maio 30, 2005

O amigo

AngeloSousa.JPG




Não voltará - o que dele me ficou
é como no inverno entre cortinas
de chuva um tímido fio de sol:
ilumina mas não aquece as mãos.

Eugénio de Andrade, Pequeno Formato, em Antologia Breve, Fundação Eugénio de Andrade, 7ª ed, Porto, 1999

Publicado por sol em 10:31 AM

maio 20, 2005

O Escritor Prodigioso

sena.jpg

Notícia aqui.

                           *    *    *

GLOSA À CHEGADA DO OUTONO

O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.

                                                                                     28/8/1958

Jorge de Sena, Antologia Poética



Publicado por sol em 05:43 PM | Comentários (10)

maio 17, 2005

...e seria tão fácil

Ficava surpreendido, contra a minha vontade, pela extraordinária insignificância das nossas faltas mais graves, pelo escasso lugar que ocupariam na nossa vida, se o remorso não as prolongasse no tempo. O nosso corpo esquece como a nossa alma; talvez isso explique, nalguns de nós, renovadas inocências. (...)

Venci. À custa de recaídas miseráveis e de mais miseráveis vitórias, consegui viver um ano inteiro como teria desejado viver toda a minha vida. (...) Não pretendo exagerar o meu mérito: ter o mérito de se abster de uma falta é uma maneira de ser culpado. Dirigimos por vezes os nossos actos; não tanto os nossos pensamentos; não dirigimos os nossos sonhos. (...) Assim, eu amara a vida. (...) Mas detesta-se a vida, quando se sofre. (...)

Tornei-me duro. (...) Receava o amolecimento proporcionado pelas sensações suaves; acabei por detestar a natureza, devido às carícias da Primavera. (...)

O Inverno a seguir foi um Inverno chuvoso. Apanhei frio. (...) Esse resfriamento, que não tratei, veio debilitar-me ainda mais: voltei a adoecer, e desta vez com muita gravidade. (...)

Quando melhorei, quando consegui erguer-me na cama, o meu espírito, débil ainda, continuava incapaz de reflexões muito prolongadas; foi por intermédio do meu corpo que me chegaram as primeiras alegrias. Revejo a beleza, quase sagrada, do pão, o humilde raio de sol em que eu aquecia o rosto, e o atordoamento que a vida me causou. Até que um dia pude assomar à janela aberta. Morava numa simples rua pardacenta dos arredores de Viena, mas há momentos em que basta uma árvore despontando atrás de um muro para nos lembrar que existem florestas. Tive, nesse dia, através de todo o meu corpo espantado por voltar a viver, a minha segunda revelação da beleza do mundo. (...) chorei só de pensar que a vida era tão simples, e seria tão fácil se nós próprios fôssemos suficientemente simples para a aceitar.

Marguerite Yourcenar, Alexis ou o Tratado do Vão Combate, Difel, Lisboa, 1988

Publicado por sol em 07:50 AM | Comentários (14)

maio 05, 2005

Pequeno Calendário - 7

ave.JPG
João, 2005

Publicado por sol em 02:52 PM | Comentários (19)

maio 01, 2005

La Luna

Solitude.jpg
Paul Delvaux *


Hay tanta soledad en ese oro.
La luna de las noches no es la luna
que vio el primer Adán. Los largos siglos
de la vigilia humana la han colmado
de antiguo llanto. Mírala. Es tu espejo.

Jorge Luis Borges, Antología Poética 1923-1977, Biblioteca Borges, Alianza Editorial, Madrid, 2002



* Imagem oferecida por ocasião do primeiro aniversário do Nocturno com Gatos. Reproduzo-a, com os meus agradecimentos a mb.