novembro 28, 2004

O último poema

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Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manuel Bandeira, Libertinagem, in Estrela da Vida Inteira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1993

Publicado por sol em 07:27 PM | Comentários (12)

novembro 11, 2004

Porque faz hoje um ano

que o Nocturno com Gatos se mudou para o Weblog e se tornou público, depois de duas atribuladas e sigilosas semanas no Sapo.

Para os amigos e para os companheiros do universo virtual que me têm visitado e ajudado a transformar o Nocturno num espaço de afectos e aconchegos, Nuit sur La Mer, de um pintor que me acompanha há muitos anos.

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Paul Delvaux, Nuit sur la mer - 1976



Publicado por sol em 11:59 PM | Comentários (17)

novembro 05, 2004

Advertencia

Si alguna vez sufres — y lo harás —
por alguien que te amó y que te abandona,
no le guardes rencor ni le perdones:
deforma su memoria el rencoroso
y en amor el perdón es sólo una palabra
que no se aviene nunca a un sentimiento.
Soporta tu dolor en soledad,
porque el merecimiento aun de la adversidad mayor
está justificado si fuiste
desleal a tu conciencia, no apostando
sólo por el amor que te entregaba
su esplendor inocente, sus intocados mundos.

Así que cuando sufras — y lo harás —
por alguien que te amó, procura siempre
acusarte a ti mismo de su olvido
porque fuiste cobarde o quizá fuiste ingrato.
Y aprende que la vida tiene un precio
que no puedes pagar continuamente.
Y aprende dignidad en tu derrota,
agradeciendo a quien te quiso
el regalo fugaz de su hermosura.


Felipe Benítez Reyes, Los Vanos Mundos, in Trama de Niebla, Poesia Reunida 1978-2002, Tusquets Editores, Barcelona, 2003

Publicado por sol em 10:04 AM | Comentários (11)

novembro 02, 2004

Because of

Os primeiros cinco discos de Leonard Cohen, até New Skin For The Old Ceremony (1974), foram e permanecem para mim - todos eles - objecto de veneração. Depois, só com Recent Songs, em 1979, reatámos a velha magia. E, a partir daí, se a minha relação com o poeta e o músico continuou apaixonada, é porque lhe sou fiel de um modo difícil de explicar a quem não for coheniano.





Dear Heather acaba de sair neste Outubro de 2004. À primeira audição não gostei do cd. Agora enternece-me, tal como os 70 anos do músico. A voz, mais rouca, apoia-se nas das acompanhantes e nos arranjos. Mas em todo o cd uma melancolia suave e reconciliada e, sobretudo, alguns pequenos maravilhosos poemas. Como este que transcrevo. Quem, além de Cohen, falaria assim das mulheres, com essa terna, irónica cumplicidade, que se percebe mútua? Este é um jogo muito antigo.


Because Of

Because of a few songs
Wherein I spoke of their mystery,
Women have been
Exceptionally kind
To my old age.
They make a secret place
In their busy lives
And they take me there.
They become naked
In their different ways
And they say,
"Look at me, Leonard,
Look at me one last time."
Then they bend over the bed
And cover me up
Like a baby that is shivering.

Leonard Cohen

Publicado por sol em 02:35 PM | Comentários (9)