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novembro 07, 2008

Esquecimento

Há coisas de que nos esquecemos por completo...

- Há sempre aquela tendência de nos esquecer-mos.
Toda a gente olhou para ele.
A sala estava cheia de doenças e de dores de espera.
Um bebé chorou, como chora sempre nestas alturas, como se soubesse que o seu choro serve para nos aumentar o desespero. Os altruístas com pensamento no sofrimento do pequeno ser e os egoístas a pensarem que a "criancinha" vai ser atendida primeiro.
Até que, até que aquele tipo, com cara de pensador e roupa de pedinte se vira e pensa alto com os seus botões:
- Há sempre aquela tendência de nos esquecer-mos.
O bebé desatou num berreiro, quase atendendo ao que o homem dizia para si, falando para todos.
Todas as pessoas se entreolharam subtilmente, decidindo taxa-lo de louco desvairado e os menos subtis de poeta-bêbado a tombar para o tolo.
O poeta-bêbado, louco desvairado, levantou-se e sorriu para todos.
A porta abriu-se e a Enfermeira a comer um pão com qualquer coisa assomou à porta com um papelinho.
As cabeças rodaram e as imagens dos olhos de todos os utentes fixaram-se na Enfermeira que lambia os dedos das mãos e segurava a porta com o pé.
O poeta-bêbado nem olhou para a enfermeira, que tentava decidir se dava outra trinca no pãozinho, se lia o papel ou se limpava a mão, já peganhenta quanto baste.
Ninguém se deu conta que o louco desvairado deu dois passos atrás para conseguir abarcar com o seu olhar toda a sala de espera.
- José Rodrigues dos Santos.
O cuidadoso cidadão saltou da cadeira mal ouviu o seu nome na voz da Enfermeira que entretanto tinha desaparecido atrás da porta, deixando-a bater com um grande barulho.
O bebé que entretanto se tinha calado, talvez tivesse adormecido, desatou a berrar, o Sr. José Rodrigues dos Santos voltou atrás à cadeira onde tinha esperado 5 horas pela consulta para ir buscar o guarda-chuva que se tinha esquecido.
O poeta-desvairado abriu os braços, tal qual um bêbado-louco.
Um homem de rosto severo, enfiado numa gabardina e de olhar no chão saiu da porta e atravessou toda a sala de espera.
O louco-poeta olhou para o tecto da sala ainda de braços abertos, o Sr. José Rodrigues dos Santos ia a empurrar a porta quando de repente assomou a Enfermeira ainda com o pão na mão.
- Senhores Utentes, o Senhor Doutor teve de sair agora. Ele voltará de hoje a oito dias. Obrigada.
A senhora deu meia volta e voltou para dentro da porta pesada, o Sr. José Rodrigues dos Santos ficou boquiaberto e parado em frente à porta, de costas para todos outros que agora suspiravam profundamente, olhando o chão.
- Há sempre aquela tendência de nos esquecer-mos. E eu esqueci-me de vos sorrir quando aqui entrei!
Disse o poeta mal vestido de braços abertos e de sorriso rasgado no rosto...

Publicado por Miklos Kazantakis às 07:55 PM | Comentários (2) | TrackBack