abril 30, 2004

Dança

Olhares
Mãos
Ondas
Curvas
Braços

Sedução
Apromixação
Deslize

Sexo
Morte
Espera

Nascimento
Grito
Vida
Chuva
Água
Choro
Terra
Céu (estende os braços ao alto)
Fogo (incendia-te)

Hoje é o Dia Mundial da Dança!

(Olga, sempre muito Olga. Comemoremos então!)

Publicado por medusa em 12:59 PM | Comentários (0)

abril 26, 2004

Boa vida

Issues de uma boa vida...

amigos (diferentes, vários, sábios todos)
chá (muitos sabores, muitas ervas)
textos (bons, viagens de papel, inesperados)
paisagens (surpreendentes, muito sol)
gente (novos rostos, novas vidas, desconhecidos)
beleza (em vários formatos, em mãos, em olhos, em olhares)

e ainda,
comemorar o dia mundial da dança (em rodopio!)
ouvir Sarah Vaughan (viajar ao passado do blues, até cansar!)

afinal é tão fácil...

Publicado por medusa em 02:24 PM | Comentários (0)

abril 19, 2004

Cheguei (chegámos)

– Eu tenho medos… que me assaltam de noite…
Medo de não ser grande,
medo que me destruam numa noite escura…

Ora que coisa é essa que me dizes?
Senta-te aqui.
Aqui onde eu estou.


(Respiro fundo, inspiro até que a luz chegue a cada célula, até à última célula. Expiro lentamente, deixando sair tudo o que não me faz falta. Levanta-se o vento e o meu cabelo esvoaça. Fecho os olhos para ver melhor onde estou.)

Encosto-me
Abro os braços
Abro o corpo, deixo-o assim exposto ao ar doce que me rodeia e à paisagem de branca e rosa e amarela.
Sim. Foi sempre deste lugar que me falaste. Sempre aqui estiveste.
Estendo o olhar e acompanho-me de um sorriso um pouco tonto, um pouco embriagado.
Serenamente, participo na ordem das coisas.
Avisto o que me rodeia e vem até mim e me convida a participar no que não sou.
Tranquilamente,
Sei que o que me espera é um caminho protegido.
Sei que agora é um espaço imenso.
E que estar só, é só uma vontade de espraiar o pensamento. E nunca estou o estou.

Aqui onde estou também sei que posso ser alimento.

(eu guardo memórias de um restaurante onde se servem refeições quentes e saborosas acompanhadas por um sorriso aberto a viajantes que se procuram. E também de uma hospedaria que oferece conforto e acolhimento em noites mais escuras, noites adversas, noites que só existem para ajudar a formar esse espaço de acolhimento. Eu quero ser esse restaurante e essa hospedaria).

Aqui a poesia é vestida por sobre a pele.
Deixa de ser palavra
Para ser hora e olhar.

E agora recordo essa viagem mítica que fiz com dois heróis do meu tempo.
Se calhar sonhei. E continuo a sonhar com uma paisagem bucólica com cheiro a lavanda.
Parece então que andámos por aí a construir os sonhos que eu hei-de sonhar e que me sustentam a realidade.

Fomos quatro (sim, o Caeiro também por lá nos acompanhou, rebolando nos campos)
Fomos muitos (que connosco na memória levámos)
Voltámos mais (mais nós, prontos para outros).

Eu sei que sempre aqui estive.
Mas sei também que haveremos de partir mais vezes. Muitas mais.

Publicado por medusa em 07:11 PM | Comentários (0)

H2 (entre Agás)

(Durante a viagem)

Agá de Homem, sereno.
Agá de Menino, deslumbrado.
Agá de mão segura e gesto firme.

Entre agás (à procura do que somos e seremos)

Haveremos (de ser)
Na hipótese
De uma hora perfeita.

Entre agás
Possibilidades múltiplas
Horta, Húmus
Humano, híbrido
Hidra e Hera.

Haveremos (de ser)
Haja (bem)
Bem-hajam!

