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dezembro 04, 2004

O mito do providencialismo

Filiado ou não no sebastianismo, o mito dos homens providenciais parece remontar ao liberalismo regenerador do nosso século XIX que em muito se assemelha a esta alvorada do nosso democrático século XXI. Basta pensar no rotativismo partidário, na descredibilização da classe política e outros aspectos que poderemos encontrar na crítica mordaz de Eça de Queiroz.
Em tempos de crise, de desnorte, de descrédito, lá voltava o general Saldanha ao palco político da Regeneração. No nosso século XX, a instabilidade política, económica e social da Primeira República havia de abrir caminho à providência de Salazar (que fanáticos e enganadores propagandistas diziam estar já retratado na maior obra da pintura portuguesa do séc.XV; os painéis de São Vicente),fundador do autoritário Estado Novo que 'providencialmente' nos governaria por quase meio século.
Pede-se agora o regresso de mais um homem providencial; Cavaco Silva, a quem o país, sem dúvida, deve as vias de comunicação e o desenvolvimento económico com o recurso aos fundos estruturais da União Europeia, da mesma forma que a Fontes Pereira de Melo deve a sociedade portuguesa oitocentista a política de infra-estruturas viárias com o recurso aos empréstimos externos e ao crescimento da dívida pública.

Gosto da dialéctica passado/presente. Mal vai o país que não aceita a sua História.
Gosto do respeito pelos valores do passado. Mas não gosto de homens providenciais.
Mal vai o país que não encontra em homens do presente uma promessa de futuro.

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Publicado por Maria Adelaide às 01:43 PM | Comentários (6)