julho 18, 2006

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julho 16, 2006

O pequeno farol vermelho (Domingo)

redlight.jpgCom os seus cinco grandes bairros, Nova Iorque é uma cidade disforme ligada por pontes, que a prolongam até New Jersey, fazendo destes hectares os mais densamente povoados da América do Norte. A imagem de um canadiano da província agoráfobo subitamente largado em Times Square às 6 da tarde é um cúmulo do horror, mas a própria praça - que na verdade é apenas uma confluência de ruas - já é por si horrorosa e dispensa a evocação de distúrbios raros. Só que andamos sempre à procura de um princípio para as coisas e decidi fazer de Times Square o ponto de partida simbólico desta viagem. Cheguei às sete da manhã de um Domingo, não havia vivalma, aproveitei um sinal vermelho para pôr as milhas do bicho a zero - são gestos destes que aproximam as pessoas - e depois tive um instante de sobressalto. A cabecinha acelerada: como saio daqui? Meto pela Broadway e vou sempre para cima, não viro na primeira, nem na segunda, nem na quinquagésima, vou sempre direitinho - "siga, siga, siga" - fazendo da Broadway a route 9 até Albany? Seria uma ideia, caso a Broadway, naquela zona da cidade, fosse de dois sentidos. Não é. O trânsito segue para Sueste. Não vi na gaffe sinal de incompetência rodoviária, antes uma última demonstração da vocação atlântica reprimida. Eu a querer romper para Oeste e a cabecinha a engodar-me: mete pela Broadway, mete que vais para baixo, vai sempre, vai, vai e quando te faltar o chão confia no instinto do bicho, que ele flutua e ao preço da gasolina neste país tens tanque até aos Açores, bastando ires dando uma guinadas para a esquerda, assim coisa ligeira, atenção às correntes, ventos, marinha mercante, fragatas, periscópios, embarcações de recreio e ao maluco do costume que tenta a travessia a pedalar uma gaivota, tem cuidado, põe os piscas ao lusco-fusco, para que possas entrar na ilha do Corvo subindo a rampa do cais e sejas recebido em apoteose pelos locais, agradecidos por lhes teres animado o dia e aumentado consideravelmente o parque automóvel. (Continua)

Imagem

Notas sobre estes escritos:

1. Decidi que não ilustrarei estas entradas com fotografias tiradas por mim. Há uma explicação prática - a minha máquina não é digital - e outra mais programática. Não há paisagens virgens na América. O canyon mais inacessível é sempre comparado com a imagem necessariamente equivocada que dele tínhamos. E um bom teste é ver se a internet não é já o repositório de todas as imagens que me esperam.

2. A publicação destes textos será irregular. Aproveitarei alturas em que terei acesso wireless para poder copiar para o blogue o que vou escrevendo offline no portátil; serão momentos raros pois os motéis em que pernoito estão ao nível das pensões de uma estrelinha só. Colocarei a data que corresponde ao dia descrito no texto, que pode não corresponder ao dia em que o texto foi escrito e quase nunca coincidirá com a data real de publicação do post .

