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setembro 18, 2008

O Tormento do Fascínio

Tento adormecer cheio de imagens na minha mente.
Fecho os olhos e prometo a mim mesmo esquecer e descansar.
Mas as imagens não me deixam.
Atormentam-me os pensamentos que elas criam.
Dou voltas sobre mim mesmo tentando apagar as tramas que o meu cérebro tece, descontrolado...fascinado...
Sim.
Tenho de admiti-lo.
Estou atormentado porque estou fascinado.
E perdido.
Perdido nas minhas crenças, nos meus princípios, em tudo aquilo que a minha Mãe me ensinou como certo e justo.
Perdido nas teias da minha sensibilidade e aterrorizado por ela mesma, a minha sensibilidade...
Não resisto.
Levanto-me, ligo o computador e acedo a tal auto-estrada virtual.
O primeiro nome que me aparece é o de Sam Mendes.
Este tipo voou de Londres a Hollywood.
Passou de encenador de primeira linha a realizador/criador das imagens, sentimentos e tortura em que me encontro esta noite.
Depois os incontornáveis Paul Newman e Tom Hanks surgem à minha vista.
Fecho os olhos e relembro as imagens, passagens secretas entre o real e o imaginário.
A imagem começa pelo o alto da rua.
De lá vês e ouves a chuva a cair a cântaros sobre uma rua qualquer.
Sentes na pele essa chuva imensa que pronuncia um "dilúvio".
Quase parece que aquela humidade te penetra e te faz sentir incomodado, irrequieto.
De repente vês os homens, vários, que pela chuva caminham.
Neste momento não interessam quem são, o que querem ou para onde se dirigem.
Isso é para mais tarde, quando na tua memória discorrer a história toda.
Já não ouves o som da chuva, ela desapareceu sem tu dares por isso.
Instalou-se uma música triste, como as profundezas da alma de alguém cheio de uma dor insuportável.
E o mágico acontece: no ecrã desfilam imagens terríveis de morte mas...
Tão belas, tão profundas, tão sentidas e livres como o cinema sabe ser...
A morte exposta, contada e mostrada de uma forma tão bela!...
É este contra-senso, este extremo, que mexe comigo, que me faz ficar deslumbrado perante o que vejo e sinto.
Do nada, do escuro, o troar sem som de uma metralhadora.
E os homens vão caindo um a um na estrada molhada, onde a chuva continua a cair sem que a ouças.
Apenas a vais sentindo cada vez mais profundo nos teus ossos.
Dois corpos aproximam-se e voltas a ouvir a chuva.
No chão, na água das poças, nos corpos caídos, nos chapéus de quem se confronta.
Olhos nos olhos.
E agora sim.
A realidade do verdadeiro som da metralhadora entra sem permissão nos teus ouvidos sensíveis e faz-te saltar.
E eu já não sei o que pensar.
O que sentir.
O que viver, através da arte.
Estas imagens apaixonam-me até ao mais profundo do meu ser.
E vivo com este conflito...
E vivo neste extremo...


"ROAD TO PERDITION", 2002
Real: Sam Mendes
Arg: David Self (a partir da novela gráfica de Max A. Collins e Richard P. Rayner)
Com: Paul Newman, Tom Hanks, Daniel Craig, Jude Law...

Sugestão: cliquem no texto. Vejam, ouçam, sintam e digam de vossa justiça...(quanto mais alto colocarem o volume do som, mais a magia do cinema se instala no vosso ecrã!)

Publicado por Miklos Kazantakis às setembro 18, 2008 04:12 PM

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