janeiro 24, 2005

Escuta, Zé Ninguém!

Incompreendido à esquerda e amaldiçoado à direita, Reich escreveu, em 1945, para os arquivos do Instituto Orgone, esta resposta-reflexão sobre as calúnias e as perseguições de que foi alvo. Em 1956 será julgado e condenado a dois anos de prisão. Morreu na penitenciária de Ludwigburg, na Pensilvânia.

Escuta, Zé Ninguém! foi uma das leituras decisivas da minha juventude, e por ele me indaguei e ao mundo, no inconformismo, na utopia, na generosidade de Reich, na busca da compreensão do Humano. Folheio o livro nesta segunda-feira de Inverno, leio-o em diagonal — a capa e as páginas marcadas, os sublinhados quase delidos, a esperança de achar a esperança de um sentido.


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                                                     * * *

Chamam-te «Zé Ninguém!», «Homem Comum» e, ao que dizem, começou a tua era, a «Era do Homem Comum». Mas não és tu que o dizes, Zé Ninguém, são eles, os vice-presidentes das grandes nações, os importantes dirigentes do proletariado, os filhos da burguesia arrependidos, os homens de Estado e os filósofos. Dão-te o futuro mas não te perguntam pelo passado. Tu és herdeiro de um passado terrível. A tua herança queima-te as mãos, e sou eu que to digo. (...)

Deixas que os homens no poder o assumam em teu nome. Mas tu mesmo nada dizes. Conferes aos homens que detêm o poder, quando não o conferes a importantes mal intencionados, mais poder ainda para te representarem. E só demasiado tarde reconheces que te enganaram uma vez mais. (…)

Tu mesmo te desprezas, Zé Ninguém. Dizes: «Quem sou eu para ter opinião própria, para decidir da minha própria vida e ter o mundo por meu?» E tens razão: Quem és tu para reclamar direitos sobre a tua vida? Deixa-me dizer-to.

Diferes dos grandes homens que verdadeiramente o são apenas num ponto: todo o grande homem foi outrora um Zé Ninguém que desenvolveu apenas uma outra qualidade: a de reconhecer as áreas em que havia limitações e estreiteza no seu modo de pensar e agir. Através de qualquer tarefa que o apaixonasse, aprendeu a sentir cada vez melhor aquilo em que a sua pequenez e mediocridade ameaçavam a sua felicidade. O grande homem é, pois, aquele que reconhece quando e em que é pequeno. O homem pequeno é aquele que não reconhece a sua pequenez e teme reconhecê-la; que procura mascarar a sua tacanhez e estreiteza de vistas com ilusões de força e grandeza, força e grandeza alheias. Que se orgulha dos seus grandes generais mas não de si próprio. Que admira as ideias que não teve mas nunca as que teve. Que acredita mais arraigadamente nas coisas que menos entende, e que não acredita no que quer que lhe pareça fácil de assimilar. (...)

E dizem-te sem rebuços que tu, a tua vida, os teus filhos e a tua família não contam, que és estúpido e subserviente e que podem fazer de ti o que lhes aprouver. E em vez de liberdade pessoal prometem-te liberdade nacional. Não te prometem dignidade pessoal mas respeito pelo Estado; grandeza nacional em vez de grandeza pessoal. E como «liberdade pessoal» e «grandeza» são para ti apenas conceitos estranhos e obscuros, enquanto «liberdade nacional» e «interesses do Estado» são palavras que te enchem a boca, como ossos que fazem nascer a água na boca de um cão, não há amen que não lhes dês. (…)

Eu sei que não és apenas medíocre, Zé Ninguém. Sei que também tens as tuas grandes horas na vida, momentos de «júbilo» e «exaltação», de «voo». Mas falta-te a coragem para subir cada vez mais alto, para manter a tua própria exaltação. Tens medo de altos voos, medo da altura e da profundidade. Nietzsche já te disse isto muito melhor, há muitos anos já. Só que não te disse porque é que és assim. Tentou transformar-te num super-homem, um Übermensch que superasse o que tens de humano. O Übermensch tornou-se «Führer Hitler.» Tu permaneceste «Üntermensch ». Eu gostaria apenas que fosses tu próprio. Tu próprio, em vez do jornal que lês ou da balofa opinião do vizinho. (…)

