maio 26, 2004

Il faut de l'adresse pour aimer

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Rodin, Cupido e Psique



À force de parler d'amour, l'on devient amoureux.

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L'amour donne de l'esprit, et il se soutient par l'esprit. Il faut de l'adresse pour aimer.

***

À mesure que l'on a plus d'esprit, les passions sont plus grandes, parce que les passions n'étant que des sentiments et des pensées, qui appartiennent purement à l'esprit, quoiqu'elles soient occasionnées par le corps, il est visible qu'elles ne sont plus que l'esprit même, et qu'ainsi elles remplissent toute sa capacité.

***

Un amour ferme et solide commence toujours par l'éloquence d'action; les yeux y ont la meilleure part.

***

N'excluons (...) point la raison de l'amour, puisqu'elle en est inséparable. Les poètes n'ont donc pas eu raison de nous dépeindre l'amour comme un aveugle; il faut lui ôter son bandeau, et lui rendre désormais la jouissance de ses yeux.

***

Les grandes âmes ne sont pas celles qui aiment le plus souvent; c'est d'un amour violent que je parle: il faut une inondation de passion pour les ébranler et pour les remplir. Mais quand elles commencent à aimer, elles aiment beaucoup mieux.



Blaise Pascal, Discours sur les Passions de l'Amour, Association de Bibliophiles Universels

Publicado por sol em 08:27 PM | Comentários (16)

maio 22, 2004

Uma aspereza que me agrada



CANTO DÉCIMO PRIMEIRO

Anteontem primeiro domingo de Novembro
a névoa podia-se cortar à faca.
As árvores brancas da geada e as estradas e planícies
apareciam cobertas por lençóis. Depois apareceu o sol
enxugando o universo e somente as sombras
permaneceram banhadas.

Pinela, o camponês, atava as cepas
com ervas secas
que segurava entre as orelhas.
Enquanto trabalhava falei-lhe da cidade,
da minha vida que passara num relâmpago
do meu terror à morte.

Aí silenciou todos os rumores que fazia com as mãos
e só então se ouviu um pequeno pardal cantando ao longe.
Disse-me: medo porquê? A morte nem sequer é maçadora,
apenas vem uma vez.


Tonino Guerra, O Mel, tradução de Mário Rui de Oliveira, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004

Publicado por sol em 08:53 AM | Comentários (16)

maio 21, 2004

Origem

Agora sei que houve um só lugar onde acendi o lume.

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fotografia de Larry Towell

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maio 17, 2004

A furna

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Publicado por sol em 06:30 PM | Comentários (5)

maio 13, 2004

Génesis

De Louvada Seja, porque é um dos livros mais comoventes que li. Este excerto onde o verbo cria a essencialidade e a ânsia de infinito; e onde tudo é novo e escasso – como o pássaro bleu et gris.


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«Cada palavra com sua andorinha
para te trazer a Primavera no Verão» disse

E muitas oliveiras
para que peneirem com as mãos a luz
e esta leve se derrame sobre o teu sono
e muitas cigarras
para que não as sintas
tal como não sentes o pulso no teu punho
mas pouca água
para que que a tenhas por divina e entendas o que significa a sua fala
e a árvore só consigo
sem rebanho
para que a faças amiga
e conheças o seu verdadeiro nome
rala sob os teus pés a terra
para que não tenhas onde alargar raízes
e não pares de buscar um pouco de fundo
e vasto por cima o céu
para que por ti sozinho leias a infinidade

ESTE
o mundo, o pequeno, o grande!


Odisséas Elytis, Louvada Seja, tradução de Manuel Resende, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004

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maio 07, 2004

Retrato de rapaz

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Vinha de terras altas, conhecera a sede e
a água dos trigos de março, os pés habituados
à poeira lentíssima da eternidade.
O rigor da neve veio vindo depois.

Eugénio de Andrade, Memória Doutro Rio, Limiar, Porto, 1978

Publicado por sol em 12:15 PM | Comentários (8)

maio 03, 2004

Outro calendário

Assim se falava, popularmente, em terras de Riba-Côa, há muitos anos. Usei (e uso ainda, embora muito intencionalmente e em contextos precisos) algumas destas expressões. Aprendi-as na rua e amplieei depois o meu léxico pitoresco com os colegas, na escola primária. Hoje, excepto entre os mais velhos, é apenas memória linguística.

A maior parte das expressões confirmei-as na edição facsimilada de Terras de Riba-Côa, Memórias Sobre o Concelho do Sabugal, de Joaquim Manuel Correia, 1ª edição de 1946. Outras não constam ali, mas eram usadas por mim e pelos meus amigos.

Lembrei-me, sem grande esforço, destas:

amuxar - amuar
arrechinado - apertado
arreganhado - cheio de frio
arremangar - arregaçar as mangas
arrenegar-se - zangar-se
bachicar - borrifar com água
barranhão - grande alguidar de barro
búzio - embaciado
calhandra - pedra usada no jogo do descanso (macaca)
canalha - pequenada
concho - contente
conduto ou peguilho - alimento para acompanhar o pão (queijo, carne, azeitonas, chouriço...)
chinas - cada uma das pedras redondas e polidas usadas no jogo das cinco pedrinhas
dondinho - macio, brando
esnocar - quebrar alguma coisa com as mãos
estavanado - estouvado
fanfar - gabar-se
esfarraixar - ferir
gaifonas - palhaçadas
grencho - com o cabelo encaracolado
lapacheiro - lodaçal
morinhar - cair chuva miúda

Publicado por sol em 11:09 PM | Comentários (17)

maio 02, 2004

Canto do Sonho

Lá onde acaba a montanha,
nos cimos, nem eu sei onde,
vagueei por onde a minha cabeça e o meu coração pareciam perdidos,
vagueei ao longe.


América do Norte, Papagos, versão de Herberto Helder em Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001

Publicado por sol em 12:50 PM | Comentários (6)