12 de novembro de 2007

O Ciné-Club de Louis Delluc

No último post  reproduzimos a capa do n.º 3 do Journal du Ciné-Club,  publicação, que surgiria a 14 de Janeiro de 1920, por iniciativa de Louis Delluc e Charles de Vesme, entre outros, e a colaboração de Léon Moussinac. Ao que tudo indica, seria este Journal que levaria à criação do primeiro cineclube de que há conhecimento.

Para além de concursos para os melhores argumentos, fotografias e filmes exibidos, práticas já então correntes, o Journal teria a particularidade de, pela primeira vez, publicar os programas de todas as salas de cinema (seriam então cerca de 60), proporcionando ao público uma real possibilidade de escolha[1]. A redacção fazia questão de sublinhar que tinha a ambição de dirigir-se não aos distribuidores e exibidores, mas sim, pela primeira vez, aos espectadores[2]. A criação do «Ciné-club» a que se referia o título da publicação, seria, assim, segundo M. Tariol (biógrafo de Louis Delluc), uma estratégia de fidelização dos leitores a uma publicação que pretendia defender e legitimar o cinema como arte, já não junto dos profissionais do cinema, mas antes junto do público[3].

«Existe o “Touring Club”», lia-se no editorial do primeiro número do Journal, «é também preciso um Ciné-club». Como sugere Marcel Pelinq[4], a criação do Ciné-club, inseria-se, pois, num contexto em que a ascensão do que hoje designaríamos por cultura de massas, se tornava claramente perceptível, e em que o cinema começava a adquirir um predomínio nunca até então visto entre as preferências do público[5]. Charles de Vesme escreveria no mesmo editorial que «os apaixonados pelo cinematógrafo contam-se pelas dezenas de milhar, pertencendo a todos os países, a todas as classes, desde os mais intelectuais àqueles cuja cultura é mais rudimentar : eles exigem penetrar nos segredos mais recônditos da Arte Muda»[6]. Era pois necessário fazer com o cinema o que já se tinha feito com o desporto, o velocipedismo, o automóvel, a fotografia ou o turismo; tratava-se de «reunir em volta de uma elite e de profissionais servindo de quadros, todo um exército constituído pelo grande público apaixonado pelo cinema, numa época em que as massas têm um papel tão considerável e exercem em todas as áreas uma tão grande influência»[7].

A primeira sessão do Ciné-club, realizar-se-ia apenas a 12 de Junho de 1920, no cinema de La Pépinière, com a apresentação, pelo realizador de animação Emile Cohl, de alguns dos seus desenhos animados. Já antes, o encenador e realizador André Antoine apresentara uma conferência, com exibição de excertos de filmes, intitulada «Le cinéma d'hier, d'aujourd'hui et de demains»[8]. Depois desta primeira sessão, o Journal organizaria apenas mais duas sessões, com a apresentação de temas mais populares, revelando a necessidade sentida pela publicação de atrair um maior número de espectadores. A primeira, a 3 de Julho, contaria com as conferências «aimez-vous le cinéma americain?», apresentada pela actriz Berthe Bovy, e «Les aventures d’un auteur au cinéma», apresentada pelo escritor Marcel Nadau, argumentista de dois dos filmes mais populares do momento. Na segunda sessão, a 30 de Outubro de 1920, apresentar-se-ia apenas uma conferência, «De la scène à l’écran», por Valentin Tarault, um dos autores de revista então mais apreciados pelo público parisiense. Ao que tudo indica, nenhum filme seria exibido a acompanhar as conferências[9].

O Journal du Ciné-Club publicaria o seu último número a 11 de Fevereiro de 1921, anunciando que no quadro de uma nova série da publicação as sessões do Ciné-club seriam retomadas com mais regularidade[10]. Como veremos, num próximo post, o Journal du Ciné-Club, não voltaria a publicar-se, mas as sessões de carácter cineclubístico voltariam a ser organizadas no âmbito de uma nova publicação promovida por Louis Delluc: a revista Cinéa.

Adaptado da nossa dissertação de mestrado, intitulada As Origens do Movimento dos Cine-Clubes em Portugal, 1924-1955, que esperamos vir a publicar dentro em breve.



[1] A importância desta iniciativa explica-se pelo facto de, até então, os exibidores não publicitarem os programas das suas sessões. Os programas mudavam todas as semanas e temendo a competição, as salas guardavam-se de revelar com antecedência os filmes que iriam compor os seus programas. Sem informação, os espectadores limitar-se-iam, assim, a ir uma vez por semana ao cinema de bairro, sem saberem de antemão que filmes iriam ver. Seria neste Journal que, pela primeira vez, Delluc e Moussinac denunciariam esta situação, escrevendo, por exemplo, que «ir ao cinema sem conhecer o programa é como ir jantar a um restaurante sem conhecer o menu», ou perguntando-se o que se pensaria de alguém que declarasse ir ao teatro, «mas que não sabe se a peça é  phi-phi ou Hedda Gabler? É, no entanto, assim, que a maior parte dos parisienses vão ao cinema». Cf. Marcel Pelinq, «Naissance des Ciné-Clubs», Jeune Cinéma, 126, Avril-Mai, 1980, pp. 2-3. V. também Christophe Gauthier, La passion du cinéma : cinephiles, cine-clubs et salles specialisées a Paris, Paris, École des Chartes, 1999, pp. 38-40. Traduções nossas.
[2] Cf. Christophe Gauthier, op. cit., p. 32.
[3] M. Tariol, Louis Delluc, Paris, 1965, pp. 33-34, cit. in Christophe Gauthier, op. cit., p. 32. As outras estratégias de fidelização dos leitores passariam, entre outras iniciativas, pela organização de conferências acompanhadas de projecções de excertos de filmes, tratando da história do cinema, do seu aperfeiçoamento, dos seus aspectos artísticos e dos seus fins sociais e educativos, pela promoção de cursos de aprendizagem da técnica cinematográfica onde se realizariam filmes de amadores, e pela criação de uma secção de correio dos leitores.
[4] Cf. Marcel Pelinq, op. cit., p. 1.
[5] Cf. Christian-Marc Bosséno, «Répertoire du grand écran », in La Culture Masse en France de la Belle Époque à aujourd’hui., Paris, Fayard, 2002.
[6] Charles Vesme, «Ce que peut être le club» (éditorial), Journal du Ciné-Club, 1, 14 Janvier 1920, pp. 2-3, cit. in Marcel Pelinq, op. cit., p. 1. Tradução nossa.
[7] Id., ibid. Tradução nossa.
[8] Cf. Christophe Gauthier, op. cit., pp. 43-44. Segundo Gauthier, esta conferência, em que Antoine tentava contar a história do cinema pela palavra e pelo documento, constituiria um marco decisivo no tratamento histórico do cinema, ao chamar pela primeira vez a atenção para a necessidade urgente de se proceder à salvaguarda e preservação dos filmes para estudo futuro, uma vez que nem as distribuidoras, nem as produtoras guardavam colecções dos seus próprios filmes.
[9] Cf. Christophe Gauthier, op. cit., pp. 344-345 e Marcel Pelinq, op. cit., p. 2.
[10] Christophe Gauthier, op. cit, p. 57.

Paulo Granja na secção Notas | Imprimir | Enviar | Comentar (0) | TrackBack (0)