Publicado por medusa em 11:38 AM | Comentários (0)

Vozes esparsas e dispersas

Texto pós-alentejo aproximativo a um sentido

(Chegam-me novas de que me foi, da parte de mui nobre cavaleiro
de terras distantes, um ultimato endereçado...
(são sempre distantes as terras dos mui nobres cavaleiros,
parece que por aqui, nas vizinhanças,
a nobreza se esbate com o acostumar do olhar
).
– Perdoai-me o reparo mas não se trata de um cavaleiro…
pelo menos não de um cavaleiro andante…

– Sim, bem o sei. Sensatamente o dizes. Trata-se de um pássaro, desses que habitam pontos altos e dançam nos céus, nesses céus onde nos esquecemos nós de andar. Não sei porquê… Que pobre mania essa de levar as palavras à letra e não deixar que elas nos contem todo o seu sentido. É preciso saber escutar as palavras. Algumas são tímidas como as virgens. É preciso estar atento. Cavaleiro serve para enaltecer a nobreza de alguém, que importa se vive na terra ou no mar ou nos céus!)

Meu verdadeiro amigo. Uma vez mais cabe-te a ti esse dar-me-a-mão e me conduzir por onde eu possa ir de olhos fechados.

(- Pois que a honra me obriga a dar resposta e a fazer chegar a outras paragens o que trago cá dentro. Mas ai de mim, que de mim pouco sei. Destemida, convicta, convoco as ordens das palavras que me habitam, ordeno que se organizem e que se mostrem. De pouco me serve. Não me obedecem, esparsas que estão, distraídas com temporalidades. E em noite aberta deixo assim, numa desordem de sentidos, a morada da generosa Alda, que me havia acolhido).

§ Não posso usar essas palavras já gastas pelo uso e desuso e abuso.
Já entranhadas no ouvido. Já as conhecemos bem, nem damos por elas, pois que as reduzimos a transparências. Não têm já vigor suficiente para nos obrigar a ouvir o eco que fazem em nós que as escrevemos, nós que as lemos. Mas tão pouco posso ousar excedê-las. Extravagância arrogante. Nada mais há para além das palavras. Detenho-me e hesito perante qualquer exercício narcísico e banal de inflamação do ego.
(espelho meu, espelho meu… haverá sentimento mais invejado do que o meu?)
(cuidado: perigo de explosão. Material inflamável. Não colocar perto de fontes de calor)

(Qual ego? Aqui onde me encontro, aqui onde eu cheguei, onde me ajudaste a chegar, há palavras com tão pouco sentido... ).

§ “A Viagem faz-se por aproximações”, dizias. E só pudemos concordar. Mas eu não sabia. Pensava que quando não se chegava exactamente onde se queria chegar, era porque alguma coisa tinha corrido mal, ainda que a viagem fosse prazerosa. Afinal, era tão simples e era isso que tu tinhas para me dizer: a viagem faz-se por aproximações. É mesmo assim. Só assim. Não se pode saber onde queremos chegar se não deixarmos que a viagem no-lo diga. Ela sabe mais sobre si mesma do que nós sobre ela.

Não chegámos a parte alguma porque era já aqui que nos encontrávamos, Era já aqui que estávamos, que sempre estivemos.

