingua materna: primeira, para se fallar sem erros; segunda, para se saberem os fundamentos da Lingua, que se falla usualmente.» (IX). Provavelmente por ignorância minha, nunca fui capaz de aprender a falar sem erros e a conhecer os fundamentos da minha língua materna com o tipo de descrição que A Gramática da Língua Portuguesa, de Maria Helena Mateus, Ana Maria Brito, Inês Duarte e Isabel Faria (1983) nos oferece. Sempre me socorri, desde a primeira edição, da Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra (1984). No meu espírito, esta é ainda a gramática que me faz escrever sem erros e me ajuda a compreender como funciona o Português. Enquanto aluno da Faculdade de Letras de Lisboa no início daquela mesma década de 1980, não posso dizer que me tenham ajudado no mesmo sentido as aulas daquelas insignes linguistas ou a Gramática que construíram. Se a T.L.E.B.S. é agora o seu legado às gerações futuras, só posso ficar apreensivo.

Quem defende a T.L.E.B.S. insiste na sua actualidade; quem a condena, na sua parcialidade e impraticabilidade. É ajuizado o princípio de actualização de uma ciência ou de uma lei, por isso havia que corrigir, por exemplo, o esquecimento da semântica da N.G.P.. Contudo, uma N.G.P. não podia ter sido substituída por uma T.B.L.E.S., mas por uma N.G.P. actualizada, o que é algo substancialmente diferente. A mudança de paradigma que está implícita no abandono da Gramática para a predominância da Linguística é, desde logo, muito discutível. Por esta altura, em Espanha, a Real Academia de la Lengua conclui a sua “gramática del español total”, como a descreve o seu presidente Víctor García de la Concha, para substituir a Gramática académica de la lengua, de 1931. Trata-se de uma Gramática de 2.000 páginas, que terá uma versão resumida de 400 páginas, porque pretende ser uma sistematização de todas as variedades do Espanhol. Este é o aspecto que melhor justifica a actualização de uma gramática (e com ela, consequentemente, a sua terminologia): a variedade linguística cresce mais rapidamente do que a capacidade que temos de sistematização das normas de funcionamento de uma língua. Em si mesma, a questão da actualidade de uma gramática não é uma necessidade absoluta, porque uma gramática pode durar séculos, porque as suas normas gerais se podem aplicar aos diferentes usos da língua e suas constantes renovações. Mas não foi por esta razão que se promoveu uma nova terminologia linguística, infelizmente. Um grupo mais ou menos interdisciplinar actuou para nos dar uma listagem exaustiva do conhecimento actual sobre as ciências da linguagem, para mostrar a Portugal que a investigação nesta área acompanha as últimas teorias. Há aqui neste projecto uma ambição científica insustentável: pretende-se apresentar uma magnum opus das ciências da linguagem em Português, quando o País precisava apenas de uma actualização simples, clara e funcional da N.G.P. de 1967. E o País não perdeu tempo a fazer de uma experiência política uma feira de edições escolares e acções de formação pré-fabricadas para acudir a todas as urgências. É espantosa a forma como já está a ser aplicada esta “experimental” T.L.E.B.S..

Há certos conceitos nucleares que existem desde a Antiguidade que não têm necessidade de actualização. Por exemplo, o que mudou da gramática de Dionísio Trácio, escrita para educação dos jovens romanos no tempo de Pompeu, e que tem por base a ideia central de que uma gramática é uma abordagem prática da linguagem trabalhada pelos homens literatos, e que se dividia em acentuação, fonologia, expressões figurativas, definições, etimologia e regras gerais de flexão e cânones críticos. Algum destes termos perdeu actualidade? O que houve que mudar nessa primeira gramática do mundo ocidental? A intervenção excessiva da terminologia filosófica que impediu durante séculos a boa compreensão da proposta original do erudito de Alexandria. Se os gramáticos antigos tivessem a mesma noção de intervenção política dos nossos governantes actuais, eles teriam decretado nas décadas seguintes que se mudasse não a proposta inicial, tornando-a mais clara, mas que se fizesse uma Terminologia Linguística para o Ensino dos Romanos de Pompeu. Serve a analogia para dizer que não se actualiza uma gramática para servir um grupo escolar particular, mas para servir uma nação ou uma comunidade de falantes vivos dessa língua. Uma coisa é criar uma metalinguagem técnica comum a todos os professores de Português, para que todos possam utilizar os mesmos termos na descrição da língua, da literatura e da cultura que ensinam, outra bem diferente é adoptar cegamente uma proposta avançada por uma escola de linguistas, que representam apenas uma forma particular (e muito discutível) de investigação das ciências da linguagem. As políticas de ensino das línguas e das ciências sociais e humanas em Portugal têm seguido, infelizmente, sempre este rumo condenado ao naufrágio.