julho 15, 2006

O bicho

thelma.jpgPlaneei fazer esta viagem com umas sete ou oito pessoas diferentes. É mania que dura há anos, talvez desde o Thelma & Louise. A primeira parceira foi Geena Davis, só que a moça depois cresceu um bocadinho demais e para todos os lados, como se um soprador de vidro a tivesse insuflado pelo umbigo, mas apenas com o volume de ar que enche as bochechas. Logo a troquei pelos meus amigos. S., T., H., um pequeno alfabeto de homens e mulheres, promessas reiteradas, sonhos partilhados. Ninguém. É difícil sincronizar o desejo e poupem-me ao exemplo do orgasmo simultâneo, esse truque fácil para o reforço da empatia. Sobrei eu e o bicho. Fui passeá-lo ontem de madrugada. Fiz a FDR com o vidro aberto, gozando no rosto a aceleração aparente desta atmosfera quente e estagnada. As superfícies metálicas, como os corpos suados, gozam da propriedade ambígua que é rechaçar a luz deixando marca. São reflexos com direito de autor. Relembro-o por causa do anúncio gigantesco da Coca-cola em letras encarnadas de néon do outro lado do rio, ali na fronteira entre Queens e Brooklyn, que não passa cartão aos táxis amarelos mas gostou do azul-escuro do bicho e andou a brincar pelas arestas da carroçaria, mesmo se o East River - não sendo um rio - é caudaloso e em tempos quase afogou um surfista australiano (factual).
A cidade muda quando se guia, o que ontem aconteceu pela segunda vez em 5 anos. Na primeira, andei por aí com uma carrinha de mudanças desconjuntada que fui buscar ao Harlem. Agora foi de Mustang. Dá ares de sonho americano, só que é tudo uma ilusão, como ilusório parece ser arrumar o carro na East Village, uma zona da cidade que só atrai estudantes e remediados mas que deve ter moradores em número suficiente para saturar os lugares de estacionamento. Ignoro se a regra de ter de mudar o carro de sítio todos os dias ou ao segundo dia ainda existe, mas às duas da madrugada tudo me pareceu estagnado. Voltei a casa sem sair do carro e a ouvir os The Young Turks. Serviu o passeio para me acostumar ao bicho, tomar-lhe as medidas. Ganhei o golpe de vista necessário e experimentei no fim um certo orgulho por não o ter riscado, sobretudo porque me cruzei com vários taxistas paquistaneses.
Já em casa, não resisti a descer à rua uma última vez, sob pretexto de verificar se havia recolhido o espelho reflector. O que queria era sentir o bicho mais uma vez. Coloquei as mãos perto motor, senti um vestígio de trepidação e a chapa morna, morna como um mamífero de verdade.

julho 14, 2006

Navegação de cabotino

Parto amanhã. Não resisti a folhear Tocqueville, como se em vésperas de um exame. A verdade é que só o fiz para queimar tempo. Se há tarefa que não percebo é a de fazer as malas. A julgar pelo tempo que as pessoas tiram para fazer as malas, a descrição parece literal, sugerindo que se deve ter em conta o quão difícil é encontrar uma vaca ou cabra de onde sacar um bom couro. Na era da Samsonite, o lusitano continua a pensar como um artesão de marroquinaria medieval. E eu, que fiquei com este reflexo entranhado, na verdade faço as malas em 10 minutos e sempre dispenso o plural, sobrando-me depois tempo que talvez devesse ocupar com essa outra tarefa de proporções hercúleas que é o planeamento da viagem. Mas aí nem é uma questão de ser despachado, é mesmo por teimosia que não abro um mapa, quanto mais um guia. Li uma vez um Lonely Planet e só curei a depressão quando estava já de regresso. Agrada-me a improvisação. É preciso estar em San Francisco no dia 13 de Agosto? Aponto para o dia 10 e vou andando para Oeste, de motelzinho em motelzinho. É uma navegação de cabotino, passo o trocadilho.

julho 13, 2006

Livre de estilo

Mustang.jpgJá tenho as chaves do bicho. Vai apetecer ir deixando aqui impressões desta bela terra. Nada de grandes fôlegos à Natália Correia. Se há coisa que devemos evitar é um europeu a explicar a América. Serão as impressões possíveis. Posts curtos, cenas impressionistas, aguarelas 20 cm x 15 cm, esquissos a lapiseira, instantâneos digitais. Uma opção estilística? Isso. Isso e o carcanhol, que o aluguer dos terminais de internet está pela hora da morte. Relato de um coast to coast, pois claro, o grande clássico. Direcção oeste, como um Lucky Luke sem pileca. E em modo lonesome cowboy intermitente, que sempre se encontra companhia pelo caminho. Vou de Mustang e nem sequer pago por esta abundância de estilo. Se vissem os estofos... Sou um homem com sorte, mas não posso é riscar o bicho. Logo me avisaram que o dono, lá em San Francisco, é do tipo temperamental.

julho 09, 2006

Pausa

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Para as Férias Grandes. Até daqui a uns tempos.

julho 08, 2006

Fui à Strand e levei a minha avó

strand.jpgNão fui eu a propor que Nova Iorque é uma cidade para se andar com uma velhinha ao lado, mas concordo. As velhinhas que por aqui se passeiam têm uma genica assinalável. Foi por isso que convidei a minha avó. Só temia que com ela viessem 4 caixotes de produtos da terra e que a ilha da Madeira me entrasse casa adentro. Afinal os caixotes foram só 3. E quando perguntei pelo Alberto João Jardim, a disse-me que o tinham confiscado na alfândega. A minha avó é assim, está sempre a reinar. O Alberto João é uma piada nossa desde que aprendi a falar. (continua)

Martin Hardy, 2002, Strand Bookstore NYC 20"x24"

julho 05, 2006

Sem soluções no ataque e no lamento

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Quando ia a meio da minha exposição, uma amiga e colega interrompe-me e diz:"Rushad [outro colega] was right when told me that you were going to try to draw some philosophical parallels between Portugal´s loss and your research." Então, pá? Pensa bonito.

