março 22, 2004

Partida

mais uma vez foste para mim veículo
agente intermédio
intermediário
para me traduzir o que o silêncio há muito insinua:
há uma viagem por cumprir

saibamos então despir a armadura
com que nos imunizamos face ao tempo

saibamos então caminhar descalços
para sentir a terra

saibamos olhar além do comum
com que nos obrigamos a distrair
de nós mesmos

e assim, atentos, nos renderemos ao momento
em que o mergulho ou o voo surgem como uma mão estendida
a uma medusa e a um pássaro
que não lhes resistem

a viagem impõe-se
e promete ser longa

Publicado por medusa em 12:28 PM | Comentários (1)

Desencontro

Foi sempre nossa
essa impossibilidade de pronunciar a palavra certa
de executar o gesto preciso

Foi sempre nossa
uma canção desafinada
em tom de melancolia
sobre a distância de uma ternura prometida

Publicado por medusa em 10:38 AM | Comentários (0)

março 04, 2004

Ana Viana III

Não tenhas medo de sair de ti esse jorro de água fresca
nem tenhas medo desse turbilhão dentro das entranhas
nem do sabor a sangue na boca quando por ela te suplantas

Não tenhas medo de diluíres em ti os génios que digeres e que defecas

nem tenhas medo de ser oráculo de um deus que desconheces
nem de ser nascente de um rio que não controlas

Sê tu, gruta que suporta o peso da montanha
e que escava dentro de si o seu mistério
quardando os seus sons no teu silêncio
devolvendo-os transformados
na tua água


[por dentro das palavras... o tempo]

Publicado por medusa em 02:10 PM | Comentários (1)