junho 26, 2005


Far Cry - Paulo Nozolino

Far Cry



(díptico, Paulo Nozolino na sua exposição Far Cry no Museu de Serralves - 12/05/2005) © direitos reservado ao autor nelson d'aires

para ver a imagem com maior resolução é favor clicar na própria

já fiz cinco visitas a esta exposição. este número cinco não quer dizer nada. é um número que não evidencia obcessão nem dependência. o número cinco é apenas um número valioso para as crianças, pois é pelos dedos das mãos que elas aprender a contar.
das cinco visitas (uma das quais guiadas pelo próprio Nozolino), deixo-vos por escrito o reflexo das suas fotografias em mim:

"não há fuga"

são estas as palavras de Rui Nunes e escolhidas por Paulo Nozolino para ficarem penduradas no final de um comprido corredor, convidando o visitante a sair da exposição sob escolta das "paredes" para onde todos Nós caminhamos contra.

"não há fuga", o erro do Homem é cíclico e a sua imaginação redundante. "o Homem precisa de sangue e de guerra"(1), é essa a sua invenção.

não é a identificação de um local que faz circunscrever o vírus. nada nos protege e nos iliba de qualquer culpa, nem o anonimato. é no chão que pisas o nome de todos os lugares que a tua vida permite existirem. o erro existe porque tu existes, porque não o assumir? no medo não há lugar para a melancolia.

o vazio também é lugar, a prova disso são os novos muros de betão que crescem em volta de uma terra, asfixiando um povo, na vã tentativa de se protegerem do medo. e ninguém do lado de cá faz nada. ignoram que a televisão e as fotografias não são estanques à doença.

exposição a visitar.


(1)transcrição de frase de Nozolino após descrever uma situação vivida numa viagem sua a Macau. Nozolino tinha ido fotografar um matadouro às cinco e trinta da manhã, durante 4 horas observou vacas a serem mortas à facada, era sangue por todo o lado. no fim da matança os "matadores" vão todos tomar o pequeno almoço, todos calmos e serenos. "o Homem precisa de sangue(...)"

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dezembro 13, 2003


Jane Evelyn Atwood

do livro:

too much time: women in prison
de Jane Evelyn Atwood

este é um livro obrigatório, a sua compra premeia dez anos de trabalho de intensa pesquisa e de árduas negociações para, conseguir entrar e sair de quarenta prisões, centros de detenção, penitenciárias e celas de esquadras de polícia em nove países.

o que a levou a dedicar dez anos da sua vida a estas mulheres? a resposta é clara e liberta de quaisquer barras de aço. Jane, ouviu as histórias de duas mulheres que tinham sido detidas e presas:
uma mulher estava forçada pelo marido dela a fixar o despertador para ter sexo com ele três vezes por noite. após anos de tortura ela matou-o.
o marido de outra mulher, foi morto pela sua própria filha, após este a ter apunhalado no braço como uma “recordação” sua, café quente vertido na cabeça da sua esposa porque ela não tinha misturado açúcar no mesmo e urinou o chão da sala de estar por toda a parte quando uma das crianças se recusava a sair da casa de banho. a mulher foi presa e estava servindo pena por não ter dado auxílio ao seu marido…
Atwood, escutou as histórias destas duas mulheres e partiu apenas com um pensamento: 'I have to tell people about this.'

com a sua pesquisa, Jane E. Atwood constatou que, a população presidiária feminina dos Estados Unidos da América cresceu 10,2% por ano desde 1985 (comparado com os 6,1% da população masculina); cerca de 80% das mulheres presidiárias têm filhos; as sentenças das mulheres, para os mesmos crimes que os homens, são mais pesadas; e 89% das reclusas estão na prisão por crimes não violentos. (1)


Muito do que Jane E. Atwood aprendeu, resultou da observação e de ouvir o que lhe rodeava enquanto fotografava. J. E. Atwood, vivia frequentemente nas prisões onde trabalhava e a primeira coisa que ela sentiu foi: “From the very beginning, I was struck by how needy women prisoners are”. “They have been beaten down not only by the ignorance, poverty and shattered family life that pervade the backgrounds of most male inmates, but also by years, often lifetimes, of physical and sexual abuse at the hands of men.”

