julho 10, 2005


as flores de harrison


© direitos reservado ao autor nelson d'aires

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era já madrugada. as flores lá fora destas paredes, cujo perfume está ainda adormecido no frio da pálida claridade, iniciavam o processo da recolha da poeira aquosa sobre as suas folhas para depois se formarem gotas e aí verterem o sonho da mobilidade que não possuem, a não ser o vento que as embalem ou então uma mão que lhes corte das raízes que as prendem à terra para morrerem depois livres.

cá dentro, ainda é de madrugada. existe o vestígio, o odor vegetal da morte em sacos plásticos transparentes. se alguém ali morresse, as flores decepadas assegurariam um funeral instantâneo e sem as ridículas coroas a que são submetidas, numa tortura de embelezamento.

a beleza de quem não faz perguntas, assegura-me a paz. ali, perante aquele olhar desinteressado, o odor das flores mortas mas cujas cores ainda maquilham os corpos embalsamados, torna-se mais intenso até que nos meus pulmões sinto a raiz da doença a crescer e a rebentar com a minha respiração.

todos temos em nós, desde a primeira célula, a semente da morte inseminada pela haste pontiaguda de um orgasmo que nos faz nascer sem direito a escolha. e é mais tarde, sempre em momentos desassociados ao que estamos a fazer, que a semente germina e as suas raízes começam a crescer até conseguirem envolver todas as funções vitais do nosso corpo.

todo este crescimento pode durar anos, ou ser breve. tudo depende da terra que até então conseguimos ter engolido.

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