§ Fugir do Lugar comum.
(E como nós fugimos do lugar comum… para encontrar o que de mais comum há no lugar…)
O lugar comum é, como o próprio nome indica, aquele espaço, físico ou poético, que é comum, que já todos conhecem e que todos podem visitar. Ora, fisicamente, o lugar comum é aquele que se visita todos os dias pelas razões mais comezinhas. Exemplo de lugar comum, seria a estação de metro perto do local de trabalho de um indivíduo. Ora este espaço tem tanto de comum, quanto o indivíduo o visita rotineiramente e sem um propósito mais altivo que aquele de cumprir uma missão quiçá enfadonha. A “comundade” do lugar impede que o transeunte lhe vislumbre a estética. Lugar comum pode ser também a igreja onde a Tia Alice trabalha, limpando todos os dias o pó aos santos, que são de madeira e acumulam ácaros e se ela o não fizesse corriam o risco de ganhar caruncho e se tornarem santos de pau oco. Comum também é o passeio onde o Sr Jose Bentes vende amendoins aos automobilistas que o acaso quis que se juntassem todos os fins-de-semana na bicha, que assim que ele lhe chama, para a entrada no ferry-boat de Tróia. Mais comum ainda é o ponto mais alto da praia onde o Manuel da Tia Emília esteve a pintar um banco de madeira que lá está para quem queira descansar do calor do sol.
Manda a tradição que para que a vida de alguém seja consistentemente interessante e proveitosa, ele não frequente lugares-comuns.
No campo poético, os lugares comuns são aquelas palavras que já toda a gente utilizou para descreve aquelas sensações e sentimentos que já toda a gente experimentou.
Por exemplo, fazemos uma viagem e dizemos depois:
“a viagem foi muito espiritual” ou “ou não voltei a mesma pessoas; ou melhor, voltei, voltei mais consciente de mim, sinto-me eu” ou “quando adormeço, os meus sonhos têm esta paisagem; é como se regressasse todas as noites aos lugares por onde estivemos” ou ainda “agora tudo faz mais sentido, parece que tudo está bem e sempre esteve bem mas eu não conseguia ver e achava que estava todo do avesso”.
Manda a tradição que nos afastemos dos lugares comuns poéticos, pois eles nada de extraordinário podem fazer sair de nós.
Dizer: Amo-te! É o lugar mais comum a que a nossa linguagem pode chegar. É comum porque qualquer pessoa o pode dizer e todos o compreendem. E ainda mais comum porque já toda a gente disse e já toda a gente ouviu, assim parece.
No entanto, são excepcionais os dias em lá se chega, de facto.
Talvez seja necessário, pelo menos por hoje, (re)visitar alguns lugares-comuns, muito comuns, para dizer que o que sinto é só aquilo que quero continuar a sentir e que queria que qualquer pessoa sentisse.

(Que entre o lugar comum)

§ – Cuidado com o advérbio!
– Mas ai de nós, que sem ele a nossa escrita seria pobre, limitada às cousas, que são os nomes, e aos movimentos, que são os verbos, e à natureza das cousas que se chama pelos adjectivos. O advérbio é a intensidade do movimento da cousa e da sua natureza. É polo advérbio que sabemos dos tons, das direcções, dos modos. Todala diferença existe entre escrever: és belo e escrever és verdadeiramente belo.
– Eu prefiro que as cousas o sejam quando dizemos que o são. Tu és belo é assumir a profundidade das palavras e deixar que elas nos contem sobre a sua intensidade. Tenho para mim que a palavra fala mais connosco quando a não agrilhoamos no advérbio. Tu és belo. E para mim isso chega.

(e ainda não te cantei…)

