janeiro 30, 2006

Impossibilidade

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foto de Keith Carter

«Este coração, este pequeno ruído que há tanto tempo me acompanha, como imaginar
que ele parará, como imaginá-lo sobretudo no próprio segundo...»

Albert Camus, Primeiros Cadernos, Ed. Livros do Brasil, Lisboa, sd

Publicado por sol em 03:30 PM | Comentários (32)

janeiro 22, 2006

Névoas

escondendo a crista da serra. No aroma do chá matinal, lendo a excelente Casa Encantada, de João Bénard da Costa. Muito cedo, neste domingo que não conheceu sol.

«Se dessas eras me ficou, por overdose de receituário, uma invencível repugnância por economistas doutos (nunca vi gente que se enganasse mais com menos dúvidas), sei que estou bastante só e que as maiorias silenciosas acreditam mais neles do que nos astrólogos [...].»


João Benard da Costa, A Influência dos Acontecimentos, Jornal Público, 22 de Janeiro de 2006

Publicado por sol em 11:55 PM | Comentários (23)

janeiro 16, 2006

Uma Canção Doce

Neste Natal, um meu amiguinho, de nove anos, escreveu no postal que me endereçou, a par das felicitações da quadra, alguns excertos de um livro que a mãe lhe dera a ler e que ambos acharam eu gostaria de ler também. Não se enganaram, o Gonçalo e a mãe. Não só li com prazer o postal, como procurei por minha vez o delicioso livro. É dele que retiro os excertos abaixo. E os dedico à Eliana, do Reflectindo. Para que sorria.




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          «Porque é verdade que as palavras se organizam em tribos, como os humanos. E cada tribo tem o seu ofício.
         O principal ofício é o de designar as coisas. Já visitaram um jardim botânico? Em frente de cada planta rara, espetaram um cartão, uma etiqueta. É o principal ofício das palavras: colar um rótulo a todas as coisas do mundo, para que sejam reconhecidas. É o mais difícil dos ofícios. Há tantas coisas e coisas tão complicadas e que mudam tão constantemente! E no entanto todas têm de ter uma etiqueta. As palavras encarregadas deste terrível ofício chamam-se nomes. A tribo dos nomes é a mais importante, a mais numerosa. [...] As outras tribos de palavras tiveram de lutar para ocupar um lugar.
         Por exemplo, a minúscula tribo dos artigos. [...]
         Os nomes e os artigos passeiam-se juntos, de manhã à noite. E a sua ocupação favorita consiste em encontrar uma roupagem ou um disfarce. Como se se sentissem nus, caminhando assim pelas ruas. Talvez sintam frio, mesmo à luz do sol. Portanto passam o tempo nas lojas.
         As lojas estão a cargo da tribo dos adjectivos. [...]
         Deliciosos adjectivos, indispensáveis companheiros! Como seriam sensaborões os nomes sem as prendas que os adjectivos lhes dão, o sainete que lhes conferem, a cor, os pormenores...
         E, no entanto, como são maltratados!
         Vou dizer-vos um segredo: os adjectivos têm uma alma sentimental. Acreditam que o seu casamento durará para sempre... É por conhecerem mal a infidelidade dos nomes, verdadeiros rapazes, esses, que mudam de qualificativo como quem muda de camisa.
[...]
         As palavras são seres vivos, reunidos em tribos que mereciam o nosso respeito, que viviam, se as deixássemos em liberdade, uma existência tão rica quanto a nossa, com a mesma necessidade de amor, a mesma violência oculta e ainda mais fantasia jovial.»


Erik Orsenna, A Gramática é uma Canção Doce, ilustrações de Bigre, Edições Asa, Porto, 2003

Publicado por sol em 12:53 AM | Comentários (17)

janeiro 14, 2006

Puto de Paris

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Um sorriso traquina para celebrar o primeiro aniversário de Ao Longe os Barcos de Flores. Que navegue longamente, aportando a terras férteis, onde a poesia e os amigos floresçam.

Publicado por sol em 08:09 PM

janeiro 05, 2006

L'Adieu

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                                                                                                                             Escultura de Kurt Gebauer

J'ai cueilli ce brin de bruyère
L'automne est morte souviens-t'en
Nous ne nous verrons plus sur terre
Odeur du temps Brin de bruyère
Et souviens-toi que je t'attends.

Guillaume Apollinaire


Léo Ferré - G. Apollinaire

Publicado por sol em 08:07 AM | Comentários (45)

janeiro 02, 2006

Uma Ideia de Europa

Numa comunicação proferida no Nexus Institute, em 2004, acerca do conceito de Europa, entendida como algo mais vasto e mais fundo do que uma unidade puramente económica e geográfica, George Steiner aponta cinco pontos que, em seu entender, definem e distinguem o espírito europeu:

- a importância que os cafés tiveram como espaços de reunião e de debate intelectual;
- o facto de o território europeu ter sido percorrido a pé, ou seja, a sua escala humana, pedestre;
- a coabitação permanente com o passado, manifesta, por exemplo, na toponímia (Europa é lugar da memória);
- a síntese, nem sempre pacífica, das heranças grega e judaica;
- a consciência escatológica da própria história.