Gostar de aves ®

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Como aqui.

julho 04, 2006

Se a Itália marcar hoje, chamem o Tardelli para festejar o golo.

tardelli1.jpg
Madrid, estádio Santiago Barnabéu, por volta das 21:20 do dia 11 de Julho de 1982, durante a final Final do Campeonato do Mundo de Futebol, disputada entre a itália e a Alemanha.

Adenda: não por acaso, Fabio Grosso fez mesmo lembrar Tardelli.

julho 03, 2006

Pussies

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Esta entrada, que tocará num dos traumas recentes dos franceses, não será sobre o jogo de Quarta-feira. Se a decidi escrever até amanhã foi por pretender relatar acontecimentos ainda frescos na memória. Tendo em conta o impacto nulo deste blogue, parece-me excessivo adiar a publicação do texto por causa de um jogo de futebol, mas as circunstâncias, o uso corrente do subtexto na blogosfera sofisticada e o respeito devido às vítimas de crimes de guerra justificam o esclarecimento.

Uma discussão tabu

É muito curiosa a atenção que se dá na blogosfera ao amiguismo entre escritores e jornalistas. Foi a última grande discussão que andou por este meio. Será talvez natural, visto haver tantos jornalistas e escritores na blogosfera. Mas fica por explicar por que razão, havendo também tantos académicos, ninguém esteja interessado em discutir com profundidade e persistência a forma por vezes vergonhosa como em Portugal se entra na carreira académica. Pode ser que não haja aqui mistério. A verdade é que quem está dentro da universidade tende a evitar estas discussões. Para quê estragar a pausa para o café com os colegas? É uma omertazinha.

Correio dos leitores:

As discussões blogosféricas que refere, no essencial, reportam-se a temas inócuos: a escrita e o jornalismo (para mais na perspectiva de crítica) são coisas que valem o que valem, ninguém vai preso por causa de fazer uma crítica ao amigo escritor, ou escrever sobre o amigo jornalista. Há muito fogo de vista, atrai muito voyeur (comigo na primeira fila, é claro) e serve para alimentar os dejectos televisivos animados pelo Cláudio Ramos e Maya (figuras que para bem da sua sanidade e orgulho pátrio espero que lhe sejam em absoluto desconhecidas aí nos EUA).
Estou a falar de coisas como a MRebelo Pinto e o JP George, o EPC contra o resto do Mundo (melhor, o Mundo contra o EPC) e afins. Outras discussões, tipo opiniões esquerda/direita ou as dogmaticamente profundas polémicas sobre se os blogues devem ou não ter comentários e se o JPP terá legitimidade para andar a «postar» sobre o trabalho, também servem o seu propósito: cada um manifesta a sua opinião, aumenta o tráfego do blogue por uns tempos e a coisa passa até à próxima.
Agora se estamos a falar de temas em que que regras «a sério» (estava a tentar não escrever legais, muito menos do foro criminal) são violadas, é claro que então as coisas fiam mais fino.
São assuntos que envolvem responsabilidades públicas e políticas, com as necessárias consequências, não meramente «virtuais». Seja o acesso à carreira académica, a qualquer uma função do exercício de soberania ou o nacional-porreirismo e amiguismo que grassa na Administração Pública, então trata-se mesmo de um tabu «tácito».
Quanto a isto, cheira-me que não vai haver grandes polémicas ou discussões blogosféricas...
RM

