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abril 29, 2004

Prescritos

'Já vale a pena. Tanto tempo para isto!' Desabafara o senhor António Relvas quando se dera conta do significado da palavra 'Prescrito'.
Fora a filha que atendera o telefonema do advogado.
'Pai! Pai! Telefonou o doutor Sobral. O seu processo está prescrito.Acabou, pai!'
Logo, logo, não percebeu o que aquilo queria dizer. Pediu à filha que lhe explicasse; até viu no Dicionário que está na estante da sala e onde estão todas as palavras da Língua Portuguesa: Prescrito, adj. que prescreveu; ordenado formalmente.( Do lat.praescriptu - 'prescrição').Viu prescrever, com os braços esticados; a vista já não ajudava: Prescrever, v. tr.regular, de antemão; ordenar; estabelecer; determinar; receitar; aconselhar; intr. cair em desuso; ficar sem efeito por ter decorrido o prazo legal; ficar reprovado o número máximo de vezes previsto por lei. ( Do lat.praescribere, 'escrever na frente').
Era, então, isso! Passara de prazo. Mas não era isso que ele queria.
Ele queria que a verdade viesse ao cimo como o azeite. Não percebia, por isso, aquele contentamento da filha e do advogado.
Ele nem queria recorrer a advogado. Quando o vizinho fizera aquela queixa contra ele na Justiça, uma refinada mentira, mesmo tendo passado tantos anos sem escrever, voltara aos bancos da escola primária; um bocadinho de cuspo na ponta do lápis, a borracha na outra e, com as poucas letras que aprendera até à terceira classe, pusera-se a escrever as razões que lhe assistiam.
O Juiz seria, com certeza, um homem de bem e haveria de ver de que lado estava a verdade; ele era um homem de palavra, honrado e o outro não passava de um trapalhão e de uma alma danada.
Mas os vagares da Justiça não o haviam deixado lavar a honra. E agora ali estava aquela mancha para sempre. Ele bem via os olhares desconfiados que se cruzavam com o seu; 'Não há fumo , sem fogo. Alguma coisa houve'.
Nunca tivera nada de seu, a não ser aquelas mãos que não haviam feito o exame da terceira classe para fazer a primeira ceifa ao lado dos homens; eram muitos lá em casa e a fome por vezes apertava. Tinha de seu as mãos e o bom nome que o pai lhe deixara como herança.
Se o pai fosse vivo!

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Entrou no escritório, atirou com a pasta para cima do sofá junto ao candeeiro de pé alto. Sentou-se, cruzou as pernas sobre a secretária e acendeu um cigarro.
Prescrito!
O cabrão do advogado ficara-lhe caro como o caraças mas valera a pena. Tantas voltas dera à merda do processo, que lá conseguira encontrar uma argolada nos autos; prazos que não haviam sido cumpridos e o que é facto é que conseguira safá-lo.
Abuso de poder! Corja de oposição! O que era aquela terra antes dele chegar? Nada! Metera uns trocados ao bolso; pois metera. E , então? Com a miséria que lhe pagavam, bem o fizera; paga insuficiente para quem tinha obra feita. Lá diz o ditado, 'Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte', e parvo era coisa que ele não era.
A oposição há-de 'escagaitar-se' toda para lhe tirar a câmara mas não há-de conseguir; o povo está do lado dele e não esquece que a ele se deve a subida de divisão do clube. Está para nascer o filho da puta que lhe há-de fazer a folha.
Descruzou as pernas e pô-las no chão. Há posturas que um presidente pode ter em privado que não pode mostrar aos seus subordinados. Digitou 01 e chamou a secretária.
- O senhor engenheiro chamou?
- Chamei, sim Zulmira. Traga-me um café.
- Sim, senhor engenheiro...e parabéns.
- Parabéns, porquê, Zulmira?
- Pelo fim do seu processo, senhor engenheiro.
- Ah, sim, sim...obrigado. a verdade é como o azeite, Zulmira, vem sempre ao cimo.
- A verdade, senhor engenheiro? Mas o processo não ficou prescrito?
- Pois foi. Não houve foi tempo para mostrar a verdade. Mas com tempo, ela havia de vir ao cimo, Zulmira, ela havia de vir ao cimo.
- Claro, senhor engenheiro, claro...então, com sua licença, trago-lhe já o seu cafézito.
Belo rabo, sim senhor. Como é que ela cá veio parar? Ah! O tesoureiro do clube.
' O senhor engenheiro havia de arranjar uma vagazita para a minha sobrinha. A moça acabou o 12ºano. Está desempregada. É uma moça como deve de ser, trabalhadora, respeitadora...'
E ele que era uma boa pessoa, nomeara-a sua secretária pessoal. Um homem com o seu dinamismo, já o merecia.
Digitou 01, novamente.
- O senhor engenheiro deseja mais alguma coisa?
- Desejo, sim, Zulmira. Telefone à minha mulher e diga-lhe que hoje não vou almoçar a casa.

Publicado por Maria Adelaide às abril 29, 2004 10:36 PM

Comentários

...em absoluto concordo.
feudal e 'campesino, de forta atraso cultural e ..mental
Valentins, Pintos e tantos tantos mais...
Gostei de passar por aqui Gosto sempre...
Hoje comentei..srrssrsr

Publicado por: sa nunes em maio 8, 2004 01:01 AM

...já nada é como era... nem o azeite. embora eu pense que a culpa não é do azeite, mas da quantidade de água em que este país está mergulhado... passa por lá e vê a brincadeira do diluvio que publiquei às poucos dias... Da minha janela... aquele abraço.

Publicado por: azenhas em maio 10, 2004 12:56 PM