Queres saber o que és, Zé Ninguém? Ouves os anúncios publicitários dos teus laxantes, das tuas pastas de dentes e desodorizantes. Mas não ouves a música da propaganda. Não distingues a abissal estupidez e o mau gosto de coisas que se destinam a ficar-te no ouvido. (…)

Continuarás através dos séculos a seguir embusteiros e energúmenos, cego e surdo ao apelo da VIDA, A TUA PRÓPRIA VIDA. Porque tu temes a vida, Zé Ninguém, e a destróis na crença de que o fazes em nome do «socialismo», ou do «Estado», ou da «honra nacional», ou da «glória de Deus». Há algo, no entanto, que não sabes ou não queres saber: que és tu que geras a tua própria miséria, hora após hora, dia após dia; que não entendes os teus filhos e que tu próprio lhes partes a espinha antes de terem sequer uma oportunidade de desenvolver-se; que devoras o amor; que és avaro e ávido de poder — que manténs o cão preso para te sentires «dono». Caminharás errante através dos séculos e estarás condenado à mesma morte em massa dos teus iguais no meio da miséria social generalizada; até que do horror da tua existência possa surgir-te um escasso núcleo de lucidez. (…)

«Mas, então, eu não sou nada! Parece que não me reconheces um único traço positivo! Afinal, que diabo, trabalho que me farto, sustento a minha mulher e os meus filhos, levo uma vida decente e sirvo o meu país. Não posso ser tão estupor quanto isso!»

Sei que és uma criatura capaz, sólida, com qualidades de trabalho, tal como uma abelha ou uma formiga. Tudo o que tentei foi pôr-te à mostra o que tens de medíocre e te destrói a vida há já milhares de anos. És GRANDE, Zé Ninguém, quando não és medíocre e mesquinho. A tua grandeza é a única esperança que nos resta a todos. És grande quando desempenhas com gosto a tua tarefa, quando trabalhas na alegria a madeira, quando constróis, quando pintas e embelezas os teus espaços, quando trabalhas a terra, quando contemplas o céu na quietude e te comprazes na existência dos animais simples, no orvalho, quando danças e cantas, quando amas a beleza dos teus filhos, o corpo do homem ou da mulher que escolheste; quando vais até um planetário tentar entender o espaço ou a uma biblioteca ler o que pensaram da vida outros homens e mulheres. És grande na tua velhice, com o teu neto no colo, dizendo-lhe como foi outrora, respondendo à sua curiosidade confiante. És grande quando és mãe, embalando o teu filho nos braços, o coração cheio de esperança de que para ele venham melhores dias, a felicidade que, hora a hora, lhe vais construindo. (...)

Existe apenas uma única coisa que vale a pena: viver bem e alegremente a própria vida. Escuta a voz do teu coração, ainda que tenhas de afastar-te do caminho trilhado pelos timoratos. E não consintas que o sofrimento te torne duro e amargo. (...) E desejaria então que a vida aprendesse a defender os seus direitos, que fosse possível modificar os espíritos duros e os medrosos, que só fazem troar os canhões porque a vida os desapontou.»


Wilhelm Reich, Escuta, Zé Ninguém!, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1974

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janeiro 19, 2005

Voltar a nascer

Eugénio de Andrade faz hoje 82 anos. E há um silêncio em torno dele, um silêncio cuja qualidade conheço - conheci em outras situações. Um silêncio de que não gosto.

Então celebro: o esplendor das palavras e todos os princípios que nelas germinam.




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Tom Chambers


Escrevo já com a noite
em casa. Escrevo
sobre a manhã em que escutava
o rumor da cal ou do lume,
e eras tu somente
a dizer o meu nome.
Escrevo para levar à boca
o sabor da primeira
boca que beijei a tremer.
Escrevo para subir às fontes.
E voltar a nascer.


Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede, Fundação Eugénio de Andrade, Porto, 2001

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janeiro 17, 2005

Apontamento nostálgico

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Jeane Vogel, raposa do deserto




«Do desespero, meu amor, trouxe o cestinho mais pequeno
que se pôde entrelaçar em vime.»