julho 02, 2006

Laundry blues

velcro-entry-1.jpgGosto de lavar roupa. É uma rotina que se desenrola com uma periodicidade suficientemente espraiada para que não se torne entediante. Tem também tempos de espera - de lavagem e secagem - que dão para ler dois ou três artigos puxados. E há um elemento de regeneração no processo que me enche de esperança. Com a roupa lavada parece que tudo volta a valer a pena e não ficaria espantado se me dissessem que deixar os antidepressivos passa muito pela escolha de um bom amaciador.
O lugar também conta. Tenho ainda presente o efeito quase hipnótico das revoluções dos tambores das máquinas de uma lavandaria parisiense e algumas conversas que troquei com os emigrantes que por lá passavam, gente que falava francês de todas as formas menos a correcta. Aqui em Nova Iorque há menos convívio, apesar de a lavandaria ser na cave. Não me dou com os vizinhos e os instantes de alguma intimidade só ocorrem por acidente. Como quando trouxe um babete perdido na minha trouxa de roupa. Ou quando descobri uma meia minúscula entre os lençóis. Percebi que a roupa de bebé tem especial vocação para fugir de casa e levantei uma hipótese: são os próprios bebés a colocar, com perícia, velcro nas suas peças de roupa, fazendo bandeiras de sinalização dos seus babetes e garrafas com mensagem das suas delicadas peúgas. Azuis e cor-de-rosa. Menino ou menina, todos se devem aborrecer com o excesso de mimo dos jovens casais. Eles querem ser salvos, pressinto-o. Foi avisado e pertinente ter criado esta série de textos (A Barreira de Weismann), uma tentativa feliz de sublimação do desejo de prole, caso contrário já teria raptado um puto. Outros não tiveram idêntica prudência e incorrem em comportamentos moralmente dúbios ou mesmo ilegais.
Encontrei um exemplo inesperado há uns dias, precisamente quando deixava a lavandaria. Num dos placards de anúncios, alguém anunciava (traduzo): "Adopção: casal sem filhos pretende adoptar uma criança com quem partilhar um futuro radioso. Pagamos as despesas médicas e legais. Vamo-nos ajudar mutuamente". Não sou ingénuo ao ponto de ignorar aquilo que algumas pessoas estão dispostas a propor para conseguir uma criança e o que outros estão dispostos a aceitar para ganhar umas massas. Porém, na minha inocência, nunca pensei poder ver tal anúncio num prédio de classe média de Manhattan. Não imagino nenhum dos meus vizinhos disposto a conceber uma criança por caridade ou para responder às encomendas. Sempre pensei que um arranjinho destes se faz entre gente bem instalada e pobres remediados. Pode ser que ainda seja assim. E que este casal se estivesse a dirigir às amas e às mulheres-a-dias. Ou que tivesse optado por uma campanha massificada. Ou que seja simplesmente estúpido. O certo é que o anúncio me incomodou. Cheguei até a ter saudades dos tambores das máquinas de Paris, daquela desaceleração que parece um rewind e me transportava para outro tempo (algo que as opacas máquinas de lavar daqui não permitem). Talvez por isso tivesse aberto o frasco do amaciador já no elevador, encostado o meu nariz e aspirado com alguma intensidade. Um fulano que entrou nesse preciso momento lançou-me um olhar reprovador, mas há algumas vantagens em não me dar com os vizinhos e nem o cumprimentei à saída.

Imagem de Tracy E. Anderson: ténues fios de esperança para os bebés com excesso de privilégio e desejo de aventura, num detalhe da estrutura do velcro.

Ronaldo versus Rooney

RR.jpgA propósito da expulsão de Rooney, os ingleses estão chocados com a atitude do português, a piscadela de olho e mais não sei o quê. Dizem que colegas de equipa não se podem tramar uns aos outros. Mas esquecem as declarações de Rooney, que dias antes do jogo fez votos para que Ronaldo não recuperasse a tempo de enfrentar a Inglaterra. Também na altura me pareceu pouco simpático, pouco cavalheiresco, enfim, nada britânico. O que fica por saber é se a pisadela nas partes baixas de Ricardo Carvalho foi intencional. As imagens são pouco esclarecedoras. Portugal teve sorte. Nem se deu por Rooney durante o encontro, mas a sua expulsão quebrou os ingleses.

T. precisa de desabafar

Alambix.gifO meu amigo T., autor de várias das melhores tiradas que vou colocando no MI, é brasileiro e português, como o Deco. Por razões óbvias, dou-lhe hoje a palavra:

Alésia? Personne ne sait où se trouve Alésia !

