setembro 26, 2004


enclosure #07


auto retrato, 2004


escrever sobre nada e dizer tudo, aprender a linguagem dos gestos dos motoristas no momento que passam pelas putas e a ranger os dentes lhes acenam com um cone de vento sobre as bermas.

escrever sobre tudo e nada dizer, esquecer a linguagem dos políticos ao saírem dos mais belos prostíbulos da baixa com o orçamento de estado debaixo dos braços suados de perfume. sentar-me com um bloco de notas sobre as pernas nas bancadas de um parlamento e aprender como se engata com os olhos a chispar num bordel.

- vergar o corpo para as mãos de quem nos quer comprar, dizer-lhes que a traição começa antes da consumação.

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setembro 21, 2004


enclosure #06


se algum te dia te amar será por nunca ter sido preciso dizer amo-te para poder bater na porta da tua casa e corromper o sangue da tua linhagem. juntos deterioramos aquilo que para que fomos criados, talvez não haja amor maior do que esse.

sem nunca ser preciso dizer amo-te, deixas que a infecção da minha seiva te coma aos poucos um pouco de ti e nas tuas entranhas criar o ninho da sua metamorfose. deixares-te comer por dentro é um acto de amor que me é vedado, é só teu, amo-te por isso.
enquanto a mutação do meu verme dentro de ti, passo-lhe alimento através de um beijo na tua boca. o amor é deglutição.

o eco do meu amor vagueia por entre os corredores dos teus órgãos. amo-te por não abrires a boca enquanto te obrigo a foder e assim não deixares escapar o rumor dos líquidos.

há animais que rebolam o pêlo na decomposição de cadáveres. amo-te quando sabes que estou morto e apesar da putrefacção me tentas ressuscitar e o consegues.


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setembro 17, 2004


E.P.I

Equipamento de Protecção Individual


todos nós queremos albergar o corpo na existência de uma morada. na incapacidade de usarmos as mãos, recorremos aos artesões (seres que subsistem nos subterrâneos das sociedades dilatadas), para construir a nossa segurança. não vemos nós que a segurança que negociamos cada vez mais nos entorpece os membros.
são anónimas as vozes que cantam a pedra, ignoradas são as lápides dessas gargantas que se alimentam do pó a que somos alérgicos.


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setembro 14, 2004


sem legendas #14


falar da epiderme
sem primeiro a despelar dos seus corpos
é inútil.
a forma, não identifica a densidade da casca.

o curtume não é isento de dor,
a absolvição não existe
e o sangue encarde as mãos como fósforo
a chispar na escuridão.

- a pele estendida sobre um muro -

procurar nos poros sobras
de saliva, antes uma cuspidela do que
um beijo que não queime a pele.


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setembro 11, 2004


na periferia da terra #3


Portugal, 2004

Ao fazer uma lista de compras há quem se lembre de escrever o seu testamento. Muitas dessas pessoas ficam tristes e perdidas por não haver publicidade televisiva de promoção a produtos para um testamento. Mas nada há a temer, é permissível morrer sem testamento.


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setembro 01, 2004


Women on Waves


Rebecca Gomperts, Figueira da Foz 29 de Agosto de 2004

não tape os ouvidos, deixe-se ouvir por esta mulher e à sua equipa.

as organizações: UMAR, Não te Prives, AJP e Clube Safo têm este número à sua disposição 91 4477774. se precisar de ajuda, ligue-lhes sem medo.


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