Não há conclusão mais lamentável do que a de se chegar a saber que um professor de língua materna não deixou nenhum leitor atrás de si. Um professor de Português com larga experiência apresentou as seguintes questões, recentemente, sobre Memorial do Convento: “2.1. Faça a "destrinça" das vozes do narrador nesta segunda passagem.”; “2.2. Identifique, classificando, os três diferentes actos ilocutórios presentes no texto.”; “2.3. Ponha em evidência as modalidades enunciativas do texto apresentado em 2.” Para mim, é óbvio que quem redigiu estas questões não vai deixar nenhum leitor atrás de si. Parece-me óbvio que a T.L.E.B.S. não servirá nunca para formar o gosto pela língua, pela literatura ou pela cultura portuguesas, porque o nível de pensamento abstracto que exige ser aplicado na leitura analítica do discurso é de tal forma complexo (e ilegível em muitos casos) que só por milagre um professor de Português conseguirá formar um único leitor, isto é, alguém que simplesmente gosta de ler um bom romance, um bom poema ou uma boa peça de teatro. Dos valores aspectuais dos verbos aos actos de fala, da pragmática e linguística textual aos protótipos textuais, de conceitos como “processos interpretativos inferenciais” que se subdividem em “pressuposição” e “implicatura conversacional”, eis como foi criada uma nova linguagem técnica que não ajuda a compreender a língua que falamos, que não ajuda a ler na língua em que escrevemos, que não ajuda a compreender aquilo que foi escrito na língua que lemos. Para explicar o que é uma metáfora, anda melhor o professor que recorre ao universo de O Carteiro de Pablo Neruda ou o professor-linguista que ensina que se trata de um processo interpretativo inferencial? Ainda mais um exemplo, a que os defensores da T.L.E.B.S. gostam de aludir, a actualidade de termos como nome agentivo, “um nome derivado deverbal, parafraseável pela expressão ‘aquele/aquilo que V’, sendo V a forma derivante”. Se algum catedrático de Linguística for capaz de explicar este conceito com esta definição a um estudante do Ensino Básico ou Secundário que me leve a aprender. Será assim tão difícil compreender que devemos trabalhar com diferentes níveis de sistematização quer em ciências da linguagem quer em ciências literárias? Aliás, seria bom saber por que é que o próprio conceito de nome deve abandonar a sua categorização latina de substantivo para regressar à matriz original grega? Mas até por aí podíamos aprender mais facilmente. “Nome” é definido por Dionísio Trácio, no capítulo 11, 76 e 78, da sua como “aquilo que significa uma substância, e que pode ser própria ou comum”. O que falha nesta definição? Perdeu actualidade? O que ganha um jovem estudante da língua portuguesa em saber que para além das substâncias comuns e próprias também deve agora distinguir as que são contáveis/não contáveis, humanas/não humanas, concretas/ abstractas ou animadas/não animadas? E alguém lhe vai saber explicar, mesmo com sabedoria grega, qual a exacta subclasse do nome “morte”, por exemplo? A partir de que idade deve ser exercido este extraordinário pensamento abstracto que nos deve fazer reflectir sobre a humanidade ou inumanidade da morte ou sobre a sua possível mensurabilidade? Dir-se-á com acerto que, por exemplo, a Gramática do Português Contemporâneo, de Lindley Cintra e Celso Cunha, vai mais longe na descrição das subclassificações sintácticas e morfológicas do substantivo. É verdade, mas com a diferença de que aquela não é uma “Gramática para o Ensino Básico e Secundário” mas antes uma descrição geral da língua para todos os seus utilizadores. É precisamente na fronteira que colocamos na complexidade de uma nomenclatura que se avalia se ela é ou não adequada ao seu fim.

Concordo que devemos caminhar para uma mais clara explicitação do funcionamento da língua na aula de Português, mas o caminho não é este. Perderíamos menos se, por exemplo, fôssemos capazes de recuperar certas explicitações etimológicas antigas, que são ainda a base das nomenclaturas latinas modernas. Seja o conceito de pronome. Na primeira gramática de Dionísio Trácio aprendemos que é “uma palavra empregada no lugar de um nome, revelando pessoas definidas”. Muitos de nós aprendemos esta definição, mesmo que não soubéssemos a sua origem grega. A T.L.E.B.S. define-o assim: “Palavra pertencente a uma classe fechada de palavras que, em alguns casos, permite variação em género e número, noutros em pessoa, género e número e noutros permite mesmo variação em Caso. Ao contrário do que acontece com o determinante, o pronome não pode preceder um nome (a menos que sejam separados por uma pausa) e que é distribucionalmente equivalente a um grupo nominal.” A quem queremos ensinar esta metalinguagem? Que adequação se deve fazer para transpor esta complexidade para o Ensino Básico, por exemplo, na situação prática do ensino da terminologia?