...E o Miguel continua a jogar um bolão. Já no outro lado da defesa Portuguesa... Na época que o Brasil jogava futebol, o Botafogo tinha um cara de pernas tortas (muito, muito tortas) chamado de Mané Garrincha, certamente o maior driblador de todos os tempos. Mané gostava, mais do que qualquer coisa, mais do que fazer gol, de dar voltas no seu marcador (ele chamava todos de João) até deixá-lo sentado. O prazer do Mané estava em deixá-los de bunda na grama- às vezes ele chegava a passar por um João, voltar atrás e passar de novo, até vê-lo cair. Assistindo o jogo de Portugal ontem tive um momento de tristeza, porque percebi que o par perfeito para o Mané é o Nuno Valente. Me lembrou aquele filme do saudoso Christopher Reeve, Somewhere in Time, o par perfeito separado pelo tempo. O Valente será o gajo mais representado quando editarem o videoclip do Best of desta Copa- you will see him briefly, flying past the ball in all the great moments, com Aaron Lennon, Rob Van Persie e - tenho já medo pela saúde do rapaz - Zizou.(...)
O que me causa imensa confusão é a ausência de violência. Quando o Rooney foi expulso imediatamente tive uma imagem mental do vestiário da tropa de choque de Gelsenkirchen, todo mundo se levantando, fazendo alongamentos, pondo a armadura...

Probabilidades e estatística

Estou há 5 horas a atirar uma moedinha ao ar e a ver se consigo uma série consecutiva de 50 caras. É o equivalente à probabilidade de, nuns quartos-de-final de um mundial de futebol, contra atacantes que jogam num dos melhores campeonatos, em quatro penalties um guarda-redes de um campeonato medíocre conseguir defender três e ainda tocar com as mãos na bola no único penalty que entrou.

Futebol dos feios II

tevez.jpgMais mundanidades. Beckham, Ballack, Kaká e Cristiano Ronaldo são grandes jogadores e jogadores giros. O próprio Zizou, que é melhor do que eles todos a jogar à bola, também me parece superlativamente giro, uma force tranquille (whatever that means), apesar de sofrer da alopecia com a progressão mais bem documentada da civilização ocidental. Como seria de esperar, todos estes craques são estrelas da publicidade. Percebe-se o encanto pelos muito bonitos e o desinteresse pelos banais. Também se explica o fascínio por Ronaldinho, que é um jogador excepcional e, embora mais feio do que o Gonzo dos Marretas, tem uma simpatia contagiante, um exotismo que atrai e aquele perene sorriso, que só mesmo nos últimos minutos contra a França virou máscara de desespero. Ora, este campeonato revelou dois jogadores de outra estirpe, que involuntariamente põem as grandes marcas em xeque.Ribery.jpg O apache Carlos Tévez e o scarface Franck Ribery não têm propriamente o ar de menino rico de novela do Kaká. Ambos são especialmente feios e feios de uma forma especial, pois aqueles rostos resultaram também de uma infância desafortunada - Tévez queimou-se e Ribery teve um acidente de automóvel. São já jogadores fora-de-série e com margem de progressão, mas um eventual interesse publicitário nunca seria entendido como uma medida niveladora que compense a obsessão pela beleza. Não é improvável que gerasse mesmo algum desconforto, como uma versão moderna e aligeirada de uma feira de monstruosidades. A fealdade goza de um pudor que não assiste a beleza. Dito isto, o meu desejo é que estes dois raçudos venham a dominar o futebol mundial. Chega de David Beckham.

Jamón de Huelva y Origen Jabugo

Jamon.jpgTenho três amigas que jogam futebol e dominam o jogo. Falam de esquemas tácticos e conhecem detalhes da carreira do Postiga. São mulheres impávidas e serenas perante uma imagem que mostra a impressionante musculatura da coxa de um Puyol por terra, que não reagem a todo aquele volume de carne; até eu acusei o toque e tive um flashback que me transportou de imediato a uma jamoneria de Madrid. São também mulheres que se aborrecem ao segundo comentário sobre a impressionante magreza de pernas do avançado inglês Crouch. Infelizmente, são mulheres excepcionais.

julho 01, 2006

Inglaterra - Portugal, minuto a minuto

Deixo-vos o único comentário que escrevi e que seria para explorar ao longo de todo o encontro, como leitmotif. É que logo ao segundo minuto percebi que não se brinca com coisas sérias e desisti da ideia.

Minuto 0 Começa o encontro. Em simultâneo, Pacheco Pereira inicia uma partida de xadrez com o seu caseiro. Pacheco de preto, o caseiro de branco, que abre com o peão para e4, Pacheco com peão para e5, caseiro com ce2. Uma abertura de Alapin, meus amigos! Surpresa na Marmeleira.