dezembro 23, 2004

O mais luminoso

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Fra Angélico

«Amor é um dos nomes de Deus, justamente o mais luminoso.»

           Eugénio de Andrade, Tão perto do coração

Publicado por sol em 02:10 AM | Comentários (53)

dezembro 18, 2004

Castelo de cinco quinas

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A torre de menagem, de base pentagonal, deu origem à quadra que aprendíamos a dizer ainda antes de chegarmos aos bancos da escola:

Castelo de cinco quinas
Só há um em Portugal
Que fica à beira do Côa
Na vila do Sabugal.

"Cidade" tem uma sílaba a mais e destrói a redondilha; tem oclusivas a mais e cria cacofonias; "cidade" não faz sentido nenhum.

O meu amigo Zef envia-me este poema de Bandeira, com dedicatória sua - um texto deliciosamente arcaizante (arcaica me sinto também) quando a vila onde nasci é elevada a cidade. Bem-haja, Zef.

             * * *

«Rimas dedicadas a uma dama que, por natura, ama uma terra que tem povo e rio que não vivem um sem o outro, a quem desmiolados embrulharam em nome de cidade, o que é prazer de novos-ricos e patos bravos e edis aparentados com faunas de quintas de celebridades, sabedoras, as ditas rimas, de que a dita dama arrenega de tais disparates. E vão escritas em Manuel Bandeira por declarada falta de jeito do presente escriba:

Saí menino de minha terra.
Passei trinta anos longe dela.
De vez em quando me diziam:
Sua terra está completamente mudada,
Tem avenidas, arranha-céus.
É hoje uma bonita cidade!

Meu coração ficava pequenino.

Revi afinal o meu Recife.
Está de fato completamente mudado.
Tem avenidas, arranha-céus.
É hoje uma bonita cidade.

Diabo leve quem pôs bonita a minha terra!

(in: "Belo Belo")»

Publicado por sol em 12:16 AM | Comentários (8)

dezembro 15, 2004

À beira de água

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Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.


Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede, Fundação Eugénio de Andrade, 2ª ed, Porto, 2001

Publicado por sol em 12:31 AM

dezembro 06, 2004

Universos em Colisão

Tentava lembrar-me de um conto sobre um onnagata célebre. De Mishima, o conto. Seria do livro "O Tumulto das Ondas"? Talvez de "Morte em Pleno Verão"? Se fosse deste (e era) não poderia relê-lo: emprestei o livro a alguém que gostou tanto dele que lho ofereci. Está em paz, esse livro, o que não posso dizer de todos os que emprestei.

Incluía também, essa perdida colectânea, um outro conto que me comoveu profundamente, a história de um homem que, enfrentando um dilema, não vê outra solução além do seppuku e pede à esposa que seja a testemunha do suicídio. Invulgar pedido para se fazer a uma mulher, e prova do amor que unia o casal. Ela segui-lo-á, depois. É um texto arrepiante, pela descrição minuciosa do suicídio ritual. Eros e Thanatos entrelaçam-se intimamente, e a atmosfera trágica (a da inocência impiedosamente castigada pelo destino inelutável que esmaga os melhores) é de uma beleza terrível. Talvez volte a comprar o livro. O meu projecto de ter apenas três - os indispensáveis - continua muito longe de alcançar. É difícil o despojamento. E saber por fim quais serão os três livros indispensáveis.

Também pesquisei na internet, onde o acervo é de tal ordem que me perdi, entrei noutros ramos do labirinto da informação, encontrei maravilhas. Entre as páginas que visitei, uma exposição sob o título: «Universes in Collision, Men and Women in 19th-century Japanese Prints». Não resisto a reproduzir aqui algumas das imagens, muito belas, representando cenas de Kabuki (afinal foi pelos onnagata que esta busca começou), bem como excertos dos comentários que as acompanham e alguns dos poemas que as complementam - excertos e poemas em tradução livre, minha.

                                              * * * * * *

                                   Universos em Colisão

                                  Os amantes jogam com a vida e a morte
                                   o mais perigoso de todos os jogos

                                                        Ihara Saikaku (1641-1693)


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Utagawa Kunisada (1786-1864), cena de uma representação de Kabuki, 1842

Num cenário nocturno, à neve, um homem e uma mulher lutam apaixonadamente por uma espada envolta numa esteira. Nas pinturas japonesas, a neve apresenta com frequência conotações sobrenaturais, ou pelo menos dramáticas. Também as espadas, como os botões de cerejeira e os crisântemos, detêm um significado espiritual. A violência e a pureza coexistem na mesma desesperada cena.