§ Sou uma flor dizem, de lavanda, aqui no Vale do Guadiana.
Dele nada sei. Baste-me sentir a brisa que pela manhã me enternece. Leda sou, de igual modo, pelo seu respirar nocturno, que me inspira as orações. Mas do Guadiana nada sei para vos contar.
Falais-me de um tal Lobo, o do Pulo.
Talvez.
Talvez assim seja. Aceito que por estas paragens um lobo perdido, em tempos remotos, tenha pulado, por alguma causa que haveremos de desconhecer, mas que talvez seja apenas aquele que teve de ser para que hoje vós podeis dele vos lembrar.
Contam-se muitas histórias.
– Ora – diz o homem-velho que por mor de sua curiosidade se aprochegou
– o tempo passa melhor se houver histórias para contar e histórias para ouvir. Que algumas histórias são melhores para se contar e outras para se ouvir.
Sim, também já me contaram dessas rochas lascadas que imponentes se desfazem nas nossas mãos, como barro. Não sei se é das rochas, se é das mãos, que foram feitas para que nelas as rochas se pudessem fragilizar. Também devem estar cansadas de as acharmos tão fortes.
Dizem que aí, a água tornou as pedras macias e redondas como ventres maternos. Já vos aninhastes por lá? Antigamente, costumava deitar-me nessas espaços redondos e meigos. A água corria com a mesma força, tão asinha como antes que dava até a crer que o fazia com desespero, mas quando eu o fazia, ela corria mais alegre, mais feliz por ser água e correr tão velozmente. A água é assim. Muito sensível nas emoções. Se reparares em, quando a terra fecha a água num lago, ela aceita-o, não foge dele, molda-se a ele. Do mesmo modo com o ar. Se o vento sopra mais forte, a água apressa-se também, deixa que ele a comande. A água é assim, não impõe a sua vontade. Mas ai de nós se não fora a água, que estes campos seriam secos e estéreis, e estas rochas não seriam suaves e redondas. E neles não haveria ser dado deitar-me para sentir com o corpo todo, que é para isso que nos é dado um corpo, essa força da natureza, onde tudo tem o seu lugar, que não nos é dada a conhecer de outra forma.
Mas há outras histórias que se contam por aí, desde a minha meninice e já meus avós mas contavam, de uns certos antepassados nossos que traziam para estas terras pedras que não há por cá, pedras enormes, tão pesadas que seriam precisos dois bois para as carregar, e que com elas essas criaturas faziam os túmulos dos seus mortos, que estes sempre os houve, se sempre foi mister zelar p’lo seu repouso. Dizem que isto é um mistério, que não há explicação para o modo como o faziam. Ora eu tenho cá para mim que a explicação existe mesmo que não exista nas nossas cabeças. Eram outros tempos, e o que se sabe fazer hoje não é o máximo do que se pode saber. Ás vezes penso que houve um tempo, já muito longe, em que os homens conviviam com esses mistérios e eles não tinham mistério nenhum. Como o tal Tobias, que conversava com o seu Anjo. Ora que mistério tem isso? Depois por alguma razão que havia de ser nos esquecemos e tivemos de aprender a fazer tudo de novo. E como ainda aprendemos pouquechito, vemos mistério por toda a parte.
Pois a mim não me espanta. Eu também vejo este sol todos os dias e não ando aí interrogando-me sobre a razão de ser deste sol. Dizem que é uma estrela e que tempos houve em que não havia sol e que tempos haverá em que ele deixará de existir.
Ainda assim, este é o Sol.
E a mim basta-me levantar a cabeça e ver a ponta do meu nariz recortada no céu. Vejo-a assim bem definida e sei que este é o meu nariz porque o vejo.
Também posso esticar o braço e abrir a mão. Espreguiçar os dedos e vê-los como querendo ser raios de sol. Parece que quero agarrar assim o sol. Mas não é verdade. De que me serviria ter o sol na mão? O que é belo, é belo mesmo se não estiver preso na minha mão.
Agora desses mistérios de que me interrogam, nada sei.
Sempre aqui estiverem estes montes, estas árvores e mais aquelas além, estas florzitas, este rio e outra ribeiras que por aí há.
Estou só estou aqui. Nada sei de mistérios.
E não estou esperando nada. Vivo apenas cada instante pleno que por mim passa. E deixo que o instante me viva também.
Sim, por vezes sinto saudades. Mas então, o que é que se há-de fazer?
A saudade é já tão antiga, já a conhecemos tão bem, desde velhos tempos em que se faziam antigas de amigo, que a cantamos (Ai flores, ai flores do verde pino,/se sabedes novas do meu amigo?/ai, Deus, e u é?//Ai flores, ai flores do verde ramo,/se sabedes novas do meu amado?/ai, Deus, e u é?).

Por isso não me detenho nessa saudade. Sei que amar é assim. E não amo menos por mor da saudade. Talvez até ame mais, pois como a planta também o amor precisa de tempo para crescer, para se nutrir. Cultivo em longas horas meus sentimentos pela Amada.

(As palavras não estão acorrentadas umas nas outras, numa sequência como uma corrente. E essas coisas que se dizem das cerejas não é verdade. As palavras estão ligadas entre si por relações insuspeitadas. Algumas palavras mais seguras de si, expõem-se, como querendo receber mais atenção. Mas outras há que se escondem, traquinas, em recantos que desconheço. Algumas, fá-las a timidez teimarem em não aparecer quando as convoco. Despedem-se e teimam em ficar sós, a fim de melhor meditarem sobre o seu sentido. Há que dar tempo às palavras).

§ (continua o velho)
– Julgais vós que sois os primeiros a percorrer esses caminhos? Pois ficai sabendo que já muitos por aqui passaram e também vós não sereis os derradeiros. Dizem eles que aqui encontram o que há muito perderam. Pois eu não compreendo como se pode perder aquilo que nunca deixou de existir. Mas ainda que alguém jamais tivesse deixado as suas passadas marcadas nesses montes, eles não deixariam de existir. Pelo contrário, algo me diz que é por percorreres esses caminhos vós existis. Do esmo modo, também vos não existireis se de por cá não estivessem, pois de vós não teria qualquer notícia.

§ Ora, e vós sois de onde? Da Cidade Grande?