E o futuro?

«O génio da Europa é aquilo a que William Blake teria chamado "a santidade do pormenor diminuto". É o génio da diversidade linguística, cultural e social, de um mosaico pródigo que muitas vezes percorre uma distância trivial, separado por vinte quilómetros, uma divisão entre mundos. Em contraste com a terrível monotonia que se estende do ocidente de Nova Jérsia às montanhas da Califórnia, em contraste com aquela avidez de uniformidade que é simultaneamente a força e o vácuo de grande parte da existência americana, o mapa estilhaçado, por vezes absurdamente divisor, do espírito europeu e sua herança, tem sido incansavelmente fértil. [...] Nada ameaça a Europa mais radicalmente – "as suas raízes" – do que a onda detersiva e exponencial do anglo-americano e dos valores e imagem mundial uniformes que o Esperanto devorador traz consigo. O computador, a cultura do populismo e o mercado de massas fala anglo-americano desde as discotecas de Portugal ao império de comida rápida de Vladivostok. A Europa morrerá efectivamente, se não lutar pelas suas línguas, tradições locais e autonomias sociais. Se se esquecer de que "Deus reside no pormenor".

[...]

Num mundo actualmente nas garras do fundamentalismo assassino – seja ele o do Sul e Centro americanos, ou seja o do Islão –, a Europa ocidental pode ter o privilégio imperativo de produzir, de pôr em prática, um humanismo secular. Se conseguir libertar-se da sua própria herança negra, confrontondo-a sem receios, a Europa de Montaigne e Erasmo, de Voltaire e Immanuel Kante pode, uma vez mais, indicar o caminho a seguir.

Esta tarefa pertence ao espírito e ao intelecto. É disparate supor que a Europa rivalizará com o poderio económico, militar e tecnológico dos Estados Unidos. Já a Ásia, e em particular a China, se prepara para ultrapassar a Europa em importância demográfica, industrial e, por fim, geopolítica. [...] As tarefas e as oportunidades que agora se nos apresentam são precisamente aquelas que testemunharam a intensa claridade matinal da Europa no pensamento grego e na moral judaica. [...] É vital que a Europa reafirme certas convicções e audácias de alma que a americanização do planeta – com todos os seus benefícios e generosidades – obscureceu. [...]

Pode ser que, de modos agora muito difíceis de discernir, a Europa venha a gerar uma revolução contra-industrial, assim como gerou a própria revolução industrial. Certos ideais de lazer, de privacidade, de individualismo anárquico, ideais quase apagados pelo consumo conspícuo e pelas uniformidades do modelo americano e americano-asiático, poderão ter a sua função natural num contexto europeu, mesmo que esse contexto implique uma certa medida de apetrechamento material. Aqueles que conheceram a Europa durante as décadas de penúria, ou a Grã-Bretanha durante a austeridade, saberão que solidariedades e criatividades humanas podem despontar da pobreza relativa. Não é a censura política que mata: é o despotismo do mercado de massas e as recompensas do estrelato comercializado.

Tudo isto serão sonhos, talvez imperdoavelmente ingénuos. Mas trata-se de fins práticos a que vale a pena almejar. É desesperadamente urgente fazermos cessar, na medida do possível, a saída dos nossos jovens talentos científicos (e humanísticos) da Europa, devido às ofertas edénicas dos Estados Unidos. [...] estou convencido de que a correcção desta situação, tanto económica como psicológica, não está fora do nosso alcance. Se os jovens ingleses escolhem classificar David Beckham acima de Shakespeare e Darwin na lista de tesouros nacionais, se as instituições culturais, as livrarias e as salas de concertos e teatro lutam pela sobrevivência numa Europa que é fundamentalmente próspera e onde a riqueza nunca falou tão alto, a culpa é muito simplesmente nossa. Assim como o poderia ser a reorientação do ensino secundário e dos meios de comunicação social, por forma a corrigir o erro. Com a queda do marxismo na tirania bárbara e na nulidade económica, perdeu-se um grande sonho [...]. Liberto de uma ideologia falida, o sonho pode, e deve, ser sonhado novamente. É porventura apenas na Europa que as fundações necessárias de literacia e o sentido de vulnerabilidade trágica da condition humaine poderiam constituir-se como base. É entre os filhos frequentemente cansados, divididos e confundidos de Atenas e Jerusalém que poderíamos regressar à convicção de que "a vida não reflectida" não é efectivamente digna de ser vivida

George Steiner, A Ideia de Europa , Gradiva Publicações, Lisboa, 2005 (sublinhados meus)



Publicado por sol em 12:01 AM | Comentários (7)