outubro 27, 2005

Na noite terrível

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Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado – esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.

Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido –
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso – e foi afinal o melhor de mim – é que nem os Deuses fazem viver...

[...]

Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível pra mim.


Álvaro de Campos, 1928

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outubro 19, 2005

Petição online

dirigida ao Ex.mo Sr. Presidente da República:

PELA VERDADE, PELA DIGNIDADE, PELO RESPEITO DA PROFISSÃO DOCENTE



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outubro 17, 2005

Cosmogonia

A filha do oleiro Dibutades que amava um jovem recortou com um estilete a sombra do perfil dele sobre uma parede. Seu pai, ao ver o desenho,descobriu o género de ornamentação dos vasos gregos. O amor está no início de todas as coisas.

Albert Camus, Primeiros Cadernos, Edição Livros do Brasil, Lisboa, sd

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Publicado por sol em 09:54 PM | Comentários (9)

outubro 15, 2005

Carta Aberta aos Professores Portugueses

A carta, escrita por Maria Emília Rodrigues e José Carlos Callixto, e enviada no dia 22 de Setembro à imprensa - Diário de Notícias, Expresso e Público - não mereceu publicação ou referência em qualquer destes jornais. Foi divulgada, no dia 12 de Outubro, em educare.pt.

Transcrevo-a porque concordo em absoluto com o exposto. E porque entre tanto ruído, populismo, má-fé e demagogia, a que se somam o desespero surdo e a descrença que vão minando as escolas, admiro a forma digna, desassombrada (e não carecida de esperança), de dizer a evidência.

                                                                    *  *  *


por Maria Emília Rodrigues e José Carlos Callixto

No começo deste novo ano lectivo, não podemos deixar de transmitir o nosso sentimento de revolta e de repúdio por aqueles que consideramos estarem a ser os maiores atentados contra a dignidade e o profissionalismo dos professores, cometidos perante a nossa quase total passividade e complacência. A classe docente, se é que a somos, caracteriza-se infelizmente por essa passividade e completa desunião, da qual a existência de "mil e um" sindicatos é apenas um exemplo evidente.

Começámos por assistir passivamente a um dos erros mais graves após o 25 de Abril, a demagógica ideia de que todos tinham de frequentar o ensino superior, mas cortando as pernas àqueles que, por opção ou incapacidade, não o quisessem. Para isso, acabou-se com o ensino técnico, comercial e profissional, destruíram-se laboratórios, oficinas bem equipadas, para dar lugar a um ensino massificado, igual para todos, não atendendo às diferenças. Hoje, tantos anos depois, procedem-se a sucessivos remendos, com os resultados que estão à vista.

Ao longo de décadas, aceitámos passivamente reformas sobre reformas, desde as mais demagógicas e irresponsáveis até às mais bem intencionadas, mas condenadas ao insucesso, já que nunca tiveram como objectivo o cerne do problema. Aceitámos passivamente programas de qualidade cada vez mais duvidosa, para já não falar da respectiva implementação à sombra e como consequência da pressão de lobbies editoriais.

Quando o estado precisou de dinheiro (e cada vez precisa mais), assistimos à aberrante possibilidade de se comprarem anos de serviço, bastando para tal que se fizesse prova de que, por exemplo, se tinham dado explicações, para a qual bastava a palavra de uma testemunha, amigo ou familiar. Aqueles que não acreditaram que esta fraude fosse para a frente, prejudicaram-se; os outros, também: pagaram e foram enganados.

Ao longo de décadas, habituámos os sucessivos ministérios a tudo, desde comprarmos nós os lápis, canetas, papel, acetatos, e, já agora, porque não, computadores, a oferecermos horas e dias de trabalho muito para além das "famosas" 35 horas semanais, inclusive muitas vezes em período de férias, e não só não sendo recompensados por isso, como também não ganhando o respectivo subsídio de alimentação, como é o caso, pelo menos, da maioria dos conselhos executivos, por forma a possibilitarem o lançamento do ano lectivo seguinte no curto espaço de tempo que lhes é imposto.

Aceitamos passivamente as barbaridades que todos os dias, e cada vez mais, lemos e ouvimos nos jornais e nas televisões, com despudorada ignorância de uns, com a conivência de outros, porque é preciso arranjar culpados para o estado a que o ensino chegou. Somos talvez a classe, se é que a somos, com menor prestígio na opinião pública, ou pelo menos aquela em mais franco declínio, mas somo-la com a nossa quase total passividade e complacência, com a quase total passividade e complacência dos sindicatos, nos quais dificilmente nos revemos, e que perante tantos atropelos apenas se dignam titubear alguma indignação, que de tão inócua se torna ridícula.