                                             * * * * * *

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Tsukioka Yoshitoshi (1839-1892), Demência, 1889

Uma mulher enlouquece, depois da morte do amado, e desenrola a última longa carta que ele lhe enviou e que ela leu até a reduzir a farrapos. Parece ser o nascer da lua, como indiciando o regresso do amor à sua infortunada casa. Na vida, como na arte, homens e mulheres, no Japão tradicional, comunicavam frequentemente através de cartas poéticas, frágeis pontes entre os seus mundos separados.

                                              * * * * * *

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Utagawa Kuniyoshi (1798-1861), Edo Murasaki, ca 1850

A palavra Murasaki pode referir-se à grande novelista medieval japonesa, ou à cor púrpura do traje da mulher; Edo é a actual Tóquio. Mas a cena surpreende pela sua ambiência de aprazível e doméstica normalidade. Embora o homem que lava as mãos aguarde a mullher com a toalha, não há traços de servilismo, e eles trocam amigáveis olhares.

                                              * * * * * *

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Tsukioka Yoshitoshi (1839-1892), A história de Jirozaemon of Sano, 1886

A mais bela das cortesãs assemelha-se a uma deusa aos olhos de um rústico como Jirozaemon, que se apaixona por ela e a assassina quando é repelido. O teatro Kabuki mostra-nos tanto a adoração como as perseguições de que as cortesãs eram alvo. A versão de Yoshitoshi mergulha o espectador em sangue e lirismo, enquanto as cartas de amor da cortesã voam como pássaros.

                                                   * * * * * * * * * * * *


Tu e eu vivemos no interior de um ovo
e eu, eu sou a clara
envolvo-te e embalo-te dentro do meu corpo.

Canção de uma gueixa anónima

                                              * * *

Para punir os homens pelos seus pecados,
Deus fez-me esta pele macia
deu-me estes longos cabelos negros.

Yosano Akiko, 1878-1942

                                              * * *

Esta noite sonhei
Que empunhava uma espada contra o meu corpo nu.
Que significará?
Que em breve estaremos juntos.

Kasa no Iratsume, 8th Century

                                              * * *

Os deuses celestes são irracionais:
Eu podia morrer sem haver-te conhecido,
a ti a quem amo tanto.

Kasa no Iratsume, 8th Century

                                              * * *

A lembrança de longos encontros amorosos é como a neve derretendo
Pungente como os patos mandarins flutuando lado a lado no sono.

Lady Murasaki (Murasaki Shikibu), 974-1031

Publicado por sol em 08:40 AM | Comentários (18)

dezembro 05, 2004

A propósito

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foto de Debe Hale



                      ONE ART

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

                      Elizabeth Bishop


(Agradeço à minha amiga Eneida Leite, que me pôs na pista deste poema)





                      UMA ARTE

A arte de perder não é difícil de se dominar;
tantas coisas parecem cheias da intenção
de se perderem que a sua perda não é uma calamidade.

Perder qualquer coisa todos os dias. Aceitar a agitação
de chaves perdidas, a hora mal passada.
A arte de perder não é difícil de se dominar.

Então procura perder mais, perder mais depressa:
lugares e nomes e para onde se tencionava
viajar. Nenhuma destas coisas trará uma calamidade.

Perdi o relógio da minha mãe. E olha! a última, ou
a penúltima, de três casas amadas desapareceu.
A arte de perder não é difícil de se dominar.

Perdi duas cidades encantadoras: E, mais vastos ainda,
reinos que possuía, dois rios, um continente.
Sinto a falta deles, mas não foi uma calamidade.

- Mesmo o perder-te (a voz trocista, um gesto
que amo) não foi diferente disso. É evidente
que a arte de perder não é muito difícil de se dominar
mesmo que nos pareça (toma nota!) uma calamidade.


in Poemas de Marianne Moore e Elisabeth Bishop, tradução de Maria de Lourdes Guimarães, Campo das Letras , 1999


(E agradeço à Amélia Pais pela tradução, que eu sou demasiado preguiçosa para ensaiar, e que agora acrescento.)

Publicado por sol em 12:01 AM | Comentários (10)

dezembro 01, 2004

Dedicatória

Para a Helena Roque que, no seu digitalis, publicou uma excelente selecção de materiais – próprios e de outros, reflexões filosóficas, representações pictóricas, referências musicais, poemas – sobre a morte, a que chama «estado desejável de eterno vazio», definição que me agrada, nem tanto pelo estado em si, mas por supor inconsciência de tal estado. Aliás, por não haver consciência de todo. Que a gente também se cansa, como no poema de Ruy Belo citado no digitalis. E neste que aqui deixo. Para a Helena, com admiração.


PREPARAÇÃO PARA A MORTE

A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
– Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

Manuel Bandeira, Estrela da Tarde, in Estrela da Vida Inteira, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993


Publicado por sol em 09:35 PM | Comentários (13)