J. E. Atwwod, como se pôde ler, no final de cada dia de trabalho em que fotografava, não se limitava a virar as costas e ir para o conforto da sua casa ou de um hotel. não, J. E. Atwood, enquanto trabalhava vivia também nas condições de uma reclusa, comia e dormia nas prisões em que passou. Atwood, viveu dez anos em quarenta prisões diferentes, ela tornou-se uma reclusa da culpa, da sua culpa de viver numa sociedade em que segundo palavras dela, a estratégia agora usada nas prisões das mulheres é de humilhação em vez de reabilitação.


“The strategy used in women's prisons now is one of humiliation rather than rehabilitation”
“Women who have been broken on the outside continue to be treated like second-class citizens when locked up. They give birth in handcuffs; they are chained at the ankles and made to work on highways”

J. E. Atwood, se alguma vez consegue expiar a sua “culpa” e se libertar das prisões por onde já dormiu, é quando, através das suas fotografias consegue passar a palavra daquelas mulheres cujas bocas se encontram encarceradas por barras de aço, arame farpado, muros com 4 metros de altura e portas opacas em aço.


“Look at the women in these pages. These are the women we have turned our backs on.”


1. http://dir.salon.com/mwt/feature/
2000/07/20/prison_photos/index.html











da exposição:

Centro Português de Fotografia
em mostra desde 11 de Dezembro de 2003
Porto

as fotografias de Jane Evelyn Atwood, estão dispersas por quatro salas e cada fotografia ocupa o seu espaço na parede como uma janela onde as mulheres reclusas nos possam observar e incomodar com o seu silêncio aprisionado.


o livro “too much time: women in prison” não mostra o número de fotografias, escolhidas pela autora, na sua totalidade. esta exposição dá-nos a oportunidade de vermos mais fotografias dos dez anos em que se dedicou às reclusas. Talvez queira isto dizer que, estas fotos não sejam para se ver em livro. um livro não permite o tamanho cuja dor é enorme, o livro é redutor, obriga a abreviar, reduzir, minimizar o tamanho do poder que estas fotografias nos imprimem. a maioria das fotografias expostas estão impressas em grandes formatos. não sei se Atwood quis com isto nos minimizar perante a dor de todas as mulheres reclusas, foi isto que senti.


nota: estas fotografias não são as melhores da exposição, essas, estão lá à vossa espera. esperam que não lhes virem as costas.

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dezembro 11, 2003


Eugene Richards

Eugene Richards| clique para ver com maior resolução
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"and love is pain and love is a print and love is everything"


photo and book 55 from Eugene Richards

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dezembro 03, 2003


Sally Mann

há poucos dias, quando descobri a fotografia de Sally Mann, fiquei maravilhado (sim, maravilhado é a palavra). Descobri o tipo de família que um dia (quando o meu Eu se acalmar) espero vir a ter.

Sally Mann com as suas fotografias de família, dá uma lição de vida a todos os artistas (e pseudo-artistas) de como se consegue viver em conjunto dos nossos pares, nunca deixando de criar. a sua matéria prima é rica, no dia a dia da sua família encontra a sua forma de arte...


"the good father" from Sally Mann

"the good father"
© direitos reservados a sally mann

"Sally Mann's photographic work concentrates almost exclusively on the subjective recording of her family life. The leading characters in her photos are her children, her husband and other close relations. The complicity and the trust between the artist and these «models» enable her to shoot images that attest to a deeply moving tenderness and sincerity. She herself defines her working method in the following way."

"At times, it is difficult to say exactly who makes the pictures. Some are gifts to me from my children: gifts that come in a moment as fleeting as the touch of an angel's wing..."

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