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setembro 16, 2008

Lugares Comuns

O que dizer na dor? O que pensar para dar no desespero?

- Viste-a?
- Pareceu-me que corria rua abaixo com lágrimas nos olhos e desespero no rosto...
- Se tiveste tempo para ver tudo isso é porque...
- Sim, via-a. Era ela.
- Diz-me, por favor...
- Tudo que te possa dizer não vai apagar a dor que te consome.
-...voltará?
- Só tenho lugares comuns para te dizer.
- Quero lá saber, quero é que me digas na cara, frente aos meus olhos...
- Sendo teu amigo...que remédio vou ter eu?...
-...voltará?
- Via-a. Corria com o desespero de ter estado e com a dor de ter ficado.
- Diz-me isso olhos nos olhos.
- Perdeste-a porque nunca a soubeste procurar.
- Tens razão: só tens lugares comuns para me dar...
- Era ela. E fugia.
- Perdia-a porque nunca a encontrei.
- Não! Encontraste-a quando já não fazia qualquer diferença na vida dela.
- Voltará?
- E tu? Estarás para a receber?
- Sempre estive.
- E ela foi-se embora. Sim, era ela, que corria como se quisesse esquecer que um dia te aceitou.
- Mas eu queria-a tanto...
- Tens razão. Só temos lugares comuns para dizer um ao outro...

Publicado por Miklos Kazantakis às setembro 16, 2008 08:48 PM

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Comentários

Quanto maior for o amor que se sente e que se emite, maior será a dor e o desespero.Mas os lugares comuns levam-nos a acreditar que somos inabaláveis!Mil Doces Luzes...Acredita que escreves muito bem!

Publicado por: teresa às setembro 18, 2008 01:07 AM

- Posso?
_?
_ É só para dizer que acho que também a vi.
-??
_ Já não chorava, ia devagar e um pouco cambaleante. Tal e qual algumas velhinhas fazem quando vão todos os dias pelo mesmo caminho em direcção à igreja para ouvir a missa vespertina.
-???
- Sim, sem questionar. Nunca percebi é se é a alma que lhes arrasta o corpo até lá ou vice-versa.
- ?
_ Mas não me parece que fosse exactamente esse o caso dela. Apesar do ar sofrido, a sua juventude deixava perceber outras coisas no seu interior. Ainda estava na fase das questões. Como se tivesse saído de uma luta indagante até á raiz dos tempos. Até à alma.
-??
- Sim, até á alma…
-?
- Eu olhava-a e pareceu-me ver tudo isso. Depois aconteceu algo de estranho. Ao reparar em mim, fitou-me por alguns instantes mas não disse nada.
-??
- Tinha uma luz clara no olhar cheia dessa coisa que nos pergunta se alma existe.
-???
- Cheia de alma!
-!

Publicado por: Niklas às setembro 25, 2008 11:17 AM

A alma nem sempre á facil de ver e muito menos de perceber. Mas no entanto, apesar de ainda estar confusa...acho que a vi aqui!
Bjs Miklos

Publicado por: Anita às setembro 28, 2008 10:24 PM

"Detesto lugares-comuns são uma espécie de outlets da inteligência, onde por preços muito mais baratos, se compram imitações do pensamento"
in Sinto Muito de António Lobo Antunes

Publicado por: Anonymous às outubro 4, 2008 05:11 PM

Correcção : o livro Sinto Muito é de Nuno Lobo Antunes

Publicado por: Anonymous às outubro 6, 2008 09:24 PM

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