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agosto 26, 2008

O "doente da saudade".

E se de repente a nossa memória deixasse de existir totalmente e os nossos dias passassem a ser descartáveis?

Tenho dias assim.
Dias que são descartáveis.
Não porque o queira, simplesmente porque já não consigo reter nada.
Sou aquilo a que passei a chamar de "doente da saudade".
Chamo-me assim porque a minha memória, algures alojada no meu cérebro, deixou de funcionar.
Quem sabe se para todo o sempre?
Desde que tive um acidente agudo de coração quebrado - ela deixou-me no altar - nunca mais consegui ficar com nada dos dias que passam.
Sento-me em frente à janela e sinto no meu corpo a leve brisa da manhã.
Nos olhos tento guardar o sol, e na pele o calor de um Agosto qualquer, que nunca me fará diferença no dia de amanhã.
Tenho sempre ao pé de mim um papel e uma caneta para ir desenhando o que vejo, e escrevendo por baixo os nomes.
Rosas, pássaros, o meu irmão, o sol, a Maria que me dá de comer, o cão do vizinho, a praia que vejo a partir de uma foto onde está o meu antigo eu...
Eu sei que amanhã me fará uma diferença enorme, saber que a árvore de hoje será ainda um castanheiro amanhã.
Que areia é dourada e o mar azul-turquesa.
Deram-me uma máquina fotográfica digital, para colocar no seu cartão tudo o que queira registar e guardar.
Só que amanhã já me esquecerei de como se utiliza aquela caixa de memórias electrónicas.
Nem sei muito bem se sofro, porque de um dia para outro a dor atenua ou é esquecida.
Se me lembro e escrevo estas frases é porque consegui, pela enésima vez que alguém se sentasse ao meu lado e contasse a história de um eu perdido.
O tal da memória gasta, o "doente da saudade".
Eu...
Mas mesmo a palavra sau-da-de, de um dia para o outro, perde tudo o que ela encerra, aquilo que trazemos dentro de nós.
Deve ser por isso que tenho um diccionário na minha cama e uma chamada de atenção para essa palavra.
A primeira da manhã.
Choro e sofro por um século porque sei que amanhã, se ninguém me contar a história do meu eu perdido no limbo, e que cada vez mais vai sendo raro, eu voltarei a olhar para as coisas quase como se fosse pela primeira vez.
Fico sempre com a vaga sensação que já lá estive, já ouvi, já vi e já senti mas sem guardar os contornos, os sabores, as cores, as texturas.
Como se visse tudo a preto e branco e inodoro.
Quando me fecham a janela, atiro a folha dos meus desenhos para o lixo e com ela as recordações, sensações e vibrações de um dia.
Porque amanhã quero ser criança de novo e ter a coragem de vibrar novamente com o mundo que me acolhe, com o dia que me embala, sem memória do que fui, só do que sou.
Até quando conseguirei?

Publicado por Miklos Kazantakis às agosto 26, 2008 10:15 PM

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Comentários

olha eu adorava! Vivo com medo do futuro de tanto recordar o passado. Nao sei viver o presente ! Se ele fosse descartavel eu nao teria memorias e viva minuto a minuto, segundo por segundo desta nossa curta vida. obrigada pelo blog

Publicado por: carla às agosto 27, 2008 01:26 AM

“Sou maravilhoso, maravilhoso, maravilhoso!”
Na folha cor-de-rosa que estava sobre o tampo de pedra clara e fria da mesa-de-cabeceira não dizia mais nada.
Voltei a ler: “Sou maravilhoso, maravilhoso, maravilhoso!”
Levantei-me. Ainda meio atordoado, dirigi-me à casa de banho para lavar a cara e acordar de forma a poder ver as coisas como elas realmente são. Na frieza do cubículo higiénico mesmo à minha frente, como de costume àquela hora, estava o meu pior inimigo. Só que desta vez, no espelho além da minha imagem aparecia um papel cor-de-rosa que dizia: “Sou maravilhoso, maravilhoso, maravilhoso!”
Voltei a ler: “Sou maravilhoso, maravilhoso, maravilhoso!”
Aliás, depois dos habituais gestos de cuidados matinais, quase automáticos, voltei a olhar o espelho e, apesar de continuar a não perceber muito bem o porquê das mensagens, quase que começo a acreditar…
Com um ligeiro sorriso nos lábios, não o vejo, mas sinto-o, caminho para a cozinha e começo a preparar o café solúvel que me vai fazer ver com mais nitidez os contornos do dia. Levanto a tampa do açucareiro e para meu espanto aparece, lá dentro, por cima dos cristais puros, outro papel cor-de-rosa com as mesmas palavras doces: “Sou maravilhoso, maravilhoso, maravilhoso!” Nem ofereci resistência. Juntamente com o café bebi-as todas, uma a uma, letra por letra e senti-me bem!
Com alguma pressa saí de casa e reparei que o dia estava lindo, lindo, lindo!

Publicado por: Niklas às agosto 27, 2008 12:02 PM

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