outubro 29, 2006

Longe de estar pacificada

esta questão.

                                          A NOVA TERMINOLOGIA LINGUÍSTICA

MELHORAR A EDUCAÇÃO IMPLICA PROGRESSO económico que crie condições para o conhecimento, mas desenvolver a economia depende também da qualificação educativa. Aprender correctamente, com matérias seleccionadas e dadas com rigor, leva a produzir melhor, talvez não em acumulação pecuniária mas noutra ordem de bens: saúde, ambiente, civismo, cultura, tempo para fruir a vida. E a propósito de aprender bem, deve atender-se a observações públicas feitas sobre a nova Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário (TLEBS) aprovada pela anterior ministra da Educação e proposta por um grupo de linguistas. Está ainda a ser testada mas regulará já os manuais escolares do próximo ano. Virão os resultados a tempo da elaboração ponderada dos livros para o ensino? Eis um dos muitos problemas que surgem.

Considerar a TLEBS mero instrumento de manuseio gramatical, como declarou, na rádio, Inês Duarte, autora da proposta e colega que muito estimo, não impede o processo reactivo a que a compreensão da Gramática vai ser sujeita, já que os nomes que damos às coisas não são inocentes, sobretudo em percepção e descrição da língua que se quer adequada e actualizada, o que incidirá no próprio corpo gramatical. Esses termos não são arbitrários e, no plano científico, cobrem a zona a que se aplicam e motivam-na também. Se a TLEBS muda, por exemplo, a designação de «substantivo» para «nome» e de «oração» para «frase», que não são conceitos coincidentes, e se se diz que sendo ambos possíveis se prefere o termo actualizado em estudos linguísticos, note-se que:

1) a Gramática, e muito menos a Língua, não são propriedade exclusiva do estudo da Linguística, ligam-se a outras disciplinas em que são cruciais: a Literatura (lugar da preservação de estruturas da língua e da consagração de modos da sua inovação) e Filosofia, com a Lógica e a Filosofia da Linguagem;

2) não é aceitável que se proceda a alterações terminológicas segundo uma teoria específica dos fenómenos da linguagem, a perfilhada por Inês Duarte, cujo trabalho é apreciável em investigação mas, sem resultados consensuais na universidade, não é representativa para uma determinação ministerial;
3) a actualização que a TLEBS propõe tem um pensamento, o que lhe dá coesão (mas com muitas incoerências), e há que ver se esse pensamento favorece a qualificação educativa.

A TLEBS dirige a taxinomia da língua para raciocínios tecnicistas e funcionais, com uma óptica exclusivista e auto-suficiente que, não dialogando com áreas centrais do pensamento humanístico, estreita a compreensão gramatical. Defensores seus invocam a Semântica (o que é duvidoso, porque as explicitações são de tipo sintáctico) esquecendo que esta disciplina faz parte dos estudos literários, que não são tidos em conta. Também ouvi (e importa ver a utilização concreta, porque é assim que se irá ensinar) que se quer que cada conceito corresponda a uma só manifestação gramatical, o que não condiz com designações multivocabulares abstrusas que a TLEBS aceita, presentes em actuais manuais (ex: o advérbio de modo «supostamente» classificado como «advérbio disjunto restritivo da verdade da asserção»; imaginem uma criança a decorar isto!); e, a ser tal possível (poucos conceitos têm valência única), é incoerente preferir «nome» a «substantivo», por ser muito mais amplo e romper com a tradição filosófica milenar que funda a relação entre pensamento e linguagem, elevando-a acima do uso instrumental. Em frases como «amanhã vou ao cinema», essa linguística diz ainda que «vou» não é presente mas futuro. Ensinando assim, que modo de pensar fomentamos? Passar de resultados (controversos) da investigação à aplicação directa ao ensino é perigoso, tem consequências graves na expressão e no raciocínio. Não é por serem diferentes que as designações são inovadoras ou adequadas; Rodrigues Lapa mostrou, há décadas, relacionando linguística e literatura, que a estilística da língua matiza as categorias gramaticais e a actualiza em alterações da norma praticadas por escritores que criam valores que a categoria não contém e é a literatura que vai fixando.

Urge ouvir as várias especializações ligadas à língua, pois todos os graus de ensino são atingidos por esta nomenclatura e, indirectamente, outras disciplinas. Deve-se ponderar sobre o que tal alteração radical dará, e sobre a dificuldade da sua adopção imediata pelos docentes, passível de formulações incorrectas. E, sendo a TLEBS norma racionalizadora do ensino e não uma lei, admitamos que, se der azo a incorrecções, ninguém pode obrigar um professor a ensinar mal! Esta questão é de interesse público, não é minudência de especialistas: condiciona formas de lidar com a língua, incidindo em modelos de pensamento e, logo, da actuação em sociedade.


          Maria Alzira Seixo, em Revista Visão, 28 de Outubro de 2006 (sublinhados meus)


Publicado por sol em 10:15 PM | Comentários (14)

outubro 28, 2006

Ecce homo

                        UTOPIA DE UMA EXPLORAÇÃO SEM LIMITES

fragments-maya-kulenovic.JPG
Maya Kulenovic, Fragments, 2005



...ruptura entre a economia e as realidades sociais...

...o reino absoluto da flexibilidade...         

...programa de destruição metódica dos colectivos...

...debilitar ou abolir as referências e as solidariedades colectivas...

                                                                                    ...luta de todos contra todos...

....mão­‑de­‑obra docilizada pela precarização e pela ameaça permanente do desemprego...

...na insegurança, no sofrimento e no stress...

...confundir as coisas da lógica com a lógica das coisas...

... pura ficção matemática...

