maio 06, 2004


terra


Copenhaga, Dinamarca. 2004

na cidade, a paisagem é invertida. com a terra por cima das cabeças apenas a linha de horizonte se mantém imperturbada.


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maio 02, 2004


perfume


Copenhaga, Dinamarca. 2004

nas cidades, o tráfico das flores, é como o aroma da sua morte, intenso. o perfume e a cor, são uma raridade exuberante que atrai a cor lívida dos mortos encerrados nas paredes soterradas dos condomínios.
as flores, na hora da sua morte, expelem intensamente o seu sopro, como se não quisessem viver mais. as flores, recusam-se a viver fora da terra onde os mortos são enterrados.

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março 08, 2004


insónia


Stª Apolónia, Lisboa 2003

nas cidades, os dias e as noites não existem. não fosse haver uma lua cheia em cada mês e dir-se-ia que a escuridão existente nos caudais subterrâneos era absoluta. o verme mecânico nunca dorme, percorre espaço dissociado do tempo transportando no seu ventre os vencidos, aqueles cujo sono lhes relembram a fragilidade humana.

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janeiro 13, 2004


cais


Trafaria, 2003

todas as cidades possuem um cais de desembarque. os barcos ficam desertos, os passageiros e marinheiros sequiosos por terra firme descem as rampas, embrenham-se pelas ruas labirínticas de um emaranhado de rotas que nas cidades colidem e escavam becos sucessivos.

horas, dias, semanas, meses, inclusive anos após o desembarque os marinheiros continuam com o mar a naufragarem-lhes a pele. é no trôpego dessa náusea terrestre que os marinheiros procuram, agora, o cais de embarque.

procuram encerrados pela neblina da digestão fóssil dos motores em carburação, não conseguem descobrir que o cais de embarque está em constante deslocação, encontrá-lo é um privilégio idêntico ao da morte.

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janeiro 05, 2004


tráfego


Coimbra, 2003

no início e final de cada ano a excitação de que amanhã será um dia melhor faz com que o caudal das ruas transborde de emoção. é enigmático como a cidade apenas reconhece as extremidades das suas ruas, ignorando os restantes dias que lhe fazem o caminho. os dias intermédios acabam por serem preenchidos pela tensão do tráfego que se acumula devido a toda a gente querer saltar de uma extremidade para a outra, tudo ao mesmo tempo.

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dezembro 19, 2003


silêncio


cemitério, Vila do Conde, 2003

a cidade é um túmulo, guarda na morte o silêncio que em vida não lhe existe, nem na sarjeta mais funda.

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novembro 20, 2003


graffiti


Rio Ave, Vila do Conde, 2003

é um grito cuja água não extingue e não lava das paredes a erosão urbana.

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novembro 18, 2003


silvado


Vila do Conde, 2003

no declive da claridade a pele sobrevive em ruínas, ao abandono anatómico de quem outrora dissecava a vegetação da terra para no seu lugar construir a morada do leito a que todos nós pertence.

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novembro 14, 2003


madrugada


Rio Ave, Cais das Lavandeiras, Vila do Conde, 2003

no crepúsculo matutino das cidades há uma passagem sombria que rasga o oculto. no embrião dessa hora espessa os incautos são despojados dos seus tesouros. do violador apenas se vislumbra o seu rasto aquoso e esgueiro como a evaporação do orvalho.

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passagem


Rio Ave, Vila do Conde, 2003

os braços são as margens do meu peito feito leito. por vezes, para alcançar uma das margens tenho de mergulhar em apneia e sentir a suspensão do meu peso.

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novembro 10, 2003


coreografias

pensem em cidades, juntem-lhes ruas e passeios apinhados de rostos apressados. sintam o sincronismo do desapego de quem passa por nós, voltem o corpo e sigam-lhe o rasto apenas com o olhar, vejam como esse vulto sabe qual a pedra da calçada que lhe pertence. vejam como se desvia dos outros vultos sem hesitações, como se todos tivessem ensaiado a indiferença neste nosso passeio...

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