outubro 29, 2004

Fidelidade

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O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo de conhecimento, que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e se consome, é a sua moral. E não há outra. Nesse mergulho do homem nas suas águas mais silenciadas, o que vem à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade. [...] Palavra de aflição, mesmo quando luminosa, de desejo, apesar de serena, rumorosa até quando nos diz o silêncio, pois esse ser sedento de ser, que é o poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura é uma reconciliação, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presença e ausência, plenitude e carência. Essa revelação do poeta, e dos outros com ele, essa descida ao coração da alma, de que Heraclito encontrou a fórmula, essa coragem de mostrar o que achou no caminho – e nunca é fácil, nem alegre, nem irresponsável revelar o que se encontrou ou sonhou nas galerias da alma – é o que chamarei agora dignidade do poeta, e com ele a do homem. Porque é sempre de dignidade que se trata quando alguém dá a ver o que viu, por mais fascinante ou intolerável que seja o achado.
[...]
Eis o homem, eis o seu efémero rosto, feito de milhares e milhares de rostos, todos eles respirando na terra, nenhum superior a outro, separados por mil e uma diferenças, unidos por mil e uma coisas comuns, semelhantes e distintos, parecidos todos e contudo cada um deles único, solitário, desamparado. É a tal rosto que cada poeta está religado. A sua rebeldia é em nome dessa fidelidade. Fidelidade ao homem e à sua lúcida esperança de sê-lo inteiramente; fidelidade à terra onde mergulha as raízes mais fundas; fidelidade à palavra que no homem é capaz da verdade última do sangue, que é também verdade da alma.


Eugénio de Andrade, Os Afluentes do Silêncio, Editorial Inova, Porto, 1974

Publicado por sol em 10:04 AM | Comentários (15)

outubro 17, 2004

A noite se fez navegável

Ao Astrophil, ao Groze e ao Sete Sóis, com carinho e admiração.


Pela terna insistência do Sete Sóis.
Pela verve brilhante do Groze.
Pela apaixonada serenidade do Astrophil.
Pelas palavras e pelo riso.
Pela poesia. Pela música.
             Pela noite que se fez navegável.


Um poema de que gosto, palavras ou «relâmpagos/que hão-de chegar saltando de uma ilha para outra ilha». Como as conversas. E as cerejas:-)



Em torno do Imponderável

O mais seguro abrigo
é o que oscila um pouco
como se oscilássemos
sobre a matéria viva
ou no coração do espaço.

Ramos Rosa, Uma Rã que Salta, Ed. Limiar, 1995


Publicado por sol em 11:52 PM | Comentários (19)