março 30, 2005

Se descalzan los dias

chagall3.JPG
Chagall


Se descalzan los días
para pasar de largo sin que nos demos cuenta.
Son casi despedidas, casi encuentros
– felices pero incómodos –
de cuerpos que se miran
y que aplazan la cita.
                      Aunque detrás,
suelen quedarnos huellas que no son los recuerdos.

De aquel jardín inculto yo conservo
el hombre que venía a desearte,
a caminar sin ti,
silvestre y solo.
Porque de ti le hablaban las adelfas,
con sus ramas difíciles como muchachas jóvenes,
y las palmeras altas igual que tu desnudo,
y aquel cielo corrido
que buscaba
la luz con que el amor te distingue los ojos.

No envejecemos nunca. Tal vez no envejecemos.

Y ahora puedo decírtelo,
cuando tú me recuerdas las adelfas,
y tu desnudo en arco dibuja una palmera,
y los ojos se nublan
sobre el jardín silvestre de los enamorados.

Tal vez no envejecemos. O es acaso que el tiempo
se quitó los tacones para no molestarnos.
O es acaso el deseo
que camina en los labios todavía descalzo.


Luis García Montero


Publicado por sol em 11:59 PM | Comentários (29)

março 23, 2005

All things are quiet silent


Steeleye Span, Hark The Village Wait, 1970

Publicado por sol em 11:50 AM | Comentários (16)

março 18, 2005

Do poder das palavras

Nos comentários ao poema anterior falou-se, naturalmente, de palavras. Às vezes, "umas chatas", disse o Paulo; um "círculo de luz", disse o Jorge; "perigosas ou inocentes e ambas as coisas", citou o Zef; e a mb ocorreu que um dia eu lhe dissera serem os melros os goliardos entre as aves.

Lembrei-me assim de Heloísa e Pedro Abelardo, de quem alguns dizem ter sido o percursor dos goliardos. Lembrei-me em particular das cartas que trocaram, sobretudo a primeira que, do convento de Paraclet, Heloísa envia a Abelardo - espécie de gatilho da comunicação. Lendo-a, quem poderá dizer que as palavras são inermes?

Encontrei há tempos, na revista online da Faculdade de Filosofia e Humanidades da Universidade do Chile, um ensaio acerca dessa primeira carta, ensaio que percorri com agrado e alguma malícia: porque Heloísa foi mulher e viveu há novecentos anos. E como argumenta bem com o mestre da Lógica - e o persuade! O ensaio é longo. Reproduzo aqui, traduzindo-os livremente, apenas alguns excertos sobre a natureza e o alcance do discurso amoroso.


Lettres_Eloise1.JPG


                        HELOÍSA E ABELARDO: PALAVRAS DE AMOR

                                              María del Pilar Jarpa Manzur
                                 Universidad Metropolitana de Ciencias de la Educación

(...)

A primeira carta de Heloísa a Abelardo confessa uma petição de palavra. Através de argumentos que deslizam e se cruzam no texto, Heloísa implora traços da boca ou da mão do seu amado. Como numa ode, enaltece o poder da palavra. As suas cartas não contêm apenas um discurso acerca do amor, mas também o discurso do amor.
(...)

No entanto, que podia esperar Heloísa de Abelardo, se todo o contexto da sua relação se tinha desvanecido? Se todos os prazeres lhes tinham sido arrebatados? Se Abelardo era agora mudo para a linguagem erótica dos amantes?

Surgia então a palavra como possibilidade - talvez a única - do reencontro amoroso; como um antídoto contra a saudade e a melancolia; como um espelho em cujo reflexo regressaria - intacto - o ser amado.
(...)

A linguagem, forjada em cartas, concede-lhes a oportunidade de se contemplarem, de se tentarem, de regressarem um ao outro. «É como se tivesse palavras à maneira de dedos, ou dedos na extremidade das minhas palavras.» (Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso).
(...)

Desta perspectiva, a do amor, [as palavras] não podem ser vistas como meras etiquetas, meras instruções desvinculadas do real. Ancoradas no profundo do mundo, ligam-se 'realmente' ao que significam, e também a quem as profere e a quem as acolhe. E de tal maneira se tornam imprescindíveis, pois sustentam a alma.

Assim, a linguagem é erigida a lugar primordial da comunicação, do encontro e da consolidação. O desvelar do ser que se efectua através delas é também sustento para o enamorado. Aos que se encontram a mundos de distância, aos que se amam a contratempo, as palavras oferecem sortilégios.

No último vaivém da agonia, a ausência do outro torna-se intransigente, devastadora. Sem palavras tudo é queda, tudo é esquecimento, e perguntar-se-á como podem elas suster a alma. Responderemos que quando o amor já se não pode escrever na pele, talvez as palavras confiram um refúgio onde a fusão seja possível, onde o amor torne a dizer-se a duas vozes.
(...)

Abelardo dedicará até ao fim dos seus dias muitas palavras a Heloísa: cartas, tratados e até a sua controversa declaração de Fé. Mas nunca mais, nem dos seus lábios nem da sua pena, Heloísa voltou a ouvir palavras de amor... Pelo menos é isso que nos contam os vazios que o tempo costuma deixar.

em: http://www.uchile.cl/facultades/filosofia/publicaciones/cyber/cyber10/mjarpa.html#13



Publicado por sol em 09:59 AM | Comentários (37)

março 08, 2005

Uma casa que canta

Em agradecimento a todos os amigos, em especial ao Zef, que animaram o Nocturno com Gatos por ocasião da 20.000ª visita, e pedindo desculpas pela ausência da anfitriã, ofereço uma casa que canta e umas flores de Van Gogh.

VG-ramo de amendoeira.jpgramo de amendoeira

ESTA CASA

Gosto dela assim: ainda vibrante dos passos
que a deixaram a sós comigo
                                               desobrigada
de abrigar seus moradores
                                             Comigo é
diferente:
                 não me limito a usá-la
a habitá-la:
                 namoro com ela
                                             Comigo
abandona-se a seus mais íntimos rumores
e cheiros
                 e aliviada do dever de ser útil
em silêncio
                 canta

Teresa Rita Lopes, Afectos, Editorial Presença, Lisboa, 2000



Publicado por sol em 09:37 PM | Comentários (18)