maio 28, 2004

la mála educación

Um filme de homens.

“La mala educación” es una película muy íntima, pero no exactamente autobiográfica,
quiero decir que no cuento mi vida en el colegio ni mi aprendizaje durante los primeros
años de la “movida”, aunque éstas sean las dos épocas en que se desarrolla la trama
(el 64 y el 80, con un intervalo en el 77).
Por supuesto, mis recuerdos han sido importantes a la hora de escribir el guión,
al fin y al cabo he vivido en los escenarios y en las épocas en que
transcurre la misma.

Pedro Almodovar

Publicado por medusa em 04:50 PM | Comentários (0)

Ricardo Reis (Odes)

Faltava-me esta referência que me é tão cara e a cada dia mais necessária:

"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive."

(mais aqui.)

Publicado por medusa em 02:23 PM | Comentários (0)

As Cartas Portuguesas

A 4.ª Carta:

"... Bem vejo que te amo como uma louca.
No entanto, não me queixo de toda a violência
dos arrebatamentos do meu coração;
e vou-me acostumando às suas perseguições e não
poderia viver sem esse prazer que decsubro e que gozo
amando-te no meio de mil dores ...
... Sim, sinto escrúpulos se não te dou todos os momentos
da minha vida... "

A 5.ª Carta:

"... Só conheci bem o excesso do meu amor
quando quis fazer todos os esforços para me curar dele,
e receio que não tivesse ousado aventurar-me a essa
empresa se tivesse podido prover-lhe todas as dificuldades
e violências. Estou convencida de que teria experimentado sensações
menos desagradáveis amando-o, ingrato, embora, como é, do que
deixando-o para sempre. Tive então a prova de que lhe quero menos
do que à minha paixão, e suportei dores indescritíveis em a combater,
depois que a infâmia da sua maneira de proceder o tornaram odioso
aos meus olhos ..."

(Soror Mariana Alcoforado, diz-se)

Publicado por medusa em 02:06 PM | Comentários (0)

maio 26, 2004

variações

Como era mesmo a letra daquela música do variações?
"é pr'amanha, bem podias viver hoje
porque amanhã sei que voltas adiar
ai tu bem sabes como a vida foge
mesmo de quem diz que está p'ra durar...

foi mais um dia e tu nada viveste
um dia a mais tu pensas que não faz mal
quando pensares no tempo que perdeste
então tu queres mas é tarde demais..."

seria assim?

Publicado por medusa em 01:21 PM | Comentários (4)

maio 21, 2004

Há dias

há dias em que acordo para ser criança
e me deixar pular de alegria por essa prenda invisivel que me dás
outros dias acontece de eu ser adulta
para tratar com cuidado os assuntos sérios de que me responsabilizo
às vezes acordo com preguiça
e sou languida e irresponsável
e gosto mais da luz do sol e das coisas fúteis
dias há em que me recuso ao espelho
e me recuso ao outro
porque não me aceito
ou então acontece de eu sair a correr para encontrar este e aquele
e para que me vejam e eu brilhe mais e mais
dias há em que me sento para ser branda e observar a pureza de todos os encontros
mas muitas vezes acordo guerreira e visto a armadura mais forte que tenho
para me poderes atirar pedras e eu não deixar que me magoes
às vezes abraço-te para teres um abrigo
mas outras atiço-te para veres os teus novelos mal enredados
e ponho sal nas tuas feridas para que não te esqueças de as tratar
há dias em que me sinto cansada e prefiro esperar por outro sol
mas propício para a viagem e por isso mantenho a noite e redor e não acendo luzes
e há mesmo dias em que me perco numa infinidade de amores e não dou a cada um o tempo devido
há dias em que olho para ti e outros em que não
há dias em que me evito e em que actuo com medo de me ver mais de dentro
há dias em que não me reconheço e não sei como sou
há dias também em que não sei usar a liberdade de ser o que quero ser
há ainda dias em que me experimento como se deixasse de ser eu
mas em todos os dias não sou ponte, nem outro, nem tédio.
em cada dia sou eu
apenas eu
sempre eu
em expansão

Publicado por medusa em 10:42 AM | Comentários (0)

