junho 20, 2005


manhãs, o que me são. #13

demasiado luminosas. na noite passada esqueci-me de fechar o estore da janela. a exaustão provoca o esquecimento, não posso esquecer-me disto.

hoje, acordei antes do tempo. estou exausto, a minha cabeça sangra por todos os poros. o que fazer quando se deixa de ter o beijo como transfusão?

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janeiro 08, 2004


manhãs, o que me são. #12

barba na cara, assisto diariamente à partida reflectida da minha juventude. pego na lâmina de barbear e deslizo-a sobre o rosto como quem limpa a condensação sobre um espelho para o tornar límpido e poder reconhecer-me.

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dezembro 02, 2003


manhãs, o que me são. #11

luz que escava lenta, plantando o seu vinco sobre a minha pele. na escuridão da noite a sua raíz germina implacável, perfura-me indolor o sono para beber as primeiras gotas da aurora.

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novembro 30, 2003


manhãs, o que me são. #10

despertar a sobrevivência. da cama olhar para a janela e esperar a derradeira gota de orvalho que verte a noite.

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novembro 24, 2003


manhãs, o que me são. #09

nos dias de sol, apenas sinto o eco da reverberação que o meu corpo repele sob os lençóis colados à queimadura da luz.

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novembro 17, 2003


manhãs, o que me são. #08

palavras amplificadas e isoladas. cada uma delas preenche espaço a mais dentro de mim, imobilizando-me. reivindicam a sonoridade que lhes pertence, incham continuamente até que eu lhes vaze a sua acção e deixar o seu eco percorrer o meu corpo como uma ordem e não como um pedido.

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novembro 12, 2003


manhãs, o que me são. #07

um intenso tráfego dentro das veias, o coração como motor e o corpo como veículo de tudo cuja hora de ponta faz-me o sangue coalhar.

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novembro 11, 2003


manhãs, o que me são. #06

essências intensas, o mais breve odor possuí o peso suficiente para me paralisar.

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novembro 07, 2003


manhãs, o que me são. #05

palavra solitária que se deixa trespassar pela luz à procura da germinação da sua raiz.

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manhãs, o que me são. #04

luz entorpecida aninhada sobre as pálpebras, cego porque os braços e as mãos dormentes aguardam que o seu formigueiro brote da hibernação.

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novembro 05, 2003


manhãs, o que me são. #03

uma fenda profunda onde o espelho que me lava o rosto cai e só com uma toalha áspera consigo limpar os estilhaços da sua queda.

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manhãs, o que me são. #02

uma pergunta surda sobre o eco deserto da minha cama. que dia é hoje?

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manhãs, o que me são. #01

quando o corpo me amanhece, por breves momentos, os órgãos motores estranham o torpor da mente e nada no corpo me obedece.

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