fevereiro 28, 2004

Que no silêncio talha

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Mosteiro de Alcobaça - nave central

Publicado por sol em 12:12 AM | Comentários (11)

A Margem da Alegria

Que tudo o mais se esqueça na presença do mosteiro de santa maria de alcobaça]
(...)
É a maior igreja portuguesa e alicerça essa grandeza
nas três naves que no silêncio talha com a precisão de uma navalha
e na grande desproporção entre a pouca largura e a altura
(...)
No túmulo deitada inês parece a própria placidez
ela que em vida ouvindo alguém chamar
julgava respirar esse cheiro envolvente português
dos laranjais e jamais o da nave donde nunca mais
havia de sair não já para criança inaugurar
o dia a dia o vasto espaço onde cada folha
dos plátanos a até canas e oliveiras
valem humidamente mais do que a melhor palavra minha
mas sim ver só o sol inevitável renascer
da morte e vir tal como ela de castela com o vento
(...)
Que sei pergunta ela para sempre imóvel
no túmulo de pedra inamovível que sei eu desse homem tão instável
mais triste e mais sozinho quanto mais alegre e rodeado
que ao dar-me um outro nome como que me deu um novo ser
e a quem toda me dei como se dá em parte na arte alguém mais que no amor]
(...)
Eu canto os amores e a morte a apoteose e a sorte
dessa que tão horizontal em pedra jaz e esse pedro neto desse trovador de quem se diz]
que sempre dom dinis fez o que quis
(...)
Na igreja abacial de santa maria de alcobaça
os que em vida se amaram para sempre se juntaram
No cruzeiro de pedra poisam hoje os dois moimentos
dois poemas em pedra onde em quarenta e seis edículas se narra
a história desse amor às vezes alegria quase sempre dor
amor pétreo de pedro que prepara para inês esse alvo leito em pedra
pois morta a sua amada mais não pôde já por ela
e assim o seu moimento fez poer acerca do seu dela
em tudo semelhável para dela sempre se membrar
quando se aqueecesse de morrer
E na dureza desses dois sarcófagos escreveu o escopro
o que somente a agulha pode pôr no bastidor
ou um buril pode imprimir no ouro
para que na memória dos mortais reinasse
aquela que do ânimo de pedro fora
dominadora dama absoluta senhora
(...)

Ruy Belo, A Margem da Alegria, Editorial Presença, Lisboa, 4ª ed, 1998

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fevereiro 26, 2004

Pequeno calendário - 4

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Afonso - 2003

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fevereiro 20, 2004

Lua nova e saudades de casa


Os ameados terraços brancos recortam-se secamente sobre o alegre céu azul, gélido e estrelado. O norte silencioso acaricia, vivo, com a sua pura grandeza.
Todos julgam que têm frio e escondem-se nas casas, fechando-as. Nós, Platero, vamos devagar, tu com a tua lã e com a minha manta, eu com a minha alma, pela límpida aldeia solitária.
Que força interior me eleva, como se eu fosse uma torre de pedra tosca com cúpula de prata! Olha quantas estrelas! De tantas que são, dão-nos tonturas. Dir-se-ia que o céu reza à terra um rosário aceso de amor ideal.
Platero, Platero! Daria toda a minha vida, e ansiaria que tu quisesses dar a tua, pela pureza desta alta noite de Janeiro erma, clara e dura!

Juan Ramón Jiménez, Platero e Eu


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fevereiro 19, 2004

Reflectindo o mar

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Papilionidae Ulysses - foto de Jo Whaley

Publicado por sol em 10:38 PM | Comentários (5)

fevereiro 14, 2004

Gift


You tell me that silence
is nearer to peace than poems
but if for my gift
I brought you silence
(for I know silence)
you would say
This is not silence
this is another poem
and you would hand it back to me.


Leonard Cohen, Stranger Music - Selected Poems and Songs, 1993

Publicado por sol em 03:14 PM | Comentários (8)

fevereiro 05, 2004

M'illumino d'immenso

Entrava em casa, numa destas raras noites sem brumas. Cassiopeia abria os braços do outro lado do horizonte. Da Ursa, só a carreta, cauda perdida atrás dos prédios. Não sei por onde andaria a Lua, quase cheia, que subira a serra horas antes, ainda o céu desmaiava. Mas acima do telhado, em glória, o cinturão de Orion. Acode-me o Mattina de Ungaretti. Por segundos, ensaia-se um regresso.

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Publicado por sol em 02:13 PM | Comentários (19)