Vamos pôr tudo branco no preto

não
ele diz que não
que não a deseja
que ela não o constroi
e que quase nem existe no seu universo
não conta não se vê não tem valor
e amigo adverte: cuidado, ela é intensa não se prendam
que é mas dificil voar quando se está enlaçado
e diz
afastem-se
não vale a pena
ela não brilha não eleva não
ele fala
ele conta que ela não tem bons sentimentos por ele
que ele sofre porque injustiçado
mas não fala por gostar antes por ela a isso o obrigar
e ele narra-a e narra-se também
apenas para dizer que não, que ele é melhor que ela
e ela existe na narrativa apenas para ser marco
referência de comparação
e gosta de a ter por perto
para que ela prove como ele é melhor que ela
mas não
ele diz que não
que não a deseja.

ela sim
ela diz que sim
que ele é um amigo
aqueles por quem temos respeito
nada mais
e presa ela a ele diz que sim
que ele vive muitas emoções porque quer voar muito e não pode
ela cala-o para se calar a si também
narrando assim memórias doces
e possbilidades já consumadas
que ela não pode deixar sair
e por isso ela faz dele silêncio
salvo os momentos em que diz que sim
que ele é do bem
e diz-lhe sempre que sim a ele
para se decsulpar de não ser como ele
porque ela é diferente
e marca-se nessa diferença
para dizer o que ela não é como ele
e o que é como ele não é
e o que ela aprendeu com ele e que não poderá ser
e o que ele não aprendeu com ela porque não quer ser
e gosta de estar perto dele para provar
como ela é melhor que ele
mas sim
ela diz que sim
que não o deseja.

ele fala-se nela
ela cala-se nele

na indiferença que um tem pelo outro constroém-se assim
para dizer que um não deseja o outro porque se um desejasse outro
deixaria de ser um para ser outro e de ser outro para ser um
e então consumir-se-iam e perderiam o jogo das vontades
e uma fogueira aconteceria pois o intelecto e o afecto acordariam
e compreenderiam então que tudo é mentira e depois...
não haveria razão para manter a verdade e teriam de aceitar a mentira
mas tal não pode ser porque temos de ser todos verdadeiros e amigos,
afinal quem é que andamos a enganar?


Moral da história: o pensamento pós-moderno é complexo.
ou melhor, o afecto pós-moderno é hologramático.


Publicado por medusa em 10:39 AM | Comentários (0)

Obrigada estou

Obrigada
estou a ti
laçada
atada
por me recordares sempre
pelas melhores e piores provas
que sempre somos agentes
autores
que criam
e actuam
fazem
concebem
e que nos cabe a nós
agentes
limpar cada palavra
de toda a violência
que ela em potência transporta

o amor é um exercício de depuração
da agência
da palavra
do Verbo

Cada palavra minha
não pode ser pedra tua
nem eu serei espelho
para construires a imagem tua
sem que antes
te depures também.

Seremos sempre
agentes da ordem
não porém de uma ordem arbitrária
totalitária
absurda
antes sim
dessa ordem na qual nos inscrevemos
a qual escrevemos
exercendo a nossa liberdade
de sermos criadores
de nós mesmos
numa escrita contínua

Publicado por medusa em 10:34 AM | Comentários (0)

das palavras

não podem as pedras que me atiras
causar-me dano
não que eu seja para elas fortaleza
resistente
nem mesmo parede de fumo
que nada retém

as pedras que me atiras
entram em mim
mas não de mim saiem
todo o perigo está naquilo
que sai do homem

acção tua são as tuas pedras
que eu não posso resolver

e servem apenas para me lembrar
das pedras minhas
que comigo guardo

Publicado por medusa em 10:31 AM | Comentários (0)

Rocha

eu sou uma rocha
que forte resiste ao mar
e sustém a praia
eu sou rocha
obstáculo à intempérie
resisto
ao vento
ao mar
ao ar
à água
á mente, que se trai
ao sentimento, que se desentende
eu sou rocha
que guarda grutas
dentro de si
escuras umas
brilhantes outras
abrigos
abismos
ninhos
perigos
rocha que redonda se molda ao mar
rocha pedra bruteza que protege e acolhe
e respeitando o tempo
se desfaz, invisivelmente, em seixo
para depois ser pedra
e pedrinha
e se fazer depois em areia fina
e rolar no mar
confundida ja
na fusão da onda

eu sou uma rocha que sabe
que à terra há-de ceder
quando o tempo quiser
e há-de desabar
e outra forma
erguer

