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agosto 28, 2008

A Manhã

Paul Auster, no seu "Inventar a Solidão", deixou este pensamento de Pascal: "Se o acaso traz os pensamentos, o acaso os leva. Não existe nenhuma arte nem para os reter nem para os alcançar. Um pensamento escapou-se. Eu queria escrevê-lo; em vez disso, escrevo que ele me escapou..."

Acordou.
Maquinalmente esticou todos os músculos para os sentir e pô-los a funcionar novamente.
Respirou fundo, suspirou profundamente e deixou-se estar quieto e calado em cima da cama, deitado, a olhar o tecto, tentando preencher o vazio da sua mente que a noite despejara.
Sem sequer olhar o relógio tentou lembrar-se de que dia era hoje e o que tinha programado fazer.
Demorou um pouco a restabelecer os laços com o mundo.
Levantou-se com toda a calma e parou sentado na cama a olhar para o chão do quarto.
Esfregou os olhos lentamente e aclarou a vista: ao lado dos chinelos, estava um pequeno papel cor-de-rosa escrito à mão.
Debruçou-se e pegou nele.
Leu-o primeiro mentalmente mas, como estava ainda muito ensonado, não percebeu nada do que tinha lido.
Deixou passar uns segundos.
Olhou em várias direcções no quarto e fixou objectos ao acaso.
Dizia para si, muito baixinho, como se fosse uma reza, o nome do objecto fixado e esforçava-se para compreender se tinha compreendido que nome e o que era realmente o objecto observado.
Esteve nisto alguns minutos, e sempre com o papel cor-de-rosa na mão.
Depois, como se sentisse confiante do seu exercício cerebral matinal, olhou novamente o papel.
Aqui, já se deu conta que não conseguia ler as letras daquela caligrafia.
Os óculos?
Havia dias em que acordava e demorava algum tempo até acordar realmente.
Até começar a "funcionar" devidamente.
Hoje, inequivocamente, era um desses dias.
Odiava quando isso acontecia, porque era sempre nessas alturas que tinha de fazer qualquer coisa importante: atender uma chamada; abrir a porta a alguém; procurar algo importante nas suas coisas; ler papéis cor-de-rosa.
E, também, era nesses dias que os seus óculos, que deixava religiosamente na mesinha de cabeceira, antes de adormecer e apagar a luz, desapareciam.
Era inevitável considerar-se vítima de um "complot" muito bem organizado e orquestrado para o desmorecer enquanto ser humano.
O seu ego saía sempre de rastos destas situações.
Devia haver, de certeza, um sistema, uma organização, alguém que puxava os cordelinhos para isto acontecer.
Cada vez que acordava e lhe acontecia isto, ficava cada vez menos com dúvidas.
Os óculos, como sempre, porque se esquecia ele sempre isto?, tinham caído para o chão, entre a cama e a mesinha de cabeceira.
Apanhou-os, já com cara de poucos amigos e a desejar um café, antes que uma dor de cabeça se apoderasse dele logo ali.
Leu e não compreendeu novamente nada, mesmo com os óculos postos.
Respirou fundo e suspirou profundamente.
Era já segunda vez que fazia tal nessa manhã.
Odiava repetir as mesmas coisas, ainda por cima logo no começo do dia.
Parece que as "nuvens negras" vieram para ficar...
Desta vez teve a ideia de ler em voz alta.
A sua voz saiu algo esganiçada e roufenha depois de uma noite de sono:“Sou maravilhoso, maravilhoso, maravilhoso!”
"Maldito dia aziago que ainda agora começou e logo com o pé esquerdo", praguejou ainda em voz alta mas entre dentes, sustendo uma raiva que lhe subia pela garganta acima.
"Isto só a mim...", pensou ele antes de se levantar definitivamente, calçar os chinelos e ir em direcção da casa-de-banho.
"Há pessoas que não conseguem ser mesmo felizes...como eu!", e fechou a porta.

Publicado por Miklos Kazantakis às agosto 28, 2008 09:11 PM

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Comentários

(Re)li até me aperceber
Poderia começar por dizer que naquela manhã de fins de Agosto estava calmamente a ler mais um livro de Murakami, Sputnik, meu amor. Mas se o fizesse estaria a mentir. Embora considere a palavra mentir pouco apropriada para assuntos de ficção ou com eles relacionados. Para descrever a realidade, tal como a vejo, naquela manhã de quase Setembro estava a devorar o livro de Murakami que mais resisti em comprar.
Sempre senti fascínio pela verdadeira história de Sputnik – o primeiro satélite artificial do mundo, lançado pela União Soviética a 4 de Outubro de 1957 - e vê-lo a ser usado pelo referido autor numa conjugação com as palavras “meu amor” criava em mim uma estranha atracção. Como se no título Sputnik, meu amor estivesse encerrado todo o conforto que se pode buscar num livro. Quase como se não fosse preciso ler mais nada…
Desde o seu princípio até meio – devo avisar que ainda só vou aí – tem sido assim: prazer, vontade de rir e satisfação. É um daqueles casos em que nem me interessa saber os porquês do que sinto. Sinto e, para mim, basta!
Então, por que motivo parei de o ler para escrever este comentário? Pois, vou passar a explicar.
Estava a ler o capítulo oito quando fui invadida por uma sensação de “dejá vu”. Estava intrigada não apenas porque essa parte da estória falava sobre gatos e a cena ocorria na Grécia - tal como noutros livros do mesmo autor – mas por tudo isso e porque a sensação era cada vez mais forte.
Então, quando a estória dos gatos, que no contexto eram devoradores de carne humana, encaixa na da estátua do herói grego que morreu empalado a sensação passou a ser uma certeza. Não é todos os dias que se “ouvem” coisas destas!
Após uma pesquisa rápida, na estante, eis o que descobri.
No livro A rapariga que inventou um sonho, 2006, “estão reunidos os vinte e quatro melhores contos de Haruki Murakami, escritos entre 1981 e 2005”. Nesse livro aparece o conto Os gatos comedores de Homens, 1991, em que o autor conta quase a mesma estória – mudam os personagens e mais uns pormenores - que aparece no capítulo oito de Sputnik, meu amor, 2002.
Deveria ficar chateada?
Não. Ri-me!
Vou já a correr ler o resto do livro.

Publicado por: Niklas às agosto 29, 2008 02:03 PM

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