René Char, A Companheira do Cesteiro (excerto), em Furor e Mistério, Relógio D'Água Editores

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janeiro 13, 2005

Memória de Inês de Castro

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Constantin Brancusi


Há qualquer coisa de miraculoso no encontro em que Pedro repara pela primeira vez, com atenção, em Inês. O infante tinha chegado da Atouguia, com seu ar despreocupado, meio aborrecido e cheio de uma sede insaciável. Foi Inês que preparou na cozinha a bebida de Pedro. Ele agradeceu ligeiramente com a cabeça e bebeu, sem reparar em mais nada. Quando ergueu a cabeça e fitou o rosto de Inês, reparou, intrigado, que os cabelos desta pareciam despedir labaredas. Era um lume que crepitava em silêncio. Foi então que Inês, de forma inesperada, lhe encostou a ponta dos dedos na face. Todas as margens do ser, a esse contacto, foram incendiadas, os diques derrubados. Foi, porém, um gesto inocente, quase pueril. A célebre gaguez de Pedro pode datar desse instante. O amor foi nele o terror dum susto. [...]

Inês ganhou Pedro e depois a própria coroa portuguesa, não por um privilégio de matrimónio, mas pelo privilégio humano dos seus próprios dons. Ela encarnava qualidades humanas raras e todo o seu corpo era a expressão silenciosa das mais altas virtudes do homem. [...]

- Senhora, abri, que é El-Rei de Portugal.
Inês estava junto da janela onde esvoaçava o lençol branco do seu enxoval. Mandou Fátima ir passear pela alameda com as crianças. A solidão do aposento apareceu-lhe como a expressão do seu sacrifício. Preparava-se para a morte como se tinha antes preparado para o amor. Penteou-se e vestiu-se de branco. Inês vestiu-se de branco para morrer e pôs nas mãos um colar de pedras que Pedro lhe dera. E fê-lo, não para interpelar Afonso, mas para mostrar à morte a sua aliança com a vida. [...]

A entrada do rei e dos seus conselheiros nos aposentos de Inês foi intempestiva. Vinham sobretudo preparados para um longo desacordo com Inês, mas a gelada indiferença desta petrificou-lhes os intentos. Todas as tradicionais hesitações atribuídas a Afonso no momento de assassinar Inês devem-se justamente à inesperada atitude dela: nem filhos nem palavras. É fácil vencer um opositor armado e feroz, mas é difícil matar uma mulher que, em vez de brandir argumentos, nos apresenta um vestido branco cheio de silêncio. [...]

O sol declinava no horizonte. Afonso trazia enfim a mão manchada de sangue e os olhos baixos. [...]

Pedro, de madrugada, quando chegou à alameda dos olhos de água, onde hoje é a fonte dos amores, avistou o lençol branco a esvoaçar ao vento. Teve de arrombar sucessivas portas fechadas, no palácio deserto, enquanto gritava desalmadamente por Inês. Quando viu o corpo de Inês desfeito em sangue, a voz ficou-lhe presa na garganta. A célebre gaguez de Pedro, tão falada por Femão Lopes, não era congénita. A gaguez de Pedro foi a consequência imediata da morte de Inês. Se o amor, em vida de Inês, lhe tirou o significado das palavras, o amor, com a morte, tirou-lhe para sempre a fala. Era de madrugada e em Coimbra levantavam-se os primeiros rumores sobre a morte de Inês de Castro. Amanheceu baço e sem luz aquilo que foi o dia.

António Cândido Franco, Memória de Inês de Castro, Publicações Europa-América, Lisboa, 1990


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janeiro 11, 2005

A Rainha Arcaica

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                             V
           EU ERA MOÇA, MENINA...

Eu era moça, menina, em meus paços
muito honrada, por nome Inês de Castro
quando o vi no Mondego, inquieto e esgalgo,
a sitiar-me a fímbria das espáduas.
Era o infante meu primo, ajaezado,
o dinasta afonsino com seus gládios,
seus cães de fino faro em meu encalço
no afã de decifrar-me a foz do orgasmo.
Ele se veio a mim como quem sabe
que à fêmea apraz o macho sem alarde.
Nada pediu. Quis-me. Fiz-lhe a vontade.
E a sorte, bem sabeis, lançada estava
quando o vi no Mondego (e já era tarde
para o perdão de Portugal e o Algarve).


