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setembro 17, 2008

Tom Waits no escuro

Acendi uma vela.
Não era uma vela especial, comum como todas as outras, branca e já um pouco gasta.
Tinha-a numa gaveta para prevenir percalços com a falta de luz.
Apenas me apeteceu apagar todas as luzes de casa, acender uma vela e colocá-la em cima da mesa da cozinha, onde já tenho um papel e uma caneta para te escrever.
Queria sentir, no fundo do meu ser, aquele clima romântico do século XIX, quando alguém, à luz da vela, se despia em palavras para outro alguém que havia de vesti-las.
Se é no escuro onde nos perdemos também pode ser no escuro o sítio ideal para nos ver-mos por dentro.
E cada um de nós sabe como isso é difícil: olhar-mo-nos por dentro e resistir à tentação de virar a cara ao que se pode ver e encontrar.
Pensei durante uns largos minutos o que te havia de escrever como introdução à carta.
Decidi pôr de lado o século XIX e coloquei um cd no leitor, tentando que isso me desse o alento necessário para fazer funcionar a relação coração-sentimento-cérebro-músculo-mão-caneta.
Coisas que o século XX me trouxe.
No ar, a voz de Tom Waits, rouca e melancólica, começa a cantar/contar "I Hope I Don't Fall In Love With You".
Ouço-o e penso.
Dou por mim naquele bar da canção.
Estou só num canto do bar cheio.
Bebo e olho para as espirais de fumo dos cigarros que brincam no ar, rodopiando por cima das cabeças das pessoas.
Elas riem e bebem e brindam sem olhar para o amanhã da mesma forma que eu olho.
Tu entras.
As espirais de fumo volteiam com a brisa que trouxeste de fora.
Aos poucos as pessoas vão saindo para as suas vidas e porque são horas de se fechar.
Mas tu vais entrando, cada vez mais.
Olho para ti e penso que não me quero apaixonar.
Apaixonar-me torna-me triste.
Olhas em volta e eu penso se te deveria oferecer uma cadeira.
Mas não quero apaixonar-me.
A noite faz mesmo coisas estranhas ao interior de um solitário.
Noto que também estás só, nessa cadeira em que te sentaste.
Perto de ti há uma outra, vazia...
Mas eu não me quero apaixonar.
Olho para ti e tu olhas para mim.
E penso que já me apaixonei por ti...
Olho para o que escrevi e tento encontrar-me no que lá está, entre letras e palavras.
Mas não te encontro, só a mim.
Até hoje não sei se me conheces de todo.
Até hoje não sei se sentes o que quer que seja por mim.
Por isso te escrevo, pois dei por mim a adivinhar no teu sorriso que querias que te escrevesse uma carta.
E a deixasse no lugar onde te costumas sentar todos os dias para almoçar.
E de onde olhas para mim, tentando adivinhar na minha timidez a minha força.
Sim, também tu adivinhas, só que para ti guardas um segredo que agora te escrevo.

Sugestão: cliquem no texto. Se tudo correr bem, encontrarão a canção do Tom Waits!

Publicado por Miklos Kazantakis às setembro 17, 2008 01:52 PM

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Comentários

Simplesmente lindo... Como tu.

Muita Luz meu grande Amigo

Publicado por: filó às setembro 17, 2008 11:23 PM

És um homem grandioso...escreves com alma.Posso dizer também simplesmente bonito!Alinha-te com a frequência mais elevada que existe-o AMOR.Amei a música!Mil Doces Luzes!!!

Publicado por: Teresa às setembro 18, 2008 12:45 AM

“Se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um carregando um pão e, ao se encontrarem, eles trocarem os pães, cada homem vai embora com um...
Porém, se dois homens vêm andando por uma estrada cada um carregando uma ideia, e, ao se encontrarem, eles trocarem as ideias, cada homem irá embora com duas....”
Tenho para mim que acontece o mesmo com as estórias ou (h)istórias , e assim se faz História.
Tinha pensado este comentário para a estória do dia seguinte mas, devido aos problemas técnicos, aqui também está bem!

Publicado por: Niklas às setembro 21, 2008 10:41 PM

luz silênciosa .. com musica?...!
mas que (h)istoria é essa?!

Fantastic Star!
cbg

Publicado por: Anonymous às setembro 22, 2008 12:07 AM

Li e apaixonei-me!!! :)
Fico à espera de mais!

Publicado por: Anita às setembro 28, 2008 10:11 PM

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