Aos atentados do actual governo, respondemos com a continuação de uma completa contradição de opiniões, a começar pela própria posição dos diversos sindicatos, acerca por exemplo da escandalosa diferença da idade de reforma entre professores do 1.º ciclo e dos restantes, diferença que se prepara para aumentar ainda mais, numa carreira que no entanto é uma e a mesma. Assistimos à debandada de professores do 1.º ciclo, para entrarem no 2.º e 3.º ciclos, sem que para isso estivessem preparados nem tivessem habilitações. Deixámos que professores com o antigo 5.º ano liceal e dois anos de magistério primário tivessem direito a uma licenciatura, pelo simples facto de terem frequentado cinco cadeiras na Escola Superior de Educação, e se reformassem muito mais cedo do que os docentes dos outros ciclos de ensino, acedendo ao 10.º escalão da mesma carreira. A justificação da ausência, para aqueles, da redução da componente lectiva não passa de mais poeira atirada aos olhos de quem não vê, não sabe, ou, mais grave, não quer ver nem saber. Mesmo que de justificação se tratasse - mas não o é - façam-se as contas e converta-se a redução da componente lectiva em anos de serviço... e verifique-se a desproporção entre o que se pretende equiparar.

Perante tantos atropelos dos sucessivos governos, actualmente levados ao extremo da intolerância, respondemos apenas com perplexidade e indignação. Quando os sindicatos assim o entendem, convocam-se greves ineficazes, deixando complacentemente que nos acusem, logo a seguir, de prejudicar os alunos, como se qualquer greve não prejudicasse efectivamente os utentes do sector em causa. Nunca nenhum sindicato, que nos lembremos, implementou uma greve de zelo, aquela que mais impacto teria no quadro geral do sistema de ensino. Passássemos nós a exigir nas escolas as esferográficas e demais material necessário ao dia-a-dia. Passássemos nós a exigir a aquisição pelas escolas dos materiais indicados pelo próprio Ministério para o processo de ensino/aprendizagem das diversas disciplinas; apenas a título de exemplo, o novo programa da disciplina de Biologia do 12.º ano aponta para a existência, nas salas de aula, de um computador por cada dois alunos, todos com ligação à Internet!... Passássemos nós a cumprir os programas num processo de ensino de efectiva qualidade, que os alunos merecem, sem os atropelos e as pressões impostas pela natureza e pela extensão dos próprios programas. Passassem os conselhos executivos e respectivos assessores a gozar efectivamente os dias de férias a que têm direito. Passássemos nós a implementar estas e outras medidas - simples, legais, sem custos para a classe (que mais não são do que milhares de euros a entrar nos cofres do Estado) - e rapidamente veríamos o sistema cair por si próprio.

Aos atentados do actual Governo, respondemos com as "flores" que vamos fazer nas horas que vamos ser obrigados a marcar nos nossos horários. Nunca rejeitámos, nem rejeitamos, a hipótese de passar 35 horas semanais na escola. Pelo contrário, defendemos mesmo que a totalidade do horário dos professores, qualquer que fosse a sua duração, deveria ser vivida na escola. Só que, infelizmente, não estamos na Suécia, na Alemanha ou na Finlândia, ou noutro qualquer país onde as escolas têm gabinetes de trabalho condignos, com material de trabalho condigno, com condições de trabalho condignas. Esquecem se estes senhores que, em Portugal, ainda existem escolas que funcionam em contentores.

Assistimos à ideia de que hoje a perspectiva de vida é maior, o que é um facto, mas não se fala também que a sociedade mudou radicalmente, exigindo aos professores que se tornassem, além de pedagogos, psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, verdadeiros bombeiros em época de incêndios, apagando fogos por tudo quanto é lado. Comparam-nos sempre aos outros países da Europa, esquecendo se no entanto de mencionar, pelo menos, as condições de trabalho e as instalações. E quando o salário não é esquecido, fazem se comparações aberrantes, das quais resultaria a conclusão que, nalguns países, o salário dos respectivos professores seria, nalguns casos ... inferior ao respectivo salário mínimo nacional.

Efectivamente, os professores europeus estão mais horas na escola, particularmente na componente não lectiva, mas trabalham em conjunto, preparando estratégias, realizando trabalhos multidisciplinares, preparando aulas, fazendo e corrigindo testes. Pouco ou nada é feito em casa, solitariamente. Mais, enquanto nas nossas escolas professores com depressões gravíssimas se arrastam penosamente - é a classe profissional onde a taxa de doenças psiquiátricas é a mais elevada - na Alemanha, por exemplo, à primeira recaída de uma depressão tem-se direito à reforma por inteiro.

Partir do princípio de que, pelo facto de os professores passarem mais tempo na escola, se irá melhorar a qualidade de ensino, em actividades desmotivantes tanto para alunos como para professores, de sucesso duvidoso, é partir de um princípio errado. Mas tudo temos aceite, desde o trabalho burocrático, cada vez mais pesado e ineficaz, até presentemente perdermos direitos fundamentais, adquiridos no Estatuto da Carreira Docente.