Publicado por medusa em 10:27 AM | Comentários (0)

Narciso e Eco enamorados de si mesmos

Narciso procurando-se no lago
Eco na montanha tentando ser ouvida

Ele enlevado, elevado
Ela dispersa, desesperada

Narciso, vê-te de novo
Emociona-te perante a beleza tua
insensível, na água
muda que não te responde

Eco repete-te de novo
Mantém o hábito no ouvido vizinho
Desatento
Á voz do silêncio

porque desrazão procuras tu narciso?
porque insensatez te não bastas a ti mesma
e te vais repetindo
irrazoavelmente

narciso desprezado de si
eco já de si esquecida
ou então
ambos ocupados em sua paixão fechada
esquecendo-se um do outro

Publicado por medusa em 10:24 AM | Comentários (0)

maio 20, 2004

As 3 Marias em 1971


"... Pegando, por exemplo, numa linha: corpo de mulher, onde é sugado
e exausto o sexo duro do homem, sua breve participação na feitura do filho
- filho da riqueza, mão-de-obra, imortalidade em outro - corpo de mulher com
seu sangue e ciclos e que se rasga noutro corpo filho, mistério de vida e de
morte, escândalo de um corpo demasiado próximo da natureza que o homem
tenta dominar receando sempre suas vinganças, medo do corpo, corpo de
perdição, medo de castração nele, homem erecto e constructor mas a quem só
a mulher para os filhos, mulher marginalizada naquilo que o homem rejeita
nas suas escolhas pragmáticas, intuição feminina (a mulher tem artes, diz o
povo e Freud considerou-a, et pour cause, muito mais atenta do que
o homem, ao significado dos esquecimentos e actos ralhados), eterno feminino,
magia, bruxa, demoníaca, possessa, vampe (ah, mulher! que é para te comprar que eu trabalho
há séculos, e minhas leis, e tu sempre me foges), corpo que se
possui, terra do homem, carne da sua carne, costela de Adão, homem faz-se
mãe da mulher para a reorganizar nas suas origens, a partir do caos, mulher
poder de tentação e de pacto com a desordem, poder e escândalo, sentimento
de culpa do homem, sua crítica marginal, sua imagem negativa...
Vêm de longe os nossos medos, as nossas ditaduras e os retratos demiúrgicos dos nossos chefes.
Em toda esta linha que eu mal puxei, se ensopam e mitificam nossas políticas, nossas éticas,
nossos amores a dois.
Nossos amores a dois, onde os homens se nos chegam assim,
vindos daquela cavalgada,
em sua imagem social presente,
destrutivos, fazendo o vazio à sua volta, afirmando-se
sempre contra alguém ou alguma coisa, erectos não por si mas por força de ir
contra outro, sempre cegos e sempre sós no seu solilóquio perante nós, que
substitui, diálogo, connosco, impossível; seu vazio diz-nos «minha sombra de
nada», seu medo diz-nos «minha raiz de tudo»; e nesta carência, por seu
medo, é nova invasão que se prepara, «em ti me enxerto, eu cepa usada, lua
seiva sugo». Chegará tempo de amor, em que dois se amem sem que uso ou
utilidade mútua se vejam e procurem, mas apenas prazer, prazer.
Só no dar e no receber?"

(em 1971...)

Publicado por medusa em 06:52 PM | Comentários (0)

Inocência

Ao homem sim
é dada inocência
e assim menino
ele pode perder
um sorriso pálido
levado
traído por si mesmo
enganado pelo tempo

Não à mulher
é dada inocência
o corpo não o permite
ela que é estática
ampla
ela sabe
cala e guarda
em si
verdades terríveis

Publicado por medusa em 05:49 PM | Comentários (0)

maio 19, 2004

Pós-modernos e o amor

Vieste comigo
Nesse jeito pós-moderno
De não querer saber nada
De não fazer perguntas
Essa pose cansada
Tão despida de emoção
De quem já viu tudo
E tudo é uma imensa repetição

Não fosse a minha competência para amar
E nunca teríamos acontecido
Num mundo de competências
E técnicas de ponta
A dádiva da fala
Quase já não conta

Depois quase ias embora
Desse modo
Evanescente
Não soubesse eu ver-te tão transparente
E teria sido apenas
Um encontro acidental
Uma simples vertigem
Dum desporto radical