                             VI
           INÊS E CONSTANÇA

Foi de Castela que vieram as duas
ao encontro do infante e do infortúnio:
Constança, a que jamais lhe aprouve à gula;
e a outra, que lhe coube como adúltera.
Vieram ambas de Castela: uma,
de alta linhagem e trânsfuga luxúria;
e Inês, a de Galiza e coma ruiva,
também fidalga, mas de berço avulso.
E desde logo perceberam as duas
que dele ao todo não seriam nunca,
nem nesta terra nem em parte alguma,
nem como esposas nem rainhas suas:
a que desceu antes de sê-lo ao túmulo
e a que somente o foi quando defunta.

                            IX
            MORTE DE INÊS

Foram dois, sim, que deles guardo a injúria
sepulta neste pélago do mundo,
onde mais nada me apetece ou pulsa
e em vão meus lábios rezam a pedras mudas
Sim, foram dois, eu sei, alfanje em punho
que se soltaram contra mim, aduncos,
com garras de rapina e cenho duro
tão logo el-rei foi surdo às minhas súplicas
e à fala que lhe fiz entre soluços,
pondo ali de redor meus três miúdos.
À vista deles trespassou-me o gume
como um dilúvio de aguilhões e acúleos.
Que dor, infante, a de não mais ser tua!
E foi então que a noite me fez sua.


                             XII
           VAI NUMAS ANDAS...

            . . . sempre o seu corpo foi per todo o caminho per antre círios acesos.
                        Femão Lopes, Crónica de D. Pedro I, cap. XLIV

Por entre a luz dos círios, sob a névoa,
navega o féretro de uma donzela.
Vai numas andas que os fidalgos levam
em lento périplo ao redor das glebas.
E voa assim por dezassete léguas
que entre Alcobaça e as serras se enovelam.
Vai leve o séquito em seu curso aéreo
ao som do réquiem que sussurram os clérigos.
Flameja a infanta sobre um mar de flechas
e nave adentro flui rumo à capela,
cerca de Pedro, que na pedra a espera
e em pedra a entalha da coroa aos pés.
Descansa Inês, longe dos reis terrestres,
Pois que outro reino agora te celebra.

                             XIII
           INÊS, RAINHA PÓSTUMA

Estavas, linda Inês, póstuma e lívida,
como se a vida em ti não mais fluísse,
mas quem te contemplasse saberia
que eras enfim o nervo do conflito:
não tanto aquele que te fez a vítima
dos reis e das intrigas da península,
mas o que dentro de ti mesma urdiram
teu sangue abrupto e teu amor sem bridas.
Por isso é que o sossego não te cinge
nem te refreia o frémito do instinto
que ainda fustiga o flanco de tuas cinzas.
Ali, na pedra, és de ti própria a epígrafe:
princípio e fim da mísera e mesquinha
que despois de ser morta foy Rainha.


Ivan Junqueira, A Rainha Arcaica, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1980




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1964 - II

Ya no seré feliz. Tal vez no importa.
Hay tantas otras cosas en el mundo;
Un instante cualquiera es más profundo
Y diverso que el mar. La vida es corta
Y aunque las horas son tan largas, una
Oscura maravilla nos acecha,
La muerte, ese otro mar, esa otra flecha
Que nos libra del sol y de la luna
Y del amor. La dicha que me diste
Y me quitaste debe ser borrada;
Lo que era todo tiene que ser nada.
Sólo me queda el goce de estar triste,
Esa vana costumbre que me inclina
Al Sur, a cierta puerta, a cierta esquina.


Jorge Luis Borges, El Otro, El Mismo, in Obras Completas, Tomo II, Emecé Editores, Barcelona, 1989

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janeiro 03, 2005

Pequeno Calendário - 6



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Afonso, 2004 - Via Láctea

Publicado por sol em 11:53 PM | Comentários (10)