...utopia ultraconsequente (como certas formas de loucura)...

                  Tradução do artigo de Pierre Bourdieu


Publicado por sol em 06:50 PM | Comentários (8)

outubro 24, 2006

I like for you to be still

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            I like for you to be still - Pablo Neruda - by Glenn Close


Publicado por sol em 12:24 AM | Comentários (12)

outubro 10, 2006

herança

meu mundo recende a
pólvora e fumaça ao
meu redor os
gritos continuam
aumentando os

desertos

meu mundo devasta a
pele faz a vida
morrer em cada
dia ceifa todos os
dias

cada vez mais
áridos vazios sem
lugar

meu mundo e meus
poemas

Adair Carvalhais Júnior


Publicado por sol em 08:29 PM | Comentários (12)

outubro 05, 2006

Ética para um Jovem

Revisitando um livro cuja leitura costumo propor aos meus alunos:


De um ponto de vista ético, quer dizer, da perspectiva do que convém à vida boa, como será a organização política preferível, aquela que devemos esforçar-nos por conseguir e defender? Se recapitulares um pouco aquilo que temos vindo a discutir até aqui (mas receio, infelizmente, que a lição já vá longa demais para te lembrares de tudo), certos aspectos desse ideal ser-te-ão evidentes, contanto reflictas um pouco no caso:

a) Como todo o projecto ético parte da liberdade, sem a qual não há vida boa que valha, o sistema político desejável terá de respeitar ao máximo – ou limitar ao mínimo, como preferires – as componentes públicas da liberdade humana: a liberdade de nos reunirmos ou separarmos, a de exprimirmos as nossas opiniões ou inventarmos a beleza e a ciência, a de trabalharmos de acordo com a nossa vocação ou interesses, a de intervirmos nos assuntos políticos, a de nos deslocarmos de um lugar para outro e nos instalarmos aqui ou ali, livremente, a liberdade de escolhermos os nossos prazeres do corpo ou da alma, etc. Devemos recusar as ditaduras, sobretudo as que são «para nosso bem» (ou querem «o bem comum», o que vem a dar no mesmo). O nosso maior bem – particular ou comum – é sermos livres. Assim, um regime político que conceda a devida importância à liberdade insistirá também na responsabilidade social das acções e omissões de cada um (digo «omissões», porque às vezes também se faz não fazendo). Regra geral, quanto menos responsável se revele cada pessoa pelos seus méritos ou más acções (sustentando, por exemplo, que tudo isso são frutos da «história», da «sociedade estabelecida», das «reacções químicas do organismo», da «propaganda», do «demónio» e outras coisas do mesmo género), menor o grau de liberdade que lhe será concedido. Nos sistemas políticos em que os indivíduos nunca são completamente «responsáveis» tão pouco costumam sê-lo os governantes, que agem sempre impelidos pelas «necessidades» históricas ou pelos imperativos da «razão de Estado». Cuidado com os políticos para os quais toda a gente é vítima das circunstâncias... ou tem a a «culpa» delas.

b) Um princípio de base da vida boa, como já vimos, é tratar as pessoas como pessoas, quer dizer: sermos capazes de nos pormos no lugar dos nossos semelhantes e de relativizar os nossos interesses para os harmonizarmos com os deles. Se preferes dizer a mesma coisa de outro modo, trata-se de aprendermos a considerar os interesses do outro como se fossem nossos, e os nossos como se fossem do outro. A esta virtude chama-se justiça, e não pode existir regime político decente que não pretenda, por meio de leis e instituições, fomentar a justiça entre os membros da sociedade. A única razão que justifica limitar a liberdade dos indivíduos quando indispensável é impedi-los, pela força se não houver outro modo, de tratarem os seus semelhantes como se estes o não fossem, ou seja, como instrumentos, bestas de carga, brinquedos, seres inferiores, etc. À condição de que cada ser humano pode exigir ser tratado como semelhante pelos demais, seja qual for o seu sexo, cor de pele, ideias ou preferências, etc, chama-se dignidade. E repara como é curioso: embora a dignidade seja coisa que todos nós, os seres humanos, temos em comum, ela é precisamente o que também serve para reconhecermos cada um de nós como único e irrepetível. As coisas podem ser «trocadas» umas pelas outras, podem ser «substituídas» por outras parecidas ou melhores, numa palavra: têm o seu «preço» (o dinheiro costuma servir para facilitar estas trocas medindo-as a todas por um mesmo padrão). (...) Pois bem, todo o ser humano tem dignidade e não preço, ou seja, não pode ser substituído nem deve ser maltratado em vista do benefício de outro. (...) É a dignidade humana que nos toma a todos semelhantes, justamente porque certifica que cada um de nós é único, não intercambiável e detentor dos mesmos direitos a ser socialmente reconhecido que qualquer outro.

Fernando Savater, Ética para um Jovem, Publicações Dom Quixote

Publicado por sol em 09:31 AM | Comentários (13)

outubro 01, 2006

Aproximação ao absurdo

«Ele tinha visto quão improvável é termos de vir uns dos outros e quão improvável é o virmos realmente uns dos outros. Nascimento, sucessão, as gerações, a história – absolutamente improvável.
Ele tinha visto que não vimos uns dos outros, que apenas parece que vimos uns dos outros.»

                                                    * * *

«A ordem é mínima. Ele pensara que quase tudo era ordem e que a desordem era apenas um bocadinho. Afinal era ao contrário. (...)
O velho sistema que criou a ordem já não funciona. Tudo o que lhe restava era o medo e o espanto mas agora escondidos por detrás do nada.»

Philip Roth, Pastoral Americana, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1999


Publicado por sol em 10:20 PM | Comentários (8)