Não fosse a minha competência para amar
E nunca teríamos acontecido
Num mundo de competências
E técnicas de ponta
A dádiva da fala
Já quase não conta

(Clã- ROSA CARNE)

Publicado por medusa em 01:02 PM | Comentários (0)

maio 18, 2004

Octavia Monaco

Publicado por medusa em 05:36 PM | Comentários (0)

maio 14, 2004

Clarice Lispector

A Perfeição

O que me tranqüiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

Publicado por medusa em 05:39 PM | Comentários (0)

Ainda Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia

Publicado por medusa em 05:38 PM | Comentários (0)

maio 11, 2004

Marina Colasanti II

Sexta-feira à noite
Os homens acariciam o clitóris das esposas
Com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
Contam dinheiro, papéis, documentos
E folheiam nas revistas
A vida dos seus ídolos.

Sexta-feira à noite
Os homens penetram suas esposas
Com tédio e pénis.
O mesmo tédio com que todos os dias
Enfiam o carro na garagem
O dedo no nariz
E metem a mão no bolso
Para coçar o saco.

Sexta-feira à noite
Os homens ressonam de borco
Enquanto as mulheres no escuro
Encaram seu destino
E sonham com o príncipe encantado.

Publicado por medusa em 01:24 PM | Comentários (2)

maio 10, 2004

Marina Colasanti

Ás seis da tarde
as mulheres choravam
no banheiro.
Não choravam por isso
ou por aquilo
choravam porque o pranto subia
garganta acima
mesmo se os filhos cresciam
com boa saúde
se havia comida no fogo
e se o marido lhes dava
do bom
e do melhor
choravam porque no céu
além do basculante
o dia se punha
porque uma ânsia
uma dor
uma gastura
era só o que sobrava
dos seus sonhos.
Agora
às seis da tarde
as mulheres regressam do trabalho
o dia se põe
os filhos crescem
o fogo espera
e elas não podem
não querem
chorar na condução.

Publicado por medusa em 04:22 PM | Comentários (0)

Sophia

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa

Publicado por medusa em 04:14 PM | Comentários (0)

Ana Hatherly

O círculo é a forma eleita
É ovo, é zero.
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa.
Em nós se consumando,
Passando a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.

Publicado por medusa em 01:23 PM | Comentários (0)

maio 06, 2004

dulce

aqui

Publicado por medusa em 04:02 PM | Comentários (0)

a narrativa

"... Vejo nos teus olhos aquele atrevimento alegre que passa com a juventude,
dando lugar a olhos tão melancólicos, embora esperançados, a gestos tão
hesitantes, que se percebe logo que a morte já está espreitando.
A juventude não conhece perigos. Ou se os conhece finge, e ignora,
sente-se forte, sente-se à altura deles, espera até que eles surjam,
daqui ou dacolá, para lhes fazer frente.
Olho para ti e não consigo ver como foi a tua infância.
Ou não tiveste infância? Tiveste por acaso uma mãe carinhosa?
Ou faltou-te essa experiência de um corpo mais profundo, onde podias
enterrar-te, como na lama, ou na areia, ou afundar-te como no mar,
afundar-te, preparando-te já para alguma inesperada morte,
porque é sempre de morte que se trata... de uma morte adiada.
A morte assume o rosto, o corpo, a forma da nossa mãe.
Por isso não deve assustar. A mãe que sai das trevas e conduz.
Ou tiveste, pelo contrário, um pai severo, ciumento, como são tantos pais,
inquietos com o amor que a mãe lhes dedica a eles e não devia ser
partilhado, devia ser só dos pais.
Um pai que te chicoteava às escondidas e te proibia de falar
e não gostava de te ver, hoje, com um tal penteado? ..."

(Yvette K. Centeno, O Pecado Original)

Publicado por medusa em 12:59 PM | Comentários (0)

maio 03, 2004

gostava de ter escrito assim:

"procurámos as palavras e não havia nenhuma
para dizer deste derramar sem sinal de cansaço
um lume a nascer por detrás do olhar
a sonhar-nos os dias
por dentro dos dias"

(mas ainda bem que há quem o faça... e partilhe)

[Ana Viana - Por dentro das palavras... o tempo]

Publicado por medusa em 01:31 PM | Comentários (0)