Independentemente de filiações ou de ideias políticas, não temos qualquer dúvida de que nos encontramos actualmente perante o quadro político mais à direita desde, pelo menos, o 25 de Abril de 1974. As medidas do actual Governo, com as quais pactuamos por complacência da classe, não só não vão melhorar a qualidade de ensino e a vida nas escolas, como também não vão transformar em professores dedicados e cumpridores aqueles que nunca o foram, não são, nem serão. Pelo contrário, estas medidas vão criar desmotivação e desalento à maioria daqueles que toda a vida se dedicaram ao ensino e aos alunos, com abnegação e dedicação, dedicando lhes horas que nunca contabilizaram, muito para além de qualquer horário.

O ano agora iniciado é, assim, o primeiro em que não sentimos, infelizmente, a habitual vontade de começar. O que dizer, então, daqueles que, em início de carreira, são obrigados, para sobreviver, a aceitar horários em escolas que os afastam de toda a vida familiar, causando transtornos psicológicos e financeiros que não são mensuráveis?

Por fim, não podemos nem queremos deixar de louvar todos os colegas que, apesar de tudo e no actual contexto de ataque feroz aos professores, continuam abnegadamente a OFERECER o seu trabalho, a sua vontade e o seu saber, nas mais diversas tarefas.


Maria Emília Rodrigues e José Carlos Callixto
Professores da Escola Secundária de Sacavém


Publicado por sol em 09:03 PM | Comentários (15)

outubro 05, 2005

A escola e o tempo

No Dia Mundial do Professor, e celebrando o aniversário de uma amiga que viveu a docência com um elevado sentido de vocação, citam-se neste blogue alguns excertos de um livro de Cécile Ladjali em parceria com George Steiner, autor cujas posições sobre a cultura e o ensino nos vêm fascinando a ambas e alimentando um inquieto diálogo em torno dos caminhos e descaminhos da escola.

Hoje, a escola especializa-se, aposta no tecnicismo e menoriza a cultura científica e humanística, nomeadamente a literatura, virando costas à memória e às suas construções.

Hoje, planificamos todo o tempo dos jovens e das crianças, como se deixá-los entregues a si, e eventualmente ao tédio, fosse um risco. Roubamos-lhes assim o tempo de pensar, de sonhar(-se), de se confrontarem consigo-próprios. Infantilizamo-los e mantemo-los sob permamente ruído educacional, a que se soma o dos meios de comunicação e o do planeta inteiro cercado pelas correntes de bytes, de combustão, de tagarelice. Negamos-lhes a intimidade e o silêncio em que frutificam o pensamento e a criatividade. Privamo-los da memória e diluimos o seu sentido de pertença a uma história, a uma língua, a uma cultura.

Em busca de caminhos, pode chegar-se a livros como este, que não oferecem soluções, mas contributos; e aprender com a experiência alheia; e colher algum consolo no facto de outros suportarem as mesmas angústias e de colocarem as mesmas questões. Pois é por aí que se começa, por algo que, julgo, não fazemos suficientemente, nem na escola nem fora dela, um elementar exercício de humanidade e de cidadania: a questionação.


                                                                                           *  *  *


Cécile Ladjali: A escola não deveria ser uma escola de lentidão? Lentidão que se oporia à absurda velocidade dos tempos modernos, que parece incompatível com os ritmos da criança e a necessidade que ela tem de ter o seu tempo... e também de o perder?

George Steiner: Paciência, hesitação, lentidão. Ouça, foi Pascal que, como sempre, disse tudo: «Quando se consegue estar sentado numa cadeira, em silêncio, sozinho num quarto, teve-se uma grande educação.» E é terrivelmente difícil.

Cécile Ladjali: Paciência, simplicidade, despojamento. Para trabalhar com os meus alunos, preciso de uma mesa, de um lápis, de um livro. Penso que os alunos perderam esta relação indispensável com a simplicidade, com o espanto simples ― se é possível que ele seja simples ― diante de um grande texto. O que é desastroso ― falava-se de técnica e dessa falta de gratuidade no acto de aprender ―, é que os nossos alunos são terrivelmente pragmáticos, querem constatar os resultados imediatamente.[...]

George Steiner: Cécile, escreva no quadro a frase de Martin Heidegger: «Se quereis respostas, fazei ciências. Se quereis perguntas, lede poesia.» Isso ajuda, porque também é um exercício de paciência.
[...]
Sempre disse aos meus alunos: «Não se negoceiam as nossas paixões. As coisas que vou tentar apresentar-vos são coisas de que gosto muito. Não posso justificá-las.» [...] A pior coisa é tentar uma dialéctica da desculpa, da apologética, o que eu censuro ao ensino actual, e de que você parece ser uma belíssima excepção; é a apologética de ter vergonha das paixões. Se o estudante sente que somos um pouco loucos, que estamos possuídos por aquilo que ensinamos, é já um primeiro passo. Não vai estar de acordo, talvez se ria, mas ouvirá. É nesse momento milagroso que o diálogo começa a estabelecer-se com uma paixão.

George Steiner e Cécile Ladjali, Elogio da Transmissão: O Professor e o Aluno, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2004


Publicado por sol em 03:03 PM | Comentários (21)