julho 28, 2006

...

                    manta de trapos_luis castro lopo.jpg
                     Luís Castro Lopo, Manta de Trapos

                     Cantam, cantam.
                     Onde cantam os pássaros que cantam?
                     (...)

                     Trinta e Duas Canções de Juan Ramón Jiménez, tradução de Manuel Bandeira


Publicado por sol em 11:36 AM | Comentários (14)

julho 27, 2006

Abro la Ventana

living_road.JPG

                    
            Lhasa, Abro la Ventana - The Living Road , 2003


Publicado por sol em 12:25 AM | Comentários (10)

julho 25, 2006

Há Dias

angelo de sousa.JPG


Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo nos cai
em cima. Depois
ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam.
Não lhes sei o nome. Uma
ou outra parece-se comigo.
Quero eu dizer: com o que fui
quando cheguei a ser
luminosa presença
da graça,
ou da alegria.
Um sorriso abre-se então
num verão antigo.
E dura, dura ainda.

Eugénio de Andrade, Os Lugares do Lume, Fundação Eugénio de Andrade, 2ª ed, 1998

Publicado por sol em 12:04 AM | Comentários (18)

julho 18, 2006

70 anos desde a Guerra Civil Espanhola

Todo empezó un 17 de julio

«Quien dice que se olvida? No hay olvido» - Luis Cernuda

Calsina_barricada_1936.JPG
                                    Cartaz de Calsina, La Barricada, 1936

                               Enric Cluselles Alberti.JPG
                                                        Cartaz de Enric Cluselles Albertí



Publicado por sol em 10:20 PM | Comentários (11)

julho 11, 2006

Ventos do Passado

alfredo zalce-meditacion.JPG
Alfredo Zalce


É tua filha, não é? Reconheci-a
pela estrela fugaz que há nos seus olhos,
a cabeça inclinada e a maneira
tão tua, de fitar cheia de assombro.
É tua filha, não é? Intuíram-no
– de tão fundo! –
certos ventos calados que dormiam
sob as águas sossegadas, no poço
dos tempos perdidos, onde guardo
as folhas que tombaram
dos salgueiros remotos.
Ostenta luz na fronte
– a tua luz. – E o gesto melancólico.
O pescoço frágil como era o teu
e no cabelo os mesmos
pássaros loucos.
Guarda um vento do passado entre os dedos,
e no rosto…
a tua assinatura
escrita num sangue
que desconheço.

Torcuato Luca de Tena (tradução minha*)



    VIENTO DE AYER

¿Es tu hija, verdad? La he conocido
por la estrella fugaz que hay en sus ojos,
la cabeza inclinada y la manera,
tan tuya, de mirar llena de asombro.
¿Es tu hija, verdad? lo han presentido
– desde tan hondo! –
unos vientos callados que dormían
bajo las aguas quietas, en el pozo
de los tiempos perdidos, donde guardo
las hojas que cayeron
de los sauces remotos.
Tiene luz en la frente
– tu misma luz –. Y el gesto melancólico.
Tiene el cuello tan frágil como tú lo tenías
y en el pelo los mismos
pájaros locos.
Tiene un viento de ayer entre los dedos,
y en el rostro...
tu firma escrita
con otra sangre
que no conozco.

Torcuato Luca de Tena, España, 1923-1999

[* Esta tradução foi primeiro publicada na revista Ilha Negra, nº 2]

Publicado por sol em 12:02 AM | Comentários (17)

julho 02, 2006

A escola dos resultados

                           GiacomettiPi.gif

Consideremos os programas da actual revisão curricular; os recentes exames de línguas, em particular o de Português-12º Ano (639) e o de Língua Portuguesa-9º Ano; as questões da autonomia das escolas e da proposta de Estatuto da Carreira Docente. Consideremos tudo isto à luz do excerto abaixo, oportunamente recordado pelo Miguel no outrÓÒlhar, e retirado de O Ensino na Sociedade do Conhecimento, A Educação na Era da Insegurança, livro que se baseia em dados de pesquisa recolhidos em dois projectos sobre o melhoramento e a reforma de oito escolas canadianas e norte-americanas do ensino secundário:

«Confrontados com a exigência de resultados melhores nas escolas públicas e também com a indisponibilidade dos eleitores para pagarem por elas impostos mais elevados, e, ainda, face à realidade do subfinanciamento e da baixa capacidade dos sistemas urbanos que, muitas vezes, têm dependido de professores pouco qualificados e mal pagos, alguns altos responsáveis tomaram medidas drásticas. Uma das mais importantes foi a estandardização dos testes e dos textos. Desde finais dos anos 80, os curricula prescritos centralmente, com metas de desempenho detalhadas e com prazos-limite curtos para a sua concretização, com avaliações associadas a essas metas e com uma prestação de contas que tem sérias consequências, definiram, em todo o Mundo, uma "nova ortodoxia" da reforma educativa – oferecendo soluções estandardizadas e a baixo custo a um eleitorado ávido de prestação de contas.

