julho 29, 2005

Enumeração

cronológica de surpresas felizes:

- recebi duas prendas: podem ser vistas aqui e aqui; obrigada, Ricardo e Manuel.

- um amigo emergiu do casulo e abriu as asas; bem vindo, b.


Publicado por sol em 09:17 AM | Comentários (6)

julho 20, 2005

Onde param os gatos?

Agradecendo a umblogsobrekleist a gentil e bem humorada referência e o contributo para a Arca da Jade , aqui fica um gato. Francês, naturalmente.

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foto de Jean-Didier Risler, Trocadéro, Paris

Publicado por sol em 12:30 AM | Comentários (19)

julho 13, 2005

Homo Consumens

Há algum conforto em ouvir, de outros, os ecos das nossas próprias e longas angústias.


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pintura rupestre-tribo (Qued Messak)


Embora as problemáticas políticas, económicas, sociais e ecológicas sejam inegavelmente de primeiríssima importância e exijam uma rápida resolução, sob pena de a humanidade inteira se afundar num caos irreversível e apocalíptico, o perigo da morte da cultura apresenta-se como uma ameaça menos espectacular e talvez menos destrutiva numa primeira instância, mas não menos mortífera para a continuidade da espécie humana e para a sua identidade profunda. Ao inquietarmo-nos pelo futuro dos nossos filhos, insistimos sobretudo na sua integridade física, segurança laboral, protecção social, bem-estar económico, sem nos preocuparmos tanto com o problema da desumanização e da idiotização por falta de cultura ou pela instauração de uma subcultura planetária e única.

[...]

O tema complica-se perante um discurso defensor da chamada cultura “popular”, em contraposição à cultura “elitista”. O debate não é de agora, mas pode ser necessário repensar estas noções num contexto cultural onde impera, acima de qualquer destes conceitos, o de cultura “de mercado” (que, ao privilegiar o valor mercantil do objecto cultural, não é verdadeira cultura, actuando sobre esta como agente de destruição).

[...]

O popular pode definir-se, antes de tudo, por ser acessível a um número cada vez maior de indivíduos, o que é permitido pelas tecnologias de reprodução, de difusão e de distribuição das obras. Se Mozart não foi “popular” na sua época, tal não resultou fundamentalmente da dificuldade da sua linguagem musical (que é bastante acessível) – ou seja, não resultou da forma nem do conteúdo, mas sim da necessidade de se fazer parte de uma certa elite social para ter acesso às suas obras. A democratização confunde-se aqui com popularização.

[...]

As coisas equacionam-se actualmente noutros termos, que se relacionam com a educação. (…) Se o “povo” prefere os livros de Stephen King aos de José Saramago, ou vai mais facilmente assistir a uma superprodução de Hollywood do que a um filme de Abbas Kiarostami, não é apenas por uma questão de publicidade – que obviamente tem um peso considerável – de acessibilidade ou do aliciante da “obra”, mas também, indo à origem da problemática, porque, desde crianças e adolescentes, são condicionados como futuros consumidores de determinados produtos, e habituados exclusivamente a um número restrito e prefixado de formas e conteúdos.

Por definição, ao consumidor deve limitar-se a capacidade crítica e de reflexão, preparando-o acima de tudo como receptor acéfalo de publicidade, incluindo nesta não apenas as mensagens destinadas a vender produtos, mas toda uma semântica e sintaxe literárias, cinematográficas e culturais em geral, que veiculam modelos de vida e de pensamento consensuais. Neste sentido, é legítimo estabelecer um nexo concreto entre “publicidade” e “cultura popular”.

Se se ensinassem as crianças, desde o princípio, a ler determinada literatura ou a ver derterminados filmes, poderia acontecer que Kafka ou Bergman se tornassem “populares”. Então por que não se faz? Porque, especialmente na literatura (incluindo o teatro e a poesia), e no cinema, cujos conteúdos costumam ter uma retórica com sentidos mais explícitos, as obras de qualidade têm a particularidade, definidora de toda a obra de arte autêntica, de convidar à reflexão individual, à não aceitação de regras estabelecidas, à liberdade de pensamento. Há-de convir-se que isto não propicia a ductilidade e a docilidade necessárias para converter o indivíduo num “bom” consumidor…

Algo que aparece como uma ideia progressista, mas que deve alarmar-nos, é a alfabetização por meio da imprensa escrita (...). Aprender a ler ou desenvolver o hábito da leitura através dos jornais pode parecer louvável, mas no fundo não é mais que uma preparação para que, em adultos, os indivíduos aceitem plenamente os conteúdos dos meios de comunicação, que são de índole cada vez mais propagandística e cada vez menos formadora e informadora.


