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agosto 25, 2008

Às 7 da manhã.

O nosso dia dependerá sempre da maneira como abrimos os olhos logo pela manhã.

- Sariiiiitaaaaa!
São 7 horas da manhã, nem vale a pena olhar muito para o despertador que tenho na mesa de cabeceira.
Nota mental: reforçar novamente o vidro duplo da janela do meu quarto.
- Sariiiiitaaaa!
Eu mordia a almofada de nervos e dava três voltas na cama contando até 533 para me acalmar.
Pensava porque razão a Virgem Maria era virgem sendo ela Mãe de Jesus.
Isto para não ir buscar uma bacia de água suja e atirá-la ao velho que grita estridentemente, com a vozinha mais esganiçada que se possa conceber.
Parecia uma galinha no cio.
Eu sei que as ditas não têm cio, mas imaginem se tivessem e aí têm, mais ou menos, a vozinha do velho.
Só que 10 vezes pior.
A Sarita era a sua filha. Do velho, claro está, que todos os santos dias gritava da rua o seu nome.
Fizesse sol ou chuva, vento, calor, frio, neve ou outra situação meteorológica, o raça do velho da vozinha chamava pela filha.
- Sariiiiitaaaaa!
Ai mãezinha, que é hoje que desço 5 lanços de escadas em 15 segundos em pijama e, de faca na mão, abro-lhe as goelas, tiro-lhe as cordas vocais uma a uma para que o raio do tipo nunca mais grite...
- Sariiiitaaa!
Chiça! Ainda por cima é sempre a mesma coisa.
A Sariiiitaaaa (Deus me valha, até eu já não consigo pensar ou dizer o nome dela sem imitar o esganiço do homem...) deve ter um sono de chumbo protegido com betão para não ouvir a voz "linda" do paizinho.
A esta hora, todas as pessoas que habitam nos apartamentos dos cinco andares já estão a rogar pragas ao homem.
Mas o que é verdade é que ele nunca falha.
E já se sabe, de segunda a segunda-feira o tipo aparece pontualmente às 7 horas e...
- Sariiiitaaa!
Barulho na janela.
- Diz!
- Olá, filha bonita!
- Diz!
Isto é sempre igual. Dia-sim-dia-sim.
Ainda por cima a Sariiiitaaaa! tem um mau acordar.
- Quantos pães queres que o papá te traga?
- Pai! Já te disse mais de mil e trezentas vezes...
Eu aumentava isso para cinco e mesmo assim nem chega perto ao número de dias que o tipo esganiça a voz às 7 da matina.
- ...que quero 7! São sempre 7 pães.
Naquela família o 7 deve ser o número da sorte.
Que 7 mil milhões de raios caiam na careca do velho durante os próximos 7 mil anos por acordar gente trabalhadora e honesta que quer dormir um pouco mais.
- Pronto, minha linda, vai lá dormir outra vez o sono dos justos.
- Depois, já sabes, deixa-me o pão pendurado na minha caixa do correio para não me acordares outra vez.
Barulho da janela a fechar com estrondo.
Barulho de um assobio que se afasta na rua, regalado.
E claro, desde há 5 anos para cá, desde que a Sarita se mudou para o prédio, que os rádios, estereofonias, televisões e outros aparelhos passíveis de reproduzir voz ou música são ligados no máximo.
E o dia começa, radioso.
Nota mental: procurar casa em prédio que forneça "curriculum vitae" dos vizinhos.
Post-Scriptum à nota mental prévia: a)- nunca escolher casa em prédios onde haja raparigas solteiras;
b) - nunca escolher casa em prédios com mulheres mesmo que casadas que se chamem Sarita;
c) - nunca escolher casa em prédios que sejam perto de padarias, panificadoras ou pastelarias e/ou cafés que vendam pão;
d) - escolher casa em prédios com vidros triplos!
Onde será que deixei a minha cassete dos AC/DC?

Publicado por Miklos Kazantakis às agosto 25, 2008 06:22 PM

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Comentários

Diário dos dias descartáveis
Eis o fim de mais um dia. Mais um dia descartável. Tão descartável como os pensamentos que teimam em povoar-me o cérebro e a impedir-me de adormecer.
Serão certos pensamentos o equivalente imaterial à tralha que vamos acumulando?
Já não sou um bebé, nem um menino nem sequer um moço. Na melhor das hipóteses posso considerar-me um rapaz moderno. Sim, pois isto de ser moderno implica uma adequação aos tempos que correm.
“Ainda estou aqui para as curvas!”
Pelo menos é assim que gosto de me imaginar. A maior parte das vezes, até me divirto nos meandros das conjecturas que me podem levar até elas. Sem querer desvalorizar as curvas e contra-curvas em que me contorço, em alguns casos foram melhores os meandros do que o produto final. Mesmo assim, continuo a encontrar mais prazer neste desassossego que na perspectiva, cada vez mais presente, de que “Algumas curvas é que já não são para mim!”

Publicado por: Niklas às agosto 26, 2008 10:31 AM

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