O novo universo terminológico, e sobretudo a sua reprodução de definições complexas para situações elementares de ensino, parece querer servir de pilar a todo o ensino do Português, cada vez mais reduzido à sua dimensão linguística, cada vez mais abandonando a sua matriz histórica, aquela que sempre soube relacionar a praxe gramatical da língua com as suas realizações literárias. Mas é, sobretudo, uma força de bloqueio intelectual para o professor de Português e para os seus aprendizes de leitores. O exemplo do conceito de Grice de “implicatura conversacional” pode servir-nos para demonstrar que um poeta pode explicar melhor a sua língua do que um linguista pragmático. O exemplo dicionarizado é este: o enunciado "A porta está aberta" implica um pedido para fechar a porta. Um estudante de Português deve ser capaz de identificar esta característica geral do discurso como uma “implicatura conversacional”. Aumentará ele o seu conhecimento real das potencialidades “implicantes” do discurso com a descoberta dessa terminologia? E se, por contraponto, convidássemos o estudante a ler (ou a ouvir) o seguinte excerto de uma “Samba-canção”, de Cláudio Félix: “Deixe a lâmpada acesa, / espere um minuto. / Me ouça um instante / e então eu te escuto. / Não durma tão cedo. / Não quero ir dormir. (…)” Quantas novas “implicações conversacionais” podia um jovem leitor identificar neste excerto? E se apenas o embalássemos na música dos versos e o fizéssemos sentir que “a porta está aberta” implica não um pedido para a fechar mas um convite para a abrir ainda mais até onde a nossa imaginação conseguir determinar? E se conseguíssemos dizer-lhe que a linguagem poética implica mais sentidos do que a linguagem institucionalizada de um dicionário ou de uma gramática? Quem iria formar um novo leitor, o tecnocrata da língua ou o professor que se confessou ele próprio embalado pelo poema?

A T.L.E.B.S. é uma proposta política apressada e não projectada no tempo para resolver um problema nacional. Um tal projecto nunca podia ser assinado por um grupo de linguistas que traz para os Ensinos Básico e Secundário o grau de especialização que devia ser reservado para os programas mais avançados de ciências da linguagem. Uma ciência não se aprende pelas suas teorias mais avançadas nem pelos seus mais abstractos teoremas. Uma ciência aprende-se pela raiz dos seus problemas. Não é de todo errado que se constitua um novo conhecimento sobre a língua que usamos, porém há diferentes níveis de utilização da metalinguagem que construímos para a compreender. Passa-se o mesmo com a teoria literária. Um professor de literatura do Ensino Secundário não precisa de explicar que o seguinte verso de António Ferreira, na Castro, "A terra subirá onde os Céus andam”, é uma forma de adynaton, ou seja, uma hipérbole que procede ao exagero de uma realidade natural pela referência ao impossível, pelo que também se chama impossibilia; bastará que o estudante, por agora, entenda o recurso estilístico da hipérbole, sem necessitar de especular sobre os seus usos clássicos mais desenvoltos. Ora, com a adopção das mais complexas terminologias linguísticas da actualidade, pede-se agora aos estudantes dos Ensinos Básico e Secundário que saibam as melhores teorias antes de compreenderem as bases que as sustentam.

Um respeitadíssimo psicólogo norte-americano, Steven Pinker, autor de The Language Instinct (1994), criticou os manuais de ensino do Inglês não para que a gramática fosse abolida mas para que houvesse uma mudança de paradigma nesse ensino. Reclamou então que o problema não era os professores estarem a ensinar gramática a alunos que a não possuíam, mas o facto de estarem a ensinar uma gramática estereotipada a alunos que têm uma gramática muito diferente. Pensando nesta T.B.L.E.S., não consigo imaginar uma terminologia linguística mais distante da gramática que os nossos alunos usam, incluindo aqueles que julgamos que não usam gramática alguma.

Carlos Ceia

30 de Novembro de 2006

Publicado por sol em 07:49 PM | Comentários (9)

dezembro 04, 2006

À luz clara

À luz clara tudo arde
Mas não pode ser só isto.

Arsenii Tarkovskii, «8 ícones» (fragmento), Col. Gato Maltês, Assírio & Alvim, Lisboa, 1987

Western_Motel.JPG
Edward Hopper, Western Motel

Early_Sunday_Morning.JPG
Edward Hopper, Early Sunday Morning

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Edward Hopper, Morning Sun

Publicado por sol em 12:35 AM | Comentários (19)