Miguel Machalski, Extinción de la cultura, em revista "Malabia:: arte cultura y sociedad", Año 2, Número 14, Julio 2005 (tradução e sublinhados meus)

Ler o artigo na íntegra aqui


Publicado por sol em 09:17 PM | Comentários (12)

julho 06, 2005

A esperança é a gramática

A nossa condição biossomática é fundamentalmente limitada e interrompida pela extinção pessoal. É uma presa perpétua da enfermidade, da doença, da decomposição e das deficiências. O recém-nascido já tem idade para morrer (Montaigne). Uma retórica gasta, mas válida, insiste na brevidade, na brutalidade, na fealdade e no tédio fundamental da maioria das vidas, naquilo que Thoreau designou por «sereno desespero», ou o desespero nem sempre sereno que apenas nos abandona nas horas de excepção, nas ilusões ou epifanias que visitam qualquer vita comum. O postulado grego de que «o melhor é morrer jovem e melhor ainda é não nascer» reveste-se de um realismo irrefutável, sendo a velhice, com raríssimas excepções, um desperdício bafiento, uma incontinência de mente e corpo acentuada pela memória do que não se fez.

Em que se fundam então as nossas esperanças persistentes, os nossos planos para o futuro, os nossos sonhos e utopias, públicos e privados? Em que se baseia o radioso escândalo do nosso investimento no amanhã, no depois de amanhã? Em que radica a «vida de mentira», a aposta na improbabilidade que faz com que a maioria dos indivíduos e sociedades rejeitem, apesar das recorrentes excepções, a lógica do desespero e do suicídio? Em resumo: o que é que faz crescer a grande maré do desejo, das expectativas, de uma obsessão com a vitória sobre a dor, o ramerrão da tortura, a escravatura, a injustiça e os massacres que fazem a história?

Acredito que esta libertação dos constrangimentos físicos, da parede branca da nossa própria morte e de uma aparente eternidade de desilusões pessoais e colectivas, é crucialmente linguística. Bio-socialmente somos de facto mamíferos de curto prazo, votados à extinção, como todas as outras espécies. Mas nós somos animais de linguagem, e é este atributo que, mais do que qualquer outro, faz com que o nosso estado efémero seja suportável e profícuo. A evolução no discurso humano (possivelmente tardia), dos conjuntivos, dos optativos, dos condicionais contrafactuais e das formas verbais que exprimem o futuro (nem todas as línguas têm tempos), definiu e salvaguardou a nossa humanidade. É por sermos capazes de contar histórias, sejam elas fictícias ou matemático-cosmológicas, sobre um universo criado há biliões de anos; é por sermos capazes de, como já referi, discutir e conceber a manhã de segunda-feira depois da nossa cremação; é por os nossos «se» («Se eu ganhasse a lotaria», «Se Schubert tivesse atingido a maturidade», «Se encontrarem uma vacina contra a sida») serem capazes de, a seu bel-prazer, negarem, reconstruírem e alterarem o passado, o presente e o futuro, delineando de outro modo os determinantes da realidade pragmática; é por isto que a existência continua a valer a pena. A esperança é a gramática.

George Steiner, Errata: Revisões de Uma Vida, Col. Antropos, Relógio D'Água Editores, Lisboa, 2001

Publicado por sol em 09:40 PM | Comentários (12)

julho 05, 2005

Le Temps des Cerises

Retomando em Julho uma entrada de Fevereiro


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Julian Merrow-Smith


Letra de Jean-Baptiste Clément e música de Antoine Renard (1867); interpretação de Yves Montand


Publicado por sol em 12:25 AM | Comentários (37)

julho 01, 2005

Day is done


Nick Drake, Five Leaves Left, 1969

Publicado por sol em 03:22 PM | Comentários (8)