Não a conheço. Mas vós sois meus irmãos, pois que temos a mesma natureza e temos as mesmas palavras para dizermos aquilo que queremos dizer, e assim nos entendemos. Viemos da mesma terra e ascendemos aos mesmos céus. No entanto, pesa-me que vós tenhais uma vida diferente da minha. Viveis num mundo mais pequeno. E tendes outros medos que eu não tenho. Viveis no meio do ruído e o ruído não é bom para escutarmos o que o mundo nos está dizendo. A mim faz-me espécie que nessa vossa terra seja preciso fazer coisas muito diferentes quando alguém está precisado de viajar em pensamento. Nós aqui, fazemo-lo todos os dias, só temos de abrir a janela. E voamos, voamos muito, para bem longe, muito cá por dentro. E voltamos quando queremos. Temos todo o tempo para nós.


§ “A Viagem faz-se por aproximações”. Se for mesmo assim, também o texto, viagem híbrida pela folha, pelo espírito, se faz de aproximações. Não existe o texto antes de ser escrito e depois de o ser ele não é aquilo que pensávamos que seria. O texto é o texto. Não é o texto-que-eu-quero-que-o-texto-seja (mania barroca essa de hifenizar todas as palavras para fazer com o que seu sentido seja um todo, a palavra não nasceu hifenizada).


(também é preciso deixar cair a virgula, despojarmo-nos dela, essa vergastada na frase. Causa-me arrepios. Lembra-me os escravos nas senzalas. Quando eu andava na escola. A professora dizia que a vírgula era para marcar o momento em que deveríamos respirar. E os meninos paravam na vírgula e enchiam de ar os pulmões.
Se não houver vírgulas? Será que sufoco?
).


Publicado por medusa em 11:32 AM | Comentários (0)

Histórias para alimentar sonhos

(Ou de como um P e um J fazem um oito
e de como o oito é o nó da eternidade
)

– Está na hora de ires dormir…

– Sim, mas contas-me aquela história?
A do príncipe completo e da princesa brilhante?

– Está bem…

– Era uma vez…

– Era uma vez, há muitos muitos anos, uma princesa muito bonita chamada Anajo que vivia na torre num castelo. O castelo tinha um jardim cheio de flores e um rio. A princesa vivia serena mas por vezes entristecia-se porque no escuro ninguém a via. De noite, só se conseguia ver a Princesa se houvesse lua cheia.

– Mas depois veio o príncipe!

– Sim. Era uma vez um príncipe chamado Balop que vivia num reino muito distante e era muito corajoso. Balop vivia sereno mas de noite chorava porque o seu coração tinha um buraquinho por onde entrava o frio. Ninguém sabia que era assim. Mas Balop entristecia-se porque quando sentia esse frio, nas noites em que não havia luar, pensava que não fazia sentido nenhum lutar tão destemidamente. Então um dia, o príncipe decidiu partir e procurar uma cura para o seu coração.

– E então conheceu a princesa!

– Estás a apressar a história… Mas foi assim, o príncipe partiu e viajou com o seu cavalo por muitas terras, montes e vales e, certa noite, chegou ao jardim da princesa Anajo. Era noite de lua nova, não havia luar, mas Balop viu a princesa e o olhar colou-se logo no dela. Então Anajo começou a brilhar, a brilhar, a brilhar muito como se houvesse lua cheia. Muito feliz, a princesa encheu o coração de Balop com flores perfumadas e ele deixou de sentir aquela tristeza que o fez partir. Então ele ficou completo e compreendeu que só tinha deixado o seu reino para encontrar Anajo.

– E viveram felizes para sempre!

– Sim, mas espera, a história não acaba aqui. Como Balop era tão completo e Anajo tão brilhante, eles decidiam partilhar isso com toda a gente que encontravam. E então todos os seus amigos participavam no amor deles. A princesa dava-lhes brilho e o príncipe defendia-os erguendo a sua espada.

– É por isso que eu gosto mais desta história. É diferente das outras.

Publicado por medusa em 11:17 AM | Comentários (2)

abril 15, 2004

Um poema

Apetecia-me hoje um poema

catedral em pedra branca
de palavras exactas
ordeiras
correctas
medidas com esquadro e compasso

uma luz incessante
impossível de encontrar em paisagens familiares.

Publicado por medusa em 06:31 PM | Comentários (0)