Mais recentemente, as práticas estandardizadas também focalizaram um número limitado de prioridades de ensino e de aprendizagem, estreitamente definidas, como a literacia ou a matemática. Exige-se aos professores que atinjam estes objectivos prioritários através de formatos prescritos com grande pormenor, cuidadosamente redigidos e calendarizados com muita precisão. Realiza-se, então, uma formação intensiva de um grande número de docentes nestas estratégias de ensino "cientificamente comprovadas", com o envolvimento simultâneo dos responsáveis pela direcção das escolas. Existem estudos credíveis que afirmam que estas estratégias podem conduzir a ganhos muito significativos no sucesso dos alunos, bem como à diminuição das diferenças entre o sucesso daqueles que são oriundos das famílias ricas e o das famílias pobres. Não obstante, é questionável que os ganhos obtidos ou a forma rápida de os obter justifiquem os custos que acarretam a longo prazo. As fortes estratégias de intervenção, caracterizadas pela prescrição dos programas, pela formação intensiva e pelo acompanhamento subsequente, podem produzir melhoramentos mais acelerados nas escolas mais pobres e com menor potencial e nas suas comunidades, mas também podem reforçar culturas de dependência entre os professores que, quais cantores de karaoke, só aprendem a seguir as indicações prescritas. Em vez de atacarem as causas económicas do reduzido investimento e da baixa capacidade nas comunidades pobres, estas medidas correm o risco de, ao fazê-lo, se debruçarem, sobretudo, sobre os seus efeitos e de se concentrarem na reciclagem dessas culturas mais fracas e altamente dependentes, no seio do corpo docente.

Os apelos à diminuição das diferenças do sucesso entre os alunos não questionam, normalmente, os tipos de sucesso que estão em causa. Existem cada vez mais provas de que as diferenças de desempenho escolar (definido com base em competências relativamente simples) entre os alunos mais novos podem ser diminuídas, a curto prazo, com mais trabalho e mais prática. No entanto, isto já não acontece num tipo de sucesso mais complexo que possa ser sustentado a longo prazo – aquele que é exigido pela sociedade do conhecimento. Tem sido muito mais fácil aumentar o sucesso básico nos domínios da Literacia e da Matemática, através de uma intervenção baseada na gestão minuciosa dos primeiros anos de escolaridade, do que elevar esses níveis no ensino secundário: os reformadores ainda não foram capazes de fazer o que é necessário para desenvolver as formas avançadas de aprendizagem que consubstanciam o sucesso nestes níveis mais avançados.

Na sua conversão tardia ao poder e à necessidade da reforma educativa em larga escala, alguns dos teóricos da mudança que no passado pensavam que "não se pod[ia] decretar aquilo que [era] importante para uma prática eficaz", parecem acreditar no oposto hoje. Contudo, o que esses autores parecem ter demonstrado, realmente, é que se pode decretar o que é menos importante – que se pode fazer com que os docentes imitem os seus formadores, ou que consigam pôr em acção desempenhos predeterminados pelo currículo karaoke (desempenhos esses que podem desaparecer logo que cesse também a pressão a curto prazo e que a focalização incida sobre outros domínios), mas que não se pode obrigá-los a promover um ensino e uma aprendizagem aprofundados e complexos, concebidos para servirem, a longo prazo, a sociedade do conhecimento.»

Andy Hargreaves, O Ensino na Sociedade do Conhecimento - A Educação na Era da Insegurança, Porto Editora, 2004, pp. 112-114

Publicado por sol em 08:00 PM | Comentários (2)

julho 01, 2006

Único consolo

Thoreau ainda podia contar com a floresta de Waldau - mas onde está hoje a floresta na qual o ser humano prove que pode viver livre, e não limitado pelos rígidos moldes da sociedade?

Sou obrigado a responder: em parte alguma. Se desejo viver livre, é por enquanto necessário que o faça no interior desses moldes. Sei que o mundo é mais forte do que eu. E para resistir ao seu poder só me tenho a mim. O que já não é pouco. Se o número não me esmagar, sou, também eu, um poder. E enquanto me for possível empurrar as palavras contra a força do mundo, esse poder será tremendo, pois quem constrói prisões expressa-se sempre pior do que quem se bate pela liberdade. E no dia em que só o silêncio me restar como defesa, então será ilimitado, pois gume algum pode fender o silêncio vivo.

É este o meu único consolo.

Stig Dagerman, A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer, Fenda Edições & Norstedts Förlag, Lisboa, 2004

Publicado por sol em